sábado, 31 de agosto de 2013

Profissão: manifestante revolucionário. Ou: Como escapar do tédio sitiando uma cidade

Guilherme Fiuza detonou os “manifestantes” em seu artigo de hoje. Em meu livro Esquerda Caviar, que será lançado em meados de outubro, coloco o tédio como uma das 20 potenciais origens do fenômeno. Classe média ou alta entediada em busca de uma adrenalina e de algum senso de importância: eis o fermento ideal para parir um revolucionário arrogante. Diz o jornalista:
Se você estiver entediado e quiser apimentar um pouco a sua rotina, não hesite: ligue o computador, mergulhe no mundo mágico das redes sociais, reúna uma dúzia de amigos mais ou menos ociosos, combine com eles uma causa (pode ser “tédio nunca mais”), pinte o slogan em algumas cartolinas, saia às ruas com o seu grupinho revolucionário e feche uma das principais avenidas da cidade. Qualquer uma. Mas feche mesmo: interrompa totalmente o trânsito, pelo tempo que você quiser.
Afinal, ser esse tipo de “revolucionário” nas capitais ocidentais é moleza. Lembram de Maio de 68? Como alfinetou Nelson Rodrigues à época, era mais seguro virar uns carros em Paris do que atravessar uma rua na Guanabara! Aqui no Brasil, nos dias de hoje, parece que a permissividade com os baderneiros atingiu patamares impensáveis. Fiuza continua:
Não tenha medo. As autoridades não estragarão o seu desfile. Recentemente, algumas dúzias de manifestantes bloquearam a Avenida Rio Branco, principal via do Centro do Rio, durante sete horas. A cidade parou, foi uma beleza — pelo menos para a polícia, para os guardas de trânsito, para o prefeito e para o governador, que cruzaram os braços e assistiram impávidos à singela arquitetura do caos. Ou talvez não tenham assistido, porque têm mais o que fazer.
Por algum motivo transcendental, as autoridades resolveram aceitar os bloqueios de trânsito. Passou a vigorar um novo princípio legal: a rua é do militante (qualquer um). Se ele deixar, a cidade pode ir e vir. No Rio de Janeiro, em especial, não se pode mais sair para qualquer lugar sem dar uma busca na internet ou no rádio. É preciso descobrir que bairro está sitiado naquela hora, ou naquele dia, por conta dos protestos contra tudo isso que aí está.
É uma piada (péssima). Em qualquer cidade séria do mundo isso seria impensável. O poder público, escondido em algum lugar entre a covardia e a vagabundagem, resolveu não cansar a sua beleza com a garantia da livre circulação. Desistiu de cumprir a lei. E o que é pior: a população se sujeita a isso calada — como se fosse vítima de uma nevasca, furacão ou enchente. As pencas de institutos e ONGs que passam a vida matraqueando a palavra cidadania, entupindo a mídia e os espaços públicos com suas cartilhas politicamente corretas, também não dão um pio diante desse escárnio.
Desde o começo dessas manifestações que encantaram sociólogos, professores de história e antropólogos, alguns poucos na imprensa mantiveram a sobriedade, não se deixando contagiar pela euforia da “voz nas ruas” que mudaria de vez o Brasil. O gigante acordou! Lembram? Fiuza foi um desses, assim como Reinaldo Azevedo e esse que vos escreve. Acho que fica cada vez mais claro que o “gigante” ainda dorme em berço esplêndido. Senão, vejamos:
O governo Dilma, com seus 40 ministérios, bateu o recorde de gastos públicos improdutivos no auge das manifestações (o Banco Central teve que elevar a projeção de déficit para 2,7% do PIB em 2013). A sagrada sublevação das ruas jamais apontou um dedo para qualquer dos ralos do governo popular — origem da inflação que aperta os brasileiros, não só na roleta do ônibus. A nova onda de superfaturamentos no Dnit — alvo da “faxina”! — nem foi notada por ninjas, black blocs, foras do eixo e foras de órbita.
Nesse meio tempo, chegou ao Congresso o pedido da CPI da Copa. A enxurrada de dinheiro público em estádios bilionários como Mané Garrincha e Itaquerão (projetado após o golpe que “desclassificou” o Morumbi) iria enfim ser investigada. Sabem o que aconteceu com a CPI da Copa, queridos revolucionários? Foi enterrada antes de nascer. Sem nem um cartaz criativo no velório, sem nem uma ruela obstruída para pressionar os deputados coveiros.
O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, que faturou alto com consultorias invisíveis para a indústria mineira, não só permanece no cargo, como dali toca sua campanha para governador. E ainda dá palpite sobre o dólar (“tem espaço para chegar a R$ 2,50”!), bajulando assim seus amigos empresários e bagunçando ainda mais o ambiente econômico. É típico do parasitismo petista, que não incomoda os fechadores de rua.
São prioridades muito estranhas as dessa “voz das ruas”. No fundo, são vozes de minorias organizadas, de grupelhos como os tais “ninjas” que se julgam acima das leis e têm alvos certos, poupando os piores corruptos, os golpistas autoritários. E ainda tem quem confie nessa turma! Ainda tem quem aplauda essas manifestações! Eu não. Eu faço coro ao apelo de Fiuza:
Prezadas autoridades: tomem vergonha, cumpram a lei contra os lunáticos e devolvam as ruas ao cidadão.
Por fim, a Alerj pretende colocar em pauta lei que proíbe as máscaras nos protestos, como fez o governo de Pernambuco. Já expliquei aqui que a ideia me agrada. Manifestante mascarado, em meu dicionário politicamente incorreto, tem outro nome. Até quando vamos permitir que essa gente comande a cidade sem um voto, sem passar pelo processo democrático?
Sim, os que estão lá são, na maioria dos casos, terríveis. Mas ao menos representam milhares de eleitores. Que tal focar na melhora dos eleitores então? Que tal esses “revolucionários” levantarem as informações de que locais elegeram os piores nomes, os mais corruptos, e partirem para um movimento de educação dessa massa explorada? Ah, mas nesse caso os próprios “revolucionários” de classes mais altas teriam que ser educados, né? Aí complica…

Rodrigo Constantino

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

CIENTISTAS ISOLAM O GENE BANDIDO , por Janer Cristaldo

Sempre entendi a vida de um homem como uma resultante, em primeiro lugar do acaso, em segundo da vontade de cada um. Nasci no campo, de família pobre de camponeses, e consegui vier em três países da Europa e bater pernas por boa parte do mundo. Dependeu um pouco de minha vontade. E mais ainda do acaso.

Já contei. Eu estudava em uma escola rural, na divisa entre Brasil e Uruguai. Findo o curso primário, bom em matemática, o máximo que podia aspirar era ser caixeiro nalgum bolicho das Três Vendas ou Ponche Verde, uma das poucas chances de escapar ao rabo do arado. Findas as provas, atrelei o tordilho à aranha. Uma fase havia terminado em minha vida. Voltava ao campo, talvez para lá morrer.

Dei de rédeas ao tordilho, a aranha já descia o lançante da coxilha. Foi quando Dona Ivone Garrido, uma professora vinda de Dom Pedrito para fiscalizar as provas, atravessou o alambrado de sete fios que cercava o colégio e gritou: "pára, Clotilde, teu filho é um gênio, ele não pode voltar para o campo". Minha mãe, que só queria ouvir isto, me tomou as rédeas das mãos e esbarrou o tordilho. Daqueles segundos geridos pelo deus Acaso – e aqui começa o mistério – decorrem minhas andanças e estas linhas.

Outros acasos me levaram para cá e para lá. Por acaso, encontrei a mulher que preencheu minha vida e foi companheira nos bons e maus momentos. Por acaso, e um pouco de volição, fui para a Suécia. Por acaso, li uma convocatória de bolsas para a França num jornal, concorri e ganhei quatro anos em Paris. Por acaso, tropecei em um livro de Sábato e daí decorreu um doutorado. Claro que havia sempre uma vontade permeando os acasos. Mas sem os acasos, minha vida não teria sido a que foi. 

Cientistas buscam todos os dias causas genéticas para comportamentos e opções de cada indivíduo. Já se buscou o gene do alcoolismo. Não me consta que tenha sido encontrado. Se o fosse, seria muito oportuno. Qualquer pinguço poderia justificar-se cientificamente: "Que posso fazer? É genético. Garçom, dose dupla, por favor". Nada mais confortável que atribuir a uma predestinação biológica o que depende de uma decisão.

Buscou-se depois um gene bem mais conveniente, o do homossexualismo. Mas os engenheiros genéticos parecem ser avessos a leituras históricas. No Ocidente, o homossexualismo era um comportamento normal e até mesmo desejável, antes que o cristianismo contaminasse a cultura helênica com a camisa-de-força de seu conceito de amor, como algo único e direcionado ao sexo oposto. Aliás, este poderoso mito literário ocidental, o amor, nasce na Grécia, com os poemas de Safo de Lesbos, e é antes de tudo homossexual. Em todo caso, uma causa biológica para esta opção facilitaria a vida de muitos efebos sem maior cultura histórica. “É genético, querido”.

O que está sendo cada vez mais insólito de admitir é que alguém é homossexual porque decidiu ser homossexual, porque gosta de relacionar-se com o mesmo, em suma, porque é livre de decidir com quem quer se relacionar.

Buscou-se também o gene da inteligência. Epa! Terreno minado. Imagine se este gene fosse politicamente incorreto, com preferência por certas raças. Encontrá-lo seria um desastre. Deixa pra lá, melhor não insistir nesta pesquisa.

Há uns bons quinze anos, os jornais anunciaram outro brilhante achado dos cientistas. Pois estes senhores conseguiram produzir, por meio de engenharia genética, um rato que permanece fiel a um parceiro. Esse animal normalmente fútil, dizem as agências, tornou-se um amante mais fiel depois de receber genes do arganaz, um roedor conhecido por sua fidelidade. Segundo o resultado, a dedicação a um só parceiro, durante a vida toda, talvez seja uma questão de presença no cérebro de uma determinada química, que associa o amor ao hábito.

Estudos com os arganazes mostraram que a sensibilidade ao hormônio vasopressina determinava se o macho da espécie acasalava com várias fêmeas ou se formava um casal com um delas para o resto da vida. Para mudar o comportamento roedores, bastou manipular o mecanismo regulatório da vasopressina.

No que diz respeito aos arganazes, não sei. Quanto ao ser humano, fidelidade vai depender em boa parte do acaso. Se peguei esta rua e não aquela, se ao pegar esta rua tropecei com esta ou aquela mulher, se indo a Paris encontrei uma macedônia e se ela, também por acaso, foi para Paris. Ou indo a Suécia encontrei uma finlandesa, que também por acaso,foi cair em Estocolmo. Se cultivo por razões religiosas a fidelidade, ou se não a cultivo por ser ateu. Em suma, vai depender das circunstâncias e de um ato de vontade meu, jamais de um gene.

Somos infiéis porque a vizinha é linda. Porque aquela aluna quer uma pedagogia mais personalizada. Porque aquela moça no bar nos olhou com um olhar mais quente. Porque as formas daquela transeunte distraída mexeram com nossos hormônios. Em suma, pela elementar razão de que... somos livres. Da mesma forma, sempre me pareceu que permanecer fiel a um parceiro fosse decisão a ser tomada por cada um. Nada disso. Segundo os doutos cientistas, liberdade é mito. Você não escolhe nada, a biologia é que determina suas ações. Tudo era genético, o arganaz que o diga.

A busca de uma base genética para explicar comportamentos isenta todo homem de qualquer responsabilidade. Sou bêbado? Não tenho culpa alguma, estava nos genes. Sou homossexual? Foi sem querer, a genética determinou. Até aqui, disto não decorrem maiores consequências. O problema surge quando a genética busca justificar o crime, absolvendo todo e qualquer criminoso.

Li há pouco um artigo preocupante na Zero Hora. Fala de um ex-detento que, anos depois de libertado, senta de novo no banco dos réus. Voltou a furtar, é o que dizem. Como estamos falando de um reincidente, o juiz achou por bem descobrir se há algo de errado no cérebro do acusado. A perícia informa que ele tem um córtex cingulado anterior (ACC, na sigla em inglês) preguiçoso. Agora a acusação pede perpétua, porque um córtex dessa lavra não merece lugar entre os cidadãos de bem (os bem-acerebrados, diga-se), e a defesa vai se vacinando com a tese de que ninguém tem culpa por nascer com um parafuso a menos: o réu não passa de um robô programado para furtar. 

O julgamento proposto é imaginário, mas a perícia se baseia em um estudo bastante real e recente, liderado pelos neurocientistas americanos Kent Kiehl e Eyal Aharoni. Eles monitoraram a atividade cerebral de 96 apenados e constataram que aqueles com ACC menos ativo tinham duas vezes mais chances de voltar a cometer crimes nos quatro anos seguintes à libertação. 

O artigo cita um caso clássico da literatura jurídica, o americano Donta Page, que confessou ter estuprado e matado a facadas uma jovem em 1999, escapou da pena de morte e foi sentenciado à prisão perpétua. A defesa alegou que espancamentos durante a infância haviam danificado o cérebro de Page. Ele não tinha escolha senão ser violento.

Ou seja, livre arbítrio não existe. Todo homem é refém do seu passado. Ou de seus genes. Nesta época em que há uma tendência generalizada a absolver todo criminoso, a tese faz fortuna. Vai ver que Zé Dirceu, José Genoíno et caterva não podiam deixar de ser corruptos. A corrupção estava no sangue, ou melhor, nos genes. Não tinham nenhuma outra opção a não ser corromper-se. E dizer que os coitados, reféns de sua genética, estão sendo hoje condenados por um tribunal obsoleto, que nada entende das neurociências.

Segundo o professor da Faculdade de Direito da UFRGS, criminologista e desembargador aposentado Odone Sanguiné, o futuro que a neurociência acena para a Justiça Criminal é de reformas inclusivas, que levem em conta o princípio da dignidade humana.

- O diálogo com os conhecimentos das neurociências está provocando uma revisão das categorias dogmáticas do Direito Penal, bem como uma rediscussão sobre a legitimação das penas e medidas de segurança - afirma. 

Assim, quando alguém estupra uma criança ou faz picadinho da própria mulher, não nos apressemos em julgá-lo. O homem, no fundo, é inocente. Algum gene bandido o levou, inexoravelmente, a tais gestos.

Voltar às ruas adianta? Parece que não, por Erico Valduga



Continua a impunidade, apesar dos protestos populares: espírito de corpo parlamentar segue protegendo ladrões de papel passado; vai acabar mal

OS DEPUTADOS FEDERAIS DESMORALIZARAM mais um pouco o poder Legislativo, com a cumplicidade da maioria dos juízes do Supremo Tribunal Federal, que lhes deu a última palavra para decidir sobre a perda de mandato de parlamentar condenado pela Justiça em decisão final. Sentenciado a 13 anos de prisão por formação de quadrilha e desvio de R$ 8 milhões da Assembleia Legislativa de Rondônia, o peemedebista Natan Donadon não foi cassado nesta quarta-feira por ter recebido 233 votos em favor de sua punição, 24 a menos do que a maioria necessária (257, metade, mais um) dos 513 colegas.

DO TOTAL, 104 SEQUER compareceram à votação – 14 deles do Rio Grande do Sul. Votação secreta, claro, que esconde o corporativismo e a covardia. Mas, para que a fraude ao eleitor e à ética da representação ficasse menos escandalosa, o vício prestou à virtude o tributo da hipocrisia: o ladrão foi suspenso do mandato logo após a apuração dos votos, pelo presidente da Mesa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).

UMA IMORALIDADE DA ESPÉCIE, prezados leitores, não ocorre por acaso. Tem todo o jeito de ter sido cuidadosamente tramada pela direção da Casa e pelos líderes das principais bancadas, com apoio do comando dos seus partidos. E é bem possível que tenha sido um teste para avaliar como os cidadãos brasileiros receberiam a repetição do engodo no caso dos deputados condenados no Mensalão, João Paulo Cunha e José Genoíno (ambos do PT), Pedro Henry (PP) e Valdemar Costa Neto (PR).

SEJA COMO FOR, constata-se outra vez a imperiosa necessidade de alteração no processo eleitoral, para dar ao eleitor melhores condições de avaliar os concorrentes nas campanhas eleitorais, e permitir-lhe cobrar deles comportamentos dignos se eleitos. Isto nada tem a ver, observe-se, com o safado financiamento público ou as ineptas listas de candidatos. A propósito, existisse aqui o mecanismo do recall, os mandatários pensariam duas vezes antes de prejudicar a política, a insubstituível arte de governar.

Síria, vai que vai, por Caio Blinder

O Mr. Blinder pode achar muito coisa. Ele tem o pendor dos intervencionistas humanitários (ou falcões liberais) que se alinham com os neoconservadores (velhos de guerra do Iraque) sempre que é possivel dar um tranco em um Bashar Assad da vida. Pode achar ótima a capa da edição corrente da revista The Economist com a cara do meliante de Damasco, pedindo que ele leve um cascudo. O Mr. Blinder pode achar um monte de coisas e existem as coisas das realidade.
Entre as opções intervencionistas, está um ataque punitivo americano (curto e grosso) contra o regime criminoso pelo seu uso de armas químicas na guerra civil (ok, o editorial da Economist é cauteloso e fala em “uso aparente”). Até tal opção está no sufoco para conseguir apoio, com tanta resistência contrária. Soluções mais agressivas perderam o prazo de validade e carecem de respaldo, algo no estilo de um assalto da pesada para tentar derrubar Bashar Assad. Talvez, um ano atrás.
O batalhão de “realpoltiikeiros” adverte que a opção mais prudente é cruzar os braços e evitar desastres da escala iraquiana. Mas como tolerar as ações do meliante? Alguma coisa precisa ser feita. Concordo que tal exasperação carece de solidez estratégica. Mas aí a culpa foi do Mr. Obama. Este presidente, supostamente cerebral, relutante para para ir à guerra, num impulso decidiu desenhar uma linha vermelha que não poderia ser cruzada por Assad no caso do uso de armas químicas. Obama colocou sua credibilidade em jogo, a do seu país. Vai amarelar?  Agora, vai que vai.
Que vexame para o tal do líder do mundo livre. Obama, o guerreiro infeliz, na expressão da capa da revista Time. O que Churchill acharia de Obama? O que o buldogue da Segunda Guerra Mundial acharia do compatriota David Cameron, humilhado no Parlamento, num voto sobre intervenção na Síria?
Mr. Blinder acha um monte de coisas, mas ele precisa reconhecer algumas boas verdades ditas por Lady History.Ela fala aqui através de Robin Wright, uma tarimbada jornalista e escritora americana, que já circulou muito pelo Oriente Médio. Ela lembra o essencial: dar um tranco (como um lançamento maciço de mísseis) raramente atinge objetivos políticos duradouros e frequentemente produz mais custos ou consequências não planejadas do que benefícios. As lições da história são bipartidárias.
Há 30 anos, o presidente republicano Ronald Regan deteminou que fuzileiros navais americanos, integrantes de uma força de paz na guerra civil libanesa, abrissem fogo contra uma milícia islâmica em Beirute. Semanas mais tarde, em 23 de outubro de 1983, dois caminhões-bomba irromperam nos quarteis das forças militares norte-americanas e francesas: 299 mortos nos atentados suicidas do grupo Jihad Islâmica. As tropas americanas e dos seus aliados europeus estacionadas no Libano durante a guerra civil bateram em retirada quatro meses depois. O Líbano deu muitas voltas e amarga novamente o risco de guerra civil.
Para encurtar a história, os últimos cinco presidentes americanos recorreram a ataques limitados com mensagens específicas em distintos buracos quentes do mundo e o resultado foi triste. Nas palavras de Robin Wright, “a ideia de golpes rápidos ou campanhas curtas é geralmente uma ilusão. Uma exceção foi a campanha aérea que contribuiu para a queda do ditador líbio Muamar Khadafi em 2011. Ataque bem sucedido, mas sem um bom plano para ajudar a Líbia na sua reconstrução. Robin Wright arremata que alguns dias de punição de Bashar Assad podem acalmar a indignação moral (como a do Mr. Blinder), mas abrir riscos de proporções imprevisíveis.
A história vai se repetir como tragédia ou como farsa? Poderá ter um final feliz? O indignado Mr. Blinder guerreia a metódica Lady History. Agora é esperar o tranco no meliante. Por enquanto, quem levou foi o Mr. Obama, o guerreiro infeliz, perdido no mato sem cachorro e sem o David Cameron.

PEDRO LUIZ RODRIGUES -COMPLEXO DE INFERIORIDADE NOS RENDEU MAIS UMA DÉCADA PERDIDA

O Brasil, dizia Nelson Rodrigues (que se ainda estivesse entre nós teria completado agora em agosto seu 101º aniversário) tem complexo de vira-lata, um forte e persistente sentimento de inferioridade “em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”.

Na conjuntura em que atualmente vivemos, valerá, talvez, meditar sobre o assunto. Sabemos que sem tratamento, o complexo inferioridade tende a fazer com que indivíduos, grupos e até sociedades inteiras busquem uma supercompensação. Esta não é uma saída para a busca do equilíbrio, mas uma uma defesa psicológica que só faz acentuar o desequilíbrio.

Para os especialistas das áreas da psicologia e da psiquiatria, o complexo é diferente do ocasional sentimento de inferioridade. Este pode atuar como um incentivo para o progresso pessoal. O complexo, por sua vez, gera comportamento anti-sociais, ou no sentido inverso, produz realizações espetaculares, um e outro representando fuga da realidade.

Em minha opinião, foi por conta desse complexo de inferioridade que o Brasil perdeu nos últimos dez anos – anos de vacas gordas, alimentadas por condições internacionais extremamente favoráveis – uma grande oportunidade para se transformar econômica, tecnológica e educacionalmente.

Não soubemos agir e pensar grande. O que fizemos foi uma grande festa de consumo.

O que se fez nesse período foi enfraquecer as instituições do Estado, fazendo sua coluna arquear sob o peso de uma burocracia inchada que só tem compromissos consigo mesma, e não dão a mínima para os verdadeiros interesses do País e da Nação.

Em vez de procurarmos parcerias internacionais, preferimos as prioridades ditadas pelo Professor Marco Aurélio Garcia, e hoje andamos aos tropeções com a Bolívia, com a Argentina e com o Paraguai.

O Governo, contudo, diz que tem bala na agulha, e que, portanto, não precisamos nos preocupar com a subida do dólar e a queda do real. Bala na agulha quer dizer 372 bilhões de dólares de reservas em moeda estrangeira, dinheirama avultada, que poderia atender, com folga, á grande demanda por moeda estrangeira.

A desaceleração econômica na China e a lenta recuperação da economia dos Estados Unidos alteraram o quadro internacional em desfavor do Brasil. Nos anos da crise (2008-2013), os países emergentes receberam enormes fluxos de capital, em razão da política de afrouxamento monetário adotada nos Estados Unidos e na União Européia, que reduziu acentuadamente o rendimento dos investimentos nesses países.

Depois do anúncio do banco central americano (Federal Reserve Board) de que a partir de mês que vem essa política de afrouxamento deverá cessar, os investidores, pesando riscos e ganhos, começam a trazer de volta seu dinheiro para os mercados mais seguros.

Para onde se olhe no universo dos emergentes está acontecendo a mesma coisa. As moedas locais despencam, e o valor das moedas conversíveis se amplia. Onde é grande a dependência de importações, é grande também a ameaça de rompimento de equilíbrio do balanço de pagamentos. No nosso caso, há a mencionada bala na agulha. Mas se os tiros ocasionais acabarem por se transformar em rajadas de metralhadora, aí vamos esperar para ver como a coisa fica.

Podemos esperar, de imediato, que o caixa da Petrobrás evolua em sua situação de precariedade.

O anúncio da auto-suficiência foi, lamentamos registrar, apenas mais uma balela lulista.

Os dados de julho passado são de estarrecer. As importações brasileiras de petróleo aumentaram em mais de 140% em comparação com o mesmo mês do ano ano passado. No mesmo período de comparação, nossas exportações de derivados caiu pela metade.

Vamos aos dados: Importamos 3,1 bilhões de dólares em julho, ante 1,2 bilhão em julho de 2012. E de julho para agosto o barril de petróleo passou de pouco mais de 100 para 117 dólares, fazendo acreditar que os números de agosto serão ainda piores.

Enquanto isso,o Governo continua a subsidiar o consumo de petróleo. Se parar de subsidiar os preços dos combustíveis vão disparar e a inflação voltará à linha de frente das preocupações nacionais.

O PT está em polvorosa. Não sabe o que fazer e vê se aproximando as eleições de 2014.

Ainda uma palavrinha sobre a importação dos médicos cubanos mal-remunerados.

Nunca é tarde, é verdade, para se corrigir rumos. O Ministro da Educação poderia parar de querer ficar aparecendo aos fundos, com olhar atento, em qualquer imagem de televisão onde esteja presente a Presidente Dilma Rousseff, e ir cuidar de sua área, área-chave aliás para qualquer verdadeira revolução que se pretenda fazer no Brasil.

Se um dos grandes problemas do Brasil é a formação de médicos, poderia o Excelentíssimo Senhor Ministro fazer a gentileza de informar à sociedade o que seu Ministério fez – e o que ele, pessoalmente, está fazendo-, para ampliar e melhorar nossas faculdades de Medicina. Algo deve estar muito errado com nossa política educacional, se não conseguimos produzir em número adequado os profissionais demandados por nossa sociedade.

Maioria licensiosa

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


O que dizer diante da decisão da Câmara de preservar o mandato de Natan Donadon, ora em cumprimento de pena no presídio da Papuda (DF) por desvio de dinheiro público e formação de quadrilha?

Se ele mesmo se surpreendeu - "Não acredito!", reagiu - com o resultado da votação secreta (233 votos pela cassação, 131 pela absolvição e 41 abstenções), é de se ressaltar o caráter espantoso da decisão.

O aparentemente impossível, no Parlamento acontece.

Parecia óbvio que suas excelências não cometeriam tal abuso: mais que uma agressão aos fatos, um desrespeito ao Judiciário que o condenou a 13 anos de prisão e uma afronta ao próprio Legislativo que admitiu, assim, a compatibilidade entre o exercício do mandato e a condenação penal.

Durante o dia a cassação era dada como certa. De noite, na sessão em que Donadon foi autorizado a tirar as algemas para apresentar sua defesa, nenhum discurso em prol da absolvição. Apurados os votos, contudo, emergiu a força da maioria silenciosa e, por ação e omissão, licenciosa.

Houve maior número de votos pela condenação, mas somadas as abstenções, os ausentes (108) e os favoráveis à preservação do mandato, chegamos a 280 deputados em apoio a Donadon contra 233. Faltaram 24 votos para o alcance do quórum necessário (257) à cassação.

O presidente da Câmara, Henrique Alves, fez o gesto inútil de declarar afastado do cargo o deputado que já estava afastado, confinado a uma cela desde o dia 28 de junho e, não obstante, será "excelência" ainda por um ano e meio. A maior parte de seus pares fez isso confiando na proteção do sigilo. Atingiram a todos, inevitavelmente nivelados por baixo.

O resultado não seria o mesmo se a votação fosse aberta. Nem a Câmara precisaria arcar com o inevitável acréscimo em seu robusto patrimônio de desgaste se tivesse optado pelo artigo da Constituição que determina a perda do mandato para os condenados em ações penais, e não pelo dispositivo que transfere a última palavra ao Legislativo.

As duas questões já poderiam ter sido resolvidas, caso houvesse interesse real em resolvê-las com a aprovação do fim do voto sigiloso em processos de cassação e da emenda que prevê a perda automática de mandato para condenados, ambas as propostas em tramitação no Congresso.

Mas, como ficou claro na exorbitante decisão da noite de quarta-feira, a maioria no Legislativo não está preocupada em corrigir nada. Aliás, está pouco ligando para coisa alguma que não seja a causa própria, neste caso a autoproteção.

Está criado o precedente para que os condenados no processo do mensalão continuem deputados até o início de 2015, independentemente de o Supremo Tribunal Federal daqui até lá determinar ou não o cumprimento das sentenças.

Os quatro, José Genoino, Pedro Henry, João Paulo Cunha e Valdemar Costa Neto estavam ausentes da sessão, engrossando a tropa dos que ajudaram a absolver o condenado fazendo da Câmara merecedora do troféu vergonha alheia do ano.

FOGO NA ROUPA
O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, nega que haja "fragilidade no sistema elétrico" ao mesmo tempo em que atribui o apagão de quarta-feira no Nordeste à queimada em uma fazenda no Piauí.

Uma contradição em termos, pois ou o sistema não é firme e seguro o bastante para evitar que nove Estados fiquem sem luz por causa de uma queimada ou a razão da queda de energia é outra.

Em dezembro, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS) e o secretário-geral do ministério disseram que a série de apagões País afora era provocada por raios.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

No comunismo é assim: fuzilado por ter uma bíblia ou gravar vídeos “pornográficos”, por Rodrigo Constantino

A ex-amante de Kim Jong-un foi executada na Coreia do Norte, junto a um grupo de músicos. Diz a matéria da Exame:
A cantora Hyon Song-wol, tida como um possível affair do líder norte-coreano Kim Jong-un, foi executada na Coreia do Norte junto a um grupo de músicos acusados de gravar e vender pornografia, informou nesta quinta-feira o jornal sul-coreano “Chosun Ilbo”.
O jornal de maior tiragem do país, que cita fontes chinesas, revelou que a cantora foi detida no último dia 17 de agosto por violar as leis norte-coreanas contra pornografia e,apenas três dias depois, foi executada em público.
O suposto affair de Kim Jong-un foi executada junto a outras 11 pessoas, muitos membros da orquestra Unhasu, assim como músicos e dançarinos do grupo Wangjaesan Light Music Band.
Todos eles estavam acusados de gravar e vender vídeos pornográficos e, segundo uma fonte citada pelo jornal, também foram condenados por possuírem muitas bíblias, fato que fez com que os mesmos fossem tratados como dissidentes políticos.
Acredita-se que Kim Jong-un manteve há 10 anos uma relação com a cantora, embora tenha encerrado essa relação por não ter tido a aprovação de King Jong-il, pai do atual líder norte-coreano.
Após a ruptura, Hyon se casou com um soldado, enquanto Kim Jong-un se casou com outra cantora, Ri Sol-ju, que também foi integrante da orquestra Unhasu.
A fonte citada pelo jornal sul-coreano revelou que os 12 artistas foram executados diante de outros membros de seus grupos e de seus familiares, os quais teriam sidos transferidos para campos de trabalho. 
Então é assim: o infantil ditadorzinho comunista resolve apagar a ex-amante, elimina junto outras 11 pessoas para parecer algo mais generalizado, e a acusação oficial é fazer vídeo “pornográfico” e ter muitas bíblias, o que basta para ser um perigoso contrarrevolucionário em países comunistas. O “julgamento” dura menos de três dias, e a execução se dá em público, para efeito “pedagógico”.
Comunismo foi e é assim, sempre. A cantora Miley Cyrus, ou Hannah Montanna para os menos íntimos, seria torturada e fuzilada na Coreia do Norte com esse show. No mundo capitalista ela é apenas vista como indecente, idiota ou imoral, e as pessoas desligam a TV ou mudam o canal. Eis o abismo intransponível entre capitalismo e comunismo.
Há suspeitas de que o ditador mandou executar a “ex” a pedido da atual, por ciúmes. No capitalismo é assim: o marido manda flores ou compra uma joia para a mulher, tentando apaziguar o ciúmes da ex-namorada. No comunismo, para fazer um agrado a sua mulher, o líder máximo do povo manda meter uma bala na nuca da outra. Eis o abismo intransponível entre capitalismo e comunismo.
Quem quiser saber mais detalhes da vida na Coreia do Norte, recomendo o livro Fuga do Campo 14, do jornalista Blaine Harden contando a história de um fugitivo que nasceu e viveu por 23 anos naquele inferno vermelho. É impressionante o relato do pobre rapaz.
Mas era esse o regime que José Genoino queria implantar no Brasil, e que mereceu elogios do ministro Luís Roberto Barroso no STF essa semana. É ou não é de embrulhar o estômago?
PS: A acusação de pornografia como desculpa para a execução chega a ser patética quando lembramos dos fortes “boatos” de que o papai dele, Kim Jong-il, praticava verdadeiras orgias quando viajava de trem para a China. Mas comunismo é assim mesmo: a casta do poder pode tudo, os demais, nada.

Israel vai, por Caio Blinder

Será que vai sobrar ou não para Israel se os americanos atacarem alvos sírios? Israel é suspeito habitual no mundo árabe e a probabilidade de algum tipo de retaliação vai depender do alcance do ataque americano, que perdeu o senso de urgência devido a obstáculos diplomáticos e políticos. Muito improvável que seja alguma ação direta do regime Assad. Este regime, porém, não carece de capangas terroristas para aprontar alguma coisa. Pode ser o Hezbollah ou algum grupelho palestino. Dos aliados iranianos do ditador Bashar Assad, já foi incrementado o foguetório retórico.
Israel claro que está sempre alerta em uma vizinhança tão perigosa. Está alerta e monitorando. O regime Assad e seus patronos e asseclas têm motivos para muita irritação com Israel. Enquanto sua população se previne com máscaras de gás, em caso de retaliação, a inteligência israelense está ativa para desmascarar a farsa do regime Assad, que nega o uso de armas químicas na guerra civil, o pretexto para a punição americana.
Desde a semana passada, pipocam as revelações de que o grosso das evidências sobre a responsabilidade do regime Assad (dentro ou à margem da cadeia de comando) foi fornecido pela inteligência militar israelense. A unidade 8200, especializada em monitoramento eletrônico, interceptou conversas entre militares sírios e os dados foram passados para os americanos. Os partidários de Edward Snowden e Glenn Greenwald vão denunciar?
De acordo com o Canal 2, da televisão israelense, as armas químicas foram disparadas por uma brigada da Quarta Divisão Blindada do Exército, que está sob o comando de Maher Assad, irmão do ditador e sujeito barra pesada, mas muito barra pesada. Conforme o canal de televisão, a avaliação da inteligência em Israel é que o ataque da semana passada nos subúrbios de Damasco era possivelmente o começo de uma operação mais ampla.
Dá para confiar nestas informações de um canal de televisão, assim como de outros órgãos da imprensa como as revistas Focus (Alemanha) e Foreign Policy (EUA), que também fizeram revelações nesta área? Eu estou apostando nelas (e com transparência reconheço meu prontuário de erros de avaliação na crise síria).
O fato é que o aparato de segurança e de inteligência de Israel está meio perdido (quem não está?) sobre as marchas e contramarchas da Primavera Árabe, mas no caso do esquema militar sírio até que ele tem um bom prontuário. Estava bem informado sobre o reator nuclear destruído pela Força Aérea israelense em setembro de 2007. Nem altos comandante do Exército sírio sabiam da existência deste projeto secreto. Nos últimos meses, foram quatro ataques cirúrgicos de Israel contra alvos miltares sírios.
O papel de Israel na guerra civil é complicado, especialmente agora que jihadistas são cruciais entre as forças rebeldes, com o temor de que tenham acesso a material químico. Existe a tentação de torcer para que os dois lados percam ou desejar boa sorte para ambos. Mas, de novo, a postura israelense é complexa.
A visão que hoje prevalece no establishment de segurança e no governo Netanhayu é que o enfraquecimento do regime Assad é melhor negócio para Israel, pois prejudica a milícia libanesa Hezobllah e o Irã, os aliados regionais de Damasco. Israel vislumbra o conflito sírio do prisma do uso de armas de destruição em massa. Se Assad cruza impunemente a linha vermelha traçada pelo governo Obama, qual é a mensagem para os iranianos?
Mas existe também a visão de gente neste aparato de segurança e governamental de Israel que anarquia ou triunfo dos extremistas sunitas serão piores negócios que a derrota de Assad. Apesar dos pesares, o ditador Assad é figura familiar e manteve o status quo na fronteira desde a guerra de 1973.
O fato concreto é que os tempos mudaram e há uma frente de incertezas não apenas para Israel, mas para a região e o mundo. Mesmo que a operação militar americana tenha objetivos limitados, seus desdobramentos poderão ser outra história.
Vai saber o que irá acontecer.

Perverter o debate é a esperteza de sempre, por Erico Valduga

Dona Dilma não apresenta as provas do preconceito que afirma existir contra os médicos cubanos; mas de fato não interessa ao petismo se existem ou não

BOA PARTE DOS BRASILEIROS foi informada ontem, em especial pelas redes de TV e pela internet, que a chefe do Executivo imperial, Dilma Rousseff, afirmou que há “grande preconceito” contra os médicos cubanos que vieram trabalhar no Brasil. Ela seguiu à risca, mais uma vez, a cartilha dos petistas, que é tentar desclassificar quem deles discorda, para escapar do debate de argumentos. É natural que as pessoas prestem atenção ao que diz o presidente da República, cuja voz é amplificada pela bilionária máquina da propaganda oficial. Mas não é natural, e não contribui para o aperfeiçoamento das instituições políticas da nação, usar esta máquina para tentar lograr os cidadãos, mistificando a realidade. Pergunta-se: em que consiste o preconceito afirmado? Não disse, pois só lhe interessa assentar o rótulo – é preconceito, e pronto.

NÃO APONTOU UMA, que fosse, prova de discriminação contra os cubanos. Mas, no Senado e na Câmara dos Deputados, ainda ontem, parlamentares do seu partido referiram como exemplos de “preconceito” a observação destrambelhada sobre a parecença das médicas com empregadas domésticas, feita por uma jornalista, como se o jornalismo estivesse livre da cota de idiotas; e a recepção hostil aos cubanos em Recife, episódio nordestino que ainda não foi bem explicado, mas indica, em princípio, que a medicina também possui a tal cota. Se estas estultices levaram o político no mais poderoso cargo da República a concluir que existe preconceito contra os médicos da ilha caribenha, no país que se destaca no mundo pela bem-sucedida integração multirracial, estamos mais mal-parados do que pensamos, prezados leitores.

OU SERIA PRECONCEITO (1) estranhar que o governo federal tenha montado na surdina, ao longo de mais de ano, a agora deflagrada operação Cuba; (2) duvidar do acerto, ante um mínimo razoável de qualidade do serviço a ser prestado, da isenção do exame Revalida; (3) questionar o custo direto de R$ 10 mil de cada médico, quando cada um receberá de fato R$ 2.5 mil a R$ 4 mil, cabendo o restante, maior parte do dinheiro, a uma ditadura que aluga a força de trabalho de seus cidadãos; (4) discordar do confinamento territorial, além do social, a que estão submetidos, o qual viola o elementar direito humano de ir-e-vir, o que não ocorre com os profissionais de outras nacionalidades; e (5) destacar como inaceitável que eles não possam trazer seus familiares, se o desejarem, porque estes ficam na ilha como penhor do seu comportamento conforme os contratos fascistas. São bem-vindos os médicos cubanos, mas não na condição de escravos modernos.

Estatal é assim: falta água porque sobra água!, por Rodrigo Constantino

Na frase da epígrafe de Privatize Já, usei a conhecida provocação de Milton Friedman: se o governo federal for colocado para administrar o deserto do Saara, em cinco anos faltará areia. Alguns pensam ser brincadeira ou hipérbole. Quisera eu! É observação fatual. Duvida?
Temos um caso aqui mesmo, no Brasil. Não de deserto, mas de água. Imagine uma cidade em que um dos principais riostransborda por excesso de água. O que o leitor acha que aconteceria? Resposta: falta abastecimento de água na cidade! Motivo: uma estatal é responsável por ele, e não tem capacidade de escoar tanta água, sendo obrigada a desligar os motores na estação de captação.
O caso aconteceu em Novo Hamburgo, e a cidade decretou situação de emergência. Parece notícia do Planeta Bizarro, onde as coisas acontecem ao contrário: “O abastecimento de água da cidade foi cortado, com previsão de retornar apenas no domingo, devido à velocidade com que o nível do Rio dos Sinos está subindo”. Tem água demais, logo, é preciso cortar o fornecimento de água.
Segundo o diretor da Comusa (a estatal que cuida do abastecimento), Mozar Dietrich, é uma situação que ainda não havia ocorrido na cidade: “Estamos com uma situação de enchente muito maior que as outras que já houveram na cidade. Estamos alertando as pessoas para que façam uma economia bastante severa e preservem o volume que têm nas caixas-d’água”.
O corte no abastecimento se dá para preservar o maquinário da estação de captação de água,que tem alto custo e não teria reposição imediata, de acordo com Dietrich. É preciso esperar a água escoar para que os equipamentos sejam novamente ligados, por isso a previsão é de que a volta seja apenas no domingo.
Pergunto: alguém acha que uma empresa privada, cujo lucro dependesse do bom atendimento aos clientes e da quantidade de água fornecida, deixaria isso acontecer? Pouco provável. Dias sem vender água seriam dias de prejuízo, que doeria no bolso dos proprietários. Os incentivos são bem diferentes.
Há precedentes nesse setor de privatização bem-sucedida. Não há motivo para o governo ser gestor de abastecimento de água. Sim, é um produto essencial. Mas o próprio mercado pode cuidar disso. E cuida, quando possível, de forma bem mais eficiente que o governo. Estatal é assim mesmo: falta água porque sobra água!

Presença VIP

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Se Marina Silva conseguir o registro da Rede Sustentabilidade a tempo de disputar a eleição de 2014, não terá sido pela pressão sobre a Justiça Eleitoral, bem como se não conseguir, a ex-senadora não poderá atribuir o motivo a retaliação do Tribunal Superior Eleitoral às queixas públicas sobre a demora do reconhecimento das assinaturas necessárias à criação do partido.

Na reclamação, Marina deixa implícita a suspeição de que estaria sendo prejudicada por uma aliança entre a burocracia, a má vontade de funcionários e sabotagem política nos cartórios eleitorais.

Se a Rede obtiver registro até 5 de outubro, terá sido simplesmente pelo cumprimento das exigências de acordo com a regra e não pela abertura de uma exceção, como pretende a ex-senadora aparentemente imbuída da convicção de que seus índices de intenção de voto e inequívoco respaldo social justificam o atropelo do manual.

A ex-senadora tem todo o direito de fazer marcação cerrada, a fim de se prevenir dos danos decorrentes dos excessos burocráticos. Além disso, há mesmo esquisitices que dão margem a desconfiança, como a recusa de 73,5% das assinaturas (a média nacional é de 24%) em São Bernardo do Campo, reduto do PT que não esconde a antipatia por Marina e chegou a liderar uma ofensiva malsucedida no Congresso para criar obstáculos legais à existência da Rede.

Nem por isso a ex-senadora dispõe de prerrogativas especiais que a autorizem a esperar da Justiça Eleitoral a concessão de privilégios. Devido ao atraso na validação das quase 500 mil assinaturas necessárias, ela propõe ao TSE que suspenda a verificação individual, publique um edital com todas elas e, se não houver contestação, as aceite como válidas.

No entanto, a base para essa contestação só pode ser o mesmo cadastro que a Justiça Eleitoral usa agora para aceitar ou recusar as assinaturas. O advogado da Rede, Torquato Jardim, sugere que depois, se comprovadas irregularidades, o tribunal poderia suspender o registro que teria, então, o inédito caráter de provisório.

Se já há essa atmosfera de perseguição, é de se imaginar a reação a uma cassação do partido. Portanto, o que se pretende é criar um fato consumado mediante o desvio do padrão legal. Não combina com o discurso de Marina Silva sobre a correção dos meios e dos modos na política.

NA ESTRADA
O governador Eduardo Campos não está perdendo chance de se contrapor à presidente Dilma Rousseff. A mais recente foi o apoio do pernambucano ao diplomata Eduardo Saboia pelo translado do senador Roger Pinto Molina de La Paz a Brasília.

"Por dever de consciência tenho de cumprimentar o diplomata que fez isso", disse ele, enquanto a presidente rebatia com rudeza declarações de Saboia e suspendia a indicação do atual embaixador na Bolívia para assumir a representação na Suécia, por suspeita de sua participação na fuga de Molina.

Campos poderia ter se mantido neutro no assunto, mas quis comentar. Calado estava desde as manifestações de junho e calado poderia continuar, mas nos últimos dias desandou a falar.

Em reunião com empresários paulistas, na segunda-feira, questionou a capacidade de liderança da presidente e a eficácia das respostas dadas por ela aos protestos.

No dia seguinte, gravou entrevista ao Programa do Ratinho - uma espécie de estágio probatório para candidatos a presidente - e manteve o tom de crítica, desta vez à falta de "traquejo político" de Dilma.

Antes da gravação, ao comentar a movimentação do PSB em torno de sua possível candidatura, declarou que o calendário eleitoral "começa agora". Uma alteração significativa para quem afirmava até pouco tempo que as decisões de 2014 dependeriam do transcorrer de 2013, ano que, nessa perspectiva, para Eduardo Campos já terminou.

SOBRE MÉDICOS E VACINAS , por Janer Cristaldo

A presidente Dilma Rousseff acusou hoje os que têm preconceito contra a presença dos médicos cubanos no Brasil. Disse que há também médicos de outros países, além de Cuba. A presidente reiterou que os estrangeiros estão no Brasil para desempenhar o trabalho que os médicos brasileiros não querem fazer. 

"É um imenso preconceito sendo externado contra os cubanos. É importante dizer que os médicos estrangeiros, não só cubanos, vêm ao Brasil para trabalhar onde médicos brasileiros formados aqui não querem trabalhar", disse ela.

A presidente sofisma. O que se pede é que os cubanos cumpram as mesmas exigências feitas aos médicos nacionais, o exame do Revalida. O que também tem causado indignação é saber que mais da metade do salário de cada profissional vai para a ditadura cubana. 

Segundo os jornais, os médicos cubanos atuarão no Brasil em regime diferente dos que se inscreveram individualmente no Mais Médicos. No acordo, os repasses financeiros serão feitos do Ministério da Saúde para a Opas. A entidade repassará as quantias ao governo cubando, que pagará os médicos. Inicialmente nem a Opas nem o Ministério da Saúde souberam especificar quanto dos R$ 10 mil pagos por médico será repassado para os profissionais. O secretário adjunto de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Fernando Menezes, disse depois que a remuneração ficaria entre R$ 2,5 mil e R$ 4 mil.

O que será uma festa para quem ganhava algo em torno a cem reais por mês, menos que um chofer de táxi cubano que trabalhe junto a turistas, quantia que um mendigo brasileiro tira fácil em uma ou duas semanas nas ruas de São Paulo. Os médicos que vêm de outros países receberão a integralidade de seus salários. Por que só os cubanos entregarão parte de seus ganhos ao Estado? No fundo, é o PT erguendo o bracinho stalinista, em uma tentativa canhestra de financiar o falido regime comunista da ilha.

Não é a primeira vez que o Brasil vai em socorro da ditadura castrista. Ou já foi esquecido o caso das famosas vacinas cubanas contra a meningite, importadas pela bagatela de 250 milhões de dólares? Pelo jeito, ninguém mais lembra delas. Na grande São Paulo, a vacina cubana foi administrada em 1989 e 1990 para 2.400.000 crianças, na faixa etária de três meses a seis anos de idade. Após a campanha de vacinação, não foi observada queda do coeficiente de incidência da meningite.

Mas as vacinas eram socialistas. Quem duvida - salvo reacionários irrecuperáveis, como este que vos escreve - da excelência da medicina cubana? Em abril de 94, o ministério da Saúde brasileiro decidiu liberar o uso destas vacinas, suspensas desde 91. 

Na época, a Organizacão Panamericana de Saúde (Opas) já constatara que sua eficácia era baixa em menores de quatro anos e quase nula em menores de dois. Mesmo assim, o Rio de Janeiro formalizou o pedido das vacinas. Consultei então quem entende do assunto, o professor e pesquisador Isaías Raw, do Instituto Butantã. Respondeu-me o professor Raw:

"A verdade é que a vacina cubana não imuniza crianças abaixo de dois anos (nem de quatro) onde a meningite B é mais freqüente e pode ser fatal. Crianças pequenas usualmente não respondem a polisacarídeos. Para maiores de quatro anos a vacina funciona, evitando que adultos espalhem a meningite para filhos, etc., o que não justifica o seu uso generalizado que deu a Cuba 250 milhões de dólares".

Há quem diga existir um viés ideológico na discussão a respeito dos médicos cubanos. Sem dúvida nenhuma. Prova disto são os gatos pingados que foram receber os 176 médicos que desembarcaram no Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, com bandeiras da UNE, do MST e da Associação Médica Nacional (AMN), entidade que reúne 650 brasileiros formados em medicina nas universidades cubanas.

“Não viemos para competir. Viemos trabalhar junto e esperamos contar com o apoio de todo o povo brasileiro”, disse Alexander Del Toro, graduado há 17 anos, que se apresentou como natural do centro da ilha, região onde “repousam os restos mortais de Che Guevara”, o médico exemplo de militância pela integração latino-americana.

Médico também exemplo de médico assassino de gatilho fácil, que admitia serenamente, em dezembro de 1964, na sede da ONU:

- Fuzilamentos? Sim, temos fuzilados, fuzilamos e seguiremos fuzilando sempre que necessário, nossa luta é uma luta à morte.

Que um médico cubano defenda Che ou o regime castrista no Exterior, entende-se. Ele é refém da ditadura. Espantoso é ver alguém no Brasil defendendo Cuba e o Che, 24 anos após a queda do Muro, 22 anos após a dissolução da União Soviética, em suma, duas décadas após a derrocada do comunismo.

Leitor de Dom Pedrito me acusa de radicalismo. Que radicalismo, companheiro? Resta alguma dúvida sobre a ineficácia das famosas vacinas cubanas? Que os médicos sejam pagos, muito louvável, digno e justo. Mas financiar uma ditadura? E se o Pinochet, em sua época, tivesse enviado médicos chilenos ao Brasil, ficando com 50 ou mais por cento de seus salários, você defenderia a vinda dos médicos chilenos? 

Enfim, numa cidade que tem uma rua em homenagem a Che Guevara, não é de espantar que existam defensores da Disneylândia das esquerdas. O que redime um pouco os pedritenses é que, na falta de informaçõe sobre o guerrilheiro, a rua acabou sendo a Rua do Che, o que naquelas plagas passa a ter outro sentido.

Sempre houve uma complacência generalizada contra a corrupção que envolve Cuba. Em 2000, manifestantes do PT, CUT e MST organizaram em São Paulo o Dia do Basta. O protesto denunciava, entre outros escândalos, o desvio de 169 milhões de reais na construção de um prédio do TRT, pelo ex-juiz do Trabalho Nicolau dos Santos Neto - Lalau para os jornalistas -, na época foragido há três meses. No mesmo dia, o MST invadia em Recife, com coquetéis molotov, um cargueiro de bandeira liberiana que transportava milho transgênico, importado como ração animal.

Ora, o rombo produzido pelo Lalau, em moeda forte, era de 89 milhões de dólares. Apenas um terço do que foi tungado do contribuinte brasileiro para a compra de um placebo socialista. Esplêndido país, este nosso: suas crianças estão expostas à fome e à delinqüência nas ruas e seus dirigentes se dão ao luxo de financiar uma ditadura no Caribe. Contra aquela corrupção, nem a imprensa nem as oposições pediram investigação.

Como tampouco pedirão sobre esta. Dona Dilma, extração da geração que louvou Castro, Che e a revolução cubana, acusa de preconceito os brasileiros que protestam contra o trabalho escravo dos médicos cubanos e deles exigem tratamento igual ao dispensado aos brasileiros. 

A presidente defende, não os médicos cubanos – que não têm culpa de sua condição – mas a mais antiga ditadura do Ocidente.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Barroso diz que Genoino não lucrou com a vida pública. Robespierre também não!

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso defendeu, durante a sessão desta quarta-feira, a figura de José Genoino, ex-presidente do PT e um dos condenados no processo do mensalão. Para ele, Genoino é um homem que “jamais lucrou com a vida política”.
Eu lamento condenar alguém que lutou contra a ditadura quando isso implicava grandes riscos, alguém que participou da Constituição democrática do país e que é um homem que, segundo todas as fontes confiáveis, leva vida modesta e jamais lucrou com a vida política.
O ministro adere, pelo visto, à tese de que a corrupção só é execrável quando visa ao enriquecimento pessoal. Mas isso não é verdade! Larápios muitas vezes são menos perigosos do que seres imbuídos de ideologia fanática, que partem da premissa de que seus nobres fins justificam quaisquer meios.
Robespierre, não custa lembrar, foi apelidado de “O Incorruptível”. Isso não o impediu de degolar milhares de inocentes e instaurar o Terror na França. Tampouco consta que Lênin ou Hitler fossem ladrões de galinha, interessados em acumular bens e riqueza para si próprios. Eram almas sedentas pelo poder.
A ideologia pode ser bem mais arriscada para a democracia do que a roubalheira. Genoino, não vamos esquecer, lutou a vida toda pelo regime comunista, que sempre deixou um rastro de miséria, escravidão e terror por onde passou. Comunistas sempre foram mais perigosos do que simples corruptos.
O PT demonstrou ser uma ameaça bem maior do que o PMDB para nossa República. Barroso, ao endossar o discurso do próprio PT, de que seu histórico estava salvo pois os líderes do mensalão não o praticaram para encher o próprio bolso, comete um grande equívoco.
Em sua fala, Barroso atacou, mais uma vez, o sistema político brasileiro, ao qual classificou como “indutor da criminalidade”:
De um lado, há parlamentares eleitos em campanha com custos estratosféricos que transformam o Parlamento num balcão de negócios. Não é de se estranhar que foram condenados nesse processo, por corrupção passiva, lideranças de vários partidos. Enquanto que, por outro lado, foram condenados por corrupção ativa líderes do governo querendo implementar sua agenda política.
Para o ministro, “o sistema politico reprime o bem e potencializa o mal”.
Se não alterarem o sistema eleitoral e partidário, essa lógica de compra e venda irá continuar como água torrencial que escorre. A corrupção encontrará caminhos nos desvios — disse, citando possíveis caminhos: o financiamento eleitoral, emendas orçamentárias que beneficiam empresas de fachada, licitações superfaturas, subfaturadas ou cartelizadas.
Uma vez mais, Barroso equipara o mensalão a casos comuns de corrupção, de desvio de recursos, o que não é verdadeiro. Foi uma tentativa de golpe na democracia. Ao culpar o sistema, o ministro alivia a intenção nefasta dos mensaleiros, que montaram uma quadrilha para usurpar o poder democrático e concentrá-lo todo em suas mãos. Barroso presta um desserviço ao país agindo dessa forma.

 Rodrigo Constantino

Os limites entre a ética e a hierarquia, por Rodrigo Constantino

O pai do diplomata Eduardo Saboia, o embaixador aposentado Gilberto Saboia, tocou em importante ponto quando disseque “respeitar os limites entre a ética e a hierarquia é fundamental”. Ele explicou:
Colocar meu filho como bode expiatório seria lamentável! Entendo que a presidente está aborrecida, mas peço que faça uma análise desapaixonada de toda essa questão. Que entenda que nada do que foi feito, foi ou será dito, tem como alvo seu governo. Eu e meu filho somos altamente disciplinados. Mas respeitar os limites entre a ética e a hierarquia é uma coisa fundamental.
A diplomacia é caracterizada pela discrição, respeito à hierarquia e aos protocolos. Mas em alguns momentos, o diplomata terá de fazer uma escolha entre a obediência cega e a ética. Ainda que pague um preço individual por tal escolha, é ela que vai separar o homem do robô autômato.
No limite, podemos pensar na “banalidade do mal”, descrita pela filósofa Hannah Arendt na análise do julgamento de Eichmann. Sua constatação foi justamente a de que se tratava de uma pessoa comum, seguidora de ordens, obediente à hierarquia sem questionamento.
Fazia apenas aquilo que Hitler mandara, logo, não se via culpado de nada, de nenhum ato monstruoso. Mas claro que isso é absurdo. Afinal, como sabia Viktor Frankl, “entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha”.
Somos portadores de uma consciência, de um senso de ética, que deve ser o filtro, em última análise, de nossas ações. É muito cômodo alegar que apenas seguimos ordens, mesmo quando são para realizar atos monstruosos.
E o governo Dilma, por pura afinidade ideológica ao de Evo Morales, estava prestes a obrigar o diplomata a algo monstruoso: após mais de 450 dias confinado na embaixada, em um prédio isolado no centro da cidade, em uma pequena sala, o governo Dilma nada fez para resolver a situação, mesmo quando o quadro de saúde do “prisioneiro” se agravava.
A escolha de Saboia foi pessoal, ao que tudo indica, e heróica. O heroísmo, afinal, é quando agimos pela ética, mesmo contra nossos possíveis interesses. Saboia colocou sua carreira segura em risco, comprou briga com gente poderosa, mas fez o que achou certo. Eticamente falando, o foco humanitário de sua ação, a despeito da hierarquia, parece correto.
Nem sempre será fácil traçar essa linha divisória entre a ética e a hierarquia. O caso Snowden vem à mente. O risco dessa postura é cada um se sentir livre para agir como bem lhe aprouver, e considerar que seu ponto de vista é o ético. Pode haver erro de cálculo, sem dúvida. Vidas inocentes podem ser colocadas em perigo. Sua visão de patriotismo ou ética pode ser equivocada.
Feita a ressalva, tudo aponta, no caso Saboia, para um acerto em sua decisão. Ainda mais quando sabemos – e ele mesmo diz ter as provas – que o governo Dilma colocava outras prioridades acima da vida do senador boliviano perseguido pelo governo Morales. Se o andar de cima da hierarquia joga no lixo a ética, por interesses ideológicos apenas, então parece evidente que cabe ao próprio diplomata resgatá-la.
Foi o que fez Saboia. Provou não se tratar de um simples Eichmann, guardadas as devidas proporções. Merece nosso reconhecimento por sua atitude corajosa e ética.

Muito bem, conselheiro Sabóia, por Erico Valduga

Os bolivarianos querem a extradição do senador Roger Pinto? A Itália também quis a do assassino e falsário Césare Battisti, mas Lula da Silva não deixou

Chefes da cadeia de comando da Defesa foram alertados por adidos militares que o conselheiro da embaixada em La Paz, Eduardo Sabóia, traria o senador boliviano Roger Pinto para o Brasil. A notícia saiu no Estadão de ontem, e foi repetida hoje. Ante a irritação de Dona Dilma, no entanto, o alerta parece não ter sido encaminhado ao Palácio do Planalto, de onde o assessor internacional da presidência da República, o petista Marco Aurélio Garcia, instrumenta o projeto de instalação do marxismo na América do Sul, segundo as linhas do Foro de São Paulo. O fato, prezados leitores, é que, por razão humanitária ou não, Sabóia solucionou com determinação e coragem o que o nosso governo tardou 452 dias e não resolveu, que é o cumprimento dos tratados internacionais (e latino-americanos, assinados inclusive pela Bolívia) que regulam o princípio do asilo político. Se nem isso consegue fazer, para quê a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU? Deve ser para poder vetar sanções contra os governos companheiros.

Não é de hoje, no entanto, que a diplomacia brasileira vacila. Não é falta de competência, e sim da orientação companheira do Executivo imperial. Lembrem-se episódios recentes, como a tímida reclamação verificada quando o tiranete Evo Morales promoveu a invasão e a expropriação da refinaria da Petrobrás na Bolívia; a revista no avião da FAB que transportou a La Paz o então chanceler e hoje ministro da Defesa, o também petista Celso Amorim, para ver se ele não estaria contrabandeando o mesmo senador, já asilado na nossa embaixada; a detenção injustificada por 150 dias dos torcedores corintianos; e as arbitrariedades que continuam ocorrendo, impunes pelas autoridades bolivianas, contra cidadãos brasileiros na fronteira dos dois países. O conselheiro pode ter tomado o freio nos dentes, sim, e até ser punido por isto, se for o caso, mas nos ajudou a recordar como cidadãos de bem se comportam, quando necessário.

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LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.