quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Espionagem é poder, por Alexandre Garcia



A presidente Dilma disse na ONU que espionagem "é séria violação dos direitos humanos". Então imagine o tamanho da violação dos direitos humanos em uma fila de hospital público... E antes que o título acima assuste os mais sensíveis, quero lembrar que o mundo inteiro emprega para os serviços de espionagem o eufemismo "serviços de inteligência". Inteligência que vem como sinônimo de uso da informação, não importa obtida como. Não precisa ter, necessariamente, conexão com o uso inteligente do cérebro... A presidente Dilma disse na ONU que é uma afronta a espionagem americana - ou a inteligência americana. Ninguém vai ligar muito, porque o mundo inteiro sabe que todos espionam todos e os mais poderosos espionam mais. Inteligência é poder. Poder estratégico, militar e comercial.


​Na espionagem nem sempre tamanho é documento. O melhor serviço secreto e de espionagem do planeta seria o Mossad, de Israel, na escolha de nove entre 10 entrevistados. E nem sempre os americanos estão isentos de algum fiasco na área. O mais conhecido foi a informação de que haveria armas de destruição em massa em poder de Saddam Hussein, mas há fiascos mais recentes, como o de dar armas para os rebeldes líbios, que as usaram para invadir instalações diplomáticas americanas e matar o embaixador dos Estados Unidos. Há um fiasco em andamento, em relação à Síria, por falta de informações corretas sobre os rebeldes.


​Mas fiquemos no Brasil, este pobre país indefeso a ponto de os americanos - a valerem as denúncias do desertor da NSA - acompanharem a comunicação entre a presidente Dilma e assessores. Quando quatro das maiores petroleiras do mundo desistiram do leilão do filé do pré-sal - Libra - fiquei imaginando que devem saber o que não sabemos. Se são realmente amigos, bem que poderiam nos contar. Talvez até tenham um relatório sobre a Patrobrás sendo usada por partido político.


​Semana passada, quando a Polícia Federal desencadeou prisões e apreensões da Operação Miquéias - a da lancha de 5 milhões e dos carros esportivos de quase 3 milhões cada um - descobriu-se que a quadrilha tinha gente de confiança a ocupar cargos de confiança na Secretaria de Assuntos Institucionais da Presidência da República, noMinistério da Previdência, do Trabalho e Cia Nacional de Abastecimento. Se tivéssemos um bom serviço de inteligência, essas pessoas nem seriam recrutadas para o serviço público. O perigo é termos um serviço assim e ele não ficar a serviço do estado brasileiro, mas a serviço do governo e do partido que estiver no governo, como tem acontecido desde o início. Quando implantou o SNI, então Serviço Federal de Informação e Contrainformação, em 1956, Juscelino Kubitscheck o usava para se proteger de Carlos Lacerda e outros opositores, prever greves e vigiar movimentos esquerdistas, conta a História.

DESPENCANDO


The Economist faz duro alerta e pede mudança de rumo do governo. Ou: Ontem a euforia, hoje a tática do avestruz

Fonte: The Economist
A revista britânica The Economist, que sempre foi ignorada pela esquerda brasileira por ter uma linha mais liberal, caiu no radar da turma quando, em 2009, colocou o Cristo Redentor na capa decolando. Os petistas ficaram eufóricos, usaram a matéria contra os críticos liberais do governo, e nem se deram ao trabalho de ler o que ia dentro.
Os alertas foram ignorados, e a revista mostrou-se otimista demais com o governo. A arrogância (“hubris”) apontada pela revista como principal risco virou realidade. O governo se mostrou intervencionista demais, fez lambança demais, e a economia agora patina, com inflação alta. Vários outros países emergentes crescem mais, com menos inflação. A euforia virou apatia ou aversão.
Tanto que a presidente Dilma teve de engolir parte da empáfia e mendigar atenção no ícone do capitalismo americano, o banco Goldman Sachs. Foi passar o chapéu, mas o tiro saiu pela culatra: quem precisa frisar tanto que honra contratos, senão alguém que… não tem honrado contratos? Se sua esposa repetir muito que lhe é fiel, prezado leitor, cuidado, atenção redobrada: espera-se que a esposa fiel não precise reafirmar tanto assim sua fidelidade. Já a adúltera…
Voltemos à The Economist. A matéria de capa é forte, e logo na largada diz: “Uma economia estagnada, um estado inchado e protestos em massa significam que Dilma Rousseff deve mudar o rumo”. A acusação é que o governo fez muito pouco para reformar o estado, tendo apenas aproveitado as boas ondas externas. Especialmente no que diz respeito ao modelo tributário, um verdadeiro manicômio que pesa sobre as empresas.
As prioridades do governo também são apontadas como totalmente equivocadas. Gasta demais, investe de menos. O modelo previdenciário é custoso demais para um pais ainda jovem. Acaba gastando com aposentadorias o mesmo que as social-democracias europeias, cuja participação de idosos é três vezes maior no total da população.
Já os investimentos em infraestrutura são tão pequenos como os biquínis das brasileiras, diz a revista. Investe apenas 1,5% do PIB, contra a média global de 3,8%. Isso mesmo com um estoque de capital de infraestrutura bem menor. O resultado é um custo de logística absurdo para as empresas.
A revista reconhece que não são problemas novos, mas lembra que o atual governo não só foi incapaz de mexer uma palha para melhorá-los, como aumentou muito as intervenções na economia, espantando investidores. A reputação macroeconômica também foi para o saco pois o governo resolveu reduzir as taxas de juros artificialmente, na marra, e agora está tendo que aumentá-las para combater a inflação.
A contabilidade criativa nas contas públicas, eufemismo para malabarismos primários, também é apontada pela revista como causa da perda de credibilidade, assim como a expansão do endividamento bruto do governo.
O país conta com bastante potencial, mas para explorá-lo, o governo terá que mudar o rumo, mergulhar em reformas estruturais importantes. Com elevada carga tributária, não há mais espaço para aumentar impostos. O governo deverá reduzir seus gastos, principalmente com os pensionistas.
Além disso, terá de criar um ambiente mais amigável para os investidores. Não é protegendo empresas nacionais que se faz isso, ao contrário do que o governo acredita, e sim estimulando mais competição externa. O Mercosul tem sido um obstáculo a isso, reconhece a revista.
A reforma política é o terceiro pilar apontado como necessário para as reformas. A proliferação de partidos e ministérios, com base no velho fisiologismo, impede avanços. Mas a reforma tem que partir justamente de quem não quer mudar esse esquema. Dilma, segundo a The Economist, não tem mostrado habilidade política para enfrentar o desafio.
O Brasil ainda não afundou, e tem salvação. Mas para decolar novamente, a presidente terá que mudar sua gestão. Assim termina a reportagem, com um toque de esperança. Da mesma forma que a revista se mostrou muito otimista em 2009, penso que ainda insiste no erro, ao acreditar ser possível que esse mesmo governo, com essa presidente, possa alterar drasticamente o rumo da gestão. Sonho de uma noite de verão.
A revista deveria ser mais realista: para tais mudanças ocorrerem, só com outro governo. Esse é caso perdido. O Cristo Redentor vai mergulhar de vez e enterrar a cabeça na Lagoa Rodrigo de Freitas ou na Baía de Guanabara, dependendo do lado que cair.
Já os petistas, que até “ontem” estavam eufóricos com a revista, também vão apelar para a tática do avestruz e enterrar a cabeça na areia, para não ter que ler a matéria e se confrontar com a triste realidade de sua péssima gestão.
RC

DECOLANDO


A capa da revista The Economist: como é bom não ser petista! Ou: Recordar é viver

A nova capa da revista britânica The Economist coloca o Cristo rodopiando e mergulhando na Baía de Guanabara, perguntando se o país estragou tudo. Não esperem uma boa receptividade da esquerda, ao contrário do que ocorreu em 2009, quando a capa mostrava um Cristo decolando.
Eu, ao contrário da esquerda, já naquela época apontei que a coisa não era bem assim, que era melhor tomar mais cuidado antes de sair por aí celebrando com euforia a postura da revista. A prova está aqui. Uma das grandes vantagens de não ser petista é que não tenho problema algum em olhar para trás, em resgatar o passado, o que disse antes e o que fiz. Lá vai:
A capa da revista The Economist divulgada ontem deixou os petistas em alvoroço, ao anunciar que o país agora “decolou”. Na foto, um Cristo Redentor alçando vôo como um foguete. O Brasil é a “bola da vez”, atraindo cada vez mais atenção e dólares do mundo todo. Lula é “o cara”. Quem sabe alguns petistas não assinam a revista britânica agora e passam a aprender mais sobre a defesa do livre comércio? Antes, porém, seria recomendável que eles lessem a matéria na íntegra, coisa que poucos fizeram.
Sim, a revista reconhece os méritos do país. O Brasil é uma democracia, ao contrário da China. Não tem insurgentes ou disputas étnicas e religiosas como a Índia. Exporta mais que petróleo, ao contrário da Rússia. Entretanto, a revista afirma também que as melhoras foram plantadas antes, durante o governo anterior. Menciona a autonomia do Banco Central, bandeira que os petistas jamais engoliram. Enaltece a abertura comercial e algumas privatizações ocorridas na era FHC, até hoje condenadas pelos petistas. Alerta para as fraquezas ainda existentes, como o crescimento dos gastos públicos, investimentos baixos, educação e infraestrutura decadentes, violência e criminalidade. A revista ainda ataca Dilma Rousseff, por sua insistência em negar a necessidade de reformar leis trabalhistas arcaicas.
Por fim, o editorial da The Economist coloca como principal risco para o país a “hubris”, a arrogância desmedida, algo que lembra as bravatas de um presidente que vive afirmando que “nunca antes na história desse país” as coisas foram tão maravilhosas como agora. A revista lembra que Lula é um presidente com sorte, aproveitando o boom das commodities, que resulta do crescimento chinês e da política frouxa de juros do Fed, e também a plataforma de crescimento erguida pelo seu antecessor, FHC.
Em suma, a economia brasileira vai bem a despeito de tudo que o PT acredita e representa, não por causa disso. E não custa ficar atento, pois quando todo mundo “sabe” que nossa economia tem somente uma direção, rumo ao céu, talvez seja hora de recuar um pouco. O excesso de euforia preocupa. No dia que a revista foi publicada, o Ibovespa caiu 3%. Será que estamos próximos do pico? Caveat Emptor!
RC

Um embaixador americano explica porque seu governo espiona Dilma

Carlos Alberto Montaner é um jornalista e escritor cubano, autor do clássico e imperdível Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, em parceria com o peruano Vargas Llosa e o colombiano Plinio Apuleyo Mendonza. Em sua coluna no Miami Herald, ele conta que um antigo embaixador americano lhe confidenciou porque o governo Dilma é espionado pelo governo americano.
Sua resposta não poderia ser mais franca e direta:
Do ponto de vista de Washington, o governo brasileiro não é exatamente amigável. Por definição e história, o Brasil é um país amigo que ficou do nosso lado durante a II Guerra Mundial e na Coréia, mas seu atual governo não é. 
O embaixador pediu para não ter seu nome revelado, pois isso iria gerar um grande problema para ele. Mas autorizou que o jornalista, de quem é amigo, transcrevesse a conversa, sem citar a fonte. O embaixador conhece mais o nosso governo do que nossa imprensa, pelo visto. Diz ele (tradução livre):
Tudo que você tem a fazer é ler os registros do Foro de São Paulo e observar a conduta do governo brasileiro. Os amigos de Luis Inácio Lula da Silva, de Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores são os inimigos dos Estados Unidos: a Venezuela chavista, pela primeira vez com (Hugo) Chávez e agora com (Nicolás) Maduro; Cuba de Raúl Castro, Irã, a Bolívia de Evo Morales, Líbia nos tempos de Kadafi; Síria de Bashar Assad.
Em quase todos os conflitos, o governo brasileiro concorda com as linhas políticas da Rússia e da China, em oposição à perspectiva do Departamento de Estado dos EUA e da Casa Branca. Sua família ideológica mais parecida é a dos BRICS, com quem ele tenta conciliar sua política externa.
A grande nação sul-americana não tem nem manifesta a menor vontade de defender os princípios democráticos que são sistematicamente violados em Cuba. Pelo contrário, o ex-presidente Lula da Silva, muitas vezes leva os investidores a ilha para fortalecer a ditadura dos Castros. O dinheiro investido pelos brasileiros no desenvolvimento do super-porto de Mariel, próximo a Havana, é estimado em US $ 1 bilhão.
A influência cubana no Brasil é secreta, mas muito intensa. José Dirceu, ex-chefe de gabinete e o ministro mais influente de Lula da Silva, tinha sido um agente dos serviços de inteligência cubanos. No exílio em Cuba, ele teve o rosto cirurgicamente alterado. Ele voltou para o Brasil com uma nova identidade e funcionou nessa condição até que a democracia foi restaurada. De mãos dadas com Lula, ele colocou o Brasil entre os principais colaboradores com a ditadura cubana. Ele caiu em desgraça porque ele era corrupto, mas nunca recuou um centímetro de suas preferências ideológicas e de sua cumplicidade com Havana.
Algo semelhante está acontecendo com o profesor Marco Aurélio Garcia, atual assessor de política externa de Dilma Rousseff. Ele é um contumaz anti-ianque, pior do que Dirceu mesmo, porque ele é mais inteligente e teve uma melhor formação. Ele fará tudo o que puder para frustrar os Estados Unidos.
Mas isso não é tudo. Há outras duas questões sobre as quais os Estados Unidos querem ser informados sobre tudo o que acontece no Brasil, pois, de uma forma ou de outra, elas afetam a segurança dos Estados Unidos: a corrupção e as drogas.
O Brasil é um país notoriamente corrupto e tais práticas afetam as leis dos Estados Unidos de duas maneiras: quando os brasileiros utilizam o sistema financeiro americano e quando eles competem de forma desleal com empresas norte-americanas, recorrendo a subornos ou comissões ilegais.
A questão das drogas é diferente. A produção de coca boliviana se multiplicou cinco vezes desde que Evo Morales assumiu a presidência, e a saída para essa substância é o Brasil. Quase tudo acaba na Europa, e os nossos aliados nos pediram para obter informações. Essa informação, por vezes, está nas mãos de políticos brasileiros.
A pergunta final feita por Montaner foi se o governo americano continuaria espionando o brasileiro. A resposta do embaixador não poderia ser mais objetiva: “Claro, é nossa responsabilidade para com a sociedade americana”.
RC

‘Marina e as regras do jogo’, de Demétrio Magnoli

Publicado no Estadão desta quinta-feira
DEMÉTRIO MAGNOLI
“Coloque o dedo na ferida: sem as assinaturas é uma esperança vã, impossível de frutificar.” A frase, do ministro Marco Aurélio Mello, do Tribunal Superior Eleitoral, equivale a uma potencial sentença de morte para a Rede, a “vã” esperança partidária de Marina Silva. Marco Aurélio tem razão quando põe o dedo na “ferida” jurídico-administrativa, mas a “ferida” política está em outro lugar: na democracia brasileira não existe liberdade partidária. Por que eu, meu vizinho e um grupo de amigos não podemos decidir, hoje, fundar um partido e vê-lo, amanhã, reconhecido mediante a simples apresentação de um estatuto? Isso é liberdade partidária – algo que não temos, pois a elite política decidiu, em seu proveito, estatizar os partidos políticos.
A Constituição de 1988 consagrou a estatização dos partidos, refletindo um consenso de nossa elite política. Os partidos oficiais adquiriram o curioso direito de avançar sobre o bolso de todos os cidadãos, extraindo-lhes compulsoriamente os recursos que financiam o Fundo Partidário e as propagandas partidária e eleitoral nos meios eletrônicos de comunicação. Em 2012, as dotações do orçamento federal para o Fundo Partidário somaram R$ 286,2 milhões. Nós todos pagamos R$ 850 milhões em 2010, sob a forma de compensações fiscais às emissoras de TV e rádio, pela transmissão dos horários cinicamente rotulados como “gratuitos” e utilizados pelos partidos. O projeto do PT de reforma política, que almeja introduzir o financiamento público de campanha, tem a finalidade de expandir ainda mais a transferência de recursos da sociedade para os políticos profissionais.
A Justiça Eleitoral é, ao lado da Justiça do Trabalho, uma das desastrosas invenções do varguismo. Nenhuma democracia precisa de tribunais para organizar eleições, missão que pode ser cumprida por meros órgãos administrativos. A razão de ser de nossos tribunais eleitorais se encontra no princípio antidemocrático da subordinação dos partidos ao Estado. O aparato judicial especializado desempenha a função de identificar os partidos que cumpriram os requisitos legais para tomar dinheiro dos cidadãos – e, eventualmente, disputar eleições. “Não cabe estabelecer critério de plantão para esse ou aquele partido”, explicou Marco Aurélio referindo-se à Rede, antes de concluir com a inflexão típica do juiz que zela pela igualdade de direitos: “Abre-se um precedente muito perigoso”. De fato: os princípios da liberdade partidária e da estatização dos partidos são inconciliáveis – e para preservar o segundo o nosso ordenamento político sacrifica o primeiro, sem jamais abrir perigosos precedentes.
Os partidos estatais formam um dos pés do tripé que sustenta um sistema político avesso ao interesse público e orientado para a corrupção sistemática. O segundo pé são as coalizões em eleições proporcionais, um expediente de falsificação da vontade do eleitor destinado a conferir viabilidade a partidos que não representam ninguém, mas acomodam frações periféricas da elite política. O terceiro pé é a prática de loteamento político da máquina estatal, propiciada pela escandalosa existência, apenas na esfera federal, de quase 50 mil cargos de livre nomeação.
A privatização do Estado é o outro lado da moeda da estatização dos partidos políticos. “Não tem conversa, a lei é peremptória”, enfatizou Eugênio Aragão, vice-procurador-geral Eleitoral, alertando para os limites legais ao direito de candidatura. Hoje, diante do pedido de registro da Rede de Marina, a Justiça Eleitoral emerge como fiadora burocrática dos interesses gerais da elite política, que não pode abrir mão da coerência do conjunto do sistema.
No balcão cartorial do Estado brasileiro, registrar partidos é um negócio tão lucrativo quanto fundar sindicatos ou igrejas. PTC, PSC, PMN, PTdoB, PRTB, PHS, PSDC, PTN, PSL, PRB, PPL, PEN – a sopa de letrinhas das legendas oficiais vazias produz a falsa impressão da vigência de ampla liberdade partidária. Aplicando sua inteligência à produção de sofismas, Marco Aurélio argumentou que a ausência da Rede não prejudicaria as eleições de 2014, pois, afinal, o País não carece de partidos. Na esfera exclusiva da lógica burocrática, o ministro tem razão: todos poderão votar em partidos que não representam ninguém, mas cerca de um quarto do eleitorado experimentará a impossibilidade de sufragar a candidata de sua preferência. De certo modo, o Irã é aqui.
Marina e os seus não aprenderam direito as regras do jogo, explicam nos jornais os ínclitos políticos fundadores de legendas de aluguel e seus advogados especializados nos “negócios do Brasil”. Mas, como atestado de uma devastadora crise política e moral, ninguém pergunta aos representantes de nossa elite política sobre a natureza das regras desse jogo. Três meses atrás, centenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas para expressar sua frustração e sua ira com um Estado hostil à sociedade. Depois disso, o Supremo Tribunal Federal decretou que os políticos de sangue azul se distinguem dos cidadãos comuns pelo privilégio da impunibilidade. Agora, o Tribunal Superior Eleitoral prepara-se para, aplicando as leis vigentes, cassar o direito de voto de um quarto dos brasileiros. Entre o Brasil oficial e o Brasil real, abre-se um fosso ameaçador, quase intransponível.
Nos círculos próximos a Marina, comenta-se que ela não aceitará a alternativa de concorrer às eleições por uma legenda de negócios. Numa hipótese viciosa, o gesto de desistência configuraria uma rendição disfarçada por discursos de indignação – e Marina contrataria um despachante astuto para tornar viável a Rede no horizonte de 2018. Por outro lado, na hipótese virtuosa, seria um ato de bravura e resistência: o ponto de partida para uma “anticandidatura” de mobilização da sociedade contra a estatização dos partidos e a privatização do Estado.
Estou sonhando?

PAPA ARGENTINO E TUPA URUGUAIO, MESMO COMBATE , por Janer Cristaldo

Em menos de uma semana, tanto o papa Francisco – que já declarou não ser de direita - como o presidente uruguaio, José Mujica – que já foi guerrilheiro tupamaro – fizeram pronunciamentos contra o capitalismo.

No domingo, em uma viagem a Cagliari, capital da Sardenha, o papa teceu críticas à idolatria ao dinheiro que rege a atual sociedade. Em um discurso de improviso para desempregados, falou por 20 minutos e estimulou-os a ter esperança e a não desanimar com as dificuldades da vida.

"Não queremos esse sistema econômico globalizado que nos faz tão mal. Homens e mulheres têm que estar no centro do sistema econômico como Deus quer, não o dinheiro. O mundo passou a idolatrar um deus chamado dinheiro". 

Toda vez que alguém condena o sistema econômico globalizado – este sistema que faz o intercâmbio de todos os bens do mundo, onde um livro impresso na China sai mais barato no Brasil que um livro impresso no Brasil – me pergunto qual sistema defende. Pois basicamente há dois sistemas, o socialista e o capitalista. O capitalista pode ter suas falhas e bolsões de miséria. Mas o mundo socialista – nomenklatura à parte – é só miséria e não deu certo em lugar algum do mundo.

Ontem, o presidente do Uruguai, José Mujica, criticou duramente o consumismo durante seu discurso na 68º Assembleia Geral da ONU:

“O deus mercado organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos frustração, pobreza e autoexclusão”, afirmou.

Que um ex-tupamaro diga isto, se entende. Seu pronunciamento me lembra o Dr. Strangelove, do filme homônimo de Kubrick. Quem o viu deve lembrar dos reflexos condicionados do braço esquerdo do cientista semiparalítico, que mal seu dono se descuidava, se erguia na saudação nazista. Strangelove tinha de contê-lo com a mão direita.

No discurso, que durou 40 minutos, ele também elogiou a utopia “de seu tempo”, mencionou sua luta pelo antigo sonho de uma “sociedade libertária e sem classes” e destacou a importância da ONU, que se traduz para ele um “sonho de paz para a humanidade”.

O sarampo da juventude recidivou. É preciso, pois, continuar lutando pela Idéia, como se dizia então. Pelas manhãs que cantam. Ex-comunista é como ex-seminarista. Fica para sempre marcado na paleta.

“A humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o “deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade – continua o ex-tupamaro – . Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”. No mesmo tom, ressaltou o fracasso do modelo adotado no capitalismo: “o certo hoje é que para a sociedade consumir como um americano médio seriam necessários três planetas. Nossa civilização montou um desafio mentiroso”.

Para o presidente, o atual modelo de civilização “é contra os ciclos naturais, contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite viver as relações humanas”, porque “só o amor, a amizade, a solidariedade, e a família transcendem. Arrasamos as selvas e implantamos selvas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com remédios. E pensamos que somos felizes ao deixar o humano”.

O tempora, o mores! Quem diria que um dia entre os dias, um papa e um ex-guerrilheiro teriam o mesmo discurso. Nunca fui consumista. Nunca tive carro, jamais usei roupa de grife e ainda não cheguei aos iPhones da vida. Fora viagens, meus gastos se resumem ao comer e vestir, livros e música. Mas sempre defendi o consumismo. É o consumo, mesmo desbragado, que distribui trabalho e dinheiro no mundo, e não o socialismo.

Em um dezembro do século passado em Madri, quando buscava um singelo Rioja para fim de noite no hotel, ao cair na rua tive de enfrentar uma multidão furiosa, compacta, invasiva, imiscuindo-se em todo e qualquer lugar onde houvesse algo para comprar. Investi de ombros contra a massa e lutei bravamente por meu vinho. Até aí, nada demais. Lá pelas tantas, em plena Puerta del Sol, deparei-me com um grupo de católicos vestidos de andrajos – simulando pobreza, pois pobres não seriam – que ostentavam cartazes contra a sociedade de consumo e o consumismo. Se já não nutro muita simpatia por estes senhores, naquela noite meu sentimento foi de asco.

O que aqueles papistas pareciam não entender é que consumo, por estúpido que seja, gera trabalho e riqueza. Aquela histeria desmesurada dos madrilenhos beneficiava o último produtor de queijos, presunto ou vinhos, nos confins de uma vila qualquer na Espanha ou na Europa. Lubrificava a ampla capilaridade de distribuição e venda, os setores de transporte e comércio, do país todo. O consumo quase irracional dos madrilenhos azeitava a economia da nação, demonstrava a eficiência plena do capitalismo. Claro que o sentido original do Natal fica empanado, para não dizer abolido. Mas melhor que o culto piegas de um deus obsoleto é assistir o espetáculo de uma economia pujante.

Conquistada minha botellita de Rioja, fugi da massa e busquei uma bodega discreta para continuar minhas leituras. Não imagine o leitor que tais orgias de consumo me fascinem. Mas tenho de convir que são salutares para a saúde das nações. Aqueles gatos pingados católicos, travestidos de pobres e humildes, eram, naqueles dias de festa, os piores inimigos da humanidade. 

Como o papa e o ex-tupamaro.

Na Coreia do Norte, só perigos, nada de oportunidades, por Caio Blinder

Até o momento, as colunas da semana foram devotadas ao triunfo de Angela Merkel nas eleições alemães e ao jogo sinuoso de perigos e oportunidades na crise iraniana. Vamos falar agora apenas de perigo: a Coreia do Norte. Bastante sombrio um relatório que acaba de ser divulgado pelo centro norte-americano de pesquisas e análises Rand. No alerta do autor Bruce Bennett, o colapso norte-coreano poderá ser repentino, ao estilo da Alemanha Oriental no final da Guerra Fria. E pior: este colapso poderá ser mais perigoso e desastroso do que aquele ocorrido com a Alemanha comunista, que foi absorvida pelo lado ocidental nos tempos do mentor de Angela Merkel, Helmul Khol.
Bruce Bennett é taxativo. Ele vai mais na linha de “quando” e não “se” irá ocorrer este colapso norte-coreana, pois o regime de Kim Jong-un mostra sinais de instabilidade (esta não é a opinião do seu novo confidente, o ex-jogador de basquete, o excêntrico e autopromocional Dennis Rodman). E o fracasso do esforço multilateral para trazer o mínimo de estabilidade na Coreia do Norte poderá ser uma catástrofe na região e levar  a um vácuo de poder por uma década ou mais.
Entre as possíveis consequências do colapso norte-coreano, são citadas no relatório da Rand guerra civil, crise humanitária, uso de armas químicas e biológicas e guerra entre EUA (aliado da vizinha Coreia do Sul) e a China, o mais importante elo de ligacão de Kim Jong-un com o planeta Terra (não devemos considerar Dennis Rodman como um dos nossos).
O relatório traça o cenário em que tropas chineses avançam para o sul na península coreana e colidem com forças sul-coreanas e norte-americanas (há 28 mil soldados dos EUA estacionados no país aliado). O choque poderá levar inclusive à deflagração de um conflito nuclear. De acordo com o relatório, uma intervenção milittar chinesa poderia ocorrer em caso de implosão do governo norte-coreano. Uma possibilidade é o asssassinato de Kim Jong-un e a explosão de conflitos entre facções do regime. Por esta razão, existe a recomendação de planos de contingência por Washington e Pequim para evitar os cenários mais apocalípticos.
Analistas têm previsto o colapso iminente do regime norte-coreano (uma monarquia comunista inaugurada pelo avô do garotão Kim Jong-un) há duas décadas. No entanto, a perseverança do regime está aí: sobreviveu a duas mudanças de liderança, a sanções devido a seu programa nuclear e à fome que matou mais de um milhão de pessoas. A Coreia do Norte é um campo de concentração com armas nucleares. E pelo visto, jogar basquete será parte dos trabalhos forçados.
Conversa apocalíptica? Sem dúvida, com uma ressalva: como lembra a BBC de Londres, a Coreia do Norte é uma anomalia totalitária que poderá até sobreviver por mais duas décadas, mas ninguém pode prever com confiança o que vai acontecer por lá na semana que vem. Dá mais conforto conversar sobre o Irã?

A VENEZUELA, TÃO QUERIDA, DEU-NOS O CANO NA REFINARIA, por Pedro Luiz Rodrigues

A realidade, dura e inflexível, vai desmontando, a cada dia, o aparato circense que marqueteiros a soldo construíram para nos fazer acreditar que a administração do ex-presidente Lula foi um sucesso administrativo.

Não foi! Como político, Lula exibe reconhecidas habilidades; mas como administrador, benza-nos Deus, foi um desastre.

Desarranjos diversos, fruto da incompetência da administração passada, foram deixados como presente (de grego) no colo da Presidente Dilma Rousseff.

Mas, devemos convir, alguns deles foram embrulhados pela própria grande líder que hoje conduz o Brasil, na condição de chefe da Casa Civil do ex-presidente.

É impressionante a quantidade de bilionárias obras que não foram entregues à sociedade, que há muito ultrapassaram os prazos de entrega e ainda seguem uma trajetória capenga, estourando orçamentos de maneira inédita em nossa história.



É impressionante a quantidade de anúncios feitos de realizações que não se transformam em realidade.

Só agora, por exemplo, o Governo percebeu que, no relacionamento com o bolivarianismo, não deveria ter ido além de discursos laudatórios ao ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, outro hábil político, mas sofrível administrador.

Encantado com o bolivariano, em 2008, dois anos antes de acabar seu governo, Lula orientou a Petrobras a assinar um acordo com a estatal venezuelana PDVSA, estabelecendo as bases para constituição de uma sociedade para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O acordo previa a participação de 60% da Petrobras e 40% da PDVSA na sociedade a ser formada.

Para dar início ao projeto- cujo custo até agora já ultrapassou em oito vezes a estimativa inicial de 2,5 bilhões de dólares – a Petrobras constituiu a empresa Refinaria Abreu e Lima S.A, da qual deveria ficar com 60% do capital, cabendo o restante à PDVSA. Mas como qualquer pessoa de bom senso poderia prever, a estatal Venezuela não honrou seu compromisso, de modo que a Petrobras está tendo de engolir sozinha toda a fatura (cerca de 20 bilhões de dólares), bancada pelo BNDES.

Para se ter uma ideia do absurdo das cifras sobre as quais estamos falando, o ativo imobilizado no Balanço Patrimonial de Itaipu – que a própria empresa considera representar o valor da construção da usina – é de 19 bilhões de dólares, valor no qual estão incorporados os encargos financeiros incorridos durante a construção e até a entrada em operação das unidades geradoras.

Informa-nos a imprensa que a Petrobras evita fazer comentários sobre a rescisão do acordo que a associava a venezuelana PDVSA à refinaria Abreu e Lima. Segundo os jornais, a Petrobras incorporará a refinaria Abreu e Lima como uma unidade própria de negócios a partir do dia 1º de novembro, decisão com a qual o projeto deixaria de ser considerado como uma associação com a PDVSA.

Esta Venezuela que não respeita seus contratos é a mesma que nos fez jogar feio com o Paraguai, que por meio de uma artimanha avessa à tradição da diplomacia brasileira, foi suspensa do Mercosul, para permitir a entrada, pela porta dos fundos, dos venezuelanos. Lamentável.

É lamentável, também, que o contribuinte brasileiro – cada vez mais contribuinte e menos cidadão- seja quem banque o festival de obras não concluídas do Governo Federal.

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