segunda-feira, 12 de agosto de 2013

VALE A APOSTA


‘Vale a aposta’, por Carlos Brickmann

O caro leitor acredita que a denúncia de formação de cartel para superfaturar equipamentos do Metrô paulistano (e, eventualmente, de outros metrôs e trens de transporte urbano espalhados pelo país) será investigada a fundo, com seriedade? Este colunista aposta uma gravação de The Sound of Silence, com Simon e Garfunkel, contra o Blowin’ in the Wind, versão Eduardo Suplicy, como não será.
O Brasil é um país curioso. Já condenou um intermediário de distribuição de propina, PC Farias, sem identificar nem os pagadores nem os recebedores. Já condenou um grupo de políticos e empresários no caso do mensalão, em última instância, mas a última instância aqui não é a última, porque cabe recurso. Por que não criticar duramente os corruptores (sem, naturalmente, puni-los) e deixar de lado a investigação a respeito dos corrompidos? Esse tipo de investigação é tão brasileiro quanto a feijoada, a goiabada com queijo e a pizza à portuguesa.
E, cá entre nós, quem vai atirar a primeira pedra? Alguns mamutes empresariais são os grandes financiadores de campanha dos maiores partidos; e os partidos que não recebem se calam, à espera de sua hora de glória. Há algum tempo, uma operação da Polícia Federal acertou o centro do alvo: descobriu-se quem pagava e quem recebia. Mas, por falta de informações, todos saíram ilesos. Construções de areia são frágeis na praia. Na vida real, são uma fortaleza, um sólido castelo.
Petistas e tucanos vão se xingar, uns acusando os outros. Mas sabem que investigação em excesso, como remédio em excesso, faz mal para todos eles.
Internacional, e daí?O caro leitor também não deve se impressionar muito com a corrupção investigada no exterior. A Suíça provou que dirigentes da FIFA receberam propinas milionárias, mas não aconteceu nada porque isso não era ilegal. O máximo que aconteceu foi a antecipação da aposentadoria para dirigentes com mais de 80 anos de idade (antes, quem decidia a data da aposentadoria era uma Vontade mais alta). Os demais continuam por lá, mandando muito.
Bernie Ecclestone, da Fórmula 1, enfrenta acusações pesadas. E continua lá, mandando muito, aos 82 anos. Talvez ele também se aposente. De qualquer forma, a punição é mais severa que a brasileira. Aqui o pessoal metido em bandalheiras nem aposentado é.
O risco nacionalDe acordo com a Justiça alemã, a Siemens pagou 8 milhões de euros, menos de R$ 25 milhões, a funcionários públicos brasileiros.
O risco que esses funcionários correm é de ser punidos por dumping: cobraram abaixo do mercado.
Batata quenteA decisão do Supremo Tribunal Federal, de ordenar a prisão do senador Ivo Cassol (PP de Rondônia) sem cassar seu mandato, deixando que o Senado cuide disso, é esquisita: abre campo para que um parlamentar se mantenha no posto, mesmo na cadeia. Mais: o ficha-suja não pode se candidatar, mas mesmo condenado e preso pode manter o mandato.
Talvez seja um ato de astúcia política do Supremo: se o Senado não se mexer, a situação esdrúxula poderá provocar revolta na opinião pública. O Senado terá de assumir a responsabilidade de afastá-lo.
É coisa nossaEsta coluna, hoje, trata apenas de peculiaridades brasileiras. Por exemplo, a Polícia Federal entrou na casa de Sérgio Nogueira Seabra para uma busca e apreensão. O detalhe é que Sérgio Nogueira Seabra é secretário de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas da Controladoria-Geral da União, CGU.
É notável: é a Polícia querendo recolher provas de corrupção na residência do responsável pela Prevenção da Corrupção de uma entidade cuja função específica é verificar se os altos funcionários do Governo andam na linha. O ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, nem esperou o resultado da ação: diz que Seabra é inocente.
Mais coisa nossaE a entrega dos dados do Tribunal Superior Eleitoral a uma empresa privada, a Serasa, controlada por um grupo estrangeiro, a Experian? Ninguém sabia de nada! O convênio prevê a entrega à Serasa-Experian dos dados de 140 milhões de eleitores brasileiros. A presidente do TSE, ministra Carmen Lúcia, suspendeu o convênio até que seja examinado pela Corte ─ o que indica que não tinha sido examinado, e que a presidente do tribunal ou não sabia do que se tratava ou achava que tudo bem, mas de repente a má repercussão fez soar o alerta.
De qualquer modo, houve uma mudança importante nas circunstâncias, o que talvez torne o convênio impossível: essas coisas valem só quando ninguém sabe delas.
No meio da ruaMas, pensando bem, essas coisas já existem faz tempo, todo mundo sabe delas e ninguém se mexe. No centro de São Paulo, especialmente na rua Santa Efigênia, compra-se por R$ 30,00 um CD que traz informações cadastrais de centenas de milhares de pessoas.
Devem ser informações verdadeiras. Fazer uma lista de informações falsas só para vender nos camelôs custaria caríssimo.
Antes da hora
Mais coisas estranhas? O indiciamento do vereador paulistano Andréa Matarazzo, do PSDB, no caso Siemens. 
O caso ocorreu antes que ele fosse secretário.

MAURÍCIO TERRA DIAS - FELICIANO, O DEPUTADO ROBOCOP

O deputado Marco Feliciano vai passar ainda um bom tempo pagando caro por expressar suas opiniões absurdas e por tentar fazer uso do poder que lhe foi conferido pelos votos que o levaram à Câmara para esta legislatura.

Os rapazes que o assediaram no vôo ente Brasília e São Paulo, desenvolvendo performance abertamente provocativa, aparentemente não compreendem que o deputado leva vida submetida a valores que representam a média do pensamento de uma parcela muito mais que significativa da população brasileira. Não é necessário analisar a proporção de votos que ele obteve para ser diplomado em relação aos progressistas, defensores de direitos de minorias ou simplesmente livres pensadores com idéias contrárias às dele, para compreender que ele não está ali à toa.

Ainda não compreendi qual é o objetivo dessas pessoas e de todas as outras que aparentemente sentem alguma espécie de prazer em ofender, insultar, chocar ou simplesmente constranger quem pauta sua vida por uma atitude mais séria ou recatada.

O Sr. Marco Feliciano, por mais absurdas que sejam suas idéias, tem o direito de viajar em paz, tem o direito de exercer seu mandato propondo e votando leis que sejam do interesse de quem o elegeu. Assim como Jair Bolsonaro, Paulo Maluf ou qualquer outro que esteja representando eleitores no Congresso. Se algum grupo tem alguma coisa contra suas idéias, deve primeiro tornar-se significativo o suficiente para eleger um Jean Willys, por exemplo, e exigir dele uma postura de combate às idéias daqueles congressistas mais retrógrados ou simplesmente conservadores.

É desagradável compreender que a democracia é assim, mas é assim mesmo que as coisas funcionam. Quando deixa de ser assim, quando as pessoas não podem mais pensar da forma que decidirem ou agir de acordo com a sua consciência, entramos na ditadura, e aí qualquer ideia pode ser suprimida pelas sandices e pela censura de um grupo de gorilas à força. Não é tolerável que deixemos o deputado Feliciano fazer qualquer coisa com seu mandato, impondo seus valores e idéias medievais a todo o país, porque ele está se metendo numa área onde é possível demonstrar que está cometendo um erro do ponto de vista científico ao acreditar que é possível curar um gay. Por outro lado, não é possível ignorar que ele representa pessoas que pensam como ele, e eles representam um contrapeso para a imposição de idéias no sentido de impor modelos bizarros de educação, como já aconteceu junto a decisões do Ministério da Educação.

As pessoas menos letradas precisam compreender que liberdade não significa fazer qualquer coisa que venha à cabeça. Os cidadãos, de qualquer grupo de interesses, têm o direito de transitar e cultuar seus valores em paz. Se o deputado Marco Feliciano está equivocado, e está provado que ele está, não é com uma performance ridiculamente agressiva que ele transformará seu modo de pensar. Ele precisa ser esclarecido e ensinado, e não agredido juntamente com todos os que estão acidentalmente à sua volta.

LIBERTAÇÃO, por Rodrigo Constantino


Passei esse fim de semana imerso na Segunda Guerra, bem no meio do furacão: Budapeste, cidade tomada pelos alemães nazistas de um lado, e depois “libertada” pelos russos bolcheviques. Trata-se do livro Libertação, de Sándor Márai, que retrata com detalhes essa angústia húngara da época. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…
A história de Erzsébet se confunde com a própria história da cidade. Oscila entre a esperança e o desespero, não tolera mais a ocupação nazista, mas para se “libertar”, tem de ser estuprada de forma fria e mecânica por um soldado comunista. Há sentido nisso? Como o ser humano é capaz de tanta atrocidade? São as questões metafísicas que o autor aborda em interessantes diálogos.
Poucos, sob aquelas circunstâncias, resistem, preservando sua integridade moral:
Como se uma sociedade no momento do perigo derradeiro perdesse a dignidade humana restante: traía-se em massa, escreviam-se cartas anônimas, ou assinadas com nome e sobrenome, corria-se para entregar o infeliz que nas voltas finais da corrida ensandecida se espremia asfixiado num canto das profundezas dos abrigos…
Em meio a tanta desumanidade, à covardia generalizada, eis que o pai de Erzsébet, um cientista, não sucumbe ao coletivismo totalitário. Seu heroísmo consiste em se manter indivíduo, fiel a seus valores e princípios:
A postura pessoal era inconfundível; seu silêncio revoltava a “direita” como se ele estivesse abertamente contra eles. Pois os detentores do poder não necessitavam de nada, embora demandassem com intensidade o respeito moral dos intelectuais – eles lhe dariam tudo se com um gesto ele aprovasse a aventura sangrenta que buscavam tornar atraente para a multidão com sedutoras palavras de ordem, patrióticas e racistas. Entretanto não obtinham do pai justamente o apoio moral do homem de espírito: e por isso o odiavam. Tinham necessidade do nome, do nome célebre e limpo, do nome imaculado do cientista; e o cientista silenciara durante anos, não saíra do escritório, e no início de março desaparecera. Por isso o odiavam, e o procuravam cada vez mais enlouquecidos.
Mas quantos conseguem agir assim diante do medo, da avassaladora sensação coletivista, que retira do indivíduo qualquer resquício de responsabilidade? Tibor, o amante de Erzsébet que preferiu fugir do país, condena seus vizinhos sem rodeios. Ele “não confiava no poder de resistência da sociedade húngara”, pois “a sociedade não tinha força moral para resistir”.
Quantas sociedades possuem “força moral” para resistir? Quantos indivíduos são capazes de agir com base em princípios diante do perigo, colocando sua própria vida em risco? Como o adventista da história, que ajudava estranhos sem motivo aparente:
O que acontecia naquela alma nessa hora em que o homem se despira de todos os compromissos humanos? Um homem que havia permanecido fiel aos compromissos humanos escritos e tácitos, à lei da ajuda, num mundo que negava todas as leis e se aniquilava com um ódio insano.
Quando um pequeno grupo entrou no porão em que dezenas de pessoas se escondiam, retirou um judeu, e o assassinou diante de todos, o grau de excitação foi total. Por que ninguém reagiu? Por que a passividade? Só porque os assassinos estavam armados? A consciência da coisa como um todo ficou mais clara:
Compreenderam que o acontecido no dia anterior na Polônia, na Ucrânia, nos acampamentos alemães, nos porões das casernas das cidades francesas, belgas, holandesas, norueguesas, austríacas, tchecas, sérvias não era “má notícia ou propaganda”, mas responsabilidade pessoal.
Primeiro atacaram os judeus, e muitos consentiram calados. Mas a questão não era judaica, e sim da humanidade. Os próprios judeus não são uniformes. Há muitas diferenças entre eles. “Veja, talvez seja essa a razão de todo mal-entendido. A generalização é o grande problema, uma das causas de toda desgraça”. Ela alimenta o ódio no ser humano, que passa a enxergar abstrações coletivas, em vez de indivíduos de carne e osso, com suas várias características.
Mas será o homem capaz de superar isso? Sándor Márai não traz uma mensagem romântica de esperança. Ele sofreu na pele o pior lado da natureza humana, exilou-se em 1948, inconformado com o regime comunista, e se suicidou nos Estados Unidos em 1989, às vésperas do fim do comunismo.
Pessimismo com nossa espécie, ou realismo? Difícil condenar alguém que passou por tanta desgraça produzida pelos próprios homens e suas ideologias coletivistas, alimentadas pelo ódio. Será o homem capaz de superar sua típica covardia moral quando o ódio toma conta do coletivo? Há alguma chance de libertação?

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