segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os órfãos de junho

José Roberto de Toledo - O Estado de S.Paulo


Um a cada três eleitores brasileiros está sem candidato a presidente - mesmo depois de ser confrontado com a lista de presidenciáveis pelo Ibope. Ele já foi simpatizante de Dilma Rousseff (PT), antes dos protestos. Desiludiu-se, manifestou-se nas ruas e aderiu a Marina Silva (sem partido). Cansou. Agora, não sabe em quem votar. É o órfão de junho.

Essa orfandade não vai durar para sempre, porém. A história mostra que dois de cada três desses indefinidos vão acabar escolhendo um candidato, mesmo que na última hora e na base do "mal menor". Isso provoca dois efeitos.

O primeiro é precipitar análises aritméticas de que Dilma Rousseff se elegeria no primeiro turno. A conta pode estar certa (porque ela supera a soma dos votos dos rivais), mas a conclusão é simplista - como veremos mais à frente. O segundo e mais relevante efeito é que para onde penderem os órfãos, penderá a eleição.

As taxas de votos brancos e nulos somadas não chegaram a 10% nas eleições presidenciais de 2010 - nem na de 2006. Na mais recente pesquisa Ibope, 15% declaram a intenção de anular. Mas o histórico mostra que essa proporção deve baixar em pelo menos um terço até a hora de o eleitor votar.

O Ibope encontrou essa mesma taxa de branco/nulo em setembro de 2009, faltando os mesmos 12 meses para a eleição de 2010 que restam para a eleição de 2014. Está tudo dentro do script.

Tampouco a abstenção tem sido uma forma de protesto no Brasil. Descontados os fantasmas - que morreram, mas continuam vivos e saudáveis no cadastro da Justiça Eleitoral -, a taxa de eleitores que deixam de votar é inferior a 10%. Ela se distribui de forma razoavelmente homogênea pela sociedade, o que significa que não tende a prejudicar mais um candidato do que outro.

Tudo isso considerado, conclui-se que 20% do eleitorado está à deriva e pode, em tese, migrar para qualquer das candidaturas. É voto suficiente para levar até o mais nanico dos candidatos ao segundo turno - e, eventualmente, elegê-lo presidente. Isso não tira o favoritismo de Dilma, mas o coloca em perspectiva.

Esses órfãos podem voltar para o colo da petista e elegê-la no primeiro turno? Sim, mas a presidente terá primeiro que reconquistá-los. E ela está tentando.

Não foi por acaso que Dilma ressuscitou, justamente agora, sua conta no Twitter - depois de ter abandonado a rede social onde foi muito popular durante a campanha de 2010 e da qual se retirou sem dar qualquer satisfação logo que chegou ao poder.

Reforçar a presença online é uma tentativa de atingir o público que frequenta o Twitter e o Facebook com mais assiduidade: os "jovens" de menos de 45 anos. Foram eles que marcharam em junho. É entre eles que a taxa de branco/nulo se destaca. É com eles que a presidente tentará dialogar. Mas não falarão sozinhos.

Aécio Neves (PSDB) lançou uma estratégia de comunicação na semana anterior que se explica pelo nome, com direito a hashtag: #vamosconversar. O tucano também percebeu que tem uma oportunidade de crescer se alcançar esse eleitor desamparado. Está apelando às redes sociais para chegar mais perto dele.

Eduardo Campos (PSB), por enquanto, mostra-se mais preocupado em conquistar a simpatia dos donos dos prédios da avenida por onde passou a maioria dos protestos em São Paulo, a Paulista, do que se aproximar dos manifestantes. Mas é por saber que eles estão órfãos que o presidente do PSB tirou seu partido do governo e demonstrou que é de fato candidato contra Dilma.

Já Marina Silva parece ter acreditado que os órfãos adotariam sua Rede por inércia. Não adotaram. Nem assinaram fichas em quantidade suficiente para superar os riscos inerentes a quem desafia tucanos e petistas ao mesmo tempo. Agora é Marina que se arrisca a ficar órfã na eleição.

LULA, GARBOSO, SERÁ O GRANDE CABO ELEITORAL DE DILMA, por Pedro Luiz Rodrigues



Lula decidiu que já passou tempo suficiente nos bastidores e, sentindo-se curado do mal que o afligia, está de volta, sorriso largo, aos holofotes.

Não pensa, pelo menos até agora, em candidatar-se ele mesmo à Presidência. Assegura que sua máxima felicidade será ver sua pupila reeleita para o Planalto. Para ajudá-la, fará o que for necessário. Está decidido, será o principal cabo-eleitoral de Dilma Rousseff.

Este foi o principal recado que transmitiu Lula em na abrangente entrevista que concedeu a Tereza Cruvinel e a Leonardo Cavalcanti, publicada neste final de semana, no Correio Braziliense.

Exuberante, esbanjando energia e confiança – e se auto-avaliando como o mais extraordinário governante jamais havido no Brasil – o ex-presidente atuará como um verdadeiro Lula Rousseff durante a campanha: “Se ela não puder ir a um comício num determinado dia, vou no lugar dela!”

Como assegura que não lê o que publica a imprensa, Lula pode ser desculpado por não ter sido informado do levantamento recente do G1, com base em dados do Ministério do Problema, que concluiu que as principais obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) registram atraso médio de quatro anos em relação à data originalmente prevista de conclusão.

O PAC, admitiu ele na entrevista, não foi uma coisa planejada com profundidade, mas fruto das circunstâncias:” Eu receava que o segundo mandato fosse repetitivo, com ministros não querendo trabalhar. Foi aí que tivemos a ideia do PAC. Era o time do Barcelona”.

Mas planejada, ou não, a iniciativa ajudou-o a fechar 2010, último ano de seu segundo mandato, com um crescimento do PIB de 7,5% (depois de praticamente zero em 2009 e cerca de 5% em 2008). Com Dilma, não precisamos nem falar, o País estancou.

Lula não culpa Dilma pelo desempenho sofrível da economia brasileira nos últimos três anos:”acho que poucos conseguirão repetir o que fizemos enre 2007 e 2010”.

É verdade, para fazer a economia andar, bilhões e bilhões de reais foram injetados em obras que até hoje se arrastam, sem conclusão, e sem data de entrega à sociedade que as financiou.

Pesquisa desenvolvida recentemente pelo Globo, mostra que das 42 obras com investimentos superiores a meio bilhão de reais instituías pelo PAC de Lula, exatamente a metade não foi ainda concluída, sendo que 40 já deveriam estar em funcionamento.

“Se os projetos de energia, que têm uma dinâmica própria, forem retirados da conta, restam 14 grandes projetos de infraestrutura (rodovias, ferrovias, hidrovias e infraestrutura hídrica), anunciados em 2007. Destes, só quatro foram inaugurados. Dos dez restantes, nove estão com seu cronograma atrasado em pelo menos três anos. Em alguns casos, como no do Arco Rodoviário do Rio de Janeiro, o atraso deve chegar a seis anos”, observa o referido jornal. Segundo o primeiro relatório do PAC de 2007, a obra deveria estar pronta desde 2010, mas a previsão mais recente do governo é que ela só seja concluída em 2016. Analisando caso a caso, a situação é ainda mais desalentadora quando o assunto é preço da obra. Os custos estimados dos 42 projetos já aumentaram R$ 100 bilhões de 2007 para cá.

Um liberal cada vez mais cético: entrevista para o EPL, por Rodrigo Constantino


Um liberal cada vez mais cético: entrevista para o EPL

Segue a entrevista que concedi ao EPL (Estudantes Pela Liberdade). Por Marcelo Lourenço:
Você escreveu um livro chamado “Economia do indivíduo: o legado da Escola Austríaca” e também é conhecido pela sua defesa do livre mercado, se baseando na maioria das vezes nos economistas austríacos. Onde você conheceu a EA?
No trabalho. Um dos sócios da gestora em que trabalhava era Paulo Guedes, doutor pela Universidade de Chicago. Foi ele quem me recomendou a leitura de Mises e Hayek. Comecei por “The Constitution of Liberty”, de Hayek, e fiquei encantado. A partir de então, fui descobrindo os demais autores e lendo, tanto os mais antigos (Menger e Bohm-Bawerk), como os mais novos. Eu já era um liberal, pois nunca fui outra coisa. Mas o contato com a EA me deu uma base e uma visão diferentes.
Há não muito tempo, você passou a se considerar um conservador, o que desagradou muitos, mas rendeu a admiração de outros. De onde partiu essa mudança?
Eu disse isso, mas não sei se sou um conservador, e tenho receio de rótulos. Ainda me considero um liberal, mas há diferentes tipos de liberais. Sempre fui mais cético, avesso às utopias. E isso me aproxima de uma linha mais conservadora, que rejeita revoluções, soluções mágicas ou definitivas. Não sei dizer o que me trouxe aqui, mas diria, para irritar um pouco mais os colegas libertários radicais, que foi maturidade. Uma filha pré-adolescente também te faz enxergar o mundo com mais atenção no que diz respeito aos valores morais e o entorno. Boas leituras também me ajudaram, como Theodore Dalrymple, Kirk, João Pereira Coutinho, entre outros. O que significa ser um liberal com tendências um pouco mais conservadoras? Que você irá rejeitar revoluções, que será cético contra utopias, que não pensará que basta acabar com o estado que tudo será uma maravilha, que certas tradições são fundamentais para preservar nossas liberdades, que não existe algo como “liberdade plena” na vida em sociedade, que a razão é limitada e devemos tomar muito cuidado com a “arrogância fatal”, de que falava Hayek.
O seu novo livro, Esquerda Caviar, é caracterizado por Luiz Felipe Pondé como “uma pérola em meio ao mar de obviedades e mentiras comuns na literatura ‘intelectual’ nacional.” Comente sobre sua nova obra.
Considero meu melhor livro de longe, e também o mais conservador. É um ataque fulminante à hipocrisia daqueles que valorizam mais as aparências do que os resultados concretos de suas ideias. Querem apenas monopolizar as boas intenções e buscar o regozijo pessoal dessa sensação de superioridade moral proveniente apenas dos discursos retóricos. Os chamamos de “posers” nas redes sociais. Amam as causas nobres, desde que não precisem gastar duas calorias para defendê-las, e que não precisem realmente viver de acordo com elas na prática. O capítulo que mais vai incomodar alguns libertários é justamente aquele que fala de uma postura que os aproxima da esquerda: o pacifismo. Geopolítica não é para românticos ou inocentes, que habitam o fantástico mundo das torres de marfim. Guerra se vence ou se perde. Não dá para ser contra tudo e todos que estão aí, sem tomar algum partido, quando a própria sobrevivência está em jogo.
Um detalhe importante: conforme dito acima, Esquerda Caviar é o meu livro mais conservador, mas não acho que um liberal vá discordar de muita coisa. Posso ter carregado mais no ataque aos que tentam degradar valores morais e culturais, mas compreendo que isso não precisa ser bandeira exclusiva dos conservadores. Liberal não tem que ser sociopata. O entorno tem influência em nossas vidas. Se os valores estéticos desaparecem, isso tem impacto nos valores éticos também. A ditadura do politicamente correto é duramente condenada no livro, e isso deveria ser do interesse dos liberais e libertários também. Os movimentos coletivistas racial, sexual e de gênero também podem e devem ser combatidos pelos liberais. Não é atacar o gay, por exemplo, mas o movimento gay. O gay, enquanto indivíduo, merece respeito dos liberais. O movimento não. São coisas bem diferentes.
Recentemente você assumiu a presidência do Instituto Liberal, uma organização que fora muito influente quando estava sob o comando de seu fundador, Donald Stewart Jr., mas que nos últimos anos esteve pouco atuante. Como você, agora na presidência, pretende continuar o grande legado desse Instituto?
Nosso foco principal tem sido o blog, em uma linguagem dinâmica voltada para um público mais jovem. As redes sociais são nossa grande oportunidade. Com custo reduzido, podemos ter um alcance maior. O IL se tornou uma espécie de “vigilante da mídia”, trazendo alguns textos diários sobre temas do cotidiano, sempre com uma lupa mais liberal e crítica, pois a grande imprensa tende a ser mais de esquerda. Palestras têm sido realizadas pelo Brasil também. Na frente, queremos voltar a publicar livros, talvez uma revista eletrônica, ter inserção na rádio e na TV. O principal é divulgar os valores liberais. Os instrumentos podem variar.
Há dois meses você iniciou o seu blog no site de Veja, que conta também com outros blogueiros, como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Caio Blinder. Como está sendo essa experiência?
Fantástica. Adoro o que faço, e a vantagem do blog é sua informalidade. É um bate-papo com meus leitores, e isso é muito legal. Só que nunca trabalhei tanto na vida. Não há horário. A qualquer momento posso escrever um texto novo. A linha divisória entre semana e fim de semana desaparece um pouco. E assunto é o que não falta nesse país. Resultado: tenho escrito uma média de 5 a 10 textos por dia! Mas a reação tem sido positiva. O blog nasceu com 850 mil visitas no primeiro mês, e repetiu o montante no segundo. É uma audiência respeitável, e uma incrível oportunidade para divulgar as ideias liberais. Quando que os austríacos teriam tanto espaço assim no “mainstream”? Ventos de mudança? Espero.
O senhor criou algumas desavenças com os libertários/anarcocapitalistas, aos quais tece muitas críticas. Em seu ver, qual o grande problema nos admiradores de Rothbard e Hoppe?
A intolerância. Quando o sujeito pensa que descobriu uma pedra filosofal, uma receita mágica que responde tudo, um critério ou um único valor ético absoluto que servirá de base para definir todos os aspectos da vida em sociedade, ele passa a ser intolerante com as divergências, com a pluralidade. A vida é mais complexa que isso, conta com valores em choque, muitas vezes incomensuráveis, em conflito insolúvel. Há apenas “trade-offs” nesses casos, não soluções. Essa deve ser, em minha opinião, a postura realmente liberal. Mas alguns “ancaps” não aceitam isso, pois eles “sabem” o que é certo, em todos os casos, sempre, com base nessa receita de bolo simples (simplista). É limitado demais, até infantil. E essas pessoas acabam flertando com um radicalismo que me parece incompatível com a postura mais humilde do liberalismo.
Quais são os pensadores que melhor representam o seu pensamento político e econômico como um todo?
Difícil dizer, mas poderia colocar uma lista de importantes influências: Thomas Sowell, Isaiah Berlin, Ludwig von Mises, Hayek, Ayn Rand, Theodore Dalrymple, Mario Vargas Llosa, Karl Popper, Milton Friedman, Nelson Rodrigues, Roberto Campos e Luiz Felipe Pondé, para incluir autores brasileiros.
Em sua opinião, qual a importância do EPL, uma redes estudantil que busca a propagação das ideias de liberdade na universidade?
A importância é enorme. Acredito muito no poder das ideias, e acho que temos que mudar a mentalidade das pessoas, levar a mensagem liberal para mais gente. Isso é fundamental para mudar os rumos do país: investir em ideias! Sem isso, seremos prisioneiros dos mesmos equívocos ideológicos que têm atrasado nosso país. Os jovens precisam ter acesso a outra visão além da marxista ou keynesiana predominantes nas universidades.
Considerações finais do entrevistado.
Agradeço pela oportunidade e pelo espaço, e gostaria de finalizar fazendo um apelo: não se fechem em sistemas completos, que possuem todas as respostas para a complexa vida em sociedade. E também não leiam apenas aqueles autores que reforçam as crenças pré-estabelecidas. Inclusive, acho muito saudável ler coisas fora do tema específico, como literatura ou psicologia (Freud). Isso dá uma abrangência maior, um escopo de visão mais robusto para apreender o mistério da vida humana. Devemos ter nossas convicções, após bastante reflexão, mas sempre buscar entrar em contato com o contraditório para mudar ou fortalecer nosso ponto de vista. Mantenham a cabeça aberta. Mas como diria Chesterton, também não tão aberta a ponto do cérebro cair fora dela!

Reynaldo-BH: Pílulas do doutor cubano

REYNALDO ROCHA
1) Dá para desculpar quem entrou no PT há 10 anos. Mas, e hoje? Alguém poderá alegar mais tarde que estava enganado?
2) Antes de exigir da NSA que pare de espionar Dilma, daria para pedir à CEF que pare de espionar caseiros?
3) O foguete do Cristo Redentor caindo na capa da revista The Economist explica a subida dos que ganham mais?
4) Alguém já imaginou alguma ligação entre o número de analfabetos crescendo no Brasil e a celebração da ignorância amparada por Bolsas – Família, Sofá, etc?
5) Quantos votos serão necessários para que Celso de Mello seja execrado pelo PT?
6) As entidades de defesa dos negros do Brasil (a maioria vivendo de dinheiro público) informam: Joaquim Barbosa não é negro. Começou a desbotar em 2012 e hoje é considerado cinza intenso. Está explicado o silêncio?
7) Antonio Patriota ─ seguindo a lógica do Brasil ─ sofre de amnésia. Na sabatina do Senado, esqueceu-se da Bolívia. Ou teria sido um truque para preservar a sanidade mental?
8) Cada qual escolhe o conselheiro que mais admira. Henrique Alves parece que só ouve o Bode Henriquim… Fica tudo explicado. Até a existência na Câmara dos Deputados de mensaleiros Henriquim é mesmo o bode expiatório… Brasil, país da piada pronta (apud José Simão).
9) Restringiram a saída de presos das cadeias. Uma compensação por deixarem os congressistas soltos?
10) Dilma demorou três anos para aprender a usar o Twitter. Vai passar 4 anos tentando entender o que é governar um país. E não vai conseguir.
11) Ciro Gomes, irmão de Cid da Sogra, chama Eduardo Campos de canalha. Impressionante como os iguais se reconhecem. A sorte do Ceará é os Gomes são somente dois…
12) Uma dúvida: Zé Dirceu voltou a namorar a Rose? Está tão calado como Lula por ter pedido a prenda de volta?
13) E a fixação de Zé Dirceu com secretárias? Apareceu mais uma, agora no Senado de Renan. Mais uma paga com nosso dinheiro. Quem vai herdar a prenda?
14) Novo partido na praça (a R$ 3,75 o voto): PROS. Quando vai ser criado o CONTRAS?
15) E a REDE?  Um partido que não consegue nem obter o registro certamente terá dificuldades para conseguir até os votos dos próprios candidatos.
16) Evo Morales, a lhama andina, quer tirar a ONU de New York. Precisa combinar com Dilma, que tirou férias na cidade e atrasou o voo de volta em 5 horas para passear num museu. Esses bolivarianos precisam se entender ou consultar algum passaralho venezuelano. Maduro diz que ele sabe.
17) Por que todo filho de stalinista prefere ir à Disney em vez de cortar cana em Cuba e comprar charutos no mercado negro?
18) Os médicos de Cuba entendem perfeitamente a língua portuguesa. Estudaram por mais de um ano o que Dilma fala. Estão no mesmo nível dos lulopetitas. Eles não dizem coisa com coisa e quem os ouve tem a mesma expressão de quem escuta um discurso da gerentona. Um caso clássico de nada sobre coisa alguma.

TED CRUZ & LÊNIN, por Caio Blinder

Lênin tem seguidores no Texas
Lá vou de novo para a casca de banana, não para escorregar, mas para ver os EUA fazerem isto enquanto prossegue a contagem regressiva (o primeiro minuto de terça-feira) para a paralisação parcial do governo. Os republicanos perseveram levianamente com sua estratégia de terra arrasada: sem corte dos fundos ou adiamento do plano de saúde  (o Obamacare), nada de grana para várias operações de funcionamento do governo.
Este duelo é apenas ensaio para a crise da pesada em meados de outubro envolvendo a elevação do teto da dívida. Barack Obama faz o que qualquer presidente responsável faz: nega-se a negociar nestes termos. Ele não pode se submeter à chantagem dos radicais do Tea Party, que tomaram os lideres republicanos (e o resto do país) como reféns.
E lá estava ele de novo, o líder da insurgência, o senador republicano Ted Cruz, com sua cara de pau, estrela dominical na televisão, dizendo que o fechamento será culpa do governo, que o país é refém do absolutismo dos democratas e que as lideranças do partido de Obama recusam o compromisso. Ele arremata que o outro lado recorre à “força bruta”.
Cruz é o cara de pau acusando o plano de saúde de ser parte de um rolo compressor socialista que vai esmagar as liberdades americanas. O plano foi aprovado há três anos pelo Congresso e chancelado pela Corte Suprema. Este texto afiado de Edward Luce, do Financial Times (será um jornal socialista?) desmistifica a narrativa do cara de pau. Confuso como pode ser para os americanos, o Obamacare é uma reforma relativamente moderada, na qual os planos de seguro médico, subsidiados ou não, são oferecidos pelo setor privado, sem opções públicas.
Se é para caricaturar, vamos fazer isto com Ted Cruz. Eu já escrevi que ele é Sarah Palin com diploma de Harvard (sem limites para a demagogia populista e a autopromoção). Se ficasse apenas nisso, mas é pior. Ted Cruz, no final das contas, é leninista. Ele é adepto do cenário do quanto pior, melhor (dane-se se for um Deus-nos-acuda global se os EUA derem calote), considera-se líder de uma vanguarda que vai derrubar o velho regime e usa de maquinações para semear divisões entre os próprios republicanos para assumir o controle do partido. Não há espaço para se criar nos EUA um poderoso terceiro partido (genuinamente revolucionário), então o negócio e transformar o Partido Republicano em uma implacável máquina política à imagem do Tea Party (hoje esta vanguarda revolucionária, na narrativa de Ted Cruz).
Para tal, é preciso fazer expurgos e se livrar do que restou de moderados no Partido Republicano. Infame, Ted Cruz rotula de apaziguador quem não concorda com ele, traçando paralelos com a véspera da Segunda Guerra Nacional. Obama é uma espécie de Hitler, líder de um nacional-socialismo, e o resto da classe política é uma versão moderna de Neville Chamberlain, enquanto Cruz, o nosso Lênin texano, se acha uma espécie de Churchill, pedindo sangue, suor e lágrimas para a salvação nacional.
Falando em oratória, na próxima vez que fizer discurso de 21 horas no plenário do Senado contra os planos do governo Obama, Ted Cruz poderia fazer a seguinte citação: “Enquanto o estado existir, não haverá liberdade; quando reinar a liberdade, não haverá mais estado”. O autor não é Friedrich Hayek, mas Vladimir Lênin. Sobre Cruz, podemos dizer que ele é o mais novo cultor da doença infantil do radicalismo.

IPCC CONFIA NA FRÁGIL MEMÓRIA DAS GENTES , por Janer Cristaldo

Com o desmoronamento do comunismo, era preciso encontrar uma nova bandeira para enfrentar o Grande Satã, o capitalismo. A luta de classes, além de ser instrumento muito manjadO, morrera com o muro de Berlim. Desde há muito se sabia que a nobre classe proletária – tão orgulhosa de si mesmo no início do século – não queria ser proletária. Havia um desejo profundo de capitalismo em todo o mundo socialista, e a queda do Muro foi a gota d’água que transbordou do copo dos utopistas: milhares de alemães da RDA fugindo alegremente do paraíso socialista para o inferno capitalista.

Mentira morta, mentira posta. A grande ameaça deixou de ser o capital. Passou a ser o aquecimento global. O que no fundo dava no mesmo. Era a sociedade capitalista, com seus índices de consumo, o fator maior de aquecimento. Nem as vacas – que produzem carne, este luxo capitalista – foram poupadas. Suas flatulências destruíam a camada de ozônio. Por trás da nova denúncia, o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática, ligado à ONU).

O IPCC foi desmacarado em 2009, quando o famoso climatologista Phil Jones, diretor da Unidade de Investigação do Clima da Universidade de East Anglia, foi acusado de haver manipulado dados para exagerar os efeitos da mudança climática. Ele renunciou depois que foram divulgadas na internet mensagens que supostamente demonstrariam a fraude. Em um dos e-mails invadidos por hackers, Jones menciona um "truque" empregado para maquiar as estatísticas de temperatura para "ocultar uma redução".

Como na imprensa nada se conserva – tudo se esquece – o IPCC voltou à tona na sexta-feira passada, brandindo o velho e eficaz apocalipse. Segundo o novo relatório, as pesquisas mais recentes apontam que existe 95% de certeza do envolvimento humano no aquecimento global. E desta vez a denúncia é mais contundente. Há seis anos, quando o relatório anterior foi divulgado, a certeza era de 90%. Da manipulação de dados , descoberta há cinco anos, parece que ninguém lembra mais.

Jones era diretor da Unidade de Investigação do Clima da Universidade de East Anglia, um dos centros de maior reputação do mundo nesta área. Ele renunciou depois que foram divulgadas na internet mensagens que supostamente demonstrariam a fraude. Em um dos e-mails invadidos pelos hackers, Jones menciona um "truque" empregado para maquiar as estatísticas de temperatura para "ocultar uma redução".

A teoria do aquecimento global teve seu guru precursor, James Lovelock, inventor do Electron Capture Detector, aparelho que ajudou a detectar o (suposto) buraco crescente na camada de ozônio e outros nano-poluentes, considerado “uma das mentes científicas mais inovadoras e rebeldes da atualidade”, é o criador da chamada Hipótese Gaia, que vê a Terra como um organismo vivo.

Não há de novo sob o sol. Aliás, desde o Qohelet não havia. Já comentei há alguns anos. Lovelock chegou à conclusão que a raça humana está condenada. Que mais de seis bilhões de pessoas morrerão neste século. Enquanto caminhava em um parque em Oslo, declarou ao escritor americano Jeff Goodel:

- Até 2040, o Saara vai invadir a Europa, e Berlim será tão quente quanto Bagdá. Atlanta acabará se transformando em uma selva de trepadeiras kudzu. Phoenix se tornará um lugar inabitável, assim como partes de Beijing (deserto), Miami (elevação do nível do mar) e Londres (enchentes). A falta de alimentos fará com que milhões de pessoas se dirijam para o norte, elevando as tensões políticas. “Os chineses não terão para onde ir além da Sibéria”, sentencia Lovelock. “O que os russos vão achar disso? Sinto que uma guerra entre a Rússia e a China seja inevitável.” Com as dificuldades de sobrevivência e as migrações em massa, virão as epidemias. Até 2100, a população da Terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes – Canadá, Islândia, Escandinávia, Bacia Ártica.

Em entrevista para a Veja, em 2006, falando sobre seu livro A Vingança de Gaia, lançado naquele ano na Inglaterra, Lovelock brandia o apocalipse. O repórter, não por acaso um dos crentes no efeito estufa, queria saber quando o aquecimento global chegaria a um ponto sem volta. Respondeu o guru, com a convicção dos profetas:

- Já passamos desse ponto há muito tempo. Os efeitos visíveis da mudança climática, no entanto, só agora estão aparecendo para a maioria das pessoas. Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável antes mesmo da metade do século, lá pelo ano 2040.

- O que o faz pensar que já não há mais volta?
- Por modelos matemáticos, descobre-se que o clima está a ponto de fazer um salto abrupto para um novo estágio de aquecimento. Mudanças geológicas normalmente levam milhares de anos para acontecer. As transformações atuais estão ocorrendo em intervalos de poucos anos. É um erro acreditar que podemos evitar o fenômeno apenas reduzindo a queima de combustíveis fósseis. O maior vilão do aquecimento é o uso de uma grande porção do planeta para produzir comida. As áreas de cultivo e de criação de gado ocupam o lugar da cobertura florestal que antes tinha a tarefa de regular o clima, mantendo a Terra em uma temperatura confortável. Essa substituição serviu para alimentar o crescimento populacional. Se houvesse um bilhão de pessoas no mundo, e não seis bilhões, como temos hoje, a situação seria outra. Agora não há mais volta.

- O senhor vê o aquecimento global como a comprovação de que sua teoria está certa?
- O aquecimento global pode ser analisado com base na Hipótese Gaia, e, por isso, muitos cientistas agora estão se vendo obrigados a aceitar minha teoria.

Quem se viu obrigado a fazer meia-volta – quem diria? – e negar sua própria teoria, foi Lovelock. Como o planeta teimava em não aquecer-se, Lovelock confessou em abril do ano passado ter sido alarmista: "cometi um erro".

- O problema é que não sabemos o que o clima está fazendo. Pensávamos que sabíamos nos últimos vinte anos. Isto levou a alguns livros alarmistas – o meu inclusive – porque parecia óbvio, mas isto não aconteceu. O clima está fazendo seus truques usuais. Não há nada realmente acontecendo ainda. Já era para estarmos a meio caminho de um mundo tórrido. O mundo não aqueceu muito desde a virada do milênio. Doze anos é um tempo razoável... a temperatura permaneceu quase constante, enquanto devia ter-se elevado. O dióxido de carbono está aumentando, não há dúvida quanto a isso. 

Lovelock arrebanhou milhares de malucos no mundo todo que saíram a fazer campanhas para impedir a construção de barragens e hidrelétricas. Isso sem falar nos que condenavam a pecuária brandindo a flatulência das vacas como fator de aquecimento do planeta. Era tudo alarme falso. A retratação de Lovelock ocorreu há pouco mais de ano. Pelo que vimos nos jornais deste final de semana, a imprensa parece jamais ter tido conhecimento dela.

Com a morte do comunismo, uma outra religião laica tomou seu lugar. Lovelock via de um lado a emissão de gás carbônico (característica de países industrializados), desmatamento de biomas (característica também destes países), concentração de renda, consumismo e má distribuição da terra. De outro, a miséria e a exclusão humana. Traduzindo: militando no lado do Mal estão os países ricos. Os países pobres sofrem no lado do Bem. Se não me falha a memória, já ouvi essa tese. Data do século XIX, se bem me lembro. 

O homem que desenvolveu a tese absurda acabou por renegá-la. Ao IPCC isto tanto faz como tanto fez. Os neocomunas sabem – como também os antigos comunas sabiam – que curta é a memória das gentes. A imprensa continuará a bater na batida tecla como se nada tivesse acontecido.

domingo, 29 de setembro de 2013

Gustavo Franco em defesa da meritocracia

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco estreia hoje coluna mensal no GLOBO e noEstadão. E começou, literalmente, com o pé direito. Uma enfática defesa da meritocracia, um dos pilares fundamentais dos liberais e do bom funcionamento da economia. Eis alguns trechos que merecem destaque:
Parece haver algo de muito suspeito no reino das políticas públicas quando o talento, o das empresas e também o das pessoas, deixa de ser reconhecido e recompensado.
A mensagem típica nas medalhas concedidas a estudantes e esportistas, “honra ao mérito”, vem caindo em desuso com enorme velocidade, e dando lugar a uma nova cultura que canhestramente utiliza os dogmas da inclusão e da igualdade em detrimento de qualquer distinção pelo mérito; premiações e bonificações têm sido crescentemente tratadas como formas neoliberais de discriminação.
Tudo se passa como se a velha cultura do privilégio tivesse absorvido o “politicamente correto”, com temperos de populismo, e criado uma “neo-ideologia” cujo princípio fundador seria o seguinte: como todos os homens e mulheres são iguais, qualquer diferença de desempenho escolar ou profissional configura a presença de “desigualdade” prévia ao exame que caberia ao Estado corrigir ou compensar.
[...]
No caminho de nossa maior prioridade, o crescimento, há uma pedra, a produtividade, que permanece estagnada e nossos sindicatos não permitem que seus acordos coletivos incluam cláusulas prevendo remuneração proporcional ao desempenho. De onde pode vir o incentivo a fazer mais e melhor?
As bonificações têm sido um tema muito contencioso, por exemplo, nas negociações com sindicatos de professores, que resistem a esquemas remuneratórios que utilizem metas e avaliações. O noticiário sobre a greve dos professores do município do Rio de Janeiro registrou diversas faixas com dizeres como “abaixo a meritocracia”. A que ponto chegamos.
[...]
No terreno das empresas, a ideia de meritocracia vai pior ainda. O Brasil ocupa a posição 130 de 185 países em termos de “ambiente de negócios”, segundo o Banco Mundial, e a posição 100 em 177 países em “liberdade econômica” segundo o Wall Street Journal. E tem estado assim nos últimos 5 ou 10 anos sem nenhuma indicação de mudança.
A aversão ao empreendedor vem de longe. Referindo-se ao Segundo Império, o Visconde de Mauá dizia: “tudo gira, move-se, quieta-se, vive ou morre, no bafejo governamental”. Naquele capitalismo preguiçoso e patrimonialista não havia propriamente empresário, risco e empreendedorismo: as empresas eram emanações do Estado. Pior: o fracasso apenas poderia ocorrer por descuido governamental. O lucro era a justa consequência da regulação, e o prejuízo pertencia aos assuntos do governo, que devia sempre assumir a responsabilidade por indenizar os prejudicados pela omissão oficial em ajudar.
A atualidade do diagnóstico de Mauá, ainda que como caricatura, é perturbadora. O esforço para escapar dessa cultura, sobretudo durante a época das grandes reformas seguindo-se ao Plano Real, tinha como eixo básico mais meritocracia e menos privilégio, simples assim, e era subversivo à direita e à esquerda.
No presente momento, é bastante claro que vivemos um retrocesso. O governo interrompeu qualquer reforma que envolvesse mais mercado, concorrência e liberdade, e passou a desenvolver uma espécie de clientelismo empresarial pelo qual políticas e benesses seletivas se generalizaram, a mais importante das quais a proteção contra o demônio da concorrência.
[...]
É claro que esse governo não entende nada de capitalismo, ou quer inventar um novo e nem percebeu o tamanho das ambições empreendedoras que estão em todos os cantos do país. Suas relações com o capital têm sido tempestuosas, no mínimo, que o digam os milhões de empreendedores que estão suando a camisa nesse cipoal de impostos, fiscais e regulamentações. A mensagem, para esses, é que o campeonato não se decide no campo, na base da habilidade, jogo coletivo e pontos corridos, mas pelos cartolas em função de suas agendas. Basta ver como o governo trata os “times grandes”.
Se o mérito não readquirir precedência, para pessoas e empresas, não vamos a lugar algum.
RC

sábado, 28 de setembro de 2013

PARA ENTENDER O QUE GERA CUSTO NO BRASIL, Ibaneis Rocha



É quase impossível uma pessoa irritada contribuir positivamente com qualquer coisa. A presidente Dilma Rousseff provou isso na última terça-feira, durante sua viagem a Nova York, quando, ainda sob efeito das denúncias de espionagem eletrônica, resolveu comparar as profissões de advogado e de engenheiro.

Em palestra a investidores internacionais reunidos na sede do banco Goldman Sachs, a presidente apresentou o plano de investimentos em infraestrutura do governo e disse que não existe risco jurídico no Brasil. “Se existe um país no mundo que respeita contratos, esse país é o Brasil”. E completou: “É importante que os senhores percebam o grande desafio que há em um país que formava mais advogados do que engenheiros e que hoje está formando mais engenheiros do que advogados. Advogado é custo e engenheiro é produtividade”.

A presidente foi deselegante com profissionais que têm um histórico tão importante na construção da democracia deste país — basta lembrar quais foram as bandeiras empunhadas pela Advocacia em tempos recentes, inclusive no regime de exceção.

O que gera custo, no Brasil, é outra coisa. Comecemos pela burocracia governamental desmedida e a corrupção que se instalou em torno dela. Dados da Fundação Getúlio Vargas e de outros institutos ligados ao combate à corrupção indicam que anualmente são desviados dos cofres públicos algo em torno de 10 bilhões de reais. Há quem diga que é mais; nunca há, porém, quem diga que é menos.

Custosa e danosa ao Brasil é também a cultura estatal de se criar dificuldades para vender facilidades, com a qual tantos lucram muito em detrimento de um desenvolvimento pleno de uma nação.

A falta de vontade política de se fazer a essencial reforma tributária, há anos relegada a segundo plano por sucessivos governo, por exemplo, gera também muitos custos. Temos um dos piores sistemas de impostos e contribuições do mundo e uma das mais caóticas legislações tributárias – complexa, redundante, eivada de leis, decretos, portarias e outros diplomas, muitos dos quais contraditórios, a confundir os mais experientes advogados e juízes, que dizer então o cidadão-contribuinte? Aliás, este, além de se submeter a uma irracional cadeia de obrigações acessórias, convive com uma série de benefícios e favores fiscais dirigidos a segmentos econômicos com maior capacidade de contribuir.

O mais grave é que o sistema tornou-se terrivelmente injusto com os pobres – justamente o público que o marketing oficial escolheu para proclamar que “país rico é país sem pobreza”. Chega a ser irônico.

Aliás, são aos advogados que os contribuintes, pessoas físicas e jurídicas, acorrem contra os desmandos do governo nesta área.

O que dizer também das chamadas “inconstitucionalidades úteis”, ou seja, atos governamentais que se sabem inconstitucionais desde o nascedouro, mas que são levadas a cabo porque poucos batem às portas do Judiciário para reaver seus direitos?

Ou seja, quem gera custo: governo ou advogados?

Sem falar dos custos imensuráveis gerados pela política do toma lá, dá cá, que mantém os governos estaduais e municipais, bem como um Congresso Nacional muitas vezes submisso a uma política de compadres, comadres e companheiros.

À falta de uma reforma política sintonizada com os interesses da sociedade, a corrupção encontrou terreno fértil em nossa jovem democracia, nas deficiências das instituições e das leis, para alastrar-se. E de tanto se alastrar, na ausência de uma profilaxia efetiva, de um antídoto para o que chamamos de impunidade, transformou-se em pandemia. Dela resulta o drama do sem-teto, do sem-terra, do sem justiça; o drama da violência, do drogado, da criança entregue às ruas, da prostituição e da miséria.

Está lá, no artigo 133 da Constituição Federal: “O advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei”. De acordo com a presidente Dilma, os investidores devem saber que há segurança jurídica no país. Esta segurança é garantida por uma Justiça independente. E o advogado é indispensável por sua administração.

Logo, resta a pergunta: Como é possível considerar um custo o trabalho do profissional que ajuda a garantir justamente a estabilidade institucional que gera o bom ambiente de negócios que o Brasil precisa hoje?

Ibaneis Rocha é presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Distrito Federal (OAB-DF)

André Singer: a estranha “lógica” da esquerda, por Rodrigo Constantino

Em sua coluna de hoje na Folha, André Singer faz aquilo que a esquerda faz melhor: inverter totalmente as coisas. Ele consegue usar a terceira vitória de Angela Merkel na Alemanha como sinal de que os problemas europeus se devem ao fato de que a direita está no poder. Vejam:
Embora previsíveis, os resultados da eleição na Alemanha, no domingo passado, devem ser olhados com atenção, pois desenham um horizonte sombrio para os próximos anos. A estrondosa vitória de Angela Merkel representa um endosso para a destruição econômica imposta pelos alemães aos países do sul do continente, colocando em perigo a própria União Europeia (UE) e, talvez, provocando um perigoso antigermanismo nos vizinhos.
[...]
Os motivos desse relativo sucesso tornam duvidosas, porém, as condições de sua continuidade. Na área industrial, as empresas alemãs parecem estar ainda se beneficiando do pacote antitrabalhista levado a cabo sob o comando de Gerhard Schröder (SPD), nos anos 2000. Ao diminuir direitos da classe trabalhadora, embora restem muitos, rebaixou-se o custo da mão de obra, o que, somado ao aumento de produtividade, tornou as mercadorias alemãs mais competitivas.
[...]
Enquanto durar a hegemonia da direita na Europa, lugar em que a civilização mais avançou no planeta, as perspectivas gerais de progresso não serão boas.
Deixa eu ver se entendi: A Alemanha fez reformas liberais, tornou-se mais competitiva e consegue exportar muito mais para os vizinhos do que o contrário. O país em melhor situação econômica, financeira e social é justamente a Alemanha, que acaba de dar ao governo conservador de Merkel seu terceiro mandato, como prêmio.
Os demais países, incluindo a França do socialista Hollande, encontram-se em situação muito pior, com mais desemprego, menos competitividade, exportações menores, dívidas e déficit bem maiores. De quem é a culpa disso tudo? Da direita, ora!
A austeridade é o grande pecado, mas o país mais austero é o mais sólido e que sustenta os demais. A solução é o socialismo, o mesmo que afunda os vizinhos em crise. Guerra é paz, ignorância é conhecimento, diria Orwell. E socialismo é solução! Ainda que a austeridade conservadora seja o que sustenta os falidos socialistas…
Como a esquerda consegue inverter tanto a realidade? Como consegue, na maior cara de pau, afirmar que A é, na verdade, não-A? Em vez de os demais países mirarem na Alemanha como exemplo de sucesso relativo a ser seguido, é esta que deve ficar mais parecida com os outros, que estão falidos e dependendo de sua mesada. Que “lógica” mais esquisita!

INDÚSTRIA DA MISÉRIA É LUCRATIVA E JAMAIS SERÁ ERRADICADA , por Janer Cristaldo

Os cerca de 200 moradores de rua que haviam montado acampamento na Praça da Sé acordaram nesta quinta-feira,26, com a presença da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e equipes de limpeza da Prefeitura de São Paulo. A ordem era desmontar as barracas e liberar a área. É o que diz o Estadão, edição de ontem.

A equipe enviada ao local chegou de caminhão, que foi usado para retirar sacos plásticos, madeira, móveis e outros objetos. Alguns moradores saíam irritados, xingando o prefeito Fernando Haddad (PT) e dizendo não ter para onde ir. O jeito, disseram outros, era esperar a equipe da Prefeitura sair e voltar depois. Promessa que vários cumpriram no fim da tarde de quinta-feira.

A ocupação na Sé une usuários de drogas, meninos de rua e famílias desabrigadas. Muitos usam barracas de camping, distribuídas por igrejas e entidades assistenciais. Outros montam barracos de lona e madeira. Algumas partes da praça ficam completamente obstruídas e cheias de lixo.

A cracolândia, antes restrita às imediações da Santa Ifigênia, após as providências do governo para erradicá-la, espalhou-se pelo centro da cidade toda. Tomaram conta inclusive da Praça da Sé, cartão postal de São Paulo.

Em 2011, quando as autoridades tomaram as primeiras providências para erradicar a cracolândia – que já existia há mais de vinte anos sem restrição alguma – paguei para ver. A indústria da miséria gera lucros e jamais será erradicada.

ONDE SE VIU ACABAR COM A INDÚSTRIA DA MISÉRIA? * 

A Prefeitura de São Paulo quer retirar das ruas, à força se for preciso, usuários de drogas que recusem tratamento. A administração já busca uma alternativa jurídica para isso. É o que lemos na Folha de São Paulo de hoje. Segundo o prefeito Gilberto Kassab, a idéia é dar mais liberdade para as equipes de saúde e de assistência social da prefeitura poderem atuar com usuários de drogas. O alvo principal seria a cracolândia.

Pago para ver. A cracolândia existe há mais de duas décadas e só agora um administrador pensou em tratar do assunto. Antes tarde do que nunca, direis. Mas não vejo como reprimir o consumo da droga em Santa Ifigênia e liberar a marcha da maconha na avenida Paulista. A propósito, os marchadores da maconha parecem pretender estabelecer uma hierarquia entre maconheiros e fumadores de crack. Os maconheiros seriam seres moralmente superiores à turma do crack e não gostam de ser confundidos com estes.

A primeira marcha da maconha foi proibida pela polícia, enquanto a turma do crack acendia tranquilamente seus cachimbos na cracolândia. Ora, há apenas três ou quatro quilômetros entre a Paulista e a Santa Ifigênia. Bem que os Unidos na Cannabis podiam organizar sua marcha na cracolândia. Seria divertido ver a polícia permitindo o consumo de drogas em um lugar e, ao mesmo tempo e a três quilômetros dali, proibindo uma manifestação em sua defesa.

Em nome da liberdade de expressão, o Supremo Tribunal Federal decidiu recentemente liberar as tais de marchas da maconha. Desde que não se fizesse apologia da droga. Como se não fosse apologia da droga permitir manifestações em favor de sua descriminalização. As moscas tontas do STF estão se comportando como os teólogos bizantinos, que discutiam se deus era três em um ou um em três.

Cláudio Lembo, secretário de Negócios Jurídicos e ex-governador – o palhaço aquele que cunhou a expressão “elite branca” - disse estar conversando com o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e a Defensoria Pública sobre o assunto. Lembo pretende criar um "consenso jurídico" para embasar as ações da prefeitura. A indecisão é tal no que diz respeito à política ante as drogas que a Defensoria negou que esteja participando das discussões. O TJ não confirmou estar participando da discussão e o Ministério Público não respondeu.

Segundo Lembo, o principal argumento de quem é contrário à medida é que o direito à locomoção, ou "direito de ir e vir", não permite a retirada compulsória de pessoas das ruas. Ora, o que está em jogo não é o direito de ir e vir. Que vão e que venham, nada contra. Os defensores da cracolândia, ao que tudo indica, estão reivindicando um novo item a ser acrescido aos direitos humanos, o direito de deitar. Porque essa turma não vai nem vem. Estão jogados nas calçadas.

Ano passado ainda, a polícia andou retirando os zumbis do crack das ruas e os levou para uma delegacia. Para que, não sei, porque hoje ninguém mais é preso por consumo de drogas. Houve uma grita geral de assistentes sociais e agentes da saúde. Que a polícia estava minando a confiança que os drogados neles depositavam. Que droga não é questão de polícia, mas de saúde pública. Ou seja, que os zumbis permaneçam onde estão. 

Contei em crônica recente. Há alguns anos dei um chute em um mendigo que se atravessara na entrada de meu prédio. Ele reagiu prontamente: e o direito de ir e vir onde fica? O vagabundo, pelo jeito, entendia de direito constitucional. Claro que ali havia o dedo de alguma assistente social. Contei também a história dos mendigos que haviam sumido do largo Santa Cecília. Dia seguinte, uma assistente social bradava num jornaleco da paróquia: onde estão nossos mendigos? Quem os expulsou daqui? Queremos nossos mendigos de volta.

Ou seja, não há um efetivo interesse em retirar mendigos e drogados das ruas. Mendigos e drogados são altamente rentáveis. Há toda uma indústria da miséria que se locupleta com a miséria. Igrejas e ONGs recebem subsídios de sonho do Primeiro Mundo, particularmente da França, Holanda e Alemanha, para tratar da mendicidade. Sem mendigos, pas d’argent.

Mutatis mutandis, foi o que aconteceu com bin Laden. Os Estados Unidos enviavam milhões de dólares ao Paquistão para capturar bin Laden. Ou seja, o Paquistão precisava proteger o terrorista. Sem bin Laden, adeus dólares. Não por acaso, as autoridades paquistanesas estão prendendo os elementos anti-sociais que denunciaram o esconderijo da galinha de ovos de ouro.

A pretensão de Kassab é tão ridícula quanto o próprio Kassab, um político arrivista mais interessado em sua sobrevivência política do que na administração de São Paulo. Ao definir-se a favor da Marcha da Maconha, o ministro Celso de Mello considerou que a Constituição "assegura a todos o direito de livremente externar suas posições, ainda que em franca oposição à vontade de grupos majoritários”. Mello também classificou como insuprimível o direito dos cidadãos de protestarem, de se reunirem e de emitirem opinião em público, desde que pacificamente.

A decisão do STF de permitir a passeata em prol da maconha, a rigor libera passeatas em defesa de qualquer droga, seja crack, óxi ou cocaína. Não vejo como retirar drogados da rua quando, alguns quilômetros adiante, a polícia protege uma passeata em defesa da maconha. 

Com o aval da Suprema Corte. 

* 21/06/2011

PEDRO LUIZ RODRIGUES -BRASIL, O GRANDE CARANGUEJO QUE NÃO VAI PRA FRENTE



A publicação britânica The Economist, cuja primeira edição circulou em 1843, construiu uma extraordinária reputação de credibilidade nesses 170 anos pela qualidade da apuração de suas matérias e pela excelência de seu texto.

Não é por outra razão que empresas e governos a ela recorrem quando necessitam de informação fidedigna. Não é por outra razão, também, que empresas e governos bufam de contrariedade e furor quando vêm suas fraquezas e inconsistências expostas nas páginas do prestigioso jornal (seus editores rejeitam a classificação de ‘revista’.

Os bufantes, agora, são os governantes brasileiros. Em sua última edição, The Economist, conta para seus qualificados leitores espalhados no mundo todo, aquilo que nós, brasileiros e brasileiras mais ou menos bem informado(a)s , sabemos por experiência própria. O Brasil, mais por incapacidade administrativa do que por qualquer outra razão, está dilapidando o patrimônio econômico recebido de governos e gerações passadas, e comprometendo o bem-estar das gerações futuras.

Há três anos nosso país não sabe mais o que é avançar. O que temos feito é, como caranguejos no mangue, andar para os lados, aos trambolhões. Nosso crescimento anda em patamares rastejante. A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, da ONU) acaba de recalcular para baixo, mais uma vez, a projeção de crescimento do PIB do Brasil para 2013: agora, se tudo der certo, conseguiremos a façanha de crescer 2,5% este ano. Esse desempenho, na América Latina, só deverá ser melhor do que o de El Salvador e o da Venezuela.

O Governo, obviamente, vai fazer mais uma vez o que sabe fazer melhor: vociferar. Não custará muito e The Economist será apontada como agente de interesses escusos.

Mas a verdade é que não fizemos nenhuma reforma relevante nos últimos dez anos. Os governos do PT, em relação aos quais a sociedade brasileira deposita grande expectativa desde 2003, revelam uma extraordinária incapacidade de planejar e executar projetos e programas que não sejam apenas distributivos ou redistributivos. Quando a coisa é construir, seja lá o que for, pontes, estradas, ferrovias, telecomunicação ou melhorar a qualidade dos serviços (educação, saúde) mostram-se simplesmente ineptos. Como disse ontem, aqui, as obras se eternizam, nunca são concluídas, e seus custos escalam rumo à estratosfera.

Grave, também, como temos insistido ao longo dos últimos meses, é a perda de credibilidade de nossas autoridades econômicas. Como ninguém mais dá a menor bola ao Ministro Mântega, em particular quando se trata de projeções referentes ao crescimento de nosso PIB, quem surge agora no cenário, é o nosso diretor no Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil, Paulo Nogueira Batista , que ontem, no Rio, afirmou que a economia brasileira já mostra sinais claros de recuperação.

Não vale com eles discutir. O fim do ano está aí, quase chegando, os dados indicarão quem tem razão.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O inverno de esperanças perdidas, por Fernando Gabeira*

...Não é, porém, uma briga de gato e rato. É possível sobreviver a ela e lançar algumas ideias. Não sei se alguma força política conseguirá galvanizar o interesse dos eleitores. Mas eleições seriam bem interessantes se pudessem afirmar teses como os fins não justificam os meios...
Publicado originalmente no Estadão, "Opinião", e no site oficial de Fernando Gabeira,www.gabeira.com.br, 27 de setembro de 2013

Quando Celso de Mello lia seu voto no Supremo Tribunal (STF), eu visitava a trabalho um presídio da Paraíba. Como em todos os outros que visitei no Brasil, havia superlotação e dezenas de pessoas presas por lentidão da Justiça ou falta de advogado. Diante dos meus olhos, é evidente que a Justiça tarda a prender os poderosos e a soltar os desprotegidos.

Os que poderiam ser soltos num mutirão de Justiça continuam por lá. E o pior é que o nó no sistema penitenciário não se desata libertando alguns, porque há mais de 300 mil mandados de prisão não cumpridos. É um problema que empurramos para as novas gerações.

O voto de Celso de Mello encerrou uma fase. A nova agenda do STF, embora trate de problemas importantes para os interessados (aposentadoria, ressarcimento de planos econômicos), tende a ser uma espécie de Boa Noite Cinderela para os espectadores. A cena política já é comandada pelas eleições. A maioria das pessoas ainda não seu deu conta e muitos não vão interessar-se por ela quando chegar ao seu apogeu. Mas os passos são cadenciados pela busca de votos.
O governo não esconde seu jogo. O programa Mais Médicos trouxe um enfrentamento que talvez retarde a presença real dos médicos. Mas dá votos. É melhor um médico estrangeiro do que nenhum médico? Essa é a pergunta que realmente toca quem vive no interior.

A espionagem dos EUA é outro assunto em que o marketing político entra em cena. O Brasil tinha mesmo de protestar, mas não basta. Era preciso um projeto real de defesa de dados, que não existe. A uma reunião internacional sobre o tema o Brasil mandou uma estagiária. A mensagem clara que leio nisso tudo é: enfrentar os EUA dá votos, em especial quando nos espionam. Não importam os dados que possam levar, o importante é a oportunidade de enfrentá-los.

Os escândalos sucedem-se. Explodem no Ministério do Trabalho e no da Previdência, no Palácio do Planalto, mas são o tipo de notícia que você julga já ter lido antes em algum lugar...

Na reeleição, o governante ocupa o centro da cena, praticamente como candidato único. Os outros só saem da semiobscuridade quando o processo já é oficial. Eleições são corrida de longo alcance. Largar com muitos corpos na frente, uma grande vantagem.

Ainda que não haja grandes fatos novos no período, 2014 vem carregado de promessas: eleições, Copa do Mundo, julgamento (ufa!) do mensalão. Um dos grandes problemas de um clima eleitoral comandado pelo marketing é a falta de debates reais sobre os caminhos do País.

Estamos vivendo em muitas dimensões diferentes e a política não consegue integrá-las. O leilão do campo de Libra é um excelente motivo para avaliar o modelo do pré-sal. As gigantes americanas não vieram porque talvez preferissem o antigo regime de concessão. Outras empresas, principalmente chinesas, indianas e europeias, concorrem. Os chineses têm recursos e disposição para explorar o pré-sal. Mas, por outro lado, são menos pressionados pelo Parlamento e pela opinião pública de seu país - e essa pressão é uma das garantias nos cuidados ambientais. De qualquer modo, o pré-sal também será tema de campanha. Dilma orientou seus ministros a celebrarem qualquer leilão com otimismo.

…" O marketing político arrasta tudo para respostas simples, em que escolhe estatisticamente o lado a adotar. Se alguém diz que a Petrobras foi mal administrada e viveu um péssimo período nas mãos de PT e PMDB, a reação é: "Você está querendo privatizar a Petrobras?" Se afirmamos que o programa Mais Médicos apenas atenua o problema da saúde, sobrecarregada por ineficácia, corrupção e aparelhamento político, vem a contestação: "Você prefere ver os pobres sem nenhum médico?"..."


Embora deputados e senadores se batam pelos recursos do petróleo, ainda falta um debate sobre o futuro do pré-sal. Será que é toda essa maravilha? Eike Batista tombou no caminho, segundo ele, iludido por inúmeros pareceres técnicos animadores, pelo entusiasmo dos especialistas. Às vezes o otimismo não se concentra só no petróleo a descobrir, mas no futuro econômico desse recurso não renovável. O impulso chinês na área da energia solar e a intensa exploração do xisto pelos norte-americanos nos indicam um cenário cambiante, embora seja difícil projetar o impacto desses esforços por novas fontes.

O marketing político arrasta tudo para respostas simples, em que escolhe estatisticamente o lado a adotar. Se alguém diz que a Petrobras foi mal administrada e viveu um péssimo período nas mãos de PT e PMDB, a reação é: "Você está querendo privatizar a Petrobras?" Se afirmamos que o programa Mais Médicos apenas atenua o problema da saúde, sobrecarregada por ineficácia, corrupção e aparelhamento político, vem a contestação: "Você prefere ver os pobres sem nenhum médico?".

É um duelo que se estende por toda a campanha, sobretudo na economia. Reduzir os gastos da máquina? E o desemprego, os serviços básicos?

Não é, porém, uma briga de gato e rato. É possível sobreviver a ela e lançar algumas ideias. Não sei se alguma força política conseguirá galvanizar o interesse dos eleitores. Mas eleições seriam bem interessantes se pudessem afirmar teses como os fins não justificam os meios, o estímulo ao consumo não é o único dínamo de uma economia que precisa de investimento e educação, o Congresso não pode viver de joelhos diante do Planalto, a transparência e o acesso aos documentos públicos serão ampliados, os impostos serão devolvidos com serviços públicos decentes, política externa nacional, e não partidária. Um projeto desse tipo só é possível a um governo democrático no sentido de que não vê a sociedade só como consumidora de serviços, mas como importante personagem na mudança.

Numa banca de jornal no Rio, examinava capas de revistas e ouvi uma senhora dizer a outra: "Mensalão? Nem quero saber mais dessa história". Ela estendia sua rejeição a todo o sistema político. E deve ficar algum tempo assim. Cedo ou tarde, talvez no ano que vem, terá de voltar ao tema. Ela e milhares de outras pessoas vão perguntar se vale a pena o processo eleitoral. Essa é uma das grandes perguntas que o sistema político terá para responder em 2014. Mais ainda agora que caiu a ilusão sobre homens e mulheres de capa preta, embargos de declaração, recursos infringentes e tudo o mais.

Foi um longo inverno. Ao menos na natureza, podemos contar com a primavera.

* * *Fernando Gabeira*- é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Atualmente na Globo News, onde produz semanalmente reportagens sobre temas especiais, por ele próprio filmadas (no ar aos domingos, 18h30). Foi candidato ao Governo do Rio de Janeiro nas últimas eleições. Articulista para, entre outros veículos, O Estado de S. Paulo. Seu blog é no www.gabeira.com.br

Banana Republic, por Caio Blinder

Eu sei que a parte fácil é disparar a artilharia contra os republicanos neste novo capítulo da novela fiscal americana. Que país é este? Recheado de Banana Republicans, como este senador Ted Cruz, uma espécie de Sarah Palin com diploma de Harvard, também conhecido como Ted Cruz de la Mancha, com sua campanha quixotesca para destruir o moinho do plano de saúde do governo Obama.
O senador ficou tagarelando por 21 horas e 19 minutos no plenário como parte de sua campanha contra o plano de saúde (e também presidencial), para exasperação até de colegas partidários, até de colegas do Tea Party. Como ganhar a parada se o Senado tem controle democrata e o presidente o poder de veto? Sim, o Obama que foi reeleito em novembro passado. A arrogância de Ted Cruz anda na companhia de sua maquinação para simplesmente minar a legitimidade institucional. Banana Republicans,  se vocês não gostam do plano de saúde, ganhem as eleições (Casa Branca e duas Casas do Congresso) e mudem as leis.
Esta é a parte fácil. Os republicanos vivem na sua bolha. A cada seis meses, as crianças briguentas do Tea Party humilham o establishment do partido e fazem o país refém de suas ranhetices. Aconteceu agora com a pressão de dezenas de deputados do Tea Party, que forçaram o presidente da Câmara, John Boehner, a bancar o vai-ou-racha.
Tudo é muito perigoso neste pedido de resgate: autorização para gastos do governo (impedindo que ele feche na semana que vem) e para elevação do teto da dívida mais para o final de outubro apenas se forem eliminados os fundos para o plano de saúde ou que ele seja adiado. Um plano, vamos deixar claro, aprovado pelo Congresso e chancelado pela Corte Suprema. Nada mais espúrio do que vinculá-lo a decisões sobre orçamento e dívida que afetam a economia mundial. São Banana Republicans e provincianos.
Obama assinando o Obamacare
A parte complicada é como se chegou a isto. O plano de saúde foi um erro estratégico do governo Obama. Sugou seu capital político depois do triunfo eleitoral em 2008 e de controle democrata das duas Casas do Congresso. Deu alento para a oposição e foi fundamental para a consolidação do Tea Party, a tropa de choque dos republicanos. Agora, os republicanos controlam a Câmara, depois da vitória em 2010, em parte movida pela decepção com o plano, o Obamacare.
O plano é convoluto, tem falhas técnicas, componentes essenciais submetidos a adiamentos e é mal vendido. Obama vive também na sua bolha, atordoado dentro dela. Esta aí a pesquisa New York Times/CBS News, mostrando sua queda significativa de aprovação, a mais baixa em dois anos (desaprovação de 49% e aprovação de 43%). Obama é um presidente desgastado em tudo: politica externa, economia, plano de saúde e na novela fiscal.
Tudo complicado. Este é um país enfezado com a classe política em geral. Desgosta de Obama e muito mais dos republicanos no Congresso. No entanto, Obama não pode ficar na sua bolha. Seu jogo é não ceder à chantagem vinculando o plano de saúde à saúde fiscal do país. O cálculo é que se a coisa degringolar, o país irá culpar muito mais os republicanos.
Na verdade, a situação da Casa Branca não é confortável. Todos vão entrar no ralo. Aliás, o povão merece também este destino. Afinal, ligou o botão do dane-se. Pesquisa Bloomberg mostra que para mais de seis em dez americanos o Congresso deve exigir corte de gastos antes de elevar o teto da dívida mesmo que haja risco de default. Outras pesquisas mostram a maioria da população avessa ao esquema de usar o plano de saúde  nas negociações de gastos e dívida. Por 59% a 19%, a pesquisa do canal financeiro CNBC mostra que existe aversão à ideia de forçar o default enterrando o Obamacare. Que confusão. País na bolha e abobalhado.
Obama está meio abobalhado nesta situação, como em tantas outras. Superestimou sua habilidade política e subestimou os obstáculos e a resistência republicana, que tem muito de visceral. Já Ted Cruz é um demagogo, um farsante. Diz escutar o povo, mas seu povo basicamente é o Tea Party. Por uma pesquisa divulgada na quinta-feira pelo Gallup, apenas 22% dos americanos apoiam o grupo, uma queda de 10 pontos em três anos. Ted Cruz não escuta os 59% que consideram um erro usar os cenários de fechar o governo e impedir a elevação do teto da dívida para detonar o Obamacare.
Melhor escutar os alertas do mundo econômico. Na reportagem do site PoliticoWall Street pergunta: Partido Republicano, você pirou? O jornal Financial Times publicou editorial esta semana advertindo para os americanos “não brincarem com sua sanidade fiscal”.  Na expressão do jornal, “o flerte com o fechamento do governo já basta como pantomina, mas brincar com o compromisso dos EUA com sua dívida soberana é pura leviandade”.
Não bastasse os Banana Republicans, o país corre o risco de ser rebaixado a uma Banana Republic.

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