sexta-feira, 26 de julho de 2013

Desastres ferroviários, por Gilles Lapouge

GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo


O transporte ferroviário não vai muito bem. Sobretudo no caso dos chamados Trens de Alta Velocidade (TGV), uma maravilhosa invenção francesa que permitiu aos trens atingirem velocidades irreais, de 300 ou 350 quilômetros por hora, e se disseminou pelo mundo inteiro, incluindo Canadá e China.

Há 15 dias, um TGV descarrilou na estação francesa de Bretigny, na região parisiense. Seis mortos. Horror. Esta semana, um trem de alta velocidade espanhol, que fazia o percurso de Madri a Santiago de Compostela, também descarrilou - 80 mortos. Foi aberto um inquérito para saber as razões do desastre.

As causas não são conhecidas ainda, mas já se sabe que o descarrilamento ocorreu numa curva muito fechada que deveria ser feita à velocidade máxima de 80 quilômetros por hora. Contudo, o trem estava a 190 quilômetros por hora. Algumas testemunhas afirmam mesmo que ele estava a 260 quilômetros.

Sem esperar as conclusões do inquérito (que jamais entendemos corretamente), acredito que a culpada é a velocidade, um dos flagelos da Idade Moderna. A velocidade multiplamente assassina, delituosa, que, em vez de levar à prisão, recebe medalhas, louros e recompensas.

As pessoas podem dizer que tenho saudade do carro puxado por cavalos, das lâmpadas de óleo, dos ritmos lentos da Idade Média, que sou um nostálgico. arcaico. Eu responderei logo, sem me deixar intimidar, que "sim, tenho saudade". Mas, em seguida, acrescentaria algumas nuances.

Certamente estou satisfeito com os aviões que voam com rapidez, sobretudo porque há menos acidentes com eles. Para mostrar que não sou "retrógrado", critiquei o relatório da Academia de Ciências de Paris que, em 1830, protestou contra os primeiros trens que começavam a transportar passageiros em torno da capital francesa.

Um comunicado alertava os cidadãos para não subirem naquelas máquinas assustadoras que atingiam velocidade de 40 quilômetros por hora. Depois de estudos profundos, os sábios haviam descoberto que, acima de 30 quilômetros por hora, o corpo humano não conseguiria resistir e seus pulmões explodiriam.

Apesar dos alertas da Academia de Ciências, os trens avançaram. Contudo, precauções eram adotadas. Antes de soar o apito da partida, o chefe da estação travava com um grande martelo as portas dos vagões (à época de madeira) para não abrirem bruscamente em consequência da rapidez diabólica do trem.

Como resultado, em 1842, um dos grandes exploradores franceses do Polo Sul, Jules Dumont d'Urville, morreu com sua família num acidente ferroviário. O trem descarrilou e incendiou-se. E, como as portas dos vagões estavam travadas, os passageiros não conseguiram escapar. Assim, em lugar do grande explorador francês foi encontrado um bloco de carvão em brasa e fumegante.

Portanto, não é a velocidade que deploro, mas o seu abuso. Sua inutilidade. As idiotices cometidas. A velocidade tornou-se uma droga e colocou sua terrível pata sobre a nossa sociedade. Vivemos num imenso cronômetro, o olho fixado na pequena agulha dos segundos, porque um segundo "é dinheiro". No entanto, um segundo também é "morte".

Assim, o tempo tornou-se o produto mais raro e mais luxuoso do nosso século. Há alguns anos, comprei um pão que me foi fornecido enrolado num saco de papel onde o padeiro colocou os "ingredientes" do produto: farinha, fermento, etc. E acrescentou também: "três horas para a massa repousar". Para mim, esse padeiro era um sábio, um poeta. Um milionário em minutos e segundos. E o pão era delicioso.

Lembro-me também do trem que tomei, em 1946, quando parti da minha província para Paris, que não conhecia. Era um trem venerável. Foram necessárias 36 horas para ele fazer o percurso de 800 quilômetros entre Marselha e Paris. É verdade que as linhas férreas estavam bastante danificadas pelos bombardeios alemães e americanos.

Entretanto, que viagem voluptuosa. De vez em quando, o trem parava em cidadezinhas do interior. Depois, partia. Os campos se abriam diante da nossa pequena locomotiva arquejante e o sol se inclinava lentamente na montanha.



O céu mudava de cor e o horizonte desaparecia. A noite era um grande túnel e, do outro lado dele, a aurora exibia suas transparências. Então, penetrávamos suavemente no esplendor das coisas.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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