sábado, 31 de agosto de 2013

Profissão: manifestante revolucionário. Ou: Como escapar do tédio sitiando uma cidade

Guilherme Fiuza detonou os “manifestantes” em seu artigo de hoje. Em meu livro Esquerda Caviar, que será lançado em meados de outubro, coloco o tédio como uma das 20 potenciais origens do fenômeno. Classe média ou alta entediada em busca de uma adrenalina e de algum senso de importância: eis o fermento ideal para parir um revolucionário arrogante. Diz o jornalista:
Se você estiver entediado e quiser apimentar um pouco a sua rotina, não hesite: ligue o computador, mergulhe no mundo mágico das redes sociais, reúna uma dúzia de amigos mais ou menos ociosos, combine com eles uma causa (pode ser “tédio nunca mais”), pinte o slogan em algumas cartolinas, saia às ruas com o seu grupinho revolucionário e feche uma das principais avenidas da cidade. Qualquer uma. Mas feche mesmo: interrompa totalmente o trânsito, pelo tempo que você quiser.
Afinal, ser esse tipo de “revolucionário” nas capitais ocidentais é moleza. Lembram de Maio de 68? Como alfinetou Nelson Rodrigues à época, era mais seguro virar uns carros em Paris do que atravessar uma rua na Guanabara! Aqui no Brasil, nos dias de hoje, parece que a permissividade com os baderneiros atingiu patamares impensáveis. Fiuza continua:
Não tenha medo. As autoridades não estragarão o seu desfile. Recentemente, algumas dúzias de manifestantes bloquearam a Avenida Rio Branco, principal via do Centro do Rio, durante sete horas. A cidade parou, foi uma beleza — pelo menos para a polícia, para os guardas de trânsito, para o prefeito e para o governador, que cruzaram os braços e assistiram impávidos à singela arquitetura do caos. Ou talvez não tenham assistido, porque têm mais o que fazer.
Por algum motivo transcendental, as autoridades resolveram aceitar os bloqueios de trânsito. Passou a vigorar um novo princípio legal: a rua é do militante (qualquer um). Se ele deixar, a cidade pode ir e vir. No Rio de Janeiro, em especial, não se pode mais sair para qualquer lugar sem dar uma busca na internet ou no rádio. É preciso descobrir que bairro está sitiado naquela hora, ou naquele dia, por conta dos protestos contra tudo isso que aí está.
É uma piada (péssima). Em qualquer cidade séria do mundo isso seria impensável. O poder público, escondido em algum lugar entre a covardia e a vagabundagem, resolveu não cansar a sua beleza com a garantia da livre circulação. Desistiu de cumprir a lei. E o que é pior: a população se sujeita a isso calada — como se fosse vítima de uma nevasca, furacão ou enchente. As pencas de institutos e ONGs que passam a vida matraqueando a palavra cidadania, entupindo a mídia e os espaços públicos com suas cartilhas politicamente corretas, também não dão um pio diante desse escárnio.
Desde o começo dessas manifestações que encantaram sociólogos, professores de história e antropólogos, alguns poucos na imprensa mantiveram a sobriedade, não se deixando contagiar pela euforia da “voz nas ruas” que mudaria de vez o Brasil. O gigante acordou! Lembram? Fiuza foi um desses, assim como Reinaldo Azevedo e esse que vos escreve. Acho que fica cada vez mais claro que o “gigante” ainda dorme em berço esplêndido. Senão, vejamos:
O governo Dilma, com seus 40 ministérios, bateu o recorde de gastos públicos improdutivos no auge das manifestações (o Banco Central teve que elevar a projeção de déficit para 2,7% do PIB em 2013). A sagrada sublevação das ruas jamais apontou um dedo para qualquer dos ralos do governo popular — origem da inflação que aperta os brasileiros, não só na roleta do ônibus. A nova onda de superfaturamentos no Dnit — alvo da “faxina”! — nem foi notada por ninjas, black blocs, foras do eixo e foras de órbita.
Nesse meio tempo, chegou ao Congresso o pedido da CPI da Copa. A enxurrada de dinheiro público em estádios bilionários como Mané Garrincha e Itaquerão (projetado após o golpe que “desclassificou” o Morumbi) iria enfim ser investigada. Sabem o que aconteceu com a CPI da Copa, queridos revolucionários? Foi enterrada antes de nascer. Sem nem um cartaz criativo no velório, sem nem uma ruela obstruída para pressionar os deputados coveiros.
O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, que faturou alto com consultorias invisíveis para a indústria mineira, não só permanece no cargo, como dali toca sua campanha para governador. E ainda dá palpite sobre o dólar (“tem espaço para chegar a R$ 2,50”!), bajulando assim seus amigos empresários e bagunçando ainda mais o ambiente econômico. É típico do parasitismo petista, que não incomoda os fechadores de rua.
São prioridades muito estranhas as dessa “voz das ruas”. No fundo, são vozes de minorias organizadas, de grupelhos como os tais “ninjas” que se julgam acima das leis e têm alvos certos, poupando os piores corruptos, os golpistas autoritários. E ainda tem quem confie nessa turma! Ainda tem quem aplauda essas manifestações! Eu não. Eu faço coro ao apelo de Fiuza:
Prezadas autoridades: tomem vergonha, cumpram a lei contra os lunáticos e devolvam as ruas ao cidadão.
Por fim, a Alerj pretende colocar em pauta lei que proíbe as máscaras nos protestos, como fez o governo de Pernambuco. Já expliquei aqui que a ideia me agrada. Manifestante mascarado, em meu dicionário politicamente incorreto, tem outro nome. Até quando vamos permitir que essa gente comande a cidade sem um voto, sem passar pelo processo democrático?
Sim, os que estão lá são, na maioria dos casos, terríveis. Mas ao menos representam milhares de eleitores. Que tal focar na melhora dos eleitores então? Que tal esses “revolucionários” levantarem as informações de que locais elegeram os piores nomes, os mais corruptos, e partirem para um movimento de educação dessa massa explorada? Ah, mas nesse caso os próprios “revolucionários” de classes mais altas teriam que ser educados, né? Aí complica…

Rodrigo Constantino

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