sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O inverno de esperanças perdidas, por Fernando Gabeira*

...Não é, porém, uma briga de gato e rato. É possível sobreviver a ela e lançar algumas ideias. Não sei se alguma força política conseguirá galvanizar o interesse dos eleitores. Mas eleições seriam bem interessantes se pudessem afirmar teses como os fins não justificam os meios...
Publicado originalmente no Estadão, "Opinião", e no site oficial de Fernando Gabeira,www.gabeira.com.br, 27 de setembro de 2013

Quando Celso de Mello lia seu voto no Supremo Tribunal (STF), eu visitava a trabalho um presídio da Paraíba. Como em todos os outros que visitei no Brasil, havia superlotação e dezenas de pessoas presas por lentidão da Justiça ou falta de advogado. Diante dos meus olhos, é evidente que a Justiça tarda a prender os poderosos e a soltar os desprotegidos.

Os que poderiam ser soltos num mutirão de Justiça continuam por lá. E o pior é que o nó no sistema penitenciário não se desata libertando alguns, porque há mais de 300 mil mandados de prisão não cumpridos. É um problema que empurramos para as novas gerações.

O voto de Celso de Mello encerrou uma fase. A nova agenda do STF, embora trate de problemas importantes para os interessados (aposentadoria, ressarcimento de planos econômicos), tende a ser uma espécie de Boa Noite Cinderela para os espectadores. A cena política já é comandada pelas eleições. A maioria das pessoas ainda não seu deu conta e muitos não vão interessar-se por ela quando chegar ao seu apogeu. Mas os passos são cadenciados pela busca de votos.
O governo não esconde seu jogo. O programa Mais Médicos trouxe um enfrentamento que talvez retarde a presença real dos médicos. Mas dá votos. É melhor um médico estrangeiro do que nenhum médico? Essa é a pergunta que realmente toca quem vive no interior.

A espionagem dos EUA é outro assunto em que o marketing político entra em cena. O Brasil tinha mesmo de protestar, mas não basta. Era preciso um projeto real de defesa de dados, que não existe. A uma reunião internacional sobre o tema o Brasil mandou uma estagiária. A mensagem clara que leio nisso tudo é: enfrentar os EUA dá votos, em especial quando nos espionam. Não importam os dados que possam levar, o importante é a oportunidade de enfrentá-los.

Os escândalos sucedem-se. Explodem no Ministério do Trabalho e no da Previdência, no Palácio do Planalto, mas são o tipo de notícia que você julga já ter lido antes em algum lugar...

Na reeleição, o governante ocupa o centro da cena, praticamente como candidato único. Os outros só saem da semiobscuridade quando o processo já é oficial. Eleições são corrida de longo alcance. Largar com muitos corpos na frente, uma grande vantagem.

Ainda que não haja grandes fatos novos no período, 2014 vem carregado de promessas: eleições, Copa do Mundo, julgamento (ufa!) do mensalão. Um dos grandes problemas de um clima eleitoral comandado pelo marketing é a falta de debates reais sobre os caminhos do País.

Estamos vivendo em muitas dimensões diferentes e a política não consegue integrá-las. O leilão do campo de Libra é um excelente motivo para avaliar o modelo do pré-sal. As gigantes americanas não vieram porque talvez preferissem o antigo regime de concessão. Outras empresas, principalmente chinesas, indianas e europeias, concorrem. Os chineses têm recursos e disposição para explorar o pré-sal. Mas, por outro lado, são menos pressionados pelo Parlamento e pela opinião pública de seu país - e essa pressão é uma das garantias nos cuidados ambientais. De qualquer modo, o pré-sal também será tema de campanha. Dilma orientou seus ministros a celebrarem qualquer leilão com otimismo.

…" O marketing político arrasta tudo para respostas simples, em que escolhe estatisticamente o lado a adotar. Se alguém diz que a Petrobras foi mal administrada e viveu um péssimo período nas mãos de PT e PMDB, a reação é: "Você está querendo privatizar a Petrobras?" Se afirmamos que o programa Mais Médicos apenas atenua o problema da saúde, sobrecarregada por ineficácia, corrupção e aparelhamento político, vem a contestação: "Você prefere ver os pobres sem nenhum médico?"..."


Embora deputados e senadores se batam pelos recursos do petróleo, ainda falta um debate sobre o futuro do pré-sal. Será que é toda essa maravilha? Eike Batista tombou no caminho, segundo ele, iludido por inúmeros pareceres técnicos animadores, pelo entusiasmo dos especialistas. Às vezes o otimismo não se concentra só no petróleo a descobrir, mas no futuro econômico desse recurso não renovável. O impulso chinês na área da energia solar e a intensa exploração do xisto pelos norte-americanos nos indicam um cenário cambiante, embora seja difícil projetar o impacto desses esforços por novas fontes.

O marketing político arrasta tudo para respostas simples, em que escolhe estatisticamente o lado a adotar. Se alguém diz que a Petrobras foi mal administrada e viveu um péssimo período nas mãos de PT e PMDB, a reação é: "Você está querendo privatizar a Petrobras?" Se afirmamos que o programa Mais Médicos apenas atenua o problema da saúde, sobrecarregada por ineficácia, corrupção e aparelhamento político, vem a contestação: "Você prefere ver os pobres sem nenhum médico?".

É um duelo que se estende por toda a campanha, sobretudo na economia. Reduzir os gastos da máquina? E o desemprego, os serviços básicos?

Não é, porém, uma briga de gato e rato. É possível sobreviver a ela e lançar algumas ideias. Não sei se alguma força política conseguirá galvanizar o interesse dos eleitores. Mas eleições seriam bem interessantes se pudessem afirmar teses como os fins não justificam os meios, o estímulo ao consumo não é o único dínamo de uma economia que precisa de investimento e educação, o Congresso não pode viver de joelhos diante do Planalto, a transparência e o acesso aos documentos públicos serão ampliados, os impostos serão devolvidos com serviços públicos decentes, política externa nacional, e não partidária. Um projeto desse tipo só é possível a um governo democrático no sentido de que não vê a sociedade só como consumidora de serviços, mas como importante personagem na mudança.

Numa banca de jornal no Rio, examinava capas de revistas e ouvi uma senhora dizer a outra: "Mensalão? Nem quero saber mais dessa história". Ela estendia sua rejeição a todo o sistema político. E deve ficar algum tempo assim. Cedo ou tarde, talvez no ano que vem, terá de voltar ao tema. Ela e milhares de outras pessoas vão perguntar se vale a pena o processo eleitoral. Essa é uma das grandes perguntas que o sistema político terá para responder em 2014. Mais ainda agora que caiu a ilusão sobre homens e mulheres de capa preta, embargos de declaração, recursos infringentes e tudo o mais.

Foi um longo inverno. Ao menos na natureza, podemos contar com a primavera.

* * *Fernando Gabeira*- é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Atualmente na Globo News, onde produz semanalmente reportagens sobre temas especiais, por ele próprio filmadas (no ar aos domingos, 18h30). Foi candidato ao Governo do Rio de Janeiro nas últimas eleições. Articulista para, entre outros veículos, O Estado de S. Paulo. Seu blog é no www.gabeira.com.br

Banana Republic, por Caio Blinder

Eu sei que a parte fácil é disparar a artilharia contra os republicanos neste novo capítulo da novela fiscal americana. Que país é este? Recheado de Banana Republicans, como este senador Ted Cruz, uma espécie de Sarah Palin com diploma de Harvard, também conhecido como Ted Cruz de la Mancha, com sua campanha quixotesca para destruir o moinho do plano de saúde do governo Obama.
O senador ficou tagarelando por 21 horas e 19 minutos no plenário como parte de sua campanha contra o plano de saúde (e também presidencial), para exasperação até de colegas partidários, até de colegas do Tea Party. Como ganhar a parada se o Senado tem controle democrata e o presidente o poder de veto? Sim, o Obama que foi reeleito em novembro passado. A arrogância de Ted Cruz anda na companhia de sua maquinação para simplesmente minar a legitimidade institucional. Banana Republicans,  se vocês não gostam do plano de saúde, ganhem as eleições (Casa Branca e duas Casas do Congresso) e mudem as leis.
Esta é a parte fácil. Os republicanos vivem na sua bolha. A cada seis meses, as crianças briguentas do Tea Party humilham o establishment do partido e fazem o país refém de suas ranhetices. Aconteceu agora com a pressão de dezenas de deputados do Tea Party, que forçaram o presidente da Câmara, John Boehner, a bancar o vai-ou-racha.
Tudo é muito perigoso neste pedido de resgate: autorização para gastos do governo (impedindo que ele feche na semana que vem) e para elevação do teto da dívida mais para o final de outubro apenas se forem eliminados os fundos para o plano de saúde ou que ele seja adiado. Um plano, vamos deixar claro, aprovado pelo Congresso e chancelado pela Corte Suprema. Nada mais espúrio do que vinculá-lo a decisões sobre orçamento e dívida que afetam a economia mundial. São Banana Republicans e provincianos.
Obama assinando o Obamacare
A parte complicada é como se chegou a isto. O plano de saúde foi um erro estratégico do governo Obama. Sugou seu capital político depois do triunfo eleitoral em 2008 e de controle democrata das duas Casas do Congresso. Deu alento para a oposição e foi fundamental para a consolidação do Tea Party, a tropa de choque dos republicanos. Agora, os republicanos controlam a Câmara, depois da vitória em 2010, em parte movida pela decepção com o plano, o Obamacare.
O plano é convoluto, tem falhas técnicas, componentes essenciais submetidos a adiamentos e é mal vendido. Obama vive também na sua bolha, atordoado dentro dela. Esta aí a pesquisa New York Times/CBS News, mostrando sua queda significativa de aprovação, a mais baixa em dois anos (desaprovação de 49% e aprovação de 43%). Obama é um presidente desgastado em tudo: politica externa, economia, plano de saúde e na novela fiscal.
Tudo complicado. Este é um país enfezado com a classe política em geral. Desgosta de Obama e muito mais dos republicanos no Congresso. No entanto, Obama não pode ficar na sua bolha. Seu jogo é não ceder à chantagem vinculando o plano de saúde à saúde fiscal do país. O cálculo é que se a coisa degringolar, o país irá culpar muito mais os republicanos.
Na verdade, a situação da Casa Branca não é confortável. Todos vão entrar no ralo. Aliás, o povão merece também este destino. Afinal, ligou o botão do dane-se. Pesquisa Bloomberg mostra que para mais de seis em dez americanos o Congresso deve exigir corte de gastos antes de elevar o teto da dívida mesmo que haja risco de default. Outras pesquisas mostram a maioria da população avessa ao esquema de usar o plano de saúde  nas negociações de gastos e dívida. Por 59% a 19%, a pesquisa do canal financeiro CNBC mostra que existe aversão à ideia de forçar o default enterrando o Obamacare. Que confusão. País na bolha e abobalhado.
Obama está meio abobalhado nesta situação, como em tantas outras. Superestimou sua habilidade política e subestimou os obstáculos e a resistência republicana, que tem muito de visceral. Já Ted Cruz é um demagogo, um farsante. Diz escutar o povo, mas seu povo basicamente é o Tea Party. Por uma pesquisa divulgada na quinta-feira pelo Gallup, apenas 22% dos americanos apoiam o grupo, uma queda de 10 pontos em três anos. Ted Cruz não escuta os 59% que consideram um erro usar os cenários de fechar o governo e impedir a elevação do teto da dívida para detonar o Obamacare.
Melhor escutar os alertas do mundo econômico. Na reportagem do site PoliticoWall Street pergunta: Partido Republicano, você pirou? O jornal Financial Times publicou editorial esta semana advertindo para os americanos “não brincarem com sua sanidade fiscal”.  Na expressão do jornal, “o flerte com o fechamento do governo já basta como pantomina, mas brincar com o compromisso dos EUA com sua dívida soberana é pura leviandade”.
Não bastasse os Banana Republicans, o país corre o risco de ser rebaixado a uma Banana Republic.

Mr. M quer comitê gestor de atividades cibernéticas. É o truque em que nossas liberdades desaparecem!


Mr. M quer comitê gestor de atividades cibernéticas. É o truque em que nossas liberdades desaparecem!

O Mr. M já foi o grande responsável pela mágicaque criou milhões de brasileiros de “classe média”, ainda que com renda per capita abaixo de mil reais por mês e morando em favelas. Como prêmio pelo malabarismo, subiu na hierarquia política e chegou à presidência do Ipea, aquele órgão que perdeu totalmente a credibilidade após o petista Márcio Pochmann passar por lá.
Agora, Marcelo Neri tem uma nova ideia mirabolante: um comitê gestor de atividades cibernéticas. Vejam:
Dois dias depois do discurso da presidente Dilma Rousseff na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em que acusou os Estados Unidos, com seus programas de espionagem, de exercerem ação ilegal e antidemocrática, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), Marcelo Neri, defendeu a criação de um comitê gestor de atividades cibernéticas no Brasil.
Em coletiva nesta quinta-feira, o ministro falou sobre a proposta da SAE, lançada em 2010, para a criação de um comitê gestor de atividades cibernéticas no país. Ele ressaltou que a proposta ainda deve ser debatida com o governo, acadêmicos e a sociedade civil. De acordo com Neri, só quando a proposta for amplamente discutida é que ela poderá ser encaminhada para análise na Casa Civil.
— Um órgão desta natureza facilitaria a articulação política sobre um tema estratégico e proporcionaria um pensamento unificado de longo prazo para o país, além de contribuir para a melhor governança nacional no setor cibernético — disse o ministro, que também é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Não! Agradeço a enorme preocupação do ministro e economista, mas confesso ter calafrios só de ouvir falar em comitê gestor da internet. Isso tem forte cheiro de… censura, controle! A internet é um ambiente tão interessante justamente porque não conta com esse controle estatal minucioso. É um ambiente bastante livre, e por isso cresceu tanto, conquistou tanta gente, e desespera tanto governante autoritário.
Quanto menos o governo se meter com as “atividades cibernéticas”, melhor. Ele deve fazer cumprir as leis, combater pedofilia e coisas do tipo, mas não ter um comitê gestor que vai ditar em detalhes como devem funcionar tais atividades cibernéticas. Sem essa, Mr. M! Esse truque nós conhecemos: são nossas liberdades que desaparecem após a mágica. E ao contrário do que ocorre nos espetáculos dos mágicos, elas não voltam nesse caso.
RC

UNAMUNO: MENTIRA SE REPETE AD NAUSEAM , por Janer Cristaldo

UNAMUNO: MENTIRA SE
REPETE AD NAUSEAM
 


No século passado, os comunistas criaram mentiras que vararam o século todo e vieram desembocar neste. A mais berrante – e tão absurda quanto a ressurreição do Cristo – foi elaborada em torno da tela Guernica, de Picasso.

O malaguenho havia pintado uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura, intitulada La Muerte del Torero Joselito, plena de cores fúnebres, que iam do preto ao branco, em homenagem a um amigo seu, o toureiro Joselito, morto em uma lídia. O quadro ficara esquecido em algum canto de seu ateliê. Ao receber uma encomenda para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris de 1937, Picasso lembrou do quadro. Foi quando, para fortuna do malaguenho, em 26 de abril daquele ano, a cidade de Guernica foi bombardeada pela aviação alemã. Ali estava o título e a glória, urbi et orbi.

Uns retoques daqui e dali, e Picasso deu nova função ao quadro. No entanto, multidões hipnotizadas pela propaganda comunista, vêem em uma cena de arena, com cavalo, touro e picador, uma homenagem aos mortos de Guernica. De um só golpe de pincel, o vigarista malaguenho traiu a memória do amigo e mentiu para a História.

Hoje se conhece o embuste, embora as esquerdas continuem repetindo ad nauseam a versão mentirosa. Não passa mês sem que algum jornal atribua o quadro ao bombardeio da cidade basca. Outra mentira, também ad nauseam repetida, versa sobre o ocorrido na Universidade de Salamanca, no 12 de outubro de 1936, Día de la Raza.

No Estadão de ontem, Gilles Lapouge, o correspondente do jornal em Paris – que vive sempre em cima do muro, mas quando balança, balança para a esquerda – repete a farsa mil vezes repetida.

“Em 12 de outubro de 1935, uma cerimônia é realizada na Universidade de Salamanca por soldados fascistas. O general franquista Milan Astray, homem caolho, manco e perneta, pronuncia um discurso que termina com essa frase: "Viva a morte!". “O reitor da Universidade de Salamanca é o grande filósofo Miguel de Unamuno (O sentimento trágico da vida). É um homem de direita, mas não é fascista. Ele toma a palavra. "Acabo de ouvir um grito insano e desprovido de sentido, 'Viva la muerte'. É um grito bárbaro, repugnante." Na sala, desencadeia-se a desordem. O general fascista repete mecanicamente: "Viva a morte! Morte à inteligência!" 

“Os legionários fascistas marcham na direção do filósofo Unamuno. Este se retira dignamente em meio ao público vociferante. Morrerá alguns dias mais tarde, no último dia do ano de 1936. De tristeza”.

Lapouge começa errando a data. O episódio ocorreu em 36, três meses após a eclosão da guerra civil. Isso é o de menos, vamos que seja erro de digitação. O mais grave é o que o correspondente omite. Que Unamuno, naquele momento, era mais franquista que Astray, se é que podemos falar de franquismo já naqueles dias. Pois Unamuno, na cerimônia, representava nada menos que Francisco Franco. E se morreu de tristeza, não foi pela ofensiva de Franco.

Deste engodo, participou até mesmo o culto Fernando Henrique Cardoso, em 2005, em artigo para o Estadão, intitulado "Democracia e Terrorismo". Assim termina seu artigo:

"A Espanha heróica que, na pessoa de Miguel Unamuno, um de seus maiores pensadores, se indignou com os que proclamaram, durante a guerra civil, 'Viva a Morte! Abaixo a Inteligência!', haverá de inspirar-nos, una vez mais, para a reafirmação da esperança na paz, na democracia ou na vida".

Marxismo é como caxumba - costumo afirmar - ou dá na idade certa ou deixa seqüelas. FHC, pelo jeito, persistiu no obscurantismo além da idade normal do fenômeno. De seu artigo se depreende que um Unamuno republicano enfrentou, na Universidade de Salamanca, perversos militantes franquistas.

Vamos aos fatos. Como ocorreram, e não como a imprensa conta. Na verdade, o reitor foi salvo da ira de Astray e da vaia de muitos dos presentes por Doña Carmen Pollo, mulher de Franco, que o conduziu pelo braço até uma viatura do Quartel General. No entanto, ao referir-se ao episódio, não há redator que não se refira ao "intelectual anti-franquista Miguel de Unamuno".

Em História Ilustrada de la Guerra Civil, Ricardo de Cierva considera o episódio maltratado pela propaganda, silenciado pelos testemunhas autênticos e tergiversado por comentaristas empenhados em com ele demonstrar uma ou várias teses preconcebidas.

"Celebrava-se no Paraninfo da Universidade de Salamanca a Fiesta de la Raza. Assistia o ato a esposa do recém nomeado chefe de Estado, Dona Carmen Polo de Franco. Presidia a cerimônia o reitor da Universidade, don Miguel de Unamuno. Também estavam presentes, entre outras personalidades, José María Pemán e o general Millán Astray. Este último, em um breve discurso, intercalou um inciso inoportuno no qual confundiu regionalismo com separatismo. Invocou logo a Morte, noiva de sua Legião. Feito o silêncio, todos os olhares convergiram para don Miguel de Unamuno".

Millán Astray era um general de Infantaria, que havia participado das campanhas das Filipinas e Marrocos. Nesta última, perdera um olho e um braço. Julián Zugazagoitia o descreve como um "general recomposto com garfos, madeiras, cordas e vidros". Em sua alocução, falara dos dois cânceres que corroem a Espanha: País Basco e Catalunha. Unamuno, basco e iracundo, tomou a palavra.

- Calar, às vezes, significa mentir - disse o reitor com voz firme - porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Eu não poderia sobreviver a um divórcio entre minha consciência e minha palavra, que sempre formaram um excelente par. Serei breve. A verdade é mais verdade quando se manifesta desnuda, livre de adornos e palavrório. Gostaria de comentar o discurso - para chamá-lo de alguma forma - do general Millán Astray, que se encontra entre nós.

Segundo o relato de Luis Portillo, em Vida y martírio de don Miguel de Unamuno, o general tornou-se rígido.

- Deixemos de lado - continuou Unamuno - o insulto pessoal que supõe a repentina explosão de ofensas contra bascos e catalães. Eu nasci em Bilbao, em meio aos bombardeios da segunda guerra carlista. Mais adiante, me casei com esta cidade de Salamanca, tão querida, mas sem esquecer jamais minha cidade natal. O bispo, queira ou não, é catalão, nascido em Barcelona.

Após uma pausa em meio ao silêncio tenso, continuou:

- Acabo de ouvir o grito necrófilo e sem sentido de Viva a Morte! Isto me soa o mesmo que Morra a Vida! E eu, que passei toda minha vida criando paradoxos que provocaram o enfado dos que não os compreenderam, tenho de dizer-lhes, como autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Posto que foi proclamado em homenagem ao último orador, entendo que foi dirigida a ele, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele mesmo é o símbolo da morte. E outra coisa! O general Millán Astray é um inválido. Não é preciso dizê-lo em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Mas os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, há hoje em dia inválidos demais na Espanha e logo haverá mais, se Deus não nos ajuda. Um inválido que careça da grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem - não um super-homem - viril e completo apesar de suas mutilações, um inválido, como disse, que careça dessa superioridade do espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em torno a si. O general Millán Astray gostaria de criar uma Espanha nova - criação negativa, sem dúvida - segundo sua própria imagem. E por isso desejaria ver uma Espanha mutilada, como inconscientemente deu a entender.

Astray não consegue conter-se e grita:
- Morra a inteligência!
José María Pemán corrige:
- Não! Viva a inteligência! Morram os maus intelectuais!

Há um alvoroço no Paraninfo, professores togados cercam Unamuno, os camisas azuis se juntam em torno a Astray. Unamuno retoma a palavra:

- Este é o templo da inteligência. E eu sou seu sumo sacerdote. Vós estais profanando seu recinto sagrado. Eu sempre fui, diga o que diga o provérbio, um profeta em meu próprio país. Vencereis mas não convencereis. Vencereis porque tendes sobrada força bruta. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir, necessitais algo que vos falta: razão e direito de luta. Me parece inútil pedir-vos que penseis na Espanha. Tenho dito...

A esposa do general Franco, rodeada por sua escolta, toma Unamuno pelo braço e o conduz até a porta da Universidade, onde o esperava um carro do Quartel General. Mas a narração soa melhor aos ouvidos dos leitores - amestrados por um pensamento de esquerda - mostrando Astray como franquista, afinal era general. Unamuno - basco, filósofo e reitor de uma universidade - só poderia ser antifranquista. Para vender, os jornais transmitem ao leitor o que o leitor gosta de comprar. A mentira impressa passa então a fundamentar teses e tende a fixar-se como História. Mas os fatos são teimosos e, mais dia menos dia, mostram sua verdadeira face.

Há um sofisma safado na frase final de FHC. Ele mescla realidades completamente distintas. Ao falar "na Espanha heróica que, na pessoa de Miguel de Unamuno, se indignou...", está falando em verdade na Espanha do gerenalíssimo Franco Franco de Bahamonde - que salvou a Espanha e a Europa do totalitarismo soviético – representado naquela cerimonia por Unamuno. Mas FHC jamais admitiria tal fato. Seria renegar toda sua vida. Conclui então sua frase com outra completamente oposta: "...se indignou contra os que proclamaram, durante a guerra civil, 'Viva a Morte! Abaixo a Inteligência!".

A frase, proferida no ardor do debate, é de uma infelicidade extrema. Mas Millán Astray e José Maria Pemán, naquele momento, representavam o pensamento do mesmo Francisco Franco que Unamuno também representava. Ambas as partes defendiam o mesmo lado. O qüiproquó era outro: o confronto entre os nacionalismos do galego - como Franco - Millán Astray e do basco Miguel de Unamuno. 

Gilles Lapouge também age com má-fé. É difícil conceber como um jornalista francês, com acesso à farta bibliografia e à história do país vizinho, possa proferir tal bobagem. Oito décadas após a Guerra Civil Espanhola, ainda prevalece a mentira dos comunistas.

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