terça-feira, 16 de julho de 2013

Snowden, cuidado com a farsa dos seus protetores! Artigo de Caio Blinder


O vazador americano em Moscou, capital mundial dos direitos humanos
De novo: o cacique da tribo mais poderosa (os EUA) foi desmascarado por praticar espionagem dentro de sua reserva e por aí fora, inclusive no Brasil. Mas, como observa a reportagem na edição impressa de VEJA desta semana, a reação brasileira é uma “pajelança feita para iludir a plateia”.
O mesmo vale para a indignação de tantos países latino-americanos, europeus, Rússia e China, alvos das denúncias e com farto material (embora previsível) para dar golpes de relações públicas e desviar as atenções de suas trapalhadas internas, sem-vergonhice e hipocrisia em questões de direitos individuais.
O escritor Mario Vargas Llosa diz que com as revelações sobre a espionagem americana em casa e no exterior, vazadas por Edward Snowden, existe o espetáculo antiamericano da “frivolidade progressista”. Mas o próprio Llosa admite que “se pode ter uma pobre opinião” sobre o presidente boliviano Evo Morales (como é o caso dele e eu espero que de muita gente), mas países europeus, sob pressão americana, agiram de maneira “torpe e prepotente” ao obrigar que seu avião pousasse na Áustria com a suspeita de que Snowden estivesse a bordo, a caminho de Moscou para algum planeta da galáxia bolivariana.
Já o jornal Financial Times enfatiza que Snowden conseguiu até agora ter apenas um “impacto limitado” no debate político interno (dos EUA) sobre o aparato de vigilância no país. No entanto, existe esta proeza no exterior: a maior rodada de antiamericanismo desde a guerra do Iraque há dez anos. Uma ironia, na medida em que o governo Obama achou que tinha o potencial para reverter o antiamericanismo global que marcou a era Bush.
E, com Snowden “lotado” no aeroporto de Moscou, existe até um clima de mini-Guerra Fria entre americanos e russos. Todas as indicações são de que Vladimir Putin, como tantos outros dirigentes envolvidos no espetáculo, quer tirar o máximo proveito do constrangimento americano sem causar danos estruturais nas relações com Washington.
Há, portanto, componentes muito bizarros e farsescos no espetáculo teatral do caso Snowden. E, como é política editorial desta coluna constranger o regime de Vladimir Putin e denunciar sua farsa, vamos lá para Moscou. Snowden colocou o seu destino nas mãos de um dos dirigentes mais repressivos entre os países mais importantes do mundo.
Mesmo o jornal britânico The Guardian, que deu guarida para as revelações de Snowden, achou demais o que qualificou de “relativismo moral” deste suposto paladino de direitos individuais e da transparência.
Tudo bem, pode ter sido ingenuidade, cansaço ou pressão do regime de Putin (ex-coronel da KGB), mas, na sexta-feira passada, Snowden, ao pedir asilo temporário no país, elogiou a Rússia por ser vanguarda para denunciar violações dos direitos humanos. Ele disse isto ao lado de ativistas de direitos humanos que tiveram permissão para se encontrar com ele no aeroporto de Moscou e que são perseguidos na Rússia.
Foi o cúmulo do cinismo que as autoridades russas tivessem permitido que Snowden viesse a público um dia depois do seguinte: a condenação póstuma do denunciante e dissidente Sergei Magnitsky, que foi torturado em uma prisão russa e que teve negado o tratamento médico que poderia ter salvo sua vida. Foi a primeira condenação póstuma na Rússia moderna. Stálin ficaria orgulhoso.
Já escrevi que Snowden é um peão em um complexo jogo geopolítico.  Mas ele também quer aproveitar o que se passa para fazer seus lances. Snowden explorou esta mini- Guerra Fria entre Moscou e Washington parar voar de Hong-Kong para a capital russa e asism escapar da justiça americana. E um dos motivos que a temperatura subiu entre os dois países é o Ato Magnitsky, uma lei americana inspirada na heróica postura do dissidente contra a corrupção em seu país.
Esta lei impede funcionários russos suspeitos de abuso de direitos humanos de entrarem nos EUA. Putin denuncia a legislação como interferência em assuntos internos do seu país. O caso Snowden, que denuncia escândalos americanos, serve para ofuscar escândalos russos e de tantos países que pegam carona na história, como o de Evo Morales. Por exemplo, na embaixada brasileira em La Paz está asilado um senador da oposição boliviana que denunciou o suposto vínculo de autoridades do seu governo com traficantes de drogas. Não recebe salvo-conduto do governo Morales para viajar.
O caso Snowden confunde os americanos. Eles querem segurança e pouca instrusão do aparato de vigilância. Pelo menos uma pesquisa mostra que cresceu muito o número de americanos que consideram Snowden um legítimo denunciante e não um traidor (no último caso é o tratamento de praxe para opositores e dissidentes em geral na Rússia, China ou paises bolivarianos).
Evo Morales e os hermanitos bolivarianos não dariam asilo político para Alexei Navalny, outro dissidente russo sob julgamento que denuncia a corrupção deslavada no seu país. Ele vai conhecer o seu destino esta semana. Mas desta vez não será condenação póstuma.

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