quinta-feira, 31 de outubro de 2013

É assim que começa

Dora Kramer - O Estado de S. Paulo


‘No meu governo polícia não sobe morro’, anunciou na campanha de 1982 o então candidato Leonel Brizola.

Uma vez eleito governador do Rio de Janeiro, cumpriu à risca a promessa, muito provavelmente sem saber que plantava ali a semente do terror que viria a ser imposto, ao longo das três décadas seguintes, àqueles que pretendia proteger da violência policial: os moradores das favelas na época ainda não denominadas "comunidades".

A decisão de Brizola teve respaldo na sociedade. A ditadura ainda existia, a polícia não defendia, atacava. Era agente da repressão que, embora já com menos ênfase, atuava sob a lógica do combate ao inimigo interno. Quanto mais fraco o grupo social, maior e mais truculenta a opressão.

Em linhas gerais, assim se desenhava o quadro. O problema era grave e para enfrentá-lo o governo adotou uma solução simples. E equivocada. À retirada da polícia correspondeu a ocupação gradativa dos morros pela bandidagem.

Nas favelas os criminosos atuavam como benfeitores, supriam as carências da população, que passou a vê-los como agentes da proteção. No "asfalto" também eram saudados como tal. Vistos como heróis, cobertos de glamour.

Inesquecível a fuga do traficante José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, resgatado do presídio da Ilha Grande por comparsas de helicóptero no dia 1.º de janeiro de 1986. Guardo na memória, sobretudo, a reação de júbilo de certa esquerda com o drible que a criminalidade havia dado na legalidade.

Claro que essas pessoas não pensavam no dano ao Estado de Direito (naquela ocasião, mera abstração). Achavam que estavam impondo uma derrota ao Estado autoritário, sem se dar conta da parceria nefasta que faziam.

Pois bem. Daí em diante o que se viu foi a consolidação do poder paralelo do crime nos territórios dominados pelo tráfico, com a passividade da sociedade – era uma época em que traficante convocava entrevista coletiva e merecia foto em primeira página de jornal – , leniência (muitas vezes também criminosa) da polícia e a conivência de determinados políticos que passaram a ver nos bandidos eficientes cabos eleitorais. Em pouco tempo eles eram a lei.

E o que tem a ver essa história toda com o momento atual? Descontado o fato de que o Estado não é um ente em regime de exceção, o que temos de semelhante é a condescendência no trato desses vândalos que aterrorizam as cidades sob o olhar catatônico dos governos.

Acuados que estão pela visão torta de que são heróis da resistência à ineficiência do poder público que sabe de sua culpa no cartório, mas não tem coragem nem sabedoria para distinguir direitos de deveres.

O ovo da serpente está aí. É assim que começa. Um episódio típico ocorreu nesta semana no bairro do Jaçanã, em São Paulo. O comércio fechou. Segundo moradores, depois que dois homens numa moto deram a ordem para ninguém sair na rua depois de uma hora da tarde.

Toque de recolher. Sem tirar nem pôr, o mesmo "modus operandi" dos traficantes nos territórios dominados do Rio. Exagero? Pois era assim que há alguns anos reagia boa parte dos cariocas e a quase totalidade das autoridades sempre se recusando a aceitar o que se passava debaixo de seus narizes. Por motivações variadas.

Para além de declarações formais, de reuniões e de intenções de agir conjuntamente, conviria aos governos federal e estaduais prestarem a devida atenção aos primeiros acordes e reconhecer a sinfonia.

Está em jogo o Estado de Direito. E isso requer mais que a "análise do diagnóstico" proposta pelo secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, para quem não se pode "criminalizar" as manifestações sociais.

BONIFÁCIO ANDRADA- GOVERNO SOB PERIGOSA SITUAÇÃO, NO CLIMA DE DESORDEM

Brasília - O país continua assistindo, em várias capitais e em cidades de populações maiores, situações generalizadas de perigo e de insegurança que inquietam as comunidades. Os tristes espetáculos que os noticiários nos mostram demonstram o descontentamento popular que invade todas as regiões, às vezes com conflitos de consequências malignas, muitas das vezes com manifestações ruidosas.

O país vive em clima de desordem e de generalizadas contestações, onde as minorias atuantes estimulam a maioria das pessoas que se concentram, sobretudo, nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, dentre outras capitais. Tudo, porém, revela que uma minoria de indivíduos mascarados, denominados Black Bloc, comandam as atitudes de grupos que se concentram nas ruas.

Fica, no entanto, certa interrogação a respeito da liderança dos mascarados, o que nos leva a meditar: serão esses mascarados uma rede nacional contestatória bem articulada? Ou serão perigosas lideranças, fruto de revoltas e agitações puramente de sentido local? Ou, finalmente, um tipo de agitadores que comandam grupos populacionais contra atitudes momentâneas e isoladas, decorrentes de um mal estar ou revolta contra o estado, devido às coisas reinantes em todo país?

Sou daqueles que acham que predomina esta última hipótese, embora possa haver articulações parciais. Por outro lado, há os que temem o crescimento de uma onda de protestos contra o poder público em todo o Brasil, decorrente das deficiências governamentais na saúde, na educação e no transporte de pessoas e, sobretudo, em face das barreiras burocráticas que se distribuem por todas as portas das repartições governamentais, principalmente as federais.

A burocracia provoca desespero e indignação, pois, o governo não responde e nem explica uma série de decisões com gastos exagerados, além das obras públicas paralisadas e a indisciplina de muitos setores da segurança pública como, por exemplo, as interrupções nas rodovias e as greves do serviço público.

É triste verificar as deficiências decisórias do governo federal. Tudo, porém, escondido do cenário de informações e dos meios de comunicação, que impedem o povo de saber as duras falhas da administração federal.



Bonifácio de Andrada é deputado federal por Minas Gerais

Eles começam bem cedo…

Vejam a noticia do Estadão:
A União Municipal de Estudantes Secundaristas de São Paulo (Umes) é acusada de superfaturar compras para eventos pagos com dinheiro público, realizar contratações duplicadas para o mesmo serviço e cometer ilegalidades em licitações. Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou as irregularidades em convênios com os Ministérios do Turismo e da Saúde, cujos repasses somam R$ 1,4 milhão.
A apuração surgiu após denúncias do Ministério Público junto ao TCU. De cinco convênios analisados, firmados entre 2007 e 2008, três apresentavam problemas. As prestações de conta, no entanto, haviam sido aprovadas pelas pastas. A Umes diz que obedece às leis.
Em um dos convênios, realizado com o Ministério do Turismo, a Umes recebeu R$ 898 mil, o maior valor, para capacitar em turismo estudantes do ensino médio. A entidade deixou de fornecer comprovantes de pagamento de fornecedores, notas fiscais e não provou a devolução de saldo remanescente.
Documentos ainda apontam para a aquisição de 21 mil camisetas, mas, segundo o TCU, o curso foi oferecido para 3 mil estudantes. O tribunal questiona a contratação de uma empresa para serviços de coordenação pedagógica ao mesmo tempo que seis pessoas foram pagas para o mesmo serviço.
Em outro curso de capacitação em turismo, para o qual recebeu R$ 341 mil, a Umes contratou uma lanchonete, vizinha à sede da entidade, para fornecer a alimentação. O valor pago ao Bar e Restaurante Monza foi de R$ 82 mil – 24% do valor.
Teria havido superfaturamento na compra de lanches e na contratação do bufê para o encerramento do curso. O número de participantes foi de 2 mil, mas as notas apresentadas mostram a compra de 8 mil itens. Com o valor pago ao bufê, o custo unitário seria de R$ 149. “Valor bastante significativo, sugestivo de superfaturamento”, diz o relatório do TCU.
O que dizer? Esses “estudantes” de esquerda olham para um lado e veem empreendedores apanhando diariamente do governo, com pesada carga tributária, burocracia asfixiante, leis trabalhistas absurdas, infraestrutura caótica; olham para o outro e veem que o sujeito que era “estudante” e pegava em microfones, gritava bravatas e usava camisa vermelha subiu na vida, virou líder sindical, vereador, deputado, senador, presidente!
Aí o malandro não tem muita dúvida: escolhe o caminho fácil e podre, vira líder estudantil, abandona de fato os estudos e logo mira no mundo da polícia, regado a verbas públicas pagas com nosso suor. É duro ser hospedeiro em país com tantos parasitas, não é verdade?
É preciso cortar TOTALMENTE a verba pública para essa cambada de oportunista! Só assim mesmo para reverter um pouco esse mecanismo de incentivos absurdo. Chega!
Rodrigo Constantino

Votar em negro será obrigatório, por Janer Cristaldo

Depois das cotas para universitários, é óbvio que viriam as cotas para mestrado e doutorado. Que acontece se os novos mestres e doutores não conseguem entrar no mercado de trabalho? A resposta é óbvia: cria-se cotas no serviço público. Em concurso, negro vale por dois. Não interessa mais se você tem competência para um determinado cargo. O que importa é a cor da pele. Se você é negro – ou mesmo sendo branco declara-se negro – sua capacitação para o trabalho é o que menos importa.

Há mais de década venho afirmando que o sistema de cotas é uma armadilha. Antes das cotas, eu não teria restrição alguma em consultar um médico negro. Depois das cotas, não quero nem ver médicos negros perto de mim. Sei que entraram, de modo geral, pela porta dos fundos da universidade. E se entraram pela porta dos fundos, não será na porta da frente que serão barrados.

Cá entre nós, penso que devia constar de todos os diplomas, daqui pela frente, se o diplomado entrou pelo sistema de cotas ou se disputou lealmente sua vaga na universidade. No diploma dos negros que entraram na universidade por este sistema, que conste em letras garrafais:

ADMITIDO NA UNIVERSIDADE PELO SISTEMA DE COTAS 

Afinal, se cotas é privilégio do qual nenhum beneficiado deve envergonhar-se, não deve ser infamante registrá-las no diploma.

Ao rasgar descaradamente a Constituição, no dia 26 de abril do ano passado – revogando o art 5º da Constituição Federal, segundo o qual todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza – a suprema corte judiciária do país oficializou, por unanimidade, o racismo no país. E abriu as cancelas para todos os desmandos. Agora, coube ao Legislativo dar um passo adiante na instalação de um sistema racista no país.

Hoje pela manhã, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou parecer referente à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reserva vagas a parlamentares de origem negra. De acordo com a proposta do deputado petista Luiz Alberto (BA), a cota valerá para a Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Câmara Legislativa do Distrito Federal por cinco legislaturas a partir da promulgação da emenda, prorrogáveis por até mais cinco legislaturas. A proposta ainda passará por uma Comissão Especial antes de ir à votação em dois turnos no plenário da Casa. É óbvio que será aprovada. 

E se você acha que afinal pode votar em branco e os negros que se lixem, está redondamente enganado. O texto da PEC 116, de 2011, determina que o eleitor destine, além do voto às demais vagas, um voto específico para o preenchimento da cota. 

Quer dizer, queira ou não queira, você é obrigado a votar em negro. Em branco, é facultativo. Em negro, será obrigatório. Ainda há pouco tempo, se não me falha a memória, isto se chamava voto a cabresto e era considerado muito feio em política. Agora, virou lei.

Pior ainda: o critério para a candidatura é o da autodeclaração. Será negro quem se disser negro ou pardo. Os escassos 6% de negros do Brasil pegam carona nos 40% de mulatos e extinguem a mestiçagem. A população negra, que além de ser inflada pela inclusão dos mulatos e pelas cotas universitárias, vai aumentar ainda mais. Seremos o país de maior contingente negro no mundo... no papel. 

O projeto é tímido. Precisamos de cotas para deputados índios, homossexuais e transexuais. Além de seu voto, você terá de destinar um voto específico para bugres e o resto da bicharada.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Não à hipocrisia, no negócio dos cubanos, por Erico Valduga

Nada contra os ditos médicos, mas o fato real é que eles são o objeto de uma manobra eleitoral e ideológica, que não merece o apoio da gauchada


Uma faixa erguida por petistas, na chegada dos primeiros médicos cubanos ao Estado, ontem, deu a medida do comportamento dos governos federal e estadual no episódio, em que, mais uma vez, a hipocrisia torna-se o tributo que o vício presta à virtude. Dizia: “O povo agradece a solidariedade do povo cubano”. Que povo? Meia centena de manifestantes de entidades “progressistas” que vivem do Tesouro, empregados em cargos de confiança na máquina pública?

O Correio do Povo revelou que as boas-vindas foram dadas por militantes do PT, Via Campesina, PCB, UNE, enquanto o resto da cada vez mais relaxada imprensa, o que inclui rádios e tevês, nem se preocupou em informar de que “povo” se tratava. Aliás, não se pode pretender que a pasmaceira dominante no Rio Grande em todas as áreas não tivesse também atingido o jornalismo.

Nós, os gaúchos, não podemos ser solidários com um negócio imoral e eleitoreiro, que recria a escravidão em pleno século 21. Como oferecer apoio a quem, para começar, nem sabemos se são todos médicos de fato, e habilitados a cuidar de nossa saúde, porque o governo impediu, com a escandalosa concordância do Congresso, que o Conselho Federal de Medicina avaliasse os seus conhecimentos. Quem garante que não estamos pagando “comissários do povo”, como ocorre na Venezuela?

Solidariedade com ditos profissionais contratados a R$ 10 mil por cabeça, dos quais cabem-lhes apenas de R$ 3.5 mil a R$ 4 mil, e R$ 6 mil engordam os cofres da ditadura cubana? Solidariedade com um negócio entre governos da mesma laia ética que impede as famílias dos supostos médicos de acompanhá-los na estada no nosso país, pois são obrigadas a permanecer em Cuba como reféns de bom comportamento dos alugados? E tudo isto se repete pelo país, com o objetivo safado de facilitar a reeleição de Dona Dilma e a eleição do hoje ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT) ao governo de São Paulo.

PEDRO LUIZ RODRIGUES- ANARQUISMO: O BRASIL ESTÁ VIRANDO A COLÔNIA CECÍLIA

Se o velho anarquista Giovanni Rossi ainda estivesse vivo, estaria de sorriso solto, satisfeito em ver que os princípios de sua doutrina estão afinal, com atraso de mais de cem anos, conquistando o Brasil de ponta a ponta.

Rossi, jornalista, veterinário e engenheiro agrônomo, era um ácrata, o que quer dizer que não aceitava a legitimidade de nenhuma imposição. Nem mesmo aquelas que as constituições atribuem ao Estado.

Assim está ficando o Brasil, onde a essência mesma do estado democrático de direito vem sendo diariamente dilapidada por bandos de malfeitores encapuçados que, amparados pela Justiça, mal são detidos, retornam às ruas para praticar a violência.

Giovanni Rossi quis bem menos, apenas trazer gente da Itália para estabelecer uma colônia agrícola no Brasil. Em seu país natal havia estabelecido uma primeira comuna libertária experimental (Cremona,1887).

Em viagem para tratamento médico na Europa, D. Pedro II toma contato com um livro de Rossi ( Il Commune in Riva al Mare ), que lhe atrai a atenção pelo humanismo e pela proposta de superação das desigualdades. Na obra, o italiano descreve uma colônia experimental, em um país da América, sem propriedade privada, sem dogmas, sem hierarquia. O Imperador escreveu para Rossi e propôs-lhe que levasse a cabo o experimento no Brasil.

Quando a Colônia Cecília foi finalmente instalada no município de Palmeira (Paraná), já era a República. Caducara a doação dos 300 alqueires que lhe havia feito o Imperador, pois o novo regime não reconheceu a concessão de terras a estrangeiros feitas pelo regime deposto. Rossi não esmoreceu, arranjou dinheiro e comprou as terras.

Mas a utopia patrocinada por Rossi durou pouco. Sob as regras do anarquismo, a colônia durou poucos anos (1890 a 1893) acabou na miséria.

120 anos depois estamos reeditando, em escala nacional, a experiência desastrada da Colônia Cecília.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

‘Afronta ao Estado’, editorial do Estadão

Publicado no Estadão desta terça-feira

Os golpes desferidos pelos “black blocs” contra um coronel da Polícia Militar, na noite da última sexta-feira (26/10) em São Paulo, atingiram não apenas a pessoa do oficial, mas o próprio Estado. É este que, ante a hesitação de seus agentes, está à mercê desses criminosos fascistoides, que estão cada vez mais à vontade para cometer seus crimes e atentar contra a ordem.



O coronel Reynaldo Simões Rossi foi espancado por cerca de dez mascarados, durante protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) no Parque Dom Pedro II, centro da capital. Chefe do Comando de Policiamento da Área Metropolitana, Rossi foi cercado pelos baderneiros no momento em que parte dos manifestantes começava a depredar um terminal de ônibus, seguindo o roteiro de vandalismo já bastante conhecido na cidade.

Após levar socos e pontapés até ser derrubado, Rossi tentou se levantar, mas então foi atingido na cabeça por uma placa de ferro. Roubaram-lhe a arma e um rádio. Com as duas escápulas fraturadas e ferimentos nas pernas, no abdome e na cabeça, o coronel foi socorrido por um policial à paisana. Ao ser levado para o hospital, Rossi ainda teve tempo de pedir a seus comandados que não exagerassem na reação: “Segura a tropa, não deixa a tropa perder a cabeça”.

Foi um apelo de alguém consciente de que o monopólio da força legítima, que está nas mãos do Estado, não pode ser usado sem limites. Mesmo em meio a uma situação de clara covardia desses criminosos que estão todos os dias a aterrorizar a cidade, é preciso agir dentro da lei. Mas é preciso agir, sob pena de cristalizar uma imagem de impotência, que só encoraja mais violência.

Os ataques contra policiais cometidos por esses bandidos infiltrados em manifestações têm sido sistemáticos. Segundo o coronel Rossi, nada menos que 70 PMs já foram feridos durante protestos neste ano.

O caso mais dramático até agora havia sido o do PM Wanderlei Paulo Vignoli, que quase foi linchado ao tentar impedir que um manifestante pichasse a parede do Tribunal de Justiça, na Praça da Sé, durante um dos protestos de junho. Ouviu gritos de “lincha, mata”. Ele só escapou porque apontou a arma para os agressores, mas a imagem desse policial acuado e de rosto ensanguentado mostrou que a violência de alguns manifestantes extrapolava o mero vandalismo. O espancamento do coronel Rossi só reafirmou a índole criminosa dessa militância mascarada, para a qual a violência é um fim em si mesma.

Os manifestantes que permitem a infiltração desses vândalos em seus protestos e que não os repudiam são cúmplices de seus atos. Em nota, o MPL condenou a agressão a Rossi, mas praticamente a justificou, ao citar abusos cometidos por policiais contra manifestantes em outras ocasiões.

O vale-tudo ficou ainda mais claro quando o MPL aplaudiu a destruição causada no terminal de ônibus do Parque Dom Pedro II – foram depredados dez ônibus e várias catracas, além de orelhões e caixas eletrônicos. “Entramos no maior terminal de ônibus da América Latina para realizar na prática a tarifa zero”, orgulhou-se o MPL. “A revolta que destruiu as catracas nessa sexta-feira foi acesa pela violência cotidiana do transporte coletivo. E continuaremos lutando pela destruição de todas as catracas.”

Essas palavras mostram que o movimento deixou de ser pacífico, como pretendia no início das manifestações. A ameaça de violência é agora clara e permanente. O desafio a tudo o que se interpõe no caminho dos vândalos – sejam catracas, sejam policiais – denuncia o falso caráter moderado dos líderes desse movimento.

Os cidadãos de bem, aqueles que confiam no Estado e em suas instituições, estão a exigir que os responsáveis pela manutenção da ordem pública não mais se intimidem ante um punhado de delinquentes travestidos de “ativistas”. E aqueles que saem às ruas para exercer seu legítimo direito de protestar devem imediata e indubitavelmente se dissociar dos criminosos, sob o risco de com eles se confundirem. Como disse o coronel ferido, “o silêncio dos bons é muito pior do que o ruído dos maus”.

NÃO COMPRE CDS NEM LIVROS DO “PROCURE SABER”, MOVIMENTO FASCISTA CONTRA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, por Jorge Oliveira

Rio – Algumas celebridades brasileiras seriam mais lembradas na vida ou na morte se permanecessem trabalhando em silêncio. Pelé como jogador e Roberto Carlos como cantor, por exemplo. Já se disse que Pelé é um alienado, que tem medo de entrar em bola dividida. Nunca se manifestou em defesa dos excluídos ou contra os militares que torturaram e mataram no Brasil durante vinte anos. Quando abriu a boca para falar sobre política, saiu-se com essa pérola: “O povo brasileiro não sabe votar”. A bola da vez agora é o Roberto Carlos com a sua insanidade de tentar a todo custo proibir biografias não autorizadas, uma agressão à liberdade de expressão.

É o Toc que virou obsessão.

Na entrevista que deu ao Fantástico, o cantor revela a sua confusão mental. Parece que até agora não entendeu bem a campanha que patrocina para impedir que escritores escrevam sobre a vida dele sem antes consultá-lo, como se a sua história ainda lhe pertencesse. O movimento que começou no Rio pelas mãos de Paula Lavigne, que tem no currículo o casamento com Caetano Veloso, foi rotulado de “Procure Saber” e, surpreendentemente, já recebeu adesões também de Chico Buarque, de Djavan e Gilberto Gil celebridades até então conhecidas pela defesa da liberdade de expressão e de pensamento, vítimas da censura responsável pela dilapidação da cultura brasileira.

Muitas dessas celebridades já foram ao Congresso Nacional pressionar parlamentares para não derrubar os artigos 20 e 21 do Código Civil que determinam a autorização de biografados ou de seus herdeiros para se publicar uma biografia. Foi baseado nessa aberração jurídica que Roberto Carlos impediu que o livro “Roberto Carlos em detalhes”, escrito em 2006 pelo jornalista Paulo Cesar de Araújo, chegasse às livrarias. Até hoje a obra está embargada e o autor sendo processado pelo cantor.

Agora, o grupo da “censura” é surpreendido pelo próprio cantor. Na conversa com o Fantástico ele finalmente esclarece que é a favor da biografia não autorizada, desde que sejam feitos alguns ajustes. “Temos que conversar, discutir e chegar a uma conclusão que seja boa para todo mundo”, disse o cantor, sem explicar, porém, porque contratou um escritório de advocacia em Brasília para continua a briga contra a publicação de biografia não autorizadas.

É lamentável que esses personagens, admirados pelos brasileiros por suas obras na arte, na música e na literatura sejam induzidos por Paula Lavigne que lidera esse movimento fascista, nazistas e espúrio para impedir que escritores pesquisem e escrevam sobre personalidades públicas. A prevalecer essa insanidade, os brasileiros ficarão impedidos de conhecer pessoas que fazem e fizeram história no Brasil, porque um grupelho decidiu que as suas histórias não devem ser contadas para não servir de exemplos. Será isso?

RETOMADA

Agora que uma pesquisa (Datafolha) mostra em números o repúdio de 95% dos consultados à ação violenta dos vândalos ditos "black blocs", é possível que gente tão influente quanto equivocada perceba o que a maioria da população já percebeu: a diferença nítida entre protesto e bandidagem.

Se os mascarados refluírem é possível que o cidadão perca o medo de se manifestar. Para os alvos dos protestos de junho, nada mais útil que um bando de inúteis a interditar as ruas - estrito e lato sensos - fazendo, em plena democracia, o papel da repressão na ditadura.

Dora Kramer

Da falsidade, por Luiz Felipe Pondé

Folha de São Paulo
Dias sombrios. Nesses momentos, volto às minhas origens filosóficas, o jansenismo francês do século 17 e seu produto essencial, "les moralistes" (que em filosofia nada tem a ver com "moralista" no senso comum). Os moralistas franceses eram grandes especialistas do comportamento, da alma e da natureza humana. Nietzsche, Camus, Bernanos e Cioran eram leitores desses gênios da psicologia. Pascal, La Rochefoucauld e La Bruyère foram os maiores moralistas.

O Brasil, que sempre foi violento, agora tem uma nova forma de violência, aquela "do bem". E, aparentemente, quase todo mundo supostamente "inteligente" assume que é chegada a hora de quebrar tudo. Nada de novo no fronte: os seres humanos sempre gostaram da violência e alguns inventam justificativas bonitas pra serem violentos.

Impressiona-me a face de muitos desses ativistas que encheram a mídia nas ultimas semanas. Olhar duro, sem piedade, movido pela certeza moral de que são representantes "do bem". Por viver a milhares de anos-luz de qualquer possibilidade de me achar alguém "do bem", desconfio profundamente de qualquer pessoa que se acha "do bem". Quando o país é tomado por arautos do "bem social", suspeito de que chegue a hora em que a única saída seja fugir.

A fuga do mundo ("fuga mundi") sempre foi um tema filosófico, inclusive entre os jansenistas, conhecidos como "les solitaires" por buscarem viver longe do mundo. Eles tinham uma visão da natureza humana pautada pela suspeita da falsidade das virtudes. O nome "jansenista" vem do fato de eles se identificarem com a versão "dura" (sem a graça de Deus, o homem não sai do pecado) da teoria da graça agostiniana feita pelo teólogo Cornelius Jansenius, que viveu no século 16.

Pascal, La Fontaine e Racine eram jansenistas. Aliás, grande parte da elite econômica e intelectual francesa da época foi jansenista. Por isso, apesar de Luís 13 e 14 (e de seus cardeais Richelieu e Mazarin) e da Igreja os perseguirem, nunca conseguiram de fato aniquilá-los.

Hoje, por termos em grande medida escapado das armadilhas morais do cristianismo (não que eu julgue o cristianismo um poço de armadilhas, muito pelo contrário), tais como repressão do outro, puritanismo, intolerância, assumimos que escapamos da natureza humana e de sua vocação irresistível à repressão do outro, ao puritanismo e à intolerância.

Elas apenas trocaram de lugar. A face do ativista trai sua origem no inquisidor.

Uma das maiores obras do jansenismo é "La Fausseté des Vertus Humaines" (a falsidade das virtudes humanas), de Jacques Esprit, do século 17. Ele foi amigo pessoal do Conde de La Rochefoucauld. Alguns especialistas consideram o conde um discípulo de Esprit. A edição da Aubier, de 1996, traz um excelente prefácio do "jansenista contemporâneo" Pascal Quignard.

O pressuposto de Esprit é que toda demonstração de virtude carrega consigo uma mentira e que as pessoas que se julgam virtuosas são na realidade falsas, justamente pela certeza de que são virtuosas.

A certeza acerca da sua retidão moral é sempre uma mistificação de si mesmo. Os jansenistas sempre disseram que os que se julgam virtuosos são na verdade vaidosos. Suspeito que o que vi nos olhos desses ativistas nessas últimas semanas era a boa e velha vaidade.

Mas hoje, como saiu de moda usar os pecados como ferramentas de análise do ser humano e passamos a acreditar em mitos como dialética, povo e outros quebrantos, a vaidade deixou de ser critério para analisarmos os olhos dos vaidosos. Melhor para eles, porque assim podem ser vaidosos sem que ninguém os perceba. Vivemos na época mais vaidosa da história.

"A verdade não é primeira: ela é uma desilusão; ela é sempre uma desmistificação que supõe a mistificação que a funda e que ela (a desmistificação) desnuda", afirma Pascal Quignard no prefácio do livro de Esprit. Eis a ideia de moral no jansenismo: a verdade moral é sempre negativa, sempre ilumina a sombra que se esconde por trás daquele que se julga justo.

Que Deus tenha piedade de nós num mundo tomado por pessoas que se julgam retas.

ponde.folha@uol.com.br

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Poder de segunda classe, por Erico Valduga

A História mostra que a desmoralização do Legislativo é o ponto de partida ao Executivo autoritário; é isto que queremos na nossa República, de novo?
NA CRESCENTE DOSE DE DESCRENÇA dos cidadãos na eficácia da política como a arte de governar para a maioria, respeitadas as minorias, quanto deve ser creditado ao Parlamento? Um bocado, no Brasil e no Rio Grande do Sul. Na capital federal e aqui foram montados, através da troca de votos por benesses a partidos e mandatários (ajustadas depois das eleições, nunca antes, para conhecimento do eleitor), grupos de apoio ao Executivo que desvirtuaram o princípio da independência entre os poderes, o que acabou atrelando quem tem o dever de fiscalizar a quem tem o dever de fazer. Ora, se o fiscalizador obedece ao fiscalizado – está feita a porcaria, prezados leitores. Daí nasce, em síntese, a calamitosa impunidade, com todos os efeitos perversos que provoca no Estado.

“COMPRADO”, O LEGISLATIVO, único poder que representa toda a sociedade, apenas reage quando as regras do negócio são descumpridas pelo dono da caneta que libera o pagamento. É o caso, em Brasília, do tal orçamento impositivo, cuja aprovação é reclamada por deputados federais. No mais, é “sim, senhor”, como na aceitação das condições impostas para a importação de escravos cubanos para prestar serviços médicos no Brasil. Em Porto Alegre, no Estado não por casualidade governado pelo mesmo PT, o governador decide e a base parlamentar obedece, aprovando tudo o que é proposto, ainda que em detrimento da imagem da Assembleia Legislativa, o poder político por excelência.

NÃO IMPORTA QUE os projetos, em regra, agridam a boa técnica legislativa, ao não informar os recursos que exigem e de onde sairá o dinheiro; ou que não contenham explicações sobre os motivos das alegadas urgências na votação, muitas delas simplesmente destinadas a ladear licitações. Vai-se mais longe no chão farroupilha, porém, a ponto de a Assembleia Legislativa sequer denunciar, e contestar no Judiciário, o descumprimento de leis por ela aprovadas, como a da Consulta Popular e a extinção do chamado “imposto de fronteira”. Quem se comporta desta forma é poder de segunda classe, infelizmente.

‘A varinha mágica de Dilma’, editorial do Estadão

Publicado no Estadão deste domingo
Ao longo da última semana, a presidente Dilma Rousseff declarou ao menos três vezes que seu governo está cumprindo os “cinco pactos” que ela propôs durante as manifestações de junho passado. Não é, portanto, algo casual. Dilma quer fazer o eleitor acreditar que o Brasil, graças à varinha mágica de seu governo, está hoje muito melhor do que há quatro meses.
Em uma das declarações, Dilma sublinhou que sua avaliação é “absolutamente baseada em fatos, em dados, objetiva”. A ênfase da presidente na solidez de sua argumentação parece ter a intenção de desmentir o fato, notório, de que seu governo habitualmente fantasia sobre suas ações e tortura números para que eles reflitam o cenário idealizado.
Mas a realidade, como sempre, desmente a ficção criada pelos marqueteiros do Planalto. O primeiro “pacto” que Dilma disse estar “sistematicamente” cumprindo é o da responsabilidade fiscal, que ela classificou como “a mãe dos outros pactos”. A presidente voltou ao assunto diversas vezes, afirmando que “é impossível fazer pactos e ao mesmo tempo quebrar o controle da inflação, a estabilidade fiscal e o montante de reservas”.
Dilma tem razão quando diz que todos os compromissos que ela assumiu dependem, em primeiro lugar, da responsabilidade fiscal. Trata-se de uma grande conquista do País, após décadas de gastança desenfreada e perda de credibilidade internacional. Aliás, foi justamente graças ao equilíbrio das contas públicas, obrigatório por lei a partir do ano 2000, que os governos petistas puderam incrementar os programas de transferência de renda que tanta popularidade lhes trouxeram.
Para provar que está cumprindo o “pacto” pela responsabilidade fiscal, Dilma afirmou que a inflação está “sob controle” e que o orçamento está “equilibrado”. Mas não é possível, por nenhum parâmetro razoável, dizer que uma inflação de 6% esteja “sob controle”. Dilma costuma dizer que essa variação de preços está “dentro da meta”, mas a meta é 4,5%, e a inflação está no limite da margem de tolerância – e só não subiu mais porque os combustíveis estão com seus preços represados.
Sobre as contas públicas, falar em “equilíbrio” é zombar da inteligência alheia. A contabilidade criativa da equipe econômica já ganhou fama mundo afora. Além dos truques, são cada vez mais necessários, para fechar as contas e cumprir as metas, os dividendos pagos por estatais e as receitas extraordinárias, como o bônus do leilão do Campo de Libra.
Assim como no caso da responsabilidade fiscal, os demais compromissos assumidos durante as manifestações de junho só estão sendo cumpridos no palanque. Dilma mencionou o “pacto” pela reforma política e tornou a defender a realização de um plebiscito sobre as eventuais mudanças – uma proposta que sua própria base no Congresso já rejeitou.
Outro “pacto” que Dilma disse ter cumprido é a melhoria da saúde. Para provar, citou o Programa Mais Médicos – um remendo eleitoreiro destinado a turbinar a candidatura do ministro Alexandre Padilha (Saúde) ao governo de São Paulo. Enquanto isso, o Ministério da Saúde investiu, até agosto, apenas 26,5% dos R$ 10 bilhões que estavam reservados para equipamentos e obras.
A presidente citou ainda, como compromisso cumprido, a melhoria da mobilidade urbana, algo que afinal estava no centro das reivindicações de junho. Na época, ela anunciou uma injeção de R$ 50 bilhões em projetos de transporte público. Mas seus próprios ministros agora admitem que essa meta não será cumprida, principalmente porque faltam projetos viáveis.
Por fim, Dilma mencionou o “pacto” pela educação e disse que este também está sendo obedecido, porque seu governo conseguiu destinar 75% dos royalties do petróleo para a melhoria desse setor. Um dos problemas é que essa destinação só vale para os contratos novos – e, na melhor das hipóteses, o dinheiro só começará a irrigar as salas de aula na próxima década. No entanto, o maior empecilho, como se sabe, não é a falta de recursos, e sim a má gestão das verbas existentes. E isso não se resolve no gogó.

A Argentina ainda respira! Cristina Kirchner é derrotada em Buenos Aires e outros distritos-chave; acaba risco de terceiro mandato

Viva! A Argentina ainda respira. O país realizou eleições para renovar metade dos assentos da Câmara e um terço dos do Senado. O governo mantem a maioria, sim, nas duas Casas, mas sofreu um grande derrota. Na província de Buenos Aires, que tem quase 40% do eleitorado do país (37,3%), Sergio Massa, da Frente Renovadora, abriu 12 pontos sobre o kirchnerista Martín Insaurralde (44% a 32%). Massa, prefeito da cidade de Tigre, se credencia par disputar a Presidência em 2015.

Há outras derrotas importantes, como informa a VEJA.com:
(…)
Na cidade de Buenos Aires, distrito da capital federal, o triunfo foi para a conservadora Proposta Republicana, liderada pelo prefeito Mauricio Macri, que aproveitou a vitória para formalizar sua candidatura presidencial.

Na província central de Córdoba, segundo distrito mais povoado do país, o governo ficou em terceiro lugar, com 15,2%, da mesma forma que na província de Santa Fé, terceiro maior distrito eleitoral, onde obteve 22,5%. Nesta última província o grande ganhador foi o socialista Hermes Binner, que obteve o segundo lugar nas presidenciais de 2011 e que poderia voltar a concorrer dentro de dois anos.

Já na província de Mendoza, o quinto maior distrito eleitoral, a Frente para a Vitória ficou em segundo lugar, com 27,03%, muito atrás da Unión Cívica Radical, que, com o ex-vice-presidente de Cristina em seu primeiro mandato, Julio Cobos, como principal candidato, obteve um arrasador 47,7% que também o deixa bem colocado para se projetar em nível nacional.

Mais importante
O mais importante: o resultado enterra de vez a possibilidade de Cristina Kirchner tentar um terceiro — e desastroso — mandato. Para conseguir mudar a lei, que lhe garantiria o direito de disputar de novo, precisaria contar com uma maioria de dois terços na Câmara e no Senado. Não terá.

Aplaudamos o que pode ser o começo do fim do kirchnerismo, um dos delírios de autoritarismo mixuruca da América Latina.



Por Reinaldo Azevedo

DEMÉTRIO MAGNOLI E MINO CARTA, O MESMO COMBATE

Janer Cristaldo

Demétrio Magnoli, normalmente autor de artigos lúcidos e independentes, revelou-se um desastre em sua estréia como colunista da Folha de São Paulo.

Há uma boa década venho falando naquilo que os franceses chamam de glissement idéologique. O conceito de esquerda sempre muda, à medida em que se corrompe. A direita é o repositório de todos os males do mundo, inclusive os das esquerdas. Pois quando as esquerdas cometem crimes – ou “erros”, como preferem seus líderes – é que não eram de esquerda, mas de direita.

Ainda há pouco voltei ao tema e é bom que volte mais vezes, pois cá nestas terras pátrias ainda não se tem noção clara desta safadeza das esquerdas. Convivendo há mais tempo e mais de perto com os comunistas, os franceses logo perceberam o truque.

Magnoli, em seu artigo, caiu no lugar comum. Para o cronista, os petistas financiaram com dinheiro público a bolha Eike Batista. Na fogueira do Império X, queimam-se US$ 5,2 bilhões do povo brasileiro. "O BNDES para os altos empresários; o mercado para os demais": eis o estandarte do capitalismo de Estado lulopetista.

“Anteontem, Lula elogiou o "planejamento de longo prazo" de Geisel; ontem, sentou-se no helicóptero de Eike para articular um expediente de salvamento do megaempresário de estimação. O lobista do capital espectral é "de direita"; eu, não.

“Eles são fetichistas: adoram estatais de energia e telecomunicações, chaves mágicas do castelo das altas finanças. Mas não contemplam a hipótese de criar empresas públicas destinadas a prestar serviços essenciais à população.

“Eles são corporativistas. No governo, modernizaram a CLT varguista, um híbrido do salazarismo com o fascismo italiano, para integrar as centrais sindicais ao aparato do sindicalismo estatal. Eles são restauracionistas. Na década do lulismo, inflaram com seu sopro os cadáveres políticos de Sarney, Calheiros, Collor e Maluf, oferecendo-lhes uma segunda vida. O PT converteu-se no esteio de um sistema político hostil ao interesse público: a concha que protege uma elite patrimonialista. "De direita"? Isso são eles.

“Eles são racialistas; a esquerda é universalista. O chão histórico do pensamento de esquerda está forrado pelo princípio da igualdade perante a lei, a fonte filosófica das lutas populares que universalizaram os direitos políticos e sociais no Ocidente. Na contramão dessa herança, o lulopetismo replicou no Brasil as políticas de preferências raciais introduzidas nos EUA pelo governo Nixon. Inscrevendo a raça na lei, eles desenham, todos os anos, nas inscrições para o Enem, uma fronteira racial que atravessa as classes de aula das escolas públicas. Esses plagiários são o túmulo da esquerda.

"Esquerda"? O lulopetismo calunia a esquerda democrática enquanto celebra a ditadura cubana. Fidel Castro colou a Ordem José Martí no peito de Leonid Brejnev, Nicolau Ceausescu, Robert Mugabe e Erich Honecker, entre outros tiranos nefastos. Da esquerda, eles conservam apenas uma renitente nostalgia do stalinismo”.

Que quer dizer o cronista? Que o PT, ao financiar com dinheiro público a corrupção, ao adorar estatais, ao integrar as centrais sindicais ao aparato do sindicalismo estatal, ao serem racialistas e conservadores, não é mais de esquerda. O PT calunia a “esquerda democrática”. petistas são "o túmulo da esquerda".

Em verdade, em nada difere de Mino Carta, este impoluto porta-voz oficioso do PT, que em um vídeo antigo, de 2008, revelava notável espírito de síntese. Ser de esquerda, para Mino, é defender a liberdade e igualdade. Mas se o regime vira ditadura, mesmo tendo partido das melhores intenções, o regime é de extrema-direita.

Ou seja, o PT não é mais esquerda. A esquerda permaneceu, límpida e ética, naquele topos uranos das idéias lindas e inefáveis, sempre a salvo da ferrugem corruptora do tempo e dos partidos. Magnoli, evidentemente, deve ter tido um passado de militante nas esquerdas. Quando se descuida, ergue seu bracinho de Dr. Strangelove, sem que possa controlá-lo.

Se alguém não lembra, no filme Dr. Strangelove–, de Stanley Kubrick – o personagem homônimo era um cientista alemão paraplégico refugiado nos Estados Unidos. De tempos em tempos, seu braço esquerdo se erguia na saudação ao Führer, sem que pudesse controlá-lo.

O velho Marx não dá mais para salvar. Suas palavras estão impressas em papel. Quanto a esquerdas, é uma idéia abstrata, que pode ser entendida ao gosto de cada um. Desmoralizadas historicamente, seus militantes agora alegam que o que a esquerda real fez não é coisa que a esquerda ideal faça.

Só faltou Magnoli dizer que Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot e Castro são de direita.

‘Revolta dos reservas’, de Dora Kramer

Publicado no Estadão deste domingo

DORA KRAMER

Depois de três mandatos presidenciais como dono das regras de funcionamento da aliança partidária montada em 2003 e consolidada em 2006 com a entrada oficial do PMDB na coligação de governo, o PT enfrenta uma espécie de rebelião dos reservas.

Continua sendo o protagonista, mas seus aliados já não se conformam com o papel de coadjuvantes passivos. Por uma razão simples e objetiva: eles precisam sobreviver, o que significa disputar eleições locais para se fortalecer no Congresso e no jogo político como um todo, além de trabalhar com a hipótese de um plano B no âmbito federal.

É o que provoca essa movimentação toda nos partidos ditos governistas, cuja adesão é cobiçada pelos oposicionistas que lhes oferecem em troca espaço que os petistas imaginavam em seu projeto inicial ocupar paulatinamente até se tornarem irremediavelmente hegemônicos. Na política e na sociedade.

Como a banda não toca nesse ritmo e ninguém espera o aniquilamento de braços cruzados, cada um dá o seu jeito na base do salve-se quem puder. A boa posição da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas nessa altura não é garantia de nada. Nem de vitória nem de parceria leal nos Estados, de modo a que os outros integrantes da aliança possam fugir do destino que coube a partidos de oposição esmagados pela fortaleza governista.

Foi isso que moveu o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a se afastar do PT a partir da eleição municipal de 2012 – quando percebeu que o combinado com o ex-presidente Lula em relação à disputa em Recife não era “à vera”; apenas uma maneira de ganhar tempo, levá-lo na conversa e mantê-lo atrelado ao governo com a vaga promessa de uma candidatura presidencial de 2018.

“Tem gente ainda esperando o cumprimento de acordos feitos em 2002″, comentou Campos com amigos no início do processo de decisão de se candidatar ou não em 2014.

A desconfiança também é o pano de fundo da rebelião que se avoluma no PMDB, onde a cada dia aparece uma seção estadual querendo sair do jugo do PT. Há ainda a tentativa de antecipar a convenção que decidirá sobre a aliança presidencial para 2014. Já são 11 os Estados que reivindicam liberdade para voar.

E mesmo que não haja convenção antecipada, na data oficial o PMDB pode até não romper, mas não ficará unido a reboque do projeto alheio.

Água benta. Se o combinado entre Marina Silva e Eduardo Campos era não dar espaço para que se disseminasse a cizânia entre os dois, a ex-senadora foi a primeira a quebrar o acordo.

Ao dizer — no programa Roda Viva — que a aliança com a Rede permitiu a Campos ganhar “um pouquinho mais de substância” para fugir à construção de uma candidatura “no diapasão” da velha política.

Ou seja, considera-se uma espécie de salvação da lavoura sem cuja presença o pernambucano ficaria entregue à própria inconsistência e obsolescência.

domingo, 27 de outubro de 2013

Reynaldo-BH: O Brasil está entregue a um bando de aproveitadores enquanto é observado por outro bando de covardes

REYNALDO ROCHA
Somos oposição. Real. Exercemos o direito de nos opor ao que julgamos deletério ou imoral. Não aceitamos números falsos. Repudiamos promessas não cumpridas, expostas a todos como um cadáver putrefato ─ como é o caso da Norte- Sul, do Trem-Bala, da Transnordestina, da transposição do São Francisco, das 9.000 creches e dos 800 aeroportos.
Sequer rotulamos estas obras como mal feitas. Antes, precisam ser feitas.
Somos contra a substituição do mérito pela ajuda ao companheiro ignorante, roubando de todos o direito de exercer o que o estudo e esforço garantem.
Somos oposição às tentativas de comprar juízes e ministros do Supremo com se o Judiciário fosse a feira livre dos sem-vergonha do Poder Legislativo. Sim, não têm vergonha de nada.
Queremos ser o que sempre fomos: a parte decente do Brasil. A que não se corrompeu, se vendeu ou idolatrou fantoches e ídolos de pés de barro. Já é muito.
Não temos representantes. Não nos vemos em nenhuma alternativa de poder, o que nos leva, por exclusão, a aceitar qualquer uma que mantenha a democracia e enxote os micilianos lulopetistas do poder.
Estamos a um ano das eleições. Tempo que a oposição tem para formar um discurso,  bandeiras e para que nos ouçam. E é o mesmo tempo que eles têm para manter pratos equilibrando no ar. Eles sabem que em 2015 o desastre estará completo. Mas o objetivo terá sido alcançado e as esperanças de bolivarianizar definitivamente o país estarão renovadas.
É um jogo de perde-perde. Sabemos (não somos inocentes) que vamos perder no final. Que estaremos fazendo o trabalho que, por incompetência, medo ou covardia, as oposições nunca fizeram.
As palavras críticas nas bocas oposicionistas são ocas. Vazias como foram os anos de dócil conivência com o poder. Os textos de blogueiros e jornalistas que leio são mais aprofundados e oposicionistas que discursos de qualquer um deles.
Não me lembro de nenhum!  E lembro de centenas de textos, na internet, expressando até de modo repetitivo o que as oposições se recusam a ler e ouvir.
Um ano. Pouco, muito pouco tempo.
O PT sabe se equilibrar na corda bamba. É mestre no show de Monga, a mulher-gorila que usa o truque dos espelhos.
Um ano para as oposições é a eternidade, pelo ritmo que sempre se portou. Para a seita, um ano é um fim de semana, como comprovam a ânsia de continuidade ao assalto aos cofres e perpetuação da imoralidade já demonstradas.
A oposição não demonstra ter bandeiras. Mas está com a mortalha pronta. Sabe como nunca ser dividida, brigando por um naco do bolo que sequer foi ao forno. Lutando pela primazia de ser o perdedor.
Enquanto isso, vemos a campanha de Dilma já nas ruas, usando dinheiro público, benesses a apaniguados, butim da base alugada, ajeitamentos dos piratas na nau da insensatez, escárnio com a lei eleitoral e repetição das fantasias alucinadas que a alguém com dois neurônios, provocam risos. E asco.
Estamos sós. Somos a oposição.
O Brasil está entregue a um bando de aproveitadores e é observado por um bando de covardes.
Um ano de expectativa de que surja uma bandeira de luta, entre tantas que oferecemos.
Sinto que não haverá.
E um ano de repetição de um programa/discurso que se repete há 11 anos.
Sei que será assim.

sábado, 26 de outubro de 2013

‘No setor externo, um desastre made in Brazil’, de Rolf Kuntz

Publicado no Estadão deste sábado

ROLF KUNTZ

A presidente Dilma Rousseff deve terminar o ano com mais um troféu econômico, o pior resultado das contas externas em mais de uma década — exportações estagnadas, importações em alta e um enorme buraco na conta corrente do balanço de pagamentos. Nos 12 meses terminados em setembro o déficit na conta corrente chegou a US$ 80,51 bilhões, equivalentes a 3,6% do produto interno bruto (PIB), informou nesta sexta-feira o Banco Central (BC). No relatório recém-divulgado foram mantidas as projeções para 2013: saldo comercial de US$ 2 bilhões, déficit em conta corrente de US$ 75 bilhões (3,35% do PIB) e investimento estrangeiro direto de US$ 60 bilhões. Alguma melhora será necessária, portanto, para se chegar ao fim de dezembro com o cenário estimado pelo BC. Um quadro mais positivo, neste e no próximo ano, dependerá principalmente de uma recuperação da balança comercial e nesse quesito o País continua muito mal.



A exportação rendeu neste ano US$ 192,59 bilhões até a terceira semana de outubro, 1,1% menos que no ano passado em igual período. A importação consumiu R$ 193,19 bilhões, 8,7% mais que um ano antes, segundo os dados oficiais. O saldo acumulado em quase dez meses, US$ 605 milhões, só foi possível graças ao resultado favorável obtido nas três primeiras semanas do mês, um superávit de US$ 1 bilhão. Mas esse resultado embute uma exportação meramente contábil de uma plataforma de petróleo no valor de US$ 1,9 bilhão. Outras plataformas foram contabilizadas nos meses anteriores, mas foram sempre vendas fictícias, vinculadas à concessão de benefícios fiscais.

Se esses números fossem eliminados, o quadro do comércio exterior brasileiro, já muito feio pelos números oficiais, seria bem menos favorável. Para acertar as contas seria também preciso, poderiam dizer os mais otimistas, eliminar as importações de combustíveis efetuadas em 2012 e registradas só neste ano graças a um arranjo especial da Petrobrás. É verdade, mas é indispensável lembrar uma diferença entre essas compras e as vendas de plataformas. Estas só ocorreram na contabilidade, mas as compras de combustíveis foram realizadas e seria necessário incluí-las nos cálculos em algum momento. Se tivessem entrado nas contas do ano passado, o superávit comercial teria ficado bem abaixo dos US$ 19,41 bilhões divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Se as projeções do BC estiverem corretas, o Brasil vai faturar neste ano US$ 241 bilhões com as vendas ao exterior. O gasto com produtos estrangeiros chegará a US$ 239 bilhões. O valor exportado será 0,6% menor que o do ano passado e 5,8% inferior ao de 2011. A importação terá custado cerca de 7% mais que em 2012 e 5,6% mais que dois anos antes. A deterioração é inegável e a causa mais importante é o enfraquecimento da indústria brasileira, por falta de investimentos, aumento de custos e dificuldade crescente para enfrentar uma disputa mais dura em mercados mais apertados. Isso vale para o mercado nacional.

As medidas protecionistas impostas pelo governo foram insuficientes para barrar o ingresso de produtos estrangeiros. Além do mais, nenhuma barreira tornaria os produtores brasileiros mais capazes de competir fora das fronteiras, mesmo em áreas antes consideradas campos de caça tranquilos, como o Mercosul e a maior parte da vizinhança. Também na região outros produtores têm conseguido ocupar espaços crescentes sem muita oposição brasileira.

Quando se aponta a piora do balanço de pagamentos — especialmente da balança comercial —, ministros costumam citar a acumulação de reservas para mostrar a segurança do setor externo. Mesmo com intervenções no mercado cambial, como reação às turbulências do meio do ano, o BC conseguiu, graças a uma estratégia bem desenhada, evitar a perda de moeda estrangeira e preservar mais de US$ 370 bilhões. Esse é, sem dúvida, um importante fator de segurança, mas de nenhum modo pode substituir a eficiência produtiva e os acordos internacionais favoráveis à expansão do comércio.

A política brasileira tem falhado nas duas frentes. A deficiência de investimentos, o desperdício de recursos, o erro na escolha de prioridades (na política educacional, por exemplo) têm dificultado ganhos gerais de produtividade. Se as concessões derem certo, a taxa de investimentos chegará a 22,5% do produto interno bruto até 2018, segundo estimativa do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Muitos países latino-americanos já estão acima desse padrão, enquanto a taxa brasileira continua oscilando entre 18% e 19%.

Como as condições de produção foram geralmente negligenciadas nos últimos dez anos, a começar pela infraestrutura, o potencial de crescimento diminuiu, como seria previsível. Hoje esse problema é assunto da pauta internacional, pouco importando os desmentidos e esperneios do governo brasileiro.

Na outra frente, a escolha das parcerias prioritárias, também se acumularam erros desastrosos. A diplomacia comercial pôs no alto da agenda a aproximação com mercados pouco importantes, com exceção do chinês. Mas o comércio com a China virou uma relação semicolonial, com o Brasil praticamente limitado a vender commodities, em geral de pouca ou nenhuma elaboração, e a importar manufaturados.

Os imperialistas, desprezados pela diplomacia de passeata dos governos petistas, continuam como compradores relevantes de manufaturados — e poderiam comprar muito mais se tivessem sido assinados acordos de livre-comércio. Mas nem todos criticam a estratégia comercial brasileira e o desprezo petista aos grandes mercados. No caso dos chineses e outros exportadores realistas e dinâmicos, a fantasia terceiro-mundista vivida em Brasília nos últimos dez anos elimina um possível competidor de peso.

Uma claque de baianos fascistas impede evento na Flica, por Rodrigo Constantino

Já participei de uma Flica, a feira literária de Cachoeira, e foi muito interessante. Falei para uma plateia majoritariamente contrária ao meu ponto de vista, contra cotas raciais e segregação com base no conceito de raça, e ainda assim foi um evento civilizado. Ao término, recebi elogios de algumas pessoas, alegando que era raro alguém ter coragem de dizer tais coisas por ali. Aqui tem uma parte do meu discurso:
Pois bem, parece que esse ano a coisa não correu bem da mesma forma. Leio que tanto Demétrio Magnoli como Pondé sofreram ataques, sendo que o último sequer conseguiu fazer sua palestra por motivos de segurança. A organização do evento alegou que não poderia garantir a integridade física do filósofo. Que vergonha, gente!
Não para os organizadores da Flica, liderados por Aurélio Schommer, que merece todo o meu respeito (sou, inclusive, autor do prefácio de seu ótimo livro História do Brasil Vira-Lata). Mas sim para esse grupelho de baianos que fez esse papelão, demonstrando que não são capazes de argumentar e partem para a linguagem dos covardes, a violência. Vejam que lamentável:

Fonte: Correio
Essa coisa de usar a ameaça de violência como “prima ratio” está passando dos limites no Brasil. Estamos na era da barbárie? Essa turma só sabe latir? Essa falta de respeito ao contraditório é típica dos fascistas. Há quem invada laboratórios para soltar animais. Mas pergunto: o que fazer com esses animais humanos soltos por aí, impedindo o debate livre, o diálogo, o avanço da CULTURA?

EM BADERNEIRO NÃO SE BATE NEM COM FLOR , por Janer Cristaldo

Vamos voltar no tempo. Não muito longe. Só cinco meses atrás. Voltemos às festas juninas, digo, à gloriosa Revolução de Junho de 2013. Quando dona Dilma dizia que depredar ônibus, carros e bancos eram manifestações pacíficas próprias da democracia. 

“O Brasil hoje acordou mais forte. A grandeza das manifestações de ontem comprovam (o plural é dela) a energia da nossa democracia, a força da voz das ruas e o civismo da nossa população. É bom ver tantos jovens e adultos, o neto, o pais, o avô juntos com a bandeira do Brasil cantando o hino nacional, dizendo com orgulho ‘eu sou brasileiro’ e defendendo um país melhor. O Brasil tem orgulho deles”, disse então a presidente. 

Temos então que o Brasil se orgulha de seus baderneiros. Fernando Henrique Cardoso, que de seu glorioso climatério assistia de camarote os distúrbios de rua, perdeu uma ocasião única de ficar calado. Desqualificar os protestos dos jovens em São Paulo e outras capitais "como se fossem ação de baderneiros" constitui, na avaliação do ex-presidente, "um grave erro". Para ele, "dizer que essas manifestações são violentas é parcial e não resolve. É melhor entendê-las, perceber que essas manifestações decorrem da carestia, da má qualidade dos serviços públicos, das injustiças, da corrupção".

Enquanto dizia isso, os “jovens” arrombavam os portões do palácio Bandeirantes, onde governa seu companheiro de partido, Geraldo Alckmin. Se estava faltando o governador vir a público para dizer que o arrombamento da porta do palácio Bandeirantes era uma manifestação legítima e própria da democracia – pensei com meus botões. 

Não faltou. Alckmin, que uma semana antes classificara os manifestantes como "vândalos" e "baderneiros", logo acudiu com panos quentes: "Queria fazer um elogio às lideranças do movimento e também à segurança pública e à Polícia Militar”. Para o governador, a primeira reunião com os utópicos desvairados do Movimento Passe Livre (MPL) foi positiva. "Foi uma reunião muito madura, muito proveitosa."

Assustados com as manifestações nas ruas, os políticos, sempre à procura do que rende mais votos, apressaram-se a tomar a defesa dos baderneiros. Fernando Haddad, incontinenti, congelou o preço das passagens. A conta da Revolução de Junho já chegou: metade dos contribuintes paulistanos terá de pagar aumento consecutivo do IPTU até 2018. 

Haddad fixou tetos de aumento de 20% para imóveis residenciais e de 35% para os comerciais em 2014, e de 10% e 15%, respectivamente, a partir de 2015. Com isso, 1,5 milhão de contribuintes, ou 49,7% dos 3,1 milhões, pagará resíduos do reajuste por mais de quatro anos. De algum lugar precisa sair o subsídio às reivindicações dos “jovens”. Estourou no bolso da classe média.

Apenas seis meses depois de declarar que “a grandeza das manifestações comprovam (o plural é dela) a energia da nossa democracia, a força da voz das ruas e o civismo da nossa população”, vários meses depois das contínuas depredações de imóveis, que custaram mais de seis milhões de reais aos cofres públicos, dona Dilma tem outra concepção dos “jovens e adultos”. 

Neste sábado, a presidente classificou como "barbárie" os atos de vandalismo ocorridos na noite de ontem em São Paulo e cobrou punição dos responsáveis pelo quebra-quebra realizado por mascarados na região central da cidade, aliás os mesmos que depredavam em junho passado.

"São barbáries antidemocráticas. A violência cassa o direito de quem quer se manifestar livremente. Violência deve ser coibida", disse a presidente por meio do Twitter. "As forças de segurança têm a obrigação de assegurar que as manifestações ocorram de forma livre e pacifica", acrescentou.

Em junho passado, a barbárie era das forças de segurança. Hoje, mudou o sinal. Em vez de louvar a “grandeza das manifestações” de “jovens e adultos”, ela cobrou que a Justiça puna os abusos, nos termos da lei. Os atos de vandalismo que geraram destruição no centro da cidade teve início durante o Ato do Movimento Passe Livre (MPL) – o mesmo movimento que gerou os vandalismos de junho – em defesa do transporte gratuito.

"Agredir e depredar não fazem parte da liberdade de manifestação. Pelo contrário", acrescentou a presidente. Em junho, agredir e depredar comprovavam “a energia da nossa democracia, a força da voz das ruas e o civismo da nossa população”.

A manifestação de ontem, segundo o Estadão, terminou com 78 pessoas detidas. Claro que não ficarão nem 24 horas em cana. As cenas de destruição se concentraram no Terminal Parque Dom Pedro II quando manifestantes quebraram dez ônibus e a bilheteria.

Na ação também foram depredados 17 caixas eletrônicos e orelhões. No meio do quebra-quebra, o coronel da PM Reynaldo Rossi foi agredido com uma placa de ferro e após ser espancado por alguns mascarados deu entrada no Hospital das Clinicas com fratura na escápula e suspeita de traumatismo craniano.

Espanta ver que a força pública foi impotente para impedir a quebra de ônibus, bancos, caixas eletrônicos e orelhões. Não conseguiu sequer impedir o espancamento de um de seus comandantes. Os policiais, pelo visto, têm agido como agem ante os usuários do crack: apenas assistem o crime sendo praticado sob seus olhos. As declarações irresponsáveis de Dilma, Fernando Henrique e Alckmin constituíram poderoso combustível para a fogueira. 

Um dogma não pode ser quebrado: em baderneiros não se bate nem com flor. Quanto a policiais, podem ser espancados à vontade.

Cientista, pesquisador e professor, ele é bisneto de Vital Brazil. E alerta: “Meu bisavô, hoje, seria enforcado”

Abaixo, há um vídeo. Quem fala é Osvaldo Augusto Brazil Esteves Sant’Anna. Trabalha, como ele próprio informa, há 45 anos em pesquisa. É professor em cursos de pós-graduação desde 1976. É pesquisador do Instituto Butantan e do  CNPq. Deixa claro: “O uso de animais em laboratório é imprescindível”. Ah, sim: ele é o bisneto mais velho de Vital Brazil, o criador do Instituto Butantan, um gigante da ciência brasileira. Afirma: “Vital Brazil [hoje] seria enforcado…”. Osvaldo Augusto, no entanto, não vive do parentesco, não. Vejam o vídeo. Volto depois.
Aplaudo a sua coragem, embora devesse ser a regra entre os cientistas, boa parte deles escondida embaixo da cama. Eis o currículo de Osvaldo Augusto, que está na página da Fapesp. Não parece que ele tenha chegado aonde chegou porque seja um torturador de animais.
*
Pesquisador Científico VI do Instituto Butantan. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo [1971], tem especialização em Imunologia pela Organização Mundial da Saúde/Organização Pan-Americana de Saúde [1971]; Mestrado [1973] e Doutorado [1979] em Microbiologia e Imunologia pela UNIFESP/Escola Paulista de Medicina; Pós-Doutorado pelo Institut Curie, Paris [1980/1981]. Tem experiência na Área de Imunologia, com ênfase em Imunogenética, e estudos com Toxinas, Venenos, Autoimunidades, Adjuvantes, Genética da Resistência a Infecções Virais e Bacterianas. Desde 1976 é Professor/Orientador em Programas de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Campinas, Universidade de São Paulo e Universidade Federal de São Paulo. É membro do Conselho Editorial da Revista Científica EINSTEIN e do Comitê de biossegurança do Hospital Albert Einstein. De 2003 a 2007 foi Vice-Diretor e, posteriormente, Diretor Científico do Centro de Toxinologia Aplicada, Programa CEPID/FAPESP. Assessor Científico do CNPq, FAPESP, FINEP, FACEPE, FAPESC, FAPERJ. Coordenador do CA-IMUNOLOGIA do CNPq de dezembro de 2006 a novembro de 2009. Atualmente é Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas (INCTTOX). (Fonte: Currículo Lattes)
Por Reinaldo Azevedo

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

AS VÁRIAS FACES DA MARINA, AQUELA QUE QUER SALVAR O BRASIL DOS MAUS POLÍTICOS, por Jorge Oliveira

Diário do Poder

Rio – As últimas aparições de Marina Silva na mídia mostram a face de uma política até então desconhecida. De salto alto, dissimulando cada vez mais uma falsa humildade, com trejeitos de Madre Tereza de Calcutá, a ex-senadora de uma hora para outra se diz a pessoa mais bem preparada para salvar o país dos maus políticos e empreender uma administração revolucionária. Isso evidentemente não condiz com a sua atuação medíocre à frente do Ministério do Meio Ambiente. Na entrevista que deu à TV Cultura, censurada pela EBC – Empresa Brasileira de Comunicação – Marina extrapolou o seu egocentrismo ao dizer que Eduardo Campos, que forma dupla com ela, fazia política velha e que a Rede, o seu partido, deu-lhe substância política. Quanta pretensão, meu Deus!



Na entrevista, Marina mostrou-se professoral e até demasiadamente ensaiada nos conceitos filosóficos que regem a política. Passou a impressão de uma pessoa ressentida com seus companheiros do PT, de quem viveu à sombra até se desgarrar para tentar carreira solo. Escondeu sob um sorriso acanhado um viés autoritário e radical ao responder algumas perguntas. No final da conversa com os jornalistas, a conclusão a que se chega é que as ideias de Marina, se colocadas em práticas, se esgotariam em um mês. E depois?



A ex-senadora foi no mínimo descortês com Eduardo ao acusá-lo de velho politiqueiro. Numa tradução livre, sem o politiques, chamou-o de fisiológico, partícipe de um grupo que faz política com objetivos obscuros para chegar ao poder a todo custo. “O governador Eduardo Campos, disse ela, “estava construindo a sua candidatura no velho diapasão (essa palavra foi extraída do dicionário político da Heloisa Helena) que os demais partidos estão fazendo: tentando conseguir tempo de televisão, palanque, base eleitoral. O que era apenas uma frágil possibilidade (de mudança de postura) agora ganha um pouquinho mais de substância com essa ação da Rede”.



Quanta dissimulação! Marina repudia os políticos, mas almoça e janta com eles todos os dias.



Será que a Marina acha que uma candidatura presidencial pode se dar ao direito de dispensar um bom tempo de televisão ou de fazer alianças para ampliar esse espaço valioso? Se pensa que pode dispensar esses aparatos numa campanha é bom conversar melhor com políticos experientes que já se envolveram numa eleição presidencial. Aliás, com esse comentário, Marina mostra que os seus 20 milhões de votos chegaram às urnas por inércia, sem que ela precisasse trabalhar pra merecê-los. Ou seja: esses votos iriam para qualquer candidato como uma opção de candidatura entre o PT e o PSDB.



Nas entrelinhas da entrevista, Marina parece que não está muito confortável lá dentro do PSB a julgar por suas próprias palavras. Veja: “O presidente do PSB (Eduardo) está empenhado em fazer uma discussão programática e parar um pouco aquela ideia de continuar viabilizando na lógica da aliança nacional”.



Como política, Marina é uma boa professora que sabe como ninguém puxar a orelha de seus alunos em público. Só isso.

Sol com peneira

DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo


É verdade que as pesquisas de opinião de um tempo para cá passaram a ser o parâmetro principal de avaliação dos candidatos a eleições. É fato também que empobrece o debate e concentra a cobertura jornalística praticamente à análise de pesquisas.

Desde alguns anos o noticiário eleitoral, antes pautado pela cobertura das campanhas mediante as movimentações nos estados e o acompanhamento acurado dos atos e falas dos candidatos, passou a ser direcionado basicamente pelas pesquisas.

Não resta dúvida tampouco que esse papel de protagonista deu às pesquisas uma importância superlativa. Ao ponto de passadas as eleições se cobrar dos institutos a precisão milimétrica do resultado, sem se levar em conta que resposta para pesquisador é uma coisa e vontade do eleitor no lusco-fusco da cabine indevassável pode ser outra muito diferente.

Daí a se querer resolver possíveis distorções mediante a proibição da divulgação de pesquisas a partir de determinado período antes do dia da votação vai uma grande distância. Esconde-se o sol com uma enorme peneira, cria-se um atrito com a Constituição e não se fala do que realmente está fora de lugar.

Encontra-se pronta para ser votada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado uma emenda constitucional que proíbe a divulgação de pesquisas 15 dias antes dos pleitos sob o argumento, segundo seu autor o senador Luiz Henrique, de que "podem alterar a decisão de muitos eleitores".

E daí? Seria a primeira pergunta diante de tantos fatores que interferem e conduzem a decisão do voto.

A segunda indagação guarda relação com a improbabilidade de a proposta prosperar. O Supremo Tribunal Federal já disse em 2006 que tal proposta é inconstitucional. De onde a tentativa agora mudar a Constituição para incluí-la na legalidade.

De novo, e daí? Mesmo se aprovada, basta instituição autorizada (o Ministério Público, por exemplo) apresentar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que o STF confirmará a decisão anterior. Perda de tempo, portanto.

Fora isso é de se perguntar como seria na prática a proibição em tempos de comunicação total e instantânea. O veto seria estendido à internet, às redes sociais? Além de impossível, era o que faltava.

Isso não quer dizer que a "participação" das pesquisas em campanhas eleitorais não esteja a merecer correções de rumos. Mas não pela via que atualmente parece ter virado a solução para todas as insatisfações: a proibição pura e simples. Seja de liberdade aos autores de biografias, em nome das eventuais calúnias, seja de pesquisa para resguardar a autonomia mental do eleitor.

O que não se deve é dar a essas consultas a dimensão de oráculo. Elas fornecessem informações, e por isso não podem ser subtraídas do público, mas não oferecem todos os dados. Proibi-las não dará ao eleitor o discernimento que por muitas vezes lhe faz muita falta.

Não corrigirá, sobretudo, a deformação que parece mais grave e de enfrentamento urgente: a dupla militância de institutos de pesquisa que, contratados por essa ou aquela campanha, têm seus trabalhos divulgados como se isentos da possibilidade de agradarem ao cliente estivessem.

Isso, sim, cria suspeição. Isso, sim, deveria ser proibido.

Voto facultativo. Enfim, surge uma questão relevante nas discussões sobre reforma política no Congresso: o fim do voto obrigatório, como proposta a ser apresentada pelo grupo que cuida do assunto na Câmara. Ainda que não seja aprovado pelo conjunto dos parlamentares - o que provavelmente não será, pois político não abre mão da reserva de mercado - a simples entrada do tema em pauta já dá uma arejada no ambiente.

Notadamente porque "chama" o eleitor para dentro do debate até agora restrito a assuntos do interesse exclusivo dos partidos.

ACONTECEU EM TÚNIS * , por Janer Cristaldo

Túnis, anos 70. Eu fazia a cobertura do festival de cinema de Cartago. Entre um filme e outro, jantei com um carioca, funcionário da Embrafilme, e uma cineasta portuguesa. O carioca estava preocupado apenas em passar bem. A lusa tinha preocupações outras. Queria achar uma praia, em pleno país árabe, onde pudesse tomar sol de marianinhas ao léu. Traduzindo: fazer topless. Ao final da janta, pedimos um café turco. 

O carioca, por brincadeira, resolveu ler a borra do café da lusa. A rapariga emborcou sua xícara e nosso vidente improvisado começou a interpretar os desenhos da borra. Foi avançando, sem mais compromissos, aquelas previsões óbvias: você tem um belo futuro pela frente, perspectivas de novas viagens, doenças em família. Em suma, tudo aquilo que qualquer pessoa minimamente bem situada terá, queira ou não queira. Até aí, brincávamos.

O garçom nos observava e não resistiu: “Monsieur lê borra de café?”. O carioca assumiu: “leio”. O garçom pediu então que lesse seu futuro. Tudo bem, respondeu o súbito vidente, mas você terá de tomar um café turco. E o garçom, que confessou detestar café turco, esvaziou uma xícara e a emborcou. O carioca assumiu ares de guru e começou a leitura. Começou pelo óbvio, aquelas coisas rotineiras que a qualquer um de nós acontecem. Lá pelas tantas, anunciou: você tem um encontro muito importante à sua frente. O garçom puxava pela memória, não encontrava encontro algum. Nesta altura, o proprietário do restaurante já entrara na roda e interveio: “tem sim , claro que tem, você tem aquele audiência com o ministros dos Cereais, sobre sua padaria”. O guru carioca tripudiou: “a borra não mente. Olhe o ministro firme, nos olhos, quando encontrá-lo”.

E continuou: você tem alguém com graves problemas de saúde na família. O garçom puxou pela memória, não encontrava ninguém doente em suas cercanias. Monsieur desculpasse, mas não havia ninguém com problemas de saúde. Nosso vidente continuou sua farsa e antes que terminasse, o patron entrou de novo na conversa: tem alguém doente sim, seu irmão não funciona bem da cabeça. O leitor de borras do fundo de xícaras exultou: “claro, está tudo aqui na borra”. E recomendou a terapia: quatro vezes por mês, atar o irmão num poste e dar um banho de sal grosso.

Passaram-se as décadas e até ainda hoje imagino aquele pobre diabo sendo atado a um poste todas as semanas, sem saber porquê e submetido a uma ablução salgada. Tudo por uma piada de mesa de bar, elaborada por ocidentais desocupados. Neste mar de crédulos em que navegamos, clientela é o que não falta para aderir ao primeiro vigarista que se arvore em leitor do futuro ou apóstolo de uma nova crença. Você faz uma piada e arrisca criar um rebanho de seguidores.

Nunca foi tão fácil criar uma religião. Sem ir mais longe, temos aí o bispo Edir Macedo, um dos mais recentes aliados do impoluto Partido dos Trabalhadores. Começou sua cruzada em 1977, empunhando sua versão particular da Bíblia. Nem transcorreram três décadas e tem milhões de fiéis no planetinha e templos de Paris a Nova York. O cristianismo precisou de quatro séculos para impor-se a um continente. Em trinta anos, o bispo Macedo já se espalhou por três.

Comentei a regulamentação da profissão de astrólogo na semana passada. Recebi não poucos e-mails indignados com minha descrença em relação à influência dos astros e aos bons ofícios de seus intérpretes. Se descrer de Deus já não causa espécie neste século XXI, descrer da astrologia parece constituir heresia. Recebi protestos de pessoas que se dizem historiadores e astrólogos, cientistas políticos e astrólogos. Numa época em que jornais supostamente sérios mantém colunas diárias do ancestral engodo, não é de espantar-se que astrologia comece a assumir um status acadêmico.

Me apraz auscultar, nos bares que freqüento, a diversidade humana. O que tenho visto ultimamente é de assustar. Que me encontre com crentes deste ou daquele deus, gente que crê nos deuses astronautas ou na neurolingüística, na psicanálise ou em feng shui, isto faz parte da vida de bar. Para minha perplexidade, tenho encontrado ultimamente pessoas que acreditam no que vêem na televisão. Não falo de noticiários, onde alguma dose de realidade sempre há.

Mas de documentários, onde o cineasta, para melhor explicar uma teoria, produz imagens de fantasmas, corpos se incendiando, copos se movendo numa mesa. Pois não é que há centenas, senão milhares, de espectadores, que acreditam na existência real da imagem produzida? Há pouco, um destes interlocutores me jurava de mãos juntas que a combustão espontânea era algo real. Ele havia visto uma mulher entrando em combustão na TV. E mais: vira na TV a cabo. Descobri então que a TV a cabo, talvez por seu sotaque estrangeiro, goza de mais credibilidade que a TV aberta.

São pessoas incultas, dirá o leitor. Pode ser. Mas a universidade, onde por definição está a elite pensante das nações, durante décadas acreditou em Freud e Marx. Marxismo e freudismo, no Ocidente, só enganam pessoas cultas. As elites, para serem enganadas, exigem uma cobertura sofisticada para o embuste, uma espécie de chantili científico para o bolo. Para os pobres de espírito, serve deus mesmo. Ou astros. Ou borra de café. 

Assim, quando vejo ilustres doutores empunhando a Bíblia, Marx ou Freud, sempre me ocorre a imagem do simplório garçom de Túnis. Em sua credulidade, era um legítimo representante desta incrível raça, a humana, sempre disposta a crer no que não entende.

* 13/7/2002

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