sábado, 20 de julho de 2013

Nus e covardes, por Janer Cristaldo

Neste nosso mundinho das celebridades instantâneas, o tal de sucesso bafeja até mesmo que não tem talento. Ou melhor, bafeja geralmente quem não tem talento algum, mas encontra uma fórmula idiota de bancar o original. Um destes, por exemplo, é o tal de Christo, “artista” búlgaro nacionalizado norte-americano, conhecido por empacotar monumentos, paisagens e ilhas inteiras. Claro que é preciso ter o respaldo de uma grande nação onde qualquer maluquice é vendida como arte para fazer sucesso, sem falar que empacotar monumentos custa caro. Na Bulgária, Christo seria apenas mais um louco folclórico.

Entre os feitos do “artista”, estão o empacotamento do Reichstag de Berlim, do Pont Neuf em Paris, de sete milhas do rio Arkansas, nos Estados Unidos e do Valley Courtain, uma imensa cobertura de lona laranja instalada entre duas montanhas no Colorado. Monumentos e paisagens soberbas foram de repente roubados ao olhar das pessoas pela ambição midiática de um vivaldino, que sabe que para todo vigarista nunca falta uma multidão de otários. O que espanta é ver governos apoiando e mesmo financiando tais explosões de egos.

Isto de chamar de arte o que o autor quer que se chame de arte começou há exatamente um século, quando Marcel Duchamp apresentou a um público embasbacado sua obra, uma roda de bicicleta. De lá para cá, entramos no reino do vale-tudo.

Outro “artista” que investiu na tal de arte ambiental, foi o fotógrafo Spencer Tunick, especializado em clicar multidões nuas. Norte-americano, é claro, que tais maluquices não prosperam em países pobres. 

Tunick conseguiu reunir panacas no mundo todo para compor sua “obra”. Conseguiu até mesmo celebrar o “Dia dos Mortos”, no México, com 153 pessoas nuas, de véu branco, numa manhã de nevoeiro e chuva. Em Portugal, fotografou 400 pessoas em Santa Maria da Feira. Em Berlim, reuniu 1700 corpos despidos, em pleno inverno. Começou a fotografar grupos de pessoas nuas em 1994, criando o que chamou de uma "arquitectura de carne", onde corpos e paisagem se misturam. Ele acredita que “indivíduos em massa, sem roupa, se transformam numa nova forma”. E toneladas de carne humana, no mundo todo, se dispuseram a posar para a lente do fotógrafo.

Preso várias vezes por sua “arte” em Nova York, Tunick refugiou-se na Europa, onde conseguiu enganar com mais aisance. Deste “exílio”, resultou o livro European Installations, com imagens criadas nos países europeus. "Queria que esse livro fosse o meu melhor trabalho. Então escolhi os 13 anos que trabalhei na Europa, porque escolhi começar o livro por apenas uma região".

Tunick enganou até no Brasil, no que vai não vai nenhum mérito, já que no Brasil enganar não exige esforço algum, que o digam tanto papas como roqueiros. O brasileiro é crédulo por natureza e se lhe afirmarem que um monte de merda é arte, ele entra na fila e paga caro para ver o monte.

A “obra” de Tunick foi montada em São Paulo – no que também não vai mérito algum, já que São Paulo é infensa a vigarices, haja vista o número de religiões que a cidade gera – há onze anos. Em 2011, 1500 basbaques se prestaram voluntariamente para posar no Ibirapuera para o fotógrafo ianque, com o aplauso unânime de uma imprensa provinciano, sempre propensa a aceitar qualquer vigarice com grife estrangeira.

"Descobri que no Brasil as mulheres não são abertas em relação ao próprio corpo", disse Tunick. "Por causa dos homens, elas ficavam assustadas com a ideia de ficarem nuas", completou. O fotógrafo afirmou ainda que ficou surpreso pelo fato de as mulheres terem que pedir autorização aos maridos para participar das fotos, e que muitos não deixaram. 

O sonho de Tunick, na época, era reunir chineses pelados na Grande Muralha. Esperamos que no Império do Meio ainda reste algum pingo de bom senso.

A nova moda foi parar no cinema, no filme Perfume: A História de um Assassino (2006), a partir da ficção original do escritor alemão Patrick Süskind, publicado em 1985. Jean-Baptiste Grenouille, o personagem, é dotado de um olfato apuradíssimo. Acaba perseguindo mulheres em Paris, atraído pelos odores exalados por elas, em época em que a profissão de perfumista começa a deslanchar. 

Para obter a quinta essência do odores femininos, Grenouille mata mulheres e delas tenta extrair o perfume. O filme termina com a tentativa de execução do assassino na praça central de Grasse, cidade por excelência dos perfumes na Côte d’Azur. Na hora da execução, Grenouille tira do bolso um lenço impregnado com uma de suas criações, cujo perfume inebria a praça e põe até mesmo de joelhos o pai de uma de suas vítimas, responsável por sua condução ao patíbulo. A praça toda se despe. A multidão se entrega alegremente a uma partouse coletiva, da qual acorda atordoada e desnuda, sem saber bem o que havia acontecido. 

De lá para cá, a “arte” de Tunick vulgarizou-se e tivemos iniciativas menores, como ciclistas pedalando nus pelas capitais européias, as tetas-de-fora do Femen e as tais de Vadias, outro movimento oriundo da Grande Pátria, The Bitches. Com direito a manifesto:

Cadelas têm de aprender a aceitar a si mesmas como Cadelas e dar a suas irmãs o suporte que elas precisam para ser Cadelas criativas. Cadelas devem aprender a ser orgulhosas de sua força e orgulhosas de si mesmas. Elas devem mudar-se do isolamento que tem sido sua proteção e ajudar suas irmãs mais jovens a evitar seus perigos. Elas devem reconhecer que mulheres são frequentemente menos tolerantes com outras mulheres do que são os homens porque elas têm sido ensinadas a ver todas as mulheres como suas inimigas. E Cadelas devem formar-se juntas em um movimento para lidar com seus problemas de uma maneira política. Elas devem se organizar por sua própria libertação como todas as mulheres devem se organizar pelas delas. Nós devemos ser fortes, nós devemos ser militantes, nós devemos ser perigosas. Nós devemos reconhecer que Cadela é Linda e que nós não temos nada a perder. Absolutamente nada.
Este excerto é do manifesto de Jo Freeman, editora da “Voz do Movimento de Libertação das Mulheres”, que pode ter sido o primeiro periódico da libertação nacional das mulheres. De lá para cá, as cadelas invadiram as cidades e os jornais, expondo suas tetas em público, em nome da libertação feminina.

Neste país que adora importar tudo de pior que o Primeiro Mundo excreta, desde rock a religião, não é de espantar que filhinhos de papai em Porto Alegre tenham organizado um showzinho particular na invasão da Câmara de Vereadores em Porto Alegre.

Nada tenho, em princípio, contra a nudez. Mas tudo tem lugar. Nos anos 70, quando fazia a cobertura do Festival de Cannes, observei algo que de inicio me deixou perplexo. Na praia, separada da cidade pela avenida Croisette, dezenas de vedetinhas expunham suas vergonhas ao sol do Mediterrâneo... e às lentes dos paparazzis. Mas para entrar em um bar, do outro lado da avenida, era preciso vestir-se. Na época, não entendi muito bem. Na praia, nudez total. A vinte metros da praia, a nudez era proibida. 

Hoje entendo. Isto é o que chamamos civilização. Há espaço para quem gosta de estar nu e espaço para quem prefere ficar vestido. Este limiar vem sendo ignorado pelos ativistas contemporâneos, que querem impor sua nudez urbi et orbi. Mas pelo menos têm a coragem de mostrar o rosto.

No caso de Porto Alegre, houve uma nudez covarde. Os “revolucionários” – como se pretendem os invasores – expuseram o traseiros e cobriram os rostos. Não tiveram sequer 0 mínimo de coragem para mostrar quem são. 

Se sonhar é permissível, bem que seria confortador ver no Rio, no Campo da Fé, que vai receber Sua Santidade nos próximos dias, uma confraternização semelhante à da praça de Grasse. Mas é pedir demais aos jovens.

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