domingo, 25 de agosto de 2013

Distrital neles. por Erico Valduga

Prova de que a representação política dos cidadãos funciona mal no país é a falta de resposta concreta dos governantes aos protestos de rua de junho

Qual foi a principal reivindicação dos protestantes de junho? Maior aproximação entre eleitores e eleitos, de forma que aqueles possam acompanhar de mais perto como se comportam estes na promoção do que de fato interessa aos cidadãos, que é a melhoria da qualidade de vida de todos, por meio do investimento do dinheiro dos tributos nas áreas de saúde, educação, segurança e mobilidade. Até agora, no entanto, nenhuma providência relevante saiu do discurso para a prática. Tudo indica que, se não houver novas pressões sobre os governantes, os mandatos em 2014 serão obtidos da mesma forma viciada pelo abuso do poder econômico estatal e privado que se verifica hoje. E quem irá coibir este abuso? Os representantes, que dele se beneficiam, ou os representados, nós, os prejudicados por ele? E como fazê-lo de forma rápida e institucionalmente segura? Aumentando a transparência na relação política por meio do sistema de escolha e de acompanhamento do trabalho do eleito.

Sabemos como, prezados leitores: voto distrital. Isto mesmo, de preferência com recall. Não vamos repetir aqui as numerosas vantagens do sistema que vigora na maioria dos países desenvolvidos, o que naturalmente exclui Cuba, mas destaquemos uma delas, que preocupa em especial a OAB, empenhada no projeto Eleições Limpas, contra “financiamentos espúrios por parte de empresas”. Ora, esta questão perde importância se adotado o distrito eleitoral, pois os eleitores serão os fiscais a denunciar ilegalidades, que a Justiça Eleitoral investigará e punirá, após julgamento. É inquestionável, no caso do chão farroupilha, por exemplo, que é muito mais fácil perceber-se abusos, a serem denunciados pela própria entidade dos advogados, em áreas com 200 mil eleitores cada, compreendidas em territórios que representam 1/30 do Estado cada uma, do que no total de 280 mil quilômetros hoje custosamente percorridos pelos candidatos em busca de votos do colégio de 6 milhões de eleitores, distribuídos nos 280 mil km quadrados do Estado, como ocorre no malfadado sistema proporcional.

VIDA EM CUBA- Realeza e servidão, por Yoani Sánchez



Minha avó lavava e passava para fora. Na metade dos anos oitenta,quando morreu, só sabia escrever as três letras do seu nome: Ana. Trabalhou durante toda sua vida como empregada de uma família, mesmo depois de 1959 quando a propaganda oficial se ufanava de haver emancipado todas as serviçais. Ao invés disso muitas mulheres como ela continuaram trabalhando no serviço doméstico sem cobertura legal. Para minha irmã e para mim Ana passava parte dos seus dias na “casa da rua Ayestarán” e jamais dizíamos em voz alta que ali era paga para limpar o chão, limpar os pratos e preparar a comida. Nunca a vi se queixar, nem soube que a houvessem maltratado.

Faz um par de dias escutei uma conversa que comparei com a história da minha avó. Uma senhora pançuda vestida com roupas caras contava para uma amiga – entre taças de vinho branco – como ia indo sua jovem doméstica. Transcrevo aqui, sem acrescentar uma palavra sequer, aquele diálogo que me deu uma mistura de repulsa e tristeza.

- Pelo que me dizes tens sorte.

-Sim, não posso me queixar, é verdade. Susy começou conosco quando tinha 17 anos e acaba de fazer 21.

- Se engravidar tem que despedir.

- Não, ela está bem avisada sobre isso. Eu lhe disse que se ficar grávida perde o trabalho.

- Sim, porém tu sabes que “a cabra sobe o morro”. É provável que vá atrás de algum homem, do povoadinho onde nasceu.

- Que vá. Para esse morro ela não vai nem de férias. Imagina que não tem nem luz elétrica, o chão da casa dos pais é de terra e a latrina é dividida com quatro famílias. Ela tem vivido no céu desde que está conosco. Porque, além disso, não há falta nada. O que deve é me obedecer, não lhe peço nada mais.

- Assim começam, porém depois vão acreditando em coisas e pedindo mais.

- Até agora tem sido boa para nós. Tem à tarde de domingo livre para fazer o que quiser, porém deve regressar antes meia noite. Na maioria das vezes nem sequer sai porque não conhece ninguém em Havana. Assim é melhor, porque não gosto das más influências.

- Sim, a rua está muito perigosa. Além disso, é melhor que estas caipirinhas não caminhem por aí porque depois aprendem muito.

- Aprendem mais de quatro coisas. Por isso que mantenho as ligações telefônicas controladas. Que não fique sabendo do que não tem que saber.

- E aquele noivo que dissestes que tinha.

- Não, isso não perdurou. Dissemos-lhe que não queríamos homens visitando em nossa casa. E ela, na verdade, não tem tempo para ficar namorando, meus filhos tomam muito tempo. Ir ao parque, dever da escola, desenhar antes dormir, ouvir um conto e ver os filmes novos. Pobrezinha, quando cai na cama deve estar morta.

- Nãooo… Podes dizer que és feliz. Eu não tenho tido sorte, cada vez que contrato uma empregada não dura nem um mês.

- Se quiseres te apresento a irmã menor da Susy que parece ser muito seriazinha.

- Que idade tem?

- 15 anos, assim a podes treinar do seu jeito.

- Sim, dê-lhe meu telefone para que me ligue. Ah… E esclareça que se eu a contratar lhe compro tudo: roupas e sapatos. Porém se um dia sair da minha casa não sai com um alfinete. Porque depois que enchem a bola é ruim de esvaziar.

As duas mulheres continuam falando e a garrafa de vinho está abaixo da metade. Consigo escutar quando uma alardeia sobre os mais de sessenta pares de sapato que seu marido tem. Riem-se e eu sinto um tremor na boca do estômago que já conheço: a raiva acumulada que os abusadores me provocam. Vou para a rua atrás de um pouco de ar e fora vejo o automóvel no qual as madames vieram. Tem uma placa verde que ressalta sobre o reluzente cinzento-metálico do automóvel. É a nova classe aristocrática, a realeza de verde-oliva, sem escrúpulos nem recato. Cuspo no pára-brisa, por Ana e por mim.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Sobressaltos, por Dora Kramer

DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo


No dia seguinte ao mais vigoroso embate entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski durante o julgamento do mensalão, o mundo pareceu vir abaixo no Supremo Tribunal Federal e cercanias republicanas.

Uma semana depois, na última quinta-feira, o colegiado enfrentou várias divergências no exame dos embargos de declaração dos condenados em clima de cordialidade total.

Isso sem que nenhum dos dois contendores tenha retirado uma só palavra, recuado num só gesto ou revisto decisão alguma. Tudo voltou ao normal mediante a articulação de uma saída honrosa para todos: Barbosa baixou o tom, mas reafirmou seu papel de zelador do cumprimento de prazos razoáveis à conclusão dos trabalhos; Lewandowski agradeceu a solidariedade recebida e considerou o caso superado; Celso de Mello, o decano, registrou que a Corte viu gravidade institucional no caso.

E foi só. Vida que segue até a próxima crise. Se é que podemos chamar de crise esse e outros tantos episódios de contraditórios nos Poderes. Legislativo, Judiciário e Executivo se estranham com a mesma frequência com que essas escaramuças são traduzidas com um tom de exacerbada inquietação que não corresponde ao real nível de beligerância dos fatos. Ademais, rapidamente esquecidos.

Basta uma opinião divergente ou um posicionamento diferente do esperado por uma das partes para que se configure a leitura de "crise". Assim ocorre se um aliado resolve sair de debaixo das asas do governo para tentar voo solo, se a base de sustentação no Legislativo resolve adotar algum grau de autonomia, se o Supremo cumpre seu papel de dar às leis a interpretação ordenada pela Constituição ou se a sociedade sai da apatia e reclama o que lhe é de direito.

Apenas alguns exemplos de uma lista robusta de atos vistos como extraordinários para, em seguida, se incorporarem ao cenário como o que realmente são: expressões da normalidade inerente ao exercício do contraditório.

Anormais, portanto, não são os embates. Fora do prumo é a perda de tempo com o sobressalto que de imediato superdimensiona a realidade, mas em geral cede à interferência do bom senso sem discutir a razão do alarme falso. Isso não é bom: banaliza a gravidade.

De fachada. Quem conhece as artes e as manhas do PMDB desenha duas rotas para o partido em 2014: ou aprova a renovação da aliança com o PT no plano federal e na prática cada Estado apoia quem quiser ou rompe, mas também não se coliga oficialmente com outro candidato à Presidência.

Uma terceira possibilidade está fora de cogitação: a unidade do PMDB em prol da parceria com o PT como ocorreu em 2010 em decorrência da "costura" feita logo após a reeleição de Lula em 2006, quando os pemedebistas recusaram aliança no âmbito federal.

No pleito anterior, em 2002, fecharam com o PSDB, concorreram com Rita Camata como vice na chapa de José Serra e cada seção regional apoiou quem bem entendeu.

Agora, com as relações cada vez mais desgastadas com o governo, a única razão para a continuidade da parceria seria a vaga de vice-presidente que, aliás, já não é considerada no PMDB como uma vantagem tão vantajosa assim.

Convívio. Amanhã faz dois meses que o STF mandou prender Natan Donadon, condenado por desvio de dinheiro público e formação de quadrilha. No presídio da Papuda, em Brasília, ele continua deputado.

No Congresso está suspensa a discussão da chamada PEC dos mensaleiros (torna automática a perda de mandato de parlamentares condenados) aprovada na Comissão de Constituição e Justiça - que na semana passada aprovou também a cassação de Donadon, mas remeteu a decisão final ao plenário. Enquanto isso, já refeito do susto de junho, o Parlamento convive bem com o fato de ter um "par" presidiário.

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Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.