quarta-feira, 20 de novembro de 2013

CARLOS BRICKMANN- POLÍTICA & POLÍCIA: O MUNDO COMO ELE FOI

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam mais. Só que, se o mundo é o mesmo, já não é o mesmo; nossos ídolos ainda são os mesmos mas trocaram de lado três vezes. E até nós, jornalistas, estamos confundindo política com polícia. Pense bem: quando o mundo jornalístico se dividia entre grandes jornais e vespertinos que, espremidos, escorriam sangue, em qual dos dois mundos entraria o noticiário político de hoje em dia?

É ladroeira no metrô, é ladroeira nos trens urbanos, é golpinho fuinha para aprovar projeto na Câmara Municipal paulistana, é clima de torcida organizada entre jornalistas de um e outro partido – e jornalista deveria ter partido, já que isso pode prejudicar seu compromisso com o consumidor de informação? Este colunista é do tempo em que o PT dizia ser diferente de tudo que está aí; e viveu o suficiente para ver o PT proclamando que é igualzinho aos outros, só que mais perseguido.

Pois não é que aparece uma foto, sem qualquer comentário, em que José Sarney, Fernando Collor e Lula estão juntinhos, só faltam abraçar-se, em homenagem ao falecido presidente João Goulart? Nenhum comentário – nem mesmo para dizer que Sarney foi um combativo opositor de Goulart, que apoiou sua deposição, que foi presidente da Arena, o partido que deu sustentação política à ditadura militar que depôs Goulart; nem mesmo para dizer que Lula participou da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, uma gigantesca manifestação cujo principal lema era o “Fora, Goulart”. OK, o tempo passa, o tempo voa, a poupança Bamerindus extinguiu-se numa boa, mas nem para lembrar o passado de cada um os meios de comunicação se movimentam? Nem para lembrar que, hoje aliados, não faz muito tempo Collor e Lula chamaram Sarney de ladrão e Collor levou à TV o depoimento de uma namorada de Lula que o acusava de ter tentado forçá-la a um aborto?

O falecido presidente João Goulart merece a homenagem de seus sucessores, em homenagem ao cargo que ocupou democraticamente. Mas não se pode esquecer o passado: se os meios de comunicação existem apenas para registrar eventos (e a exumação de Goulart tanto foi um evento que houve a contratação de uma empresa de eventos, a gaúcha Capacitá, para organizá-lo na forma de comício, até com palanque para a ministra Maria do Rosário, que quer candidatar-se ao Senado pelo PT no ano que vem), então se tornaram desnecessários: basta pegar uma imagem de celular que tevês, rádios, portais de Internet, jornais e revistas acabam, como inutilidades caras, totalmente descartáveis.

Mas voltemos ao noticiário em geral: pegue um grande jornal e veja o que está na primeira página. Bandalheiras, ladroeiras, maracutaias, denúncias, processos. Política – a arte de governar, de buscar convergências, de liderar – se transformou numa editoria igualzinha à de Polícia. Só faltam os crimes de sangue. Fora isso (se é que isso está realmente fora), resta apenas um enumerado de infrações às leis e aos códigos vigentes, e a discussão sobre o motivo pelo qual alguns já foram condenados e outros não. A imprensa bate bumbo, reclamando ora que seus favoritos foram prejudicados e seus inimigos não, ora que, se tanto inimigos quanto amigos praticam os mesmos atos condenáveis, por que os amigos enfrentam problemas e os inimigos não.

Este colunista entende o problema: o mesmo lance, a favor do Corinthians, é correto, e contra o Corinthians indica que o juiz é ladrão. Só que este colunista é declaradamente corinthiano, não faz cobertura de clubes por absoluta falta de isenção e se coloca como torcedor. Um bom grupo de jornalistas que cobre mensalão e golpes afins tem a mesma visão deste colunista quando trata de futebol – só que se apresentam como profissionais em busca da verdade. Até são – mas da sua verdade.

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