quarta-feira, 21 de agosto de 2013

‘A voz rouca das ruas’, por Carlos Brickmann

Centenas e centenas de milhares de pessoas das mais diversas tendências se manifestaram contra tudo isso que está aí. E obtiveram os seguintes resultados:
1 ─ O Governo Federal, pressionado, teve de liberar muito mais dinheiro público para as emendas parlamentares. Nos sete meses anteriores, as propostas de interesse direto de Suas Excelências mereceram R$ 1,4 bilhão do Tesouro. Nos primeiros nove dias de agosto, as liberações alcançaram R$ 1,2 bilhão.
2 ─ O prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, desandou a pintar faixas no chão e a chamá-las de “faixas exclusivas de ônibus”. Paralisou a cidade.
3 ─ O presidente do Senado, Renan Calheiros, colocou em votação alguns projetos que criam dificuldades à Presidência da República ─ por exemplo, derrubada da multa de 10% sobre o FGTS em demissões sem justa causa e orçamento impositivo, obrigando o Governo a executar o que o Congresso determinou. Mas, depois de conversar com Dilma, disse que a pauta pode ser alterada. E de que depende a mudança? Renan foi absolutamente claro: “de negociação”.
4 ─ O Governo tucano paulista, enfrentando o escândalo do Metrô e dos trens denunciado pela Siemens, reagiu exatamente do mesmo jeito que os petistas acusados em outros casos: disse que há escândalos também fora de São Paulo. E, enquanto não denunciarem todos, os casos paulistas não devem ser investigados?
A voz do povo é um pilar da democracia. Mas é preciso evitar que o ruído das ruas encubra o crescimento silencioso da incompetência e da corrupção.
Os novos amigos
Dilma, para não perder posição nas pesquisas, virou amiga de infância do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, e é toda amável com Renan Calheiros. O blogueiro Josias de Souza ouviu “de uma cascavel do PP” a seguinte análise sobre as novas amizades federais: “O apreço da Dilma pelo Renan ficou claro no dia em que ela tentou fazer do Edison Lobão presidente do Senado. Quanto ao Eduardo Cunha, ela não queria vê-lo nem pintado de ouro. Os dois pediam mais diálogo. E ela insinuava que precisavam era de interrogatório. De repente, viraram os três mosqueteiros. Dizem que é altruísmo. Tudo pelo Brasil. Isso costuma dar em CPI.”
Velhos tempos… 
Como dizia Fausto Silva, este colunista é do tempo em que Polícia impedia a invasão de prédios públicos. Polícia invadir a Câmara dos Deputados, mesmo para apresentar reivindicações justas, é novidade.
Gente fardada e armada invadir o Congresso para constranger parlamentares eleitos era só na época da ditadura.
…velhos dias
Este colunista é do tempo, também, em que sessão do Supremo era aguardada por quem queria apreciar a inteligência dos ministros, aprender com sua sabedoria e assistir à ação da Justiça. É estranho esperar reunião do Supremo, como a de hoje, para ver se alguém bate em alguém.
Surpreenda-se: STF não era UFC.
De Holanda a Brasília
Não faz muitos anos, Chico Buarque de Holanda dizia que o Brasil falava fino com as potências e grosso com os vizinhos. No Governo Lula, o Brasil falava grosso com as potências e fino com vizinhos como Evo Morales, que fez o que quis sem encontrar reação. No Governo Dilma, como comprova a detenção em Londres do namorado brasileiro do jornalista Glenn Greenwald, do Guardian, que escreveu sobre a espionagem global americana, o Brasil fala fino com todos.
Surpresa antiga
A capacidade de memória dos computadores dobra a cada dois anos. A memória humana parece reduzir-se. Hoje, o mundo se surpreende porque os Estados Unidos fazem espionagem eletrônica em escala global. Na década de 1970, há mais de 40 anos, nos EUA, o senador democrata Frank Church comandou uma comissão que investigou a violação de direitos humanos pelas agências americanas de informação. Já naquela época se soube que a NSA, National Security Agency, a mais discreta das entidades de espionagem, monitorava comunicações em escala global, decifrava códigos de Governos estrangeiros, tinha verbas muito superiores às da CIA. 
Um romance do início da década de 1990, O Punho de Deus, de Frederick Forsyth, já tinha como fio condutor a interceptação pela NSA de uma conversa telefônica no Iraque de Saddam Hussein. E mostrava, há mais de vinte anos, a colaboração entre os serviços secretos americano e britânico.
A dança dos números
O governador paulista Geraldo Alckmin, PSDB, está feliz: a pesquisa Sensus lhe dá 37% de aprovação, enquanto o prefeito paulistano Fernando Haddad, PT, tem 17%. No Rio, o prefeito Eduardo Paes, PMDB, foi atingido pela baixa popularidade de seu companheiro de partido, o governador Sérgio Cabral: tem 19% de aprovação (Cabral, 15%). No Paraná, o tucano Beto Richa festeja aprovação de 67%. Mas talvez Richa festeje mais pelos adversários que não tem (a principal é Gleisi Hoffmann, do PT, se resolver arriscar o cargo de ministra) do que pelos números. Um ano antes das eleições de 2010, Serra tinha 36%, contra 17% de Dilma, 14% de Ciro, 12% de Heloísa Helena, 3% de Marina. 
Deu no que deu.

Enquanto isso, na China...

Rodrigo Constantino
Todos os “defensores da liberdade” dedicaram sua energia para combater os Estados Unidos e o Reino Unido, aparentemente as grandes ameaças às liberdades no mundo de hoje. Mas, enquanto isso, quase passa despercebida pela imprensa essa notícia, que a Folha trouxe à tona. Não esperem muitos ativistas da nossa esquerda revoltados com o governo chinês. Afinal, eles concordam com o PCC!
Um documento interno que circula entre os líderes do Partido Comunista da China tem alertado para os “perigos” de valores ocidentais, como democracia, direitos humanos universais e reformas econômicas neoliberais.
Segundo o jornal “New York Times”, que obteve uma cópia do documento, a advertência partiu do próprio presidente chinês, Xi Jinping, que assumiu a liderança do partido em novembro do ano passado.
Denominado de “Documento Número 9″, o memorando enumera sete perigos que ameaçam o poder do PC chinês, sendo o primeiro deles a “democracia ocidental constitucional”.
Os demais riscos à hegemonia comunista incluem “valores universais” de direitos humanos, liberdade de imprensa, conceitos “neoliberais” de economia de mercado e críticas “niilistas” à história do partido.
“Forças ocidentais hostis à China e dissidentes dentro do país continuam infiltrando constantemente a esfera ideológica”, diz um trecho do documento, reproduzido pelo “New York Times”.
De acordo com o jornal, o memorando foi emitido apenas para circulação interna no partido em abril, um mês depois da posse de Xi como presidente, que marcou a transição de poder que ocorre a cada dez anos na China.
A linha dura adotada pela nova liderança decepcionou intelectuais liberais e até alguns ex-dirigentes comunistas moderados, que viam na ascensão de Xi a chance de mudanças políticas.
Mas as prisões de conhecidos ativistas de direitos civis nas últimas semanas demonstra que as ameaças contidas no “Documento Número 9″ estão sendo levadas a sério pelo governo.
Além disso, a imprensa estatal publicou uma série de artigos e editoriais condenando o “constitucionalismo” _o conceito de que o poder do Estado e do partido devem ser subordinados a uma lei suprema.
“Constitucionalismo pertence somente ao capitalismo”, decretou um artigo do “Diário do Povo”, jornal do Partido Comunista chinês.
A publicação aponta uma conspiração dos EUA por trás dos que defendem o conceito no país. “É uma arma de guerra psicológica usada pelos magnatas do capitalismo monopolista americano e seus aliados na China para subverter o socialismo chinês”.
Ativistas chineses afirmam que a repressão ao constitucionalismo significa um retrocesso em relação ao governo anterior, durante o qual discussões sobre o assunto foram toleradas.
Uma greve de jornalistas que irritou o governo no início deste ano teria sido um dos motivos que levaram o Partido Comunista a emitir o “Documento Número 9″.
Funcionários do semanário “Southern Weekend” e ativistas protestaram na cidade de Guangzhou (sul), depois que um editorial em defesa de direitos constitucionais foi transformado por censores em um artigo com elogios ao Partido Comunista.
MARCELO NINIO
DE PEQUIM

Em qual país vive Delfim Netto?, por Rodrigo Constantino

Eu já tinha criticado a coluna de Delfim Netto nesta terça-feira, mas não posso deixar passar em brancoa de hoje, na Folha. Tem o mesmo sentido, mas com tom ainda mais subserviente ao governo e otimista. Definitivamente, eu e Delfim não devemos habitar o mesmo país! Senão, vejamos:
É preciso estar muito desatento à realidade brasileira para não perceber a profunda mudança de comportamento do governo na política econômica, na tentativa de melhorar as suas relações com o Congresso Nacional e na abertura de um melhor diálogo com os possíveis investidores nos projetos de infraestrutura.
Preciso de óculos novos! Talvez Delfim possa me emprestar os seus. É que realmente não consigo enxergar tanta mudança assim. Ainda não tivemos um único leilão bem-sucedido, sem necessidade de enormes subsídios do BNDES, para que Delfim tenha algo concreto a mostrar.
O governo sinalizou que pode “tolerar” um pouco mais de retorno, mas algum investidor realmente confia no discurso? Sabendo qual a ideologia da turma no poder? Show me the money! Queremos ver a prática da coisa. Só que acho pouco provável: eles não confiam no mercado por lá, e pensam ser desejável e possível decretar o retorno dos investimentos, as tarifas, TUDO!
Quanto ao Congresso, vimos as torneiras do toma-lá-dá-cá se abrirem, mas daí a concluir que ocorreu mudança significativa de relacionamento parece uma distância e tanto. Os obstáculos são enormes ainda, pois a campanha eleitoral foi antecipada, pelo próprio PT, e há entrave de tudo que é lado para as parcerias partidárias. Isso sem falar da imagem de arrogância da presidente, o que demanda muito mais tempo para ser desfeita.
Mas Delfim segue com as elucubrações um tanto alienígenas:
Na política fiscal há explícito repúdio a novas alquimias e um esforço no sentido de manter o deficit nominal abaixo de 2,5% do PIB e a relação dívida bruta/PIB a- baixo de 60%. Ela ainda é desconfortavelmente “expansiva”, contudo não sinaliza qualquer tragédia.
Na política monetária não há (e nunca houve) ameaça de perda de controle da taxa de inflação, que teima em permanecer em torno do limite superior da “meta”. Recentemente, entretanto, o Banco Central vem tentando reduzi-la. Recusou a dominância fiscal que aceitou até há pouco e aumentou a taxa de juro real.
Explícito repúdio aos malabarismos contábeis? Onde? Quando? Pensei ter visto em algum lugar que o BNDES vai receber mais injeção de recursos do Tesouro para seguir com sua alquimia. Que jornais Delfim tem lido? Algum de Marte?
Não há ameaça de perda de controle da taxa de inflação? Com a inflação rodando acima de 8% no setor de serviços, onde o congelamento grosseiro do governo não alcança? O que acontece com a inflação se o governo soltar os preços da gasolina, da energia, dos transportes etc?
Aumentou a taxa de juros o BC? Delfim, dê uma olhada na curva de juros, para ver quanto o mercado precifica lá na frente. O BC está claramente atrás da curva, ou seja, negligente com as expectativas do mercado (o leitor pode não compreender tão bem esse linguajar, mas posso garantir que o ex-ministro sabe do que estou falando).
Tudo isso deve tranquilizar as relações políticas e aumentar a probabilidade de sucesso da política econômica e das concessões de estradas de rodagem, portos e energia, que poderão ser um estímulo ao aumento dos investimentos do setor privado em geral. Será também um fator importante na superação do dramático desânimo que se apropriou da economia nacional.
Quer fazer uma aposta? Infelizmente, o próprio governo, influenciado por conselheiros econômicos como Belluzzo e Delfim, pensa ser possível reverter o “desânimo” no gogó, com discursos para inglês ver. Mas não funciona assim. Não é tão fácil desfazer uma imagem tão negativa perante os investidores, construída lentamente por uma gestão incompetente e, acima de tudo, ideologicamente equivocada.
Sem falar que essa gestão comprometeu os fundamentos da economia. Estamos falando de sérios problemas estruturais, que não desaparecem com “sinalizações” do governo, da mesma equipe ainda por cima! É como se um time da terceira divisão, depois de levar dez goleadas seguidas sem fazer um único gol, quisesse convencer a todos que vai derrotar o Barcelona, sem uma alteração tática ou da equipe, e com o mesmo técnico. Piada, né? Mas Delfim quer que levemos isso muito a sério. Dá para levar Delfim a sério?

Factóide de várias dimensões, por Erico Valduga

Além de improvável, a hipótese de assassinato de Jango envolve uma busca de causa que peritos policiais consideram complicada pelo tempo decorrido

ESTÁ MONTADO, desde hoje, o circo da exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart, sepultado em São Borja há 37 anos. O primeiro ato no picadeiro será o mapeamento em 3D do túmulo, promovido por integrantes da Polícia Federal, Secretaria Nacional dos Direitos Humanos e Comissão da Verdade, esta a mesma que Dona Dilma criticou faz pouco pela incapacidade de promover ações que lhe rendessem visibilidade na imprensa. Não se sabe em que consiste o tal mapa tridimensional, e nem de quantas pessoas precisa para ser realizado, mas deve ser coisa muito complicada se exige a presença de tantos visitantes federais, cujas despesas e diárias de viagem são custeadas com o nosso dinheiro.

FOI MAIS DISCRETO o comportamento das autoridades chilenas, que desenterraram Pablo Neruda em abril, e, pouco antes, Salvador Allende, sob o mesmo argumento do discurso ideológico agora usado com Jango: possibilidade de morte provocada – sem o menor indício sério de que isso possa ter acontecido, como acontece agora com Jango. Nos três casos o interesse sectário atropela as certidões de óbito, que afirmam como causas um tiro de espingarda, no suicídio do presidente chileno, câncer de próstata em estado terminal, no caso do poeta, e colapso cardíaco no do político gaúcho, que tinha conhecido histórico de cardiopatia. Aliás, ele mencionou problemas cardíacos como causa de viagens à Europa, em conversa com escriba, em 1974, em Montevidéu.

É MUITO DIFÍCIL, quase impossível, a confirmação da hipótese interesseira de envenenamento. Por duas razões, entre outras. Uma, o autor da primeira e única denúncia, não confirmada por ninguém mais, é um alcagüete uruguaio, quando preso em Charqueadas por tráfico de armas, falsificação de documentos, roubo e formação de quadrilha. Lembrou-se do “fato” 32 anos depois, inclusive do detalhe incrível de que a morte do político teria sido ordenada por ninguém menos do que o general Ernesto Geisel, que presidiu o Brasil (l974-79) na ditadura militar, e que foi o responsável pela abertura política que levou à redemocratização.

O OUTRO MOTIVO, este razoável, é uma declaração da esposa do ex-presidente, Maria Tereza Goulart, feita logo após a morte dele, curiosamente esquecida: “Envenenado? Impossível, a não ser que eu tenha dado o veneno, pois estava ao lado dele quando morreu”. A propósito, ela sempre discordou da exumação, mas mudou de idéia sem que saiba o motivo, que não seria em retribuição aos R$ 35 mil/mês que passou a ganhar dos cofres públicos, acima do teto do funcionalismo, além de R$ 400 mil como indenização por ter sido considerada perseguida política.

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