sábado, 23 de novembro de 2013

PT privatiza Galeão com relativo sucesso, por Rodrigo Constantino

A presidente Dilma comemorou o resulto do leilão do aeroporto Galeão, arremetado por R$ 19 bilhões por consórcio formado pela Odebrecht e a estrangeira Changi, que opera o aeroporto de Cingapura, um dos melhores do mundo. Falou que muitos acordariam com amargura hoje, por terem torcido contra. Desde o segundo mandato de Lula o PT tem adotado a velha máxima do regime militar: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Nem toda crítica é torcida contra, presidente. Ao contrário: há uma enorme quantidade de gente que, justamente por torcer a favor do país, faz críticas construtivas na esperança de que sua gestão mude a postura econômica e possa entregar resultados menos medíocres. Tratar as críticas como ataques de antipatriotismo é típico de governantes autoritários.
A privatização do Galeão foi relativamente positiva sim. É bom que o PT, após tantos anos difamando o conceito da privatização e fazendo até terrorismo eleitoral ao “acusar” de  ”privatistas” os adversários do PSDB, tenha finalmente se dado conta de que o estado não tem condição de administrar tantas empresas, pois não é bom empresário.
Foi um sucesso, também, o valor arrecadado e a presença da Changi, que traz conhecimento e experiência para a operação. Nesse aspecto, só posso parabenizar seu governo, por ter se dobrado diante da realidade que os librais já apontam há anos. Portanto, deixando as diferenças políticas de lado, fica aqui meu reconhecimento de que o PT fez algo positivo, que foi ignorar sua pregação ideológica da vida inteira para realizar uma importante privatização. Os liberais agradecem.
Dito isso, e justamente devido ao viés ideológico, há críticas ainda ao modelo adotado e, principalmente, ao timing da privatização. A Copa do Mundo vem aí, assim como as Olimpíadas. O Galeão mais parece uma rodoviária atualmente, sob a gestão da estatal Infraero. A demora, portanto, é injustificável. Durante esses grandes eventos, tudo que terá mudado será a placa de novo administrador, como disse um deputado tucano. Mas a gestão continuará a mesma de sempre, sofrível, incompetente.
Outra crítica legítima e construtiva, presidente, diz respeito ao forte financiamento do BNDES. Até 70% do total, a taxas subsidiadas? Não lhe parece mais uma molezinha do que um programa de financiamento? Sei que seu ministro Guido Mantega deve lhe ter dito que, sem isso, ninguém viria.
Mas isso, por si só, não lhe desperta sinal de alerta? Por que os investidores do setor privado, com tantos recursos parados em títulos de renda fixa quase sem retorno, não achariam atraente entrar na disputa mesmo sem a enorme ajuda do banco estatal? Ora, claro que entrariam, inclusive com ajuda de bancos privados, se a confiança nas regras do jogo e no futuro do país fosse maior.
Mais uma crítica justa seria a manutenção da Infraero com 49% do bloco. Isso vai demandar recursos que a estatal não possui, e também pode representar o risco de subsídios cruzados à frente, para que as operações saudáveis, graças à gestão privada, financiem as deficitárias, sob o comando estatal. A Infraero vai virar um centro de custos? Era preciso ter pensado melhor nisso. E não é verdade que aeroportos menores não teriam o interesse do setor privado também. Teriam, se as condições de mercado fossem respeitadas. Ou seja, tudo é questão de risco e retorno.
Por fim, a última crítica: quem venceu o leilão? Odebrecht, simplesmente o maior ícone do “capitalismo de laços” do nosso país. Confesso que isso é ducha de água fria para os liberais. Uma empresa com simbiose tão grande com o próprio governo não é exatamente o ideal de empreendedorismo, não é mesmo? Lembre-se, presidente, que muitos liberais condenavam essa simbiose em relação ao Grupo X, de Eike Batista também.
O Brasil tem um modelo de capitalismo de estado. É bom que o PT faça as privatizações que sempre condenou com veemência. É um passo na direção correta. Mas ainda erra em muitas coisas ao dar esse passo. É o ranço ideológico do passado assombrando o tímido progresso rumo a um esquerdismo menos jurássico.

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