domingo, 14 de julho de 2013

EUA & EGITO, por Caio Blinder


A reação VIII (EUA & Egito)


Obama e a esfinge
Barack Obama fez média até onde deu com o ditador egípcio Hosni Mubarak. A mesma coisa com Mohamed Mursi, o homem da autocrática Irmandade Muçulmana eleito democraticamente em junho de 2012 e deposto no golpe militar da semana passada. Obama faz tanta média que está abaixo da média na encrenca egípcia.
Eu, com minha fama de obamista, quero direitos autorais por apregoar a doutrina da barata tonta. O presidente americano está perdidão numa crise que por si já é enrolada. Tudo é enrolado no Egito, mas a Casa Branca faz a sua parte, com seus atrasos e inépcia para atuar em um panorama volátil.
Um caso já clássico de Obama foi sua lerdeza para abraçar os manifestantes que eram esmagados pela ditadura iraniana há quatro anos. Agora no Egito, a administração americana consegue ser mal vista, tanto pelos islamistas que perderam o poder, acusada de conluio com os miltares, como pelos oponentes da Irmandade Muçulmana que denunciam o governo Obama por cumplicidade com Mursi quando ele abocanhava cada vez mais poder, incapaz de aceitar um jogo pluralista em uma democracia na infância.
Fácil racionalizar a dificuldade para conciliar valores e interesses de um país. Mas, não podemos esquecer os ossos do ofício para quem preside a ainda única superpotência do planeta. Está no cargo, aguenta o rojão. Na sua primeira e única visita presidencial ao Egito, no famoso discurso na Universidade do Cairo em junho de 2009, Obama promoveu valores democráticos. Agora precisa conviver com militares golpistas em nome dos interesses americanos. Não pode chamá-los de golpistas para que não seja cortada a ajuda anual de US$ 1.5 bilhão ao Egito, conforme manda a lei.
Enquanto divagam sobre o exato significado de golpe ou democracia, os americanos despacham jatos F-16 como parte de um contrato com os militares egípcios. Pelo menos aqui há uma certa consistência dos americanos, que sempre mantiveram ótimos canais de comunicação com os militares no Cairo, isto para alívio de aliados tradicionais na região, como Israel, Arábia Saudita e Jordânia. Nos últimos dias, estes aliados imploraram para Washington nem pensar em suspender a ajuda ao Egito. Estão corretos. Na média habitual, na quinta-feira porta-vozes americanos passaram a criticar com mais insistência as prisões de líderes da Irmandade Muçulmana.
Inconsistência é um problema velho da política externa americana. Eu já disse várias vezes que é mais cômodo ser consistente como russos ou chineses, sem estas frescuras de valores democráticos na promoção de seus interesses. A novidade no caso americano é ter menos empenho para atuar na região (num reflexo da indisposição da opinião pública em casa), além de menos capital de influência e de capital mesmo.
Depois da queda da Mubarak, o vácuo de poder já fora ocupado por governos simpáticos à causa da Irmandade Muçulmana, como o pequeno Catar e a mais poderosa Turquia. Perderam a parada, abrindo espaço para a Arábia Saudita, Emirados Arabes Unidos e Kuwait, mais interessados em estabilidade regional e abafar o islamismo político do gênero Irmandade Muçulmana (populismo teocrático). O papel americano ideal é vitaminar os setores da sociedade egípcia contrários ao autoritarismo secular ou religioso, sem alienar os militares e radicalizar ainda mais os islamistas. Palpitar é fácil.
Há, porém, menos interesse, assim como menos influência dos EUA na região. Ainda assim, em ambos os quesitos, nada desprezível. Apenas para ficar no caso do Egito (um país por si com menos influência regional do que décadas atrás), é vital preservar a estabilidade local, assim como o tratado de paz com Israel e a segurança no canal de Suez.
Obama quer canalizar muito coisa ao mesmo tempo e ainda por cima com distanciamento e negligência. Egito e quebradas são tarefas inglórias para qualquer um, mas é ele que está no cargo. De novo, que aguente o rojão.
Obama quer tudo de bom para os interesses americanos e tudo de bom e democrático para o Egito. Sobre a promessa de sociedades livres no Oriente Médio, ele disse naquele discurso no Cairo em 2009 “que não existe uma linha reta nesta promessa”. Verdade, mas também conversa na linha de barata tonta. Washington não tem uma estratégia clara no Egito. Reage aos eventos, sem capacidade de antecipação.
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