sábado, 14 de setembro de 2013

A coragem de Gushiken, por Rodrigo Constantino

No Brasil, basta morrer para virar santo. Se for de esquerda, naturalmente. Críticas ao defunto são absolutamente condenáveis. A menos que seja um defunto de direita.
Quando Thatcher morreu, por exemplo, muita gente da esquerda celebrou. Deselegante em ambos os casos, mas temos o claro duplo padrão em jogo.
Não vou celebrar a morte de ninguém aqui. Tampouco vou chorar e posar de grande humanitário triste com todas as vidas perdidas. Vou apenas chamar a atenção para um ponto. Dois, na verdade.
Primeiro: o que tem de petista adoecendo de cancro! Como não sou adepto de teorias conspiratórias no estilo Chávez, prefiro levantar uma hipótese mais prosaica, em vez de alguma máquina inventada pela CIA para espalhar o câncer na América Latina. Quem sabe a obsessão pelo poder e o estresse das falcatruas não ajudem a desenvolver a doença?
Sim, é verdade que a turma dos velhos caciques do PMDB ainda está aí, firme e forte. Mas é que esses não têm tanto estresse assim, pois sabem que sai PT, entra PSDB, ou sai PSDB e entra PSB, lá estarão eles, compartilhando o poder. Sei lá, fica apenas a especulação: rato magro faminto demais deve viver com um grau de angústia que não pode fazer bem à saúde. Poderia até ter um alerta assim:
Ministério da Saúde adverte: mensalão enche o bolso, mas é prejudicial à saúde.
Segundo ponto: a presidente Dilma enalteceu a coragem com a qual Gushiken enfrentou a situação. Calma lá! Segundo reportagens de jornais, a doença fez o petista virar um místico, passando pela Rosa-cruz, pela umbanda, pela cabala e pelo zin-budismo. Cada um enfrenta essas situações como pode, não vou julgar isso. Mas essa informação já coloca em xeque a tese de coragem.
Só que não é apenas isso. E aqui que eu queria realmente chegar: o homem se tratou esse tempo todo no Hospital Sírio-Libanês, o melhor e mais caro do Brasil, e o preferido dos “homens do povo” do Partido dos Trabalhadores. É para quem pode, não para quem quer.
Tudo bem, Gushiken podia. Tinha recursos, ou amigos com recursos. Mas coragem? Não. Coragem mesmo, daquelas de impressionar os demais, é se tratar no SUS sob o governo do PT. Se for com um “médico” cubano, então, aí é caso de heroísmo ímpar! Quem se habilita?

Que moral!

Rodrigo Constantino

Rolnik, a brasileira da ONU, quer dar lição de moral sobre moradia social no Reino Unido, mas fica em hotel de luxo


Fonte: Daily Mail
Isso é tão PT. É tão esquerda. A arquiteta brasileira, da USP, que foi do governo petista, e que despertou a fúria dos conservadores britânicos ao afirmar que as medidas do governo para reduzir o gasto com moradia social eram uma ameaça aos pobres, hospedou-se em hotel de luxo na cidade.
Assim é fácil. Ela ficou em hotel quatro-estrelas cuja diária não sai por menos de 300 libras. O Rubens Hotel fica pertinho do Palácio de Buckingham. Ela rejeitou hotéis mais próximos de seu local de trabalho, por diárias bem menores, por metade da tarifa.
Nada mais esquerda caviar que isso: ONU, USP, PT, bandeiras sensacionalistas sobre moradia social, monopólio dos fins nobres para ajudar os mais pobres, e tudo isso defendendo medidas que, na prática, prejudicam os mais pobres, enquanto desfruta do bom e do melhor no luxo dos ricos!

Diretor Assassina Mozart, por Janer Cristaldo

DIRETOR ASSASSINA MOZART 


Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.

Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du rôle, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.

Os gêneros inovam e se transformam. Ser contra inovações não condiz com a arte, que sempre se renova. Mas há inovações abomináveis. Foi o José Celso Martinez, se não me falha a memória, que, para adaptar Bizet à idiossincrasia tupiniquim, pôs no papel de Escamillo um jogador de futebol. Temos então:

En garde! allons! allons! Ah!
Goleador, en garde! Goleador, Goleador!
Et songe bien, oui, songe en combattant
Qu'un oeil noir te regarde,
Et que l'amour t'attend,
Goleador, l'amour t'attend!

Decididamente, é uma ofensa às musas. Que crie sua ópera futebolística e deixe Bizet em paz. O Theatro Municipal de São Paulo está apresentando Don Giovanni, de Mozart, com uma dessas inovações bizarras. Na adaptação de Francesco Pier Maestrini, o conquistador de Sevilha inspira-se no conde Drácula.

Para o regente, o maestro israelense Yoram David, "um aspecto importante é que os dois escolheram viver fora das regras da sociedade. Eles escolheram ter uma certa liberdade, que obviamente é punida, porque a sociedade não permite que as pessoas vivam fora dos regulamentos". 

Maestrini cita um estudo de Alessandro Baricco que se chama Drácula, Sósia de Don Giovanni, sobre as analogias dos dois personagens, que são dois mitos eternos. "Eles não têm um senso de culpa, uma ética nessa leitura. Pelo que eu sei, isso nunca foi pensado. Don Giovanni é pensado de todas as maneiras possíveis, cada ano são feitas muitas montagens pelo mundo. E elas são sempre atualizações para o moderno. É muito raro ver Don Giovanni montado no século XVII hoje em dia", completa.

Pode ser. Mas não vejo como associar um personagem sedento de prazer com um vampiro que se alimenta de morte. Talvez Maestrini tenha pretendido surfar na onda ridícula de vampirismo que invadiu o cinema. Se assim foi, conspurcou Mozart. Don Giovanni cultua a vida. Drácula celebra a morte.

Adaptações despropositadas de óperas, as vemos todos os dias. Certamente ninguém mais lembra, mas em 2007, o Islã acabou proibindo uma ópera na Alemanha. A direção da Ópera de Berlim cancelou quatro apresentações de Idomeneo, de Mozart, previstas para setembro daquele ano, por medo aos muçulmanos. Esta ópera foi montada em Berlim, em 29 de janeiro de 1781. Diga-se de passagem, foi apresentada em 2006, no Rio de Janeiro, por ocasião da comemoração dos 250 anos do nascimento de Mozart. 

Não que Mozart tenha ferido os brios dos sarracenos. Ocorre que na versão do diretor Hans Neuenfels, o rei Idomeneo tira de um saco e põe sobre quatro cadeiras as cabeças decepadas de Netuno, Buda, Cristo e Maomé. Segundo o diretor, a cena reflete "a tentativa do protagonista de se libertar da ditadura dos deuses". Ora, se emDon Giovanni o adulto Mozart jogou seu herói aos infernos para não chocar a conservadora Viena, não seria o jovem Mozart quem decapitaria quatro deuses. 

Em verdade, foi uma provocação do diretor. Por um lado, Buda, Cristo e Maomé não são personagens da ópera. Por outro, Netuno nela não é decapitado. Seja como for, os encenadores de óperas sempre se sentiram tentados a recriá-las. A molecagem do diretor só serviu para contar pontos para os muçulmanos. E Berlim se dobrou à arrogância árabe. Mais um pouco, e a Europa terá de examinar se o Rapto no Serralho não fere a delicada sensibilidade muçulmana. Quem sabe A Italiana na Argélia, de Rossini, não contém alguma conotação politicamente incorreta.

Adaptações muito realistas também têm seus riscos. Uma amiga musicista contou-me que, numa encenação de Aída, o diretor houve por bem colocar um elefante no palco, na hora em que Radamés, vencedor da batalha contra os etíopes, entrega os louros da vitória a faraó. Ocorre que o elefante era de circo e fora treinado para erguer-se nas patas na hora dos aplausos. Não aconteceu outra. Mal a plaéeia começou a bater palmas, o animal, muito educado, fez o gesto de agradecimento e o tenor foi ao chão.

Mas há molecagens divinas. Uma delas foi obra de Tereza Berganza, em Don Giovanni. Quando Zerlina canta:

Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!

Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo. 

Uma coisa é uma piada refinada. Don Giovanni deve ter gargalhado lá nas profundezas do inferno, para onde o enviou o Comendador. Outra coisa é ceder aos apelos de um modismo idiota.

Motivos para cautela (Iraque & Síria) III, por Caio Blinder


Motivos para cautela (Iraque & Síria) III

Ter sangue frio com tiranos como Saddam e Bashar
Nas marchas e contramarchas das crises do Oriente Médio, dia de coluna com contraponto a algumas de  minhas ideias, pensatas e erratas. Robert Kaplan é analista-chefe da empresa de análise geopolítica Stratfor. Ele adverte que uma intervenção na Síria pode degringolar como no Iraque.
Kaplan escreve que foi guiado pelas emoções quando apoiou a invasão do Iraque em 2003, por sua ojeriza a Saddam Hussein, que oprimia o país com uma máquina totalitária nos moldes de Stálin e Ceaucescu. Na sua avaliação da época, nada poderia ser pior do que a ditadura de Saddam Hussein. Avalia agora que errou.
Eis algumas razões para o revisionismo de Kaplan:
1) Algumas sociedades com suas cruéis divisões étnicas e sectárias precisam de um ditador cruel como Saddam Hussein para impedir o caos.
2) É preciso sangue frio e aceitar em algumas situações que para o interesse nacional (no caso os EUA) é melhor preservar um tirano no poder. Ronald Reagan teve este sangue frio ao considerar Saddam Hussein útil para conter o Irã (mesmo com o uso de armas químicas na guerra contra o vizinho e contra sua própria população). Quem sabe, Saddam Hussein tivessse utilidade hoje em dia para conter o terror jihadista.
3) É preciso pensar cinco ou seis passos adiante e não apenas dois (entre nós, se Barack Obama pensasse ao menos um). Não se pode subestimar as complexidades envolvendo a queda de um ditador como um Saddam  Hussein.
4) Não se pode subestimar a falta de apetite dos americanos para a guerra. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, havia um frenesi patriótico nos EUA. O ardor não dura sem um ataque direto. O americano está cansado de guerra. A fadiga foi rápida depois do Afeganistão e Iraque.
5) O mundo não gira em torno do Oriente Médio.
A partir destes pontos, Robert Kaplan argumenta que a Síria é parecida com o Iraque: há o perigo de uma piora sem Bashar Assad; o ditador pode ter uma utilidade para conter a rede Al Qaeda; falta apetite da opinião pública americana para uma intervenção e um compromisso de longo prazo na Síria pode prejudicar a influência dos EUA em outros teatros regionais.
Kaplan arremata com um  ponto: como ter convicção sobre uma intervenção se o próprio comandante-em-chefe (Obama) carece dela?
Eu arremato: difícil ter tanto sangue frio no calor da luta, quando algozes estão em marcha e não sabemos exatamente onde está o lado bom na história. Bashar Assad seguramente não é. Buscar este lado bom  é preciso, para o bem do maior número possível dos sírios e o mínimo de bem-estar geopolítico na região.


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