sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quando tinha medo da morte, por Janer Cristaldo

Ateus, não tememos a morte – dizia há pouco. Leitor quer saber se nunca tive medo da morte. Claro que tive. Especialmente quando acreditava em deus. Talvez nem tanto em deus, mas na vida eterna. Ou melhor, no castigo eterno. A igreja me ameaçava com as chamas do inferno em caso de morrer em pecado mortal. E o pecado mortal mais ao alcance da mão de um adolescente sempre foi sexo.

A cada falta contra o “templo sagrado de Deus” – que é como os padres chamavam o corpo - entrava em pânico. Via à minha frente as chamas eternas do Hades, onde tudo é choro e ranger de dentes. Me sentia condenado ao convívio com demônios. E para a eternidade.

Arrependia-me, fazia atos de contrição, confessava meus pecados a sacerdotes e recebia a absolvição. Por um dia ou dois, conseguia viver sem pavores. Mas não mais que um dia ou dois. No terceiro, eu já estava pecando de novo. As noites de tempestade eram noites de pavor. Talvez fosse megalomania. Mas cada raio que caía, eu sentia que era dirigido a mim. Confesso que jamais senti tanto medo da morte como naqueles dias.

Não que tenha deixado de temer a morte quando deixei de acreditar em Deus. Jovens, sempre tememos morrer sem ter vivido. Se algo aprendi em meus anos de caminhada, é que com a idade este medo diminui. Não só diminui, como a idéia da Indesejada das Gentes passa até a ser palatável. Aprendi também que este medo é um impulso que nos leva a viver intensamente.

É o antigo carpe diem. Está em Horácio. Para os pagãos, a vida pós-morte nunca foi um ideal. Mais sábio é aproveitar cada dia.

“Tu não indagues (é ímpio saber) qual o fim que a mim e a ti os deuses tenham dado, Leuconoé, nem recorras aos números babilônicos. Tão melhor é suportar o que será! Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último o que agora debilita o mar Tirreno nas rochas contrapostas, que sejas sábia, coes os vinhos e, no espaço breve, cortes a longa esperança. Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de amanhã”.

Se morte não assusta o ateu, há algo que o ateu teme: é o medo de perder a vida. São medos diferentes. Se o medo ao sofrimento eterno despareceu, persiste o medo de morrer sem ter vivido. Quando digo medo de perder a vida, não quero dizer morrer. Estou falando em desperdiçá-la.

Este temor é saudável, nos leva a bem viver o presente. Durante bons anos convivi com ele e nesses dias procurava exorcizar a Moira Torta buscando o prazer. E qual prazer? Ora, o que mais me aprazia. Tinha medo de morrer amanhã sem ter tido aquela mulher que desejava. Melhor então tê-la hoje. Ou sem ter feito aquela viagem com a qual sonhava. Melhor então partir logo. Este medo de perder a vida é motor poderoso, e terá levado muitos homens a grandes conquistas. Schliemann não queria morrer sem ter descoberto Tróia. Alexandre, ainda menino, tinha medo que seu pai conquistasse tantos reinos a ponto de não lhe sobrasse nenhum para conquistar. O medo é do tamanho do homem.

Cristãos não deveriam temer a morte. Celebrar a morte - dizem os teólogos - é celebrar um encontro, o encontro pelo qual ansiamos por toda a vida. Encontro com Deus, nosso Criador e Senhor. 

Em A Peste, de Albert Camus, o padre Paneloux faz uma longa exposição sobre os flagelos que acometeram os homens por vontade divina. Como o Cristo, ele aceita passivamente o Mal, sem mesmo se interrogar sobre as eventuais motivações da divindade. Se o Cristo, em um momento de sua agonia, deixa escapar o lamma sabachtani, Paneloux morrerá sem uma só palavra nos lábios.

"Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem".

Confesso que acho muita graça na atitude destes senhores que crêem ser a morte um encontro com o Eterno, mas na hora do Jesus-está-chamando recorrem a medicinas de ponta. "Não se deve ser mais apressado do que Deus", dizia Paneloux. Pode ser. Mas também não precisava postergar o encontro. 

Já falei de meu medo de voar. Houve em minha vida um período de quatro anos nos quais, se tivesse de tomar um avião daqui a três meses, passava estes três meses dormindo à base de soníferos. Na época, a Internationes ofereceu-me uma viagem aérea por diversas cidades da Alemanha. Aceitei, mas só iria de trem. Era a época em que o grupo terrorista RAF, Fração do Exército Vermelho, mais conhecido como Baader-Meinhof, ameaçava derrubar aviões no espaço aéreo alemão. Funcionários da embaixada alemã tentavam convencer-me de que o país estava muito bem preparado para enfrentar o terrorismo. Mas eu não tinha medo de terroristas. Tinha medo era de voar. Vivia em Paris e por quatro anos arrastei comigo este medo, perdendo viagens e optando sempre por locomover-me de trem ou navio. (O que, aliás, não é nenhuma desvantagem). Chegou o dia em que tive de voltar por alguns dias ao Sul. Foi em 79. Navio era inviável. Só voando. Meses de insônia. No dia do embarque, tomei uma garrafa de uísque enquanto fazia a mala. Mais outra no avião. Permaneci imóvel o tempo todo, não levantei sequer para fazer xixi. Tinha medo de desestabilizar o aparelho. Juro!

Meu medo decorria de um fiasco que cometi em 75. Eu voava pela Argélia, rumo ao Assekrem, no sul do país. Na primeira escala após Argel, creio que Gardhaia, quando o piloto anunciou a aterrissagem, apertei o cinto e me preparei para aquela sensação de bem-estar que, com maior ou menor intensidade, sempre nos inunda após uma aterrissagem tranqüila. O avião se aproximava do solo. Olhei pela janela e só vi areia. Estávamos talvez a uns cinco metros do solo e só havia areia e mais areia. É aterrissagem forçada, pensei. Apertei forte a mão da Baixinha, que nesta altura também já estava preocupada, e nos preparamos para o fim. Minha vida foi passando em flashes rápidos pela mente. Naquele momento não senti medo, apenas me resignei ante o inevitável.

Quando o avião aterrissou suavemente, fui invadido por uma sensação de ridículo. Deveria ter observado que, em torno a mim, ninguém estava em pânico. Aeroportos no deserto são assim mesmo, apenas uma pista cercada de areia por todos os lados. Meu medo decorria de falta de informação. E passei quatro anos sem voar.

Medo irracional, direis. Claro que sim. A maior parte dos medos é irracional. Mas é medo, que se vai fazer? Resolvi enfrentá-lo. Que era o quê me fazia medo? Não era o medo de avião. Era o medo de morrer. Vamos então enfrentar a tal de morte. Não é o destino natural de todo homem? É. Então, por que ter medo? Além do mais, a morte de avião em geral é uma benção. Alguns minutos de agonia, ou segundos, ou talvez nem mesmo isso, como parece ter sido o caso dos sinistrados da TAM. E fim. Sem maiores sofrimentos, nem entubações, nem dias de hospital. Voltei para Paris num vôo dos TAP. Lembro que avião estava quase vazio. Levantei os braços de três poltronas, atei o cinto, deitei-me e dormi como um anjo, se é que anjos dormem. Hoje, já nem sinto quando o avião decola.

Um dos sonhos de minha Baixinha era morrer em um acidente aéreo. Já que temos de morrer, que seja rápido. Mais ainda: pessoas que se querem bem, melhor que voem juntas. Se têm a suprema ventura de um acidente fatal, nenhum fica chorando vida afora a perda do outro. 

Costumo afirmar que a velhice é uma preparação para a morte. Chega um dia em que viver se torna não só trabalhoso como sofrido. Neste momento, para quem não crê em potocas do Além, nada mais bem-vindo que a morte.

A incompetência da Infraero, por Rodrigo Constantino

Deu no Valor: TCU aponta paralisações e atrasos em obras de aeroportos da Infraero
O Tribunal de Contas da União (TCU) acaba de concluir um diagnóstico preocupante sobre a evolução de obras tocadas pela Infraero nos 67 aeroportos que a estatal administra em todo o país. A auditoria do tribunal, a qual Valor teve acesso exclusivo, foi realizada em junho. De acordo com os auditores, dez aeroportos da Infraero estão com contratos paralisados: Santarém (PA), Porto Alegre (RS), Macaé (RJ), Santos Dumont (RJ), Goiânia (GO), Vitória (ES), Marabá (PA), Macapá (AP), Salvador (BA) e Aracaju (SE).
Essas paralisações têm causas diversas, mas, invariavelmente, a origem dos problemas está em deficiências graves verificadas em projetos de engenharia, atrasos na execução do objeto contratado, descumprimento de cláusulas contratuais e superfaturamento.
[...]
No aeroporto do Galeão, a execução de obras e serviços de engenharia para alargamento de pista e recuperação de pátio teve seu prazo de conclusão dobrado, com o acréscimo de 27 meses para entrega do empreendimento. O custo subiu em R$ 12,9 milhões, acréscimo de 20% sobre o preço original. Em mais de 90% dos contratos aditivados, aponta o TCU, a causa está relacionada à necessidade de alteração técnica do projeto, ou das quantidades previstas.
Quem já leu meu livro Privatize Já não esboçará surpresa alguma com a notícia. Esse é o padrão esperado de uma estatal: lentidão, atrasos, irregularidades, superfaturamento, prioridades questionáveis etc. Faltam sócios atentos tanto ao desperdício dos próprios recursos quanto ao bom atendimento dos clientes, de quem o lucro depende.
A Infraero conseguiu transformar os aeroportos brasileiros em verdadeiras rodoviárias. O quadro é precário em vários locais. A saída é uma só: privatização! E o ideal era privatizar a Infraero de uma vez. Governo não tem nada que ser gestor de aeroportos. A iniciativa privada fez isso de forma bem mais eficiente.

Esquerda caviar. Literalmente!, por Rodrigo Constantino

O governador do Ceará, Cid Gomes, do PartidoSocialista Brasileiro, contratou serviço de buffet por R$ 3,4 milhões com recursos públicos. O deputado Heitor Ferrer, do PDT, pede explicações e batizou o caso de “farra do caviar”:
um contrato publicado no Diário Oficial do estado detalhando a contratação de um buffet, no valor de R$ 3,4 milhões, para abastecer a cozinha da residência oficial e o gabinete do governador com iguarias que incluem centenas de quilos do que há de mais fino na culinária.
[...]
De 2010 a julho de 2013, o mesmo buffet recebeu do governo do Ceará R$ 3,5 milhões para garantir a boa mesa a Cid Gomes, sua família e convidados.
Heitor Ferrer, único deputado estadual que faz oposição a Cid Gomes, lista todas as suspeitas que já rondaram o governador no uso do dinheiro público: de gastar R$ 81 milhões com contratação de bandas e megashows de estrelas como Plácido Domingos e Ivete Sangalo; de pagar R$ 67 milhões com frete de aeronaves para levar a sogra e a família para passear em capitais da Europa, do Caribe e dos Estados Unidos; e de pegar carona em jatinhos e iates de empresários.
O cardápio previsto no edital para a contratação dos serviços prevê até 495 pratos diferentes, e se apresenta com uma variação de receitas preparadas com caviar, escargots, bacalhau, salmão, presunto de Parma, funghi, vieiras, frutos do mar, pães exóticos, croissants, toucinho do céu ou trufas. Ingredientes indispensáveis nas cozinhas dos grandes chefs.
Assim é fácil ser socialista, não é mesmo? Prega a igualdade, condena os ricos da boca para fora, e depois usa o dinheiro dos outros para viver como um nababo milionário!
Ciro Gomes, irmão do governador, questionou-me certa vez, em um debate no programa “Conversas Cruzadas” da TVCom gaúcha, se era mesmo possível reduzir em um bilhão os gastos públicos. Um bilhão! Eu comecei a citar as ONGs que recebem repasses bilionários, os ministérios ociosos e desnecessários, quando ele interrompeu: “Dá bilhão?”
Dá, sim. Na verdade, dá para cortar centenas de bilhões do orçamento público! O governo arrecada quase 40% do PIB, e a quantidade de desvio, gasto sem sentido, desperdício, é gigantesca. Poderíamos ter um governo consumindo bem menos recursos, e muito mais eficiente.
Esse caso de Cid Gomes pode ser multiplicado pelo restante do país. Eis um bom começo: cortar as mordomias absurdas que esses governantes socialistas desfrutam com o nosso dinheiro! E então, Ciro: dá bilhão?

De novo a mistificação sobre a morte de Jango (e nós pagando), por Erico Valduga


Suspeita de envenenamento foi levantada por um marginal uruguaio, quando esteve preso na penitenciária de Charqueadas por prática de crime comum


Há cinco anos, prezados leitores, vocês leram aqui, a propósito do resultado de uma comissão especial da Assembleia Legislativa que não chegou a lugar nenhum, que a suspeita sobre ter Jango Goulart morrido de causa criminosa “pode ser excitante e politicamente interessante, mas não se sustenta minimamente na realidade. O laudo da causa da morte, em 1976, ainda que emitido por médico do regime autoritário, portanto comprometido, aponta um colapso cardíaco. O gaúcho era realmente cardiopata, e havia poucos dias que voltara de consulta ao especialista francês que o atendia. Além disso, monitorar o que faziam os exilados não tem nada a ver com o desejo de matar um deles, ainda mais aquele que os militares respeitavam por ter deixado o cargo de presidente da República para evitar uma guerra civil. Fosse Leonel Brizola, ainda faria algum sentido”.

Informa-se que está chegando ao Estado “uma equipe de peritos” da Polícia Federal, da Comissão da Verdade, e do Ministério Público Federal, para, em São Borja, “preparar a exumação” dos restos mortais do ex-presidente. Em que consistiria o preparo? Conhecer o túmulo e o cemitério, verificar se há necessidade de isolar a área e identificar a estrutura apropriada para o transporte do material exumado até o aeroporto do município. Ora, não precisa de um enxundioso grupo de peritos para isso, pois bastaria obter as informações desejadas com os colegas da PF e do MPF que atuam no Estado, inclusive em São Borja. Duas ou três ligações por telefone ou internet resolveriam a questão. Mas racionalidade e economia do nosso dinheiro não interessam, e sim prolongar a mistificação, com mais espaço na imprensa. Talvez tenhamos até uma entrevista com certa ministra, aquela que só aparece quando que obter vantagem política.

Bolsa-Empresário a todo vapor, por Rodrigo Constantino

Os desembolsos do BNDES bateram recorde no primeiro semestre ao alcançarem R$ 88,3 bilhões, alta de 65% ano contra ano.
Com a expansão, o banco já prevê a necessidade de receber mais recursos, provavelmente do Tesouro, para dar conta da projeção de financiamentos de entre R$ 185 bilhões e R$ 190 bilhões em 2013, 30% acima dos R$ 156 bilhões de 2012, afirmou o presidente da instituição, Luciano Coutinho, a jornalistas.
É a Bolsa Empresário a todo vapor. Alguém acreditou no discurso de austeridade fiscal do governo, ou de fim dos malabarismos contábeis? Ao que tudo indica, o governo ainda acredita que deve usar o BNDES para “estimular” a economia, a despeito do péssimo resultado até aqui.
A verdade é que o BNDES tem sido o grande instrumento de seleção dos “campeões nacionais” por parte do governo. Entre esses “campeões” está o grupo EBX, de Eike Batista, hoje em grandes dificuldades financeiras, ou a JBS (“Boibrás” parece mais apropriado), cujo acionista tem ambições políticas. Qual o critério?
Isso sem falar da “contabilidade criativa” que o governo faz, usando o BNDES para receber dividendos que vêm dos recursos do próprio Tesouro aportados no banco. O BNDES claramente extrapolou suas funções, se é que elas são defensáveis. Ele virou um veículo de transferência de recursos dos mais pobres, pagadores de impostos, para os mais ricos.
Esse ritmo acelerado de empréstimos não se traduziu em retorno para a sociedade. Está na hora de debater mais a fundo isso. Se for o caso, que o BNDES seja até fechado. O que não dá é para continuar nessa toada, prejudicando os brasileiros em nome de uma ideologia ultrapassada, que delega ao governo um poder econômico desmedido e absurdo.

Abusos nos costumes, por Dora Kramer

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Ao se posicionar sobre o processo do mensalão no primeiro dia do julgamento dos recursos iniciais contra as condenações determinadas pelo Supremo Tribunal Federal, o ministro Luís Roberto Barroso deu aval à tese de que só uma reforma salva a política.

O defeito, segundo ele, está no "modelo brasileiro que produz a criminalização da política". Por esse raciocínio, partidos e políticos seriam vítimas e não agentes dos delitos. Suas condutas desviantes seriam corrigidas mediante a mudança de regras eleitorais e partidárias.

Por analogia, então, uma ampla reforma no Código Penal teria o condão de, por si só, combater a criminalidade.

Mas as coisas não são assim. Não se resolvem transferindo a responsabilidade do indivíduo para as instituições. O próprio Luís Roberto Barroso (a quem aproveito para pedir desculpas por trocar seu nome dias atrás, chamando-o de José) entrou nessa seara quando chamou atenção para o desrespeito às leis e às normas de civilidade presente no cotidiano das pessoas.

O ministro não citou, mas poderia incluir o eleitor que estabelece com os políticos uma relação baseada no toma lá dá cá. Por que as emendas são tão importantes para os parlamentares?

Porque ao levar dinheiro para esta ou aquela localidade o político se credencia junto ao eleitorado que, pelo mesmo motivo, tende a "simpatizar" com os que conseguem se mostrar próximos do poder, com acesso a instrumentos de repasse de benefícios.

Nada a ver com ideologia ou juízo sobre a conduta do deputado, do vereador, do prefeito, do senador ou do governador. Tanto é que vários conseguem se eleger depois de terem sido protagonistas de escândalos, tendo passado longos períodos de exposição negativa e em alguns casos condenados.

A lista é extensa e expõe o fisiologismo na convivência com a base, numa reprodução do que ocorre em Brasília entre as cúpulas. Portanto, falamos de algo que vai além da reformulação do sistema eleitoral, da forma de financiamento das campanhas, do voto assim ou assado. Falamos de uma questão cultural.

Não só. Evidentemente a reforma das regras é necessária. Mas a reformulação de procedimentos é imprescindível. Uma não funciona sem a outra. Bem como a existência de punição rigorosa cumpre papel importante.

Na opinião do ministro Barroso, "ninguém deve supor que os costumes políticos serão regenerados com direito penal, repressões e prisões". Segundo ele, todo o esforço empreendido na investigação e julgamento dos envolvidos no mensalão só será validado quando se fizer a reforma política.

Involuntariamente ou não, o ministro desvalorizou o esforço ao qual se referiu. Havendo a aplicação da lei, a observância do direito, a repressão a ilegalidades e prisões dos que se beneficiam de prerrogativas públicas para escapar de punição, certamente haverá a inibição de ações até então cometidas com total falta de cerimônia, ao abrigo da leniência geral.

Não é verdade que, como disse Luís Roberto Barroso, sem a reforma política tudo continuará a ser como sempre foi. Algum partido ou governo vai se atrever a arquitetar esquemas de desvio de dinheiro para financiar partidos aliados diante das condenações prestes a serem executadas?

Podemos até inverter a pergunta: se já tivesse sido feita a reforma política quando o assunto começou a ser discutido no Congresso há mais de 15 anos, não haveria escândalos de corrupção, estaria tudo resolvido desde então?

Não estaria. Como de resto não estará nada resolvido nem minimamente encaminhado para uma solução razoável enquanto houver tolerância aos abusos decorrentes dos maus costumes arraigados na sociedade e exercitados com desfaçatez por certas autoridades.

Seguidores

Arquivo do blog

LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.