quinta-feira, 12 de setembro de 2013

GULLIVER E O STF , por Janer Cristaldo

Em 2011, o STF rasgou a Constituição com um jogo de palavras. Para o ministro Carlos Ayres Britto, homossexuais deixaram de existir. Agora são todos homoafetivos. Segundo o ministro, o vocábulo foi cunhado pela vez primeira na obra União Homossexual, o Preconceito e a Justiça, de autoria da desembargadora aposentada e jurista Maria Berenice Dias, consoante a seguinte passagem: “Há palavras que carregam o estigma do preconceito. Assim, o afeto a pessoa do mesmo sexo chamava-se 'homossexualismo'. Reconhecida a inconveniência do sufixo 'ismo', que está ligado a doença, passou-se a falar em 'homossexualidade', que sinaliza um determinado jeito de ser. Tal mudança, no entanto, não foi suficiente para pôr fim ao repúdio social ao amor entre iguais”.

Acontece que o neologismo está errado. O homo, de homossexual, é palavra grega que quer dizer mesmo. Homossexual, mesmo sexo. A palavra homoafetivo, se formos fiéis ao étimo, quer dizer mesmo afeto. Ora, mesmo afeto não quer dizer nada específico. Quer dizer apenas que você tem o mesmo afeto que outra pessoa tem por você. Mas homoafetivo, segundo a desembargadora desocupada, seria um eufemismo para homossexual. Não é. É palavra que foi construída errada.

O voto inaugural do ministro Ayres Britto está eivado de uma poesia extraordinária: “Em suma, estamos a lidar com um tipo de dissenso judicial que reflete o fato histórico de que nada incomoda mais as pessoas do que a preferência sexual alheia, quando tal preferência já não corresponde ao padrão social da heterossexualidade. É a perene postura de reação conservadora aos que, nos insondáveis domínios do afeto, soltam por inteiro as amarras desse navio chamado coração”.

De minha época, não era bem esse navio chamado coração que levava ao homossexualismo. Mas sim outras naves menos nobres. É a mais recente jabuticaba nacional. A Constituição se rasga com estro poético pelo ministro.

Se os senhores ministros acham que os brasileiros são panacas que se deixam levar por neologismos e figuras poéticas, estão cheios de razão. Pois não vi ninguém – nem jornalistas, nem escritores, nem juristas – protestar contra este uso safado da língua. Protestos contra a decisão do STF houve. Mas nada contra a manipulação da linguagem.

Ciente de que falar difícil convence os ignaros, o ministro Teori Zavascki se esmerou nos arrazoados herméticos e despropositados, para livrar do cárcere os figurões já condenados pelo mensalão. Sua argumentação é de uma cristalinidade ímpar:

“Se mantivermos o ponto de vista de que, através de uma simples interpretação, um animal bípede não pode ser convertido num quadrúpede, achamos a perante alternativa: ou o argumento da analogia ou o argumento contrário. No puro plano lógico formal, esses dois argumentos, que conduzem a resultados completamente diferentes, tem a mesma legitimidade. Tanto se pode dizer que aquilo que vale para os quadrúpedes deve valer também, em virtude da semelhança, para os bípedes igualmente perigosos, como se pode concluir que aquilo que é prescrito em relação a quadrúpedes não pode valer para outros animais. Ou vale para tudo (o entendimento de que a lei revogou o regimento) ou não vale para nada. Invocá-lo para afastar os embargos infringentes levaria por idêntica razão afastar os demais recursos. Não seriam cabíveis os embargos de declaração”, disse.

Se o que vale para quadrúpedes não vale para bípedes, obviamente Zé Dirceu não pode ir para a cadeia. C. Q. D.

Sempre volto a Swift, para entender o mundo do direito. Ao viajar pelo País dos Cavalos, os Houyhnhnms, Gulliver explicava ao soberano daquele reinado o funcionamento da lei em sua pátria, a Inglaterra. Afirmou existir entre nós uma sociedade de homens educados desde a juventude na arte de provar, por meio de palavras multiplicadas para esse fim, que o branco é preto e que o preto é branco, segundo eram pagos para dizer uma coisa ou outra.

- Todo o resto do povo é escravo dessa sociedade – continua Gulliver -. Por exemplo, se o meu vizinho tenciona ficar com a mina vaca, contrata um advogado para provar que deve tirar-se a vaca. Nesse caso, tenho de contratar outro advogado para defender os meus direitos, pois é contrário a todas as normas da lei permitir-se a um homem falar em seu próprio nome. Pois bem, nessas condições, eu, que sou o verdadeiro dono, me vejo a braços com duas grandes desvantagens: primeiro, o meu advogado, habituado quase desde o berço a defender a falsidade, está completamente fora de seu elemento quando precisa advogar a justiça, ofício desnatural, em que sempre se empenha com grande inépcia, senão com má vontade. A segunda desvantagem reside em que o meu advogado tem de proceder com muita cautela, para que não o censurem e aborreçam os colegas, como a alguém que degradasse o exercício da profissão.

- Donde nasce que tenho apenas dois métodos para conservar a minha vaca. O primeiro consiste em peitar o advogado de meu adversário, pagando-lhe honorários dobrados, e levando-o a trair o seu cliente, com uma insinuação de que a justiça pende para o seu lado. O segundo, em fazer o meu advogado crer que a minha causa pareça a mais injusta possível, admitindo que a vaca pertence a meu adversário e isto, se for feito com perícia, atrairá por certo o favor dos juízes.

- No julgamento das pessoas acusadas de crimes contra o Estado, é muito mais curto e louvável o processo; sonda o juiz, primeiro, a disposição dos que se encontram no poder; depois, não lhe é difícil enforcar ou salvar o criminoso, preservando rigorosamente as devidas formas da lei. 

Isto está nas Viagens de Gulliver, escrito em 1725. De lá para cá, ninguém definiu melhor o mundo do Direito.

Um (triste) retrato do Brasil: STF na corda bamba e protesto do axé

O julgamento dos embargos infringentes pelo STF está pegando fogo, com alto risco de tudo virar pizza e os mensaleiros saírem rindo, transformando em realidade a profecia de Delúbio Soares (de que o caso ainda viraria piada de salão).
STF na corda bamba
Enquanto a credibilidade de nossa Corte Suprema se encontra por um fio, na corda bamba (vide foto), eis que um grupo de baianos vai às ruas protestar. Contra a indecência do STF? Contra os mensaleiros e a impunidade? Nada disso!
Vão protestar contra a saída de um cantor de axé! O protesto deu um nó no trânsito de Salvador. Os “chicleteiros” não reagiram bem ao anúncio de que o cantor Bell estaria de saída da banda Chiclete com Banana, após mais de 30 anos.
Fonte: Folha
Dizem que na Bahia tudo é carnaval, tudo é festa. Quem sou eu para julgar, certo? Errado! Para começo de conversa, o estado, sob o controle do PT atualmente, tem uma das maiores proporções de dependentes do Bolsa Família do país. Ou seja, todos os brasileiros pagam essa conta.
Além disso, quer um retrato melhor das causas de nossos problemas? Nada contra cada um focar em seus temas de interesse. Protestos sobre futebol, axé ou mesmo novelas fazem parte da vida em um mundo liberal, não é mesmo?
Mas a falta de senso de prioridade… isso é que pega! O STF aparelhado por um partido, sendo alvejado e quase morto, e a turma para o trânsito de Salvador para reclamar da saída de um músico de uma banda de axé? Preciso falar mais alguma coisa? Dá para levar a sério isso aqui? Socorro!

Quem vai parar o PT agora?

Vejam mais uma bela análise de Paulo Martins no SBT do Paraná:
A análise é precisa: o mensalão foi uma tentativa de golpe de estado, não um simples caso de corrupção, e o PT, um partido totalitário, aparelhou toda a máquina estatal, inclusive o STF. E agora? Quem vai parar o PT?
Confesso que é muito difícil manter a esperança em um país desses. Mas espero que o Paulo esteja enganado, e que ainda dê tempo de frustrar os planos autoritários.

MENSALÃO: Supremo está decidindo muito mais do que o destino dos mensaleiros ou sua própria credibilidade. Está em jogo o que resta de confiança dos brasileiros na Justiça

Ricardo Setti
É triste termos um Supremo Tribunal Federal — o ponto culminante da pirâmide do Judiciário brasileiro — em que se possa prever, com absoluta precisão, como votarão os ministros “a”, “b” ou “c” em relação a qualquer tema em julgamento no caso do mensalão, sempre e invariavelmente em favor dos criminosos já condenados pelo próprio Supremo.
É o que está acontecendo hoje, no Supremo, quando a corte decide se está ou não em vigor o recurso denominado embargo infringente, que a legislação processual deixou de prever mas que continua existindo no Regimento Interno do Supremo.
De fato, a lei nº 8.038, de 28 de maio de 1990, que institui normas procedimentais para julgamentos no Supremo e no Superior Tribunal de Justiça, NÃO PREVIU, para essas duas cortes, os embargos infringentes.
O voto em curso neste momento, do ministro Luiz Fux, mostra cristalinamente que não. O mesmo fez o presidente da corte e relator do mensalão, ministro Joaquim Barbosa. Segundo eles, o próprio Supremo já decidiu, várias vezes, em diferentes processos, que as novas normas processuais provenientes de lei revogaram, tacitamente, o artigo 333 do Regimento do Supremo, que prevê os infringentes.
Mas a bancada pró-mensaleiros — é triste reconhecer que ela, sim, existe, no nosso principal tribunal –, revestindo-se de um interminável trololó técnico jurídico, já deu três votos em favor de um recurso que poderá amenizar ou mesmo tornar inócuas as penas aplicadas aos graúdos do caso tenebroso, a começar pelo “chefe da quadrilha” (assim reconhecido pelo tribunal), o ex-ministro José Dirceu.
Ainda é possível que o julgamento termine pela não admissão dos embargos. O Supremo, imagino, levará em conta não está em julgamento apenas o destino dos mensaleiros. Da interpretação de todo um emaranhado de normas processuais depende, também, muito mais do que o destino de criminosos já condenados —está em jogo a credibilidade do Supremo Tribunal Federal e, mais dramático e importante ainda, o pouco que ainda resta de confiança dos brasileiros, uma confiança tão tênue que se aproxima da desesperança absoluta, no primado da Justiça.
O Supremo vive, hoje, um divisor de águas. Se ceder às manobras protelatórias dos advogados dos criminosos, a própria democracia brasileira estará em questão.
Ao voto de Fux, que deverá fazer o placar tornar-se 3 x 2 em favor do que querem os mensaleiros, se seguirá o importantíssimo voto da ministra Cármen Lúcia.

Diário do Poder- NO DIA 7, MISSÃO DA PM-DF ERA MESMO CAÇAR REPÓRTERES

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O “corajoso” PM ataca a repórter Monique Renne, do Correio Braziliense
São cada vez mais consistentes os indícios de que a Polícia Militar do Distrito Federal deliberadamente procurou atingir jornalistas que faziam a cobertura das manifestações de 7 de setembro, em Brasília, fazendo parecer que havia de fato uma ordem superior para que procurassem atingir os profissionais de imprensa.

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André Coelho, de O Globo, caçado com bombas…
Nenhum outro grupo profissional e nem mesmo os manifestantes agressivos, como aqueles da gang Black Block, foram atingidos em número tão significativo quanto jornalistas. Repórteres foram sistematicamente atacados por cães, sapray de pimenta, socos, pancadas com cassetetes e até bala de borracha, como a que atingiu a parte lateral do tórax do repórtefotográfico André Coelho, do jornal O Globo. Ele publicou em sua página no Facebook uma foto mostrando as marcas do tiro. Ele também foi alvo de bombas arremessadas por PMs em sua direção, como provam registros fotgráficos.
O presidente da seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no DF, Ibaneis Rocha, exigiu imediatamente, ainda no sábado (7), que as agressões a jornalistas e a manifestantes fossem apuradas. Somente na segunda-feira (9) o Sindicato dos Jornalistas do DF se manifestou, protestando contra a truculência, comparando-a aos “piores momentos da ditadura”.
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…e atingido por bala de borracha
Após a pressão das duas entidades, o Ministério Público do DF anunciou que iniciaria processo investigativo para apurar os “excessos” da PM.
Três fotógrafos do Correio Braziliense também foram agredidos por policiais militares, com jatos de spray de pimenta. A repórter fotográfica Monique Renne fazia fotos de colega atingida, perto da Torre de Tevê, quando um PM investiu contra ela, apontando o spray de pimenta. Corajosa, Monique deu uma lição de coragem para o PMDB covarde, mantendo a câmera apontada para ele. Os jornalistas Carlos Vieira e Janine Morais também sofreram agressões. O repórter Arthur Paganini foi empurrado por um policial e, em seguida, recebeu um spray de pimenta de outro PM.
Outro jornalista agredido cavardemente pela PM-DF foi Luciano Nascimento, repórter da Agência Brasil. Ele havia testemunhado no Setor Hoteleiro Sul policiais da Tropa de Choque da PM do DF atirar uma bomba de gás lacrimogêneo contra a cabeça de um manifestante e, ao apurar o fato, mesmo se identificando, foi agredido por três policiais com spray de pimenta e empurrões.
Ueslei Marcelino, repórter fotográfico da Agência Reuters, foi ferido ao tentar fugir dos cães controlados pelo Choque nos arredores do estádio Mané Garrincha, em Brasília. “Os policiais jogaram os cachorros em cima da imprensa, foi na maldade mesmo. Gritaram ‘pega, pega’”, afirmou o profissional ao site UOL. Enquanto fotografavam e conversavam com Marcelino, repórteres e fotógrafos foramatacados com spray de pimenta. Policiais o cercaram Ueslei e o jogaram “de qualquer maneira” dentro de um carro do Choque, mesmo ele reclamando que estava com dor, pois suspeitava que tinha torcido o joelho ao correr, até a chegada da ambulância do Samu.
O fotógrafo foi levado de ambulância ao Hospital de Base onde fez um raio X, que não detectou fratura. Procurada, a PM nega que os policiais tenham ameaçado jornalistas com cães e afirma que o fotógrafo caiu sozinho.Houve correria e bate-boca.O fotógrafo Fábio Braga, da Folha de S. Paulo esteve entre os jornalistas atacados pelos cachorros da PM, mas não ficou ferido.

Quando quem deveria defender é o agressor, por Rodrigo Constantino


Cuba: quando quem deveria proteger é o agressor. Ou: Quem defende Cuba é canalha e ponto!

Fonte: GLOBO
Ana Luisa Rubio, atriz cubana associada à dissidência, foi espancadaperto de sua casa, em Havana. Segundo o ativista Antonio Rodilles, o caso mostra que “a violência em Cuba chegou a níveis críticos”. Segundo Rubio, foi a 12ª vez que ela foi agredida e em nenhuma das vezes a polícia repreendeu os agressores.
Segundo O Diario de Cuba, o espancamento ocorreu na última sexta-feira após Rubio reclamar com vizinhos sobre o excesso de barulho feito por crianças perto de sua casa, no bairro de Vedado.
- Estou muito dolorida, mas principalmente estou muito assustada. Eles não vão parar – disse ela ao Diario de Cuba.
Com 62 anos, ela passou uma noite no Hospital Manuel Fajardo após o espancamento. Segundo Rodiles, diretor de projeto independente Estado de Sats, ela foi até a polícia para fazer sua 12ª denúncia. As outras foram por agressão, ameaça, difamação, violação ao domicílio, dano a propriedade e coação.
Segundo a atriz, a ausência de ação da polícia faz com que seus agressores se sintam “impunes diante a lei”.
Ela afirma ter reconhecido apenas três particpantes do espancamento, duas vizinhas e o coordenador da Comissão de Defesa da Revolução de sua área. Os demais seriam desconhecidos.
- Nenhuma das cerca de dez pessoas, a maioria de mulheres, foram detidas pela polícia – diz Rubio. Nem mesmo as que ela identificou.
Segundo o Diario de Cuba, Rubio era uma atriz popular de televisão até a década passada, quando se envolveu com atividades da dissidência. Nos últimos anos, diz o site, ela foi detida várias vezes. A última, em 24 de agosto, por gritar na Praça da Revolução por “justiça, liberdade, direitos humanos”.
Viver sob uma ditadura é isso: você não tem a quem recorrer, pois o governo, que deveria proteger o indivíduo contra agressões, é o verdadeiro agressor. O “crime” é apenas discordar do regime, ou ir em praça pública pedir liberdade. É esse lixo de sistema que tantos ainda pregam por aqui. Escória!
Não esperem cartas de artistas e “intelectuais” em defesa dessa pobre moça espancada. Não! O tempo deles é valioso demais, e escolhem a dedo quem ajudar. No caso, José Genoino, quadrilheiro corrupto que sempre lutou, a vida toda, para implantar no Brasil justamente esse sistema nefasto existente em Cuba.
Tampouco esperem professores e psicólogos virem criticar os abusos da polícia, ou, nesse caso, a completa negligência e cumplicidade. Não! Estão mais preocupados em defender os vândalos e criminosos do Black Bloc, atacando a nossa polícia em um regime democrático.
Não há forma mais fácil de identificar um pulha do que perguntar o que ele acha do regime cubano. Se, em pleno século 21 (façamos uma vista grossa à ignorância de quem foi ludibriado lá atrás, logo no começo), o sujeito defender a ditadura dos Castro, então pode estar certo de que é um canalha.
E se fizer leves críticas e logo emendar um “mas, por outro lado”, saiba que também está diante de um canalha, apenas mais tímido ou dissimulado e malandro. Não tem “mas” coisa alguma! Quem alivia a barra do socialismo cubano não merece respeito. É cúmplice de uma tirania cruel, abjeta, assassina. Não concorda, Chico Buarque?

Bashar Assad já seduziu a esquerda, agora é vez da direita, por Caio Blinder

Para quem ainda precisar de detalhes sobre os tormentos da minoria cristã no Oriente Médio islâmico, esta reportagem do New York Times sobre Maaloula, uma cidade bíblica na Síria, mostra o caminho das pedras. Revela também uma guerra de propaganda em um conflito sectário, onde existem tantos motivos para temer o extremismo islâmico (o que ajuda a explicar a relutância de intervenção na guerra civil) e como o regime de Bashar Assad (com a ajuda de seus aliados russos) manipula estes temores para reforçar seu argumento de que hoje ele é o grande protetor da minoria cristã. Nunca podemos esquecer como Assad agilizou o ciclo sectário na guerra civil.
Assad, aliás, é um ágil propagandista. Ele sempre se perfilou como um campeão de uma esquerda anacrônica, pródiga na sua postura antiEUA e antiIsrael (com pitadas de antissemitismo). E vamos deixar claro que este talento de relações públicas, com ajuda da atraente mulher Asma (o que, como muitos sabem, me levou a cometer grosserias e mea culpa na televisão, no programa Manhattan Connection em 2011), seduziu a imprensa ocidental em geral e muito gente do establishment democrata nos EUA, como o atual secretário de Estado John Kerry. Imagine: Assad, o acougueiro químico, travestido de líder modernizador, mas sutil para evitar as fanfarronices públicas de um Saddam Hussein ou de um Kadafi.
Mas, a habilidade de Assad está presente agora para engabelar amplos setores do movimento conservador, com crucial particípação deste novo paladino da civilização cristã que é Vladimir Putin, que agora deu para escrever artigos, como nesta quinta-feira-feira no New York Times, com aulas sobre lei internacional, alertas sobre o uso da força e perorações sobre os interesses a longo prazo dos EUA.
Sabemos que o conflito sírio é complexo e são legítimas as aflições não apenas de cristãos (e de milhões de sírios, em geral, vítimas da guerra civil), mas de uma esquerda antiguerra e de uma direita isolacionista. A aliança entre os dois setores (esquerda e direita) é flagrante nos EUA e não é à toa que as pesquisas mostrem uma ampla maioria dos americanos contrários a que se enfie a colher na cumbuca síria. São os refrões de que Assad é o mal menor ou ruim com ele, pior sem.
Dito isto, vamos à minha diatribe. No site da revista Foreign Policy, David Kenner traz um texto ilustrativo mostrando como Assad cortejou a direita americana e ganhou a guerra de propaganda. A narrativa de Assad é disseminada hoje em dia por influentes vozes da direita, que, como escreve Kenner, compartilham sua hostilidade tanto em relação aos sunitas como ao governo Obama. Conservadores compram a narrativa que meramente iguala opositores a terroristas transloucados.
Peça central desta narrativa de propaganda é martelar, como Putin e Assad, que foram os rebeldes, e não o regime, que praticaram o ataque com armas químicas nos subúrbios de Damasco em 21 de agosto. Aqui na coluna, fiquei até espantado com frequentes leitores, bem conservadores, trazendo material do aparato de propaganda russa, síria e iraniana para denunciar a trama e se alinhar com a versão de Assad & Putin.
É covardia citar como exemplo de voz influente da direita o radialista Rush Limbaugh, um bufão. Mas na semana passada, ele simplemente vendeu a seus milhões de fiéis ouvintes a cascata “que existem crescentes evidências de que a Casa Branca sabia e provavelmente ajudou planejar o ataque com armas químicas pela oposição”. Limbaugh citou um artigo de Yossef Bodansky, noGlobal Research, um site conspiratório que está agora apregoando a mensagem de Assad na guerra civil.
Um jogada elementar da máquina de propaganda de Assad é se infiltrar em veículos da mídia cristã. Um lance interessante, pois setores cristãos conservadores desconfiam da grande imprensa, vista como hostil à religião e empenhada em esconder as perseguições contra cristãos.Really? O New York Times esconde o que acontece com cristãos na Síria ou no Egito? Basta conversar com Mr. Google para tirar a prova. Até a agência oficial de notícias do Vaticano, a Fides, caiu na rede ao reproduzir um alegado massacre de cristãos na cidade de Homs, inicialmente publicado no Syria Truth, um site pró-Assad.
Funeral de combatentes cristãos em Maaloula
Sites favoráveis ao Hezbollah, a milícia libanesa xiita pró-Assad e antiIsrael, são fontes de informação hoje em dia de publicações de extrema direita nos EUA. A mesma coisa acontece com sites islamofóbicos como Jihad Watch. Uma de suas fontes para denunciar a campanha de terror contra cristãos na cidade de Maaloula é Al-Hadath, site pró-Assad, que publica editoriais enaltecendo o Hezbollah e tem uma seção devotada a “conhecer o seu inimigo”, Israel. Por estes trastes, alguns setores cristãos e conservadores deixam de ler o New York Times ou de ver esta reportagem do intrépido Jeremy Bowen, da BBC, de Londres, que na quarta-feira era o único repórter ocidental em Maaloula?
Dito isto, precisamos admitir que existe uma guerra de propagada, com dois lados em combate. Vamos fazer justiça terminando com um caso do outro lado. Esta semana saiu a informação de que Elizabeth O’ Bagy, inclusive citada aqui numa coluna sobre as divergências entre analistas sobre o grau de influência de jihadistas entre os rebeldes sírios, foi demitida do Institute for the Study of War, pois forjou seu currículo dizendo que tinha um doutorado pela Universidade de Georgetown.
Foi a segunda engabelada de O’Bagy. Ela fora citada pelo secretário de Estado John Kerry no seu depoimento no Congresso argumentando que os rebeldes estavam mais moderados. O problema é que a credibilidade de O’Bagy está minada, pois ela não revelara num artigo publicado no Wall Street Journal que tinha laços com uma organização que faz lobby junto ao governo americano em nome da oposição síria. Nada errado com o lobby em si. Eu, por exemplo, sou favorável ao fornecimento de armas aos rebeldes moderados sírios. Dizem que esta é a política oficial americana.
Na guerra de propaganda, é facil se deixar seduzir pelo o que queremos ouvir. Sendo transparente, falo isto por experiência própria na medida em que na fase inicial da guerra civil foi engabelado pela narrativa de que os dias de Bashar Assad estavam contados, pois conto com este desfecho. Agora, por outro lado (argh! que expressão), não se deixe engabelar pela propaganda do carniceiro químico. Sim, existe a proteção das minorias, no sentido criminoso da expressão. Mas Assad, antes de tudo, protege a sua ditadura assassina.

Homens que não aderem a nada, por Janer Cristaldo

HOMENS QUE NÃO ADEREM A NADA 


Dominado de ponta a ponta por uma religião laica e assassina, o século passado pode ser denominado como o século marxista. A Revolução de 17 constituía um marco de definição obrigatória para todo intelectual e os melhores cérebros do Ocidente aderiram com entusiasmo à nova crença. 

Moscou, para os crentes órfãos do deus hebraico-cristão, torna-se a Terra Prometida, a Nova Jerusalém. Intelectuais do mundo todo, peregrinos, em procissão, vão adorar o novo Messias. Entre os criadores do Ocidente, coube principalmente aos escritores — definidos por Zdanov como “engenheiros de almas” — fornecer a maior fatia de apóstolos da nova religião.

A lista demandaria páginas e páginas. Alguns nomes, entre milhares: Nikos Kazantzakis, André Gide, Bertold Brecht, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Annie Kriegel, Louis Aragon, Henry Barbusse, Romain Rolland, Heinrich Mann, Paul Eluard, Vaillant-Couturier, Roger Garaudy, Henri Léfebvre, Rafael Alberti.

Na América Latina, sem querer esticar muito a relação: Pablo Neruda, Otávio Paz, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Verdade que desta lista alguns nomes irão cair, é o caso de Gide e Otávio Paz. Mas os demais permaneceram cegos ante a evidência dos fatos e morreram stalinistas ferrenhos, ou ainda vivem, confusos crentes incapazes de mudar de crença.

Não foram muitos os escritores a intuir que não se estava precisamente ante uma revolução, mas ante uma nova religião. Entre estes, poucos foram tão precisos na denúncia do novo dogma como Nikos Kazantzakis. No relato de sua peregrinação à Rússia — Voyages — Russie —, diz o cretense que pouco a pouco a luz se fazia em seu espírito. Para ele, todos os apóstolos do materialismo davam às questões respostas grosseiras, de uma evidência simplista. Como em todas as religiões, eles buscavam divulgar essas respostas, tentando torná-las compreensíveis para o povo. Kazantzakis reconhece então, na Rússia, a existência de um exército fanático, implacável, onipotente, constituído de milhões de seres, que tinha em mãos e educava como bem entendia milhões de crianças.

Este exército, diz o cretense, possui seu Evangelho, O Capital. Seu profeta, Lênin. E seus apóstolos fanatizados que pregam as Boas Novas a todas as gentes. Possui também seus mártires e heróis, seus dogmas, seus padres apologistas, escolásticos e pregadores, seus sínodos, sua hierarquia, sua liturgia e mesmo a excomunhão. E sobretudo a fé, que lhe assegurava deter a verdade e trazia a resposta definitiva aos problemas da vida.

Não há apenas um Livro — acrescentaríamos —, como também os livros apócrifos. Assim como a Igreja Romana censura os testemunhos gnósticos que não servem à sua ambição de poder, assim censurou-se até mesmo a obra de Marx na finada União Soviética. “Nós somos contemporâneos — diz Kazantzakis — deste grande momento em que nasce uma nova religião”. A nova religião nascera e os intelectuais do Ocidente, os lúcidos entre os lúcidos, caíram como patinhos no engodo. Este é o grande enigma que cerca o fenômeno Stalin: como foi possível que espíritos abertos e generosos da época se tornassem cúmplices e devotos deste formidável assassino? Ou talvez não fossem tão lúcidos, nem tão abertos nem tão generosos, e sim pobres crianças em busca de um novo pai? Não será por acaso que a ladainha mais freqüente entoada a Stalin é a de Paisinho dos Povos.

Poucos homens representativos das letras da primeira metade do século passado tiveram suficiente lucidez para escapar ao fascínio do novo Deus. Entre estes, Pierre Pascal, Panaïti Istrati, David Rousset, Arthur Koestler, George Orwell, Victor Serge, Albert Camus, Ernesto Sábato. Todos pagaram seu preço. Na Europa e, conseqüentemente, entre nós, extensão da Europa, tiveram decretadas suas mortes civis e uma espécie de excomunhão os baniu do mundo do pensamento. Enquanto os intelectuais de Paris entoavam loas à Revolução de 17, um humilde camponês dos Balcãs dela tomava distância. Panaïti Istrati, escritor romeno de expressão francesa, teve o mérito de denunciar em primeira mão, doze anos após a Revolução, o embuste do século.

Panaïti nasceu em Braila, Romênia, em 11 de agosto de 1884, e morreu em Bucareste, em 1935 – diz-nos o Dicionário Literário Bompiani -. Filho de um contrabandista grego das Cefalônia, a quem nunca conheceu, e de uma camponesa romena, passou a infância nos bairros pobres do porto. Aos 20 anos, colaborava no Romênia operária, e iniciou uma intensa atividade social que o levaria ao cargo de secretário do sindicato de trabalhadores portuários. Seu espírito inquieto e sua vocação de nômade o induziram a uma aventureira série de viagens, interrompida apenas por alguma estada na pátria. Visitou os países do Oriente Próximo – Grécia, Palestina, Turquia e Egito – e, logo, Itália, França, Suíça e África do Sul, nas condições mais duras, faminto e às vezes doente, e em certas ocasiões viajou como clandestino em vapores dos quais era desembarcado na primeira escala. 

Atrás de qualquer espécie de trabalho, desta forma chegou a ser garçom, fotógrafo ambulante, etc. Isso lhe permitiu reunir o tesouro de impressões e observações, com frequência cruamente realistas, que expressou em um estilo muito pessoal, no qual os elementos franceses livremente adquiridos se fundem com outros autóctones, em uma síntese realizada através do estro linguístico mais singular e vigoroso.

Vivendo na miséria, doente e deprimido, ele tenta suicidar-se sem sucesso em 1921. Esta tentativa acaba transformando sua vida. Em janeiro de 1921, Roman Rolland recebeu do hospital de Nice uma carta encontrada em cima de um homem que havia tentado suicidar-se cortando a própria garganta. Ao lê-la, o escritor francês teve a impressão de encontrar-se frente à obra de um gênio. Quando o ferido, que era Istrati, se curou, quis conhecê-lo, e escreveu o prólogo a Kyra Kyralina, que teve grande êxito na época. 

Convidado para os festejos do décimo aniversário da Revolução de Outubro, em 1927, Panaïti encontra-se em Moscou com o cretense Nikos Kazantzakis, místico apaixonado por Cristo, Buda e Lênin. Esta viagem o afastará definitivamente do comunismo. O romeno não entende, no país da revolução, a fome e a miséria que vê por toda parte. Kazantzakis objeta que não se faz omelete sem quebrar ovos. Panaïti insiste. Só vê ovos quebrados e nada de omelete.

Em 1929, Istrati publica Vers l’autre flamme, primeira denúncia do stalinismo no Ocidente, anterior às denúncias de Gide, Koestler e Orwell, nos anos 30. A recusa ao novo dogma é tão traumática que, tendo seu livro publicado em Paris, em 1929, uma segunda edição só surgiria em 1980. Suas Obras Completas são publicadas pela Gallimard, exceto Vers l’autre flamme, cujos originais levaram Romain Rolland, seu padrinho literário em Paris, a aconselhá-lo:

“Isto será uma paulada a toda Rússia. Estas páginas são sagradas, elas devem ser consagradas nos arquivos da Revolução Eterna, em seu Livro de Ouro. Nós lhe estimamos ainda mais e lhe veneramos por tê-las escrito. Mas não as publique jamais”.

Panaïti publicou. Na libertária França, seu livro foi banido do mundo das letras por meio século. O argumento de Romain Rolland serviu, durante décadas, para calar qualquer crítica ao comunismo. No Brasil, nos anos 60, Erico Verissimo aconselhava o escritor gaúcho Sérgio Faraco, pelas mesmas razões, a não publicar o relato de seus dias em Moscou. Faraco, subserviente, calou-se. Só ousou falar em 2002, em seu livro Lágrimas na Chuva. Treze anos após a Queda do Muro, onze anos após a dissolução da União Soviética.

Após sua brutal decepção com o novo dogma, Istrati anuncia este homem novo, liberto das religiões e dos partidos: “Vejo nascer na rua um homem novo, um indigente. Um indigente que não crê em mais nada, mas que tem uma fé total nas forças da vida. Eu lhe digo: após ter tido fé em todas as democracias, em todas as ditaduras, em todas as ciências, e após ter sido por todas decepcionado, minha última esperança de justiça social fixou-se nas artes e nos artistas. Viva o homem que não adere a nada”. 

Pioneiro na denúncia da mais longa ditadura do século passado e vítima de uma campanha de denegrimento por parte dos comunistas, Panaïti se retira na Romênia, onde morre de tuberculose em um sanatório, em 1935, com 51 anos. Pecou pelo otimismo. O homem que não adere a nada ainda está por nascer. O homenzinho contemporâneo continua aderindo a qualquer mentira prestigiosa. 

Vers l’autre Flamme teve uma edição no Brasil, em 1946, com o título Rumo a outra Flama, 17 anos após sua publicação na França. A segunda edição é esta, 67 anos depois da edição brasileira. 

Baixe Istrati de http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/panait.pdf

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Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.