quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O erro do Papa Francisco. Ou: Cada macaco no seu galho

Prezado leitor, não sei se já reparou, mas não tenho texto algum sobre física quântica no blog. Sabe por que? Simples: porque não entendo nada desse assunto. Sou um completo ignorante quando se trata de quarks e coisas do tipo.
É verdade que de vez em quando me aventuro em águas distantes de minha área de especialização, a economia, mas sempre quando sinto que tenho algum conhecimento razoável sobre o assunto, e mesmo assim procuro ser mais humilde nessas horas.
Desde Adam Smith sabemos da importância da especialização. A quantidade de conhecimento disponível é tão grande que ninguém tem como saber de tudo. Por isso é bom ter cuidado quando for opinar sobre temas que fogem da área de atuação. Cada macaco no seu galho. É um bom conselho para o Papa Francisco.
Figura carismática, que conquistou minha simpatia, que exala sinceridade e compaixão. Mas isso não o impediu de tecer duras críticas ao capitalismo e aos “especuladores” em sua primeira exortação apostólica. Não é novidade. A Igreja Católica tem uma relação complicada e ambígua com o capitalismo desde sempre, e a Encíclica Populorum Progressio, escrita pelo Papa Paulo VI, era um documento completamente socialista.
Em uma das passagens, o Papa diz que é lamentável que o sistema da sociedade tenha sido construído considerando o lucro como um motivo chave para o progresso econômico, a competição como a lei suprema da economia, e a propriedade privada dos meios de produção como um direito absoluto que não tem limites e não corresponde à “obrigação social”.
Em outras palavras, o Papa Paulo VI lamentou que o capitalismo de livre mercado predominasse em relação ao socialismo. Os interesses coletivos, sabe-se lá quem os define, estariam acima do direito de propriedade privada, o que torna indivíduos meios sacrificáveis pelo “bem comum”.
O Papa ignora que, no livre mercado, o lucro é fruto do bom atendimento da demanda dos consumidores, ou seja, é o indicador de que os indivíduos, por meio de trocas voluntárias, estão satisfeitos. Todos sabem o que aconteceu nos países que tentaram abolir o lucro, a competição e o direito de propriedade privada. O resultado foi a miséria, a escravidão e o terror. São consequências inexoráveis do socialismo colocado em prática.
O Papa Francisco não foi tão longe, mas foi na mesma direção. Poderia entender se a crítica fosse voltada aos excessos do capitalismo, do individualismo, da especulação gananciosa desmedida. Mas especular é algo que todos fazemos, pois ninguém sabe o futuro. Foi o comércio, visto como atividade de filisteu por muitos intelectuais e católicos, que trouxe tantos avanços para a humanidade, inclusive no campo das virtudes morais.
Como diz Matt Ridley em The Rational Optmist, é “milagroso” o fato de que confiamos em um vendedor que nos é totalmente estranho e desconhecido. Nem sempre foi assim. Grupos tribais queriam exterminar o “outro”, o estranho ameaçador. Esse tipo de confiança moderna, de laço social, cresceu junto com a impessoalidade do capitalismo, tão atacado por gente da esquerda e também por alguns católicos.
Até mesmo as artes elevadas, que tocam o espírito humano, devem bastante ao capitalismo e à especulação. Basta lembrar que os centros artísticos eram também locais com o comércio mais desenvolvido, como Florença, Amsterdã, Londres e Veneza. Capitalistas ricos foram importantes mecenas das artes, inclusive as sacras.
Não pretendo ensinar o Papa a rezar a missa, muito menos em latim. Longe de mim! Mas seria bom se o Papa tampouco quisesse nos ensinar sobre capitalismo e especulação. Não é sua especialidade. Claro, ele tem total direito de emitir suas opiniões. Mas no caso, não passam disso: opiniões de um leigo no assunto. Que, infelizmente, repercutem muito e influenciam várias pessoas.
Depois a Igreja Católica fica perplexa ao constatar que perde cada vez mais espaço para os protestantes, que adotam discurso menos agressivo contra o capitalismo e o desejo natural que temos de enriquecer…
Rodrigo Constantino

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