quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Uvas verdes

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Confira-se ao PT o desconto da surpresa. O partido, assim como todo o mundo político, ainda está aturdido com um movimento que estava fora do radar geral.

Natural, portanto, que as reações sejam desencontradas e em boa medida conflitantes entre si, quando não incongruentes. Enquanto rezavam no altar do governismo, Eduardo Campos e Marina Silva eram irrepreensíveis, mas no momento em que resolveram acumular forças para enfrentar o governo passaram a ser tidos como conservadores, incoerentes, retratos prontos e acabados do oportunismo eleitoral.

Uma lógica fundada no preceito do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

De uma hora para outra os petistas começaram mesmo a externar preocupação com o destino do PSDB, lamentando os prejuízos que a filiação de Marina ao PSB levará à candidatura de Aécio Neves. Como se os tucanos não fossem seus adversários tão tradicionais quanto preferenciais.

De um modo geral, as análises construídas no PT ainda sob o calor do fato novo enxergam riscos e problemas na aliança entre a ex-senadora e o governador de Pernambuco.

Os petistas reagem penalizados com a gama de obstáculos que veem no horizonte dessa aliança e avaliam que houve um ganho inequívoco para a campanha da presidente Dilma Rousseff. Nesta versão, a maior - senão a única - beneficiária da união de dois ex-aliados contra sua reeleição.

Ora, se as coisas são tão complicadas assim, se há mais dificuldades que facilidades à frente de Marina e Campos, por que se preocupa tanto o PT? Deveria festejar. Mas, ao que tudo indica, o sentimento real que transparece nessas reações é o receio do desconhecido.

Nesses anos de grande poderio os petistas se acostumaram com a simplificação da disputa com os tucanos, contra os quais têm roteiro pronto, repetido a cada eleição, e se desacostumaram com o enfrentamento. A regra agora mudou: foram desafiados por gente oriunda de seu campo que passa a formar um polo de oposição cujo maior trunfo é não se contrapor às qualidades, mas ter nascido e crescido em terreno semeado pelos defeitos do PT.

Nó a desatar. Uma questão se apresenta para as próximas pesquisas de opinião: o nome de Marina Silva continuará a ser incluído na lista dos candidatos à Presidência? Provavelmente sim, porque os institutos de pesquisas não estão submetidos às condicionantes dos partidos.

Nesta hipótese será difícil, para não dizer impossível, medir o efeito eleitoral da união da ex-senadora com o governador de Pernambuco, cujo nome consta no rol de opções apresentadas aos pesquisados e, assim, em tese um adversário e não um aliado de Marina.

De onde a decisão para a formação da chapa, se mantida a disposição dela de ocupar o lugar de vice, não poderá ter como parâmetro só a leitura numérica.

Calça curta. O senador Aécio Neves falava ao telefone em tom tranquilo, pesava e media palavras logo após a divulgação da aliança Campos-Marina que o alcançou em Nova York.

Até que não aguentou: "Eu chego aqui justamente no meio de um barulho desses!".

Além do limite. É uma armadilha da qual o poder público terá de encontrar um jeito de escapar: se a polícia reprime movimentos violentos, eles ganham adesão social e, em consequência, tornam-se mais ousados e violentos. Se não reprimem o vandalismo, os governos são omissos.

Talvez fosse o caso de figuras proeminentes do País e dos próprios manifestantes de causas legítimas levarem em conta uma evidência: o uso da força é prerrogativa do Estado e a observância da ordem um direito de todos.

UMA REDE ESQUIZOFRÊNICA , por Janer Cristaldo *

Ainda ontem, ouvi entrevista com um desses oólogos da USP, a propósito da fusão da tal de Rede com o PSB. O oólogo no caso era um sociólogo e dizia que incoerência não é incompatível com política. A tese não é nova. Em meus dias de UFSC – aquela universidade que concedeu um doutorado Honoris Causa a Fidel Ruz Castro – ouvi de um de seus professores: coerência é reacionário.

Com o desmoronamento do comunismo – escrevi há pouco - era preciso encontrar uma nova bandeira para enfrentar o Grande Satã, o capitalismo. A luta de classes, além de ser instrumento muito manjado, morrera com o muro de Berlim. Desde há muito se sabia que a nobre classe proletária – tão orgulhosa de si mesmo no início do século – não queria ser proletária. Havia um desejo profundo de capitalismo em todo o mundo socialista, e a queda do Muro foi a gota d’água que transbordou do copo dos utopistas: milhares de alemães da RDA fugindo alegremente do paraíso socialista para o inferno capitalista.

Mentira morta, mentira posta. A grande ameaça deixou de ser o capital. Passou a ser o aquecimento global. O que no fundo dava no mesmo. Era a sociedade capitalista, com seus índices de consumo, o fator maior de aquecimento. Em nome de Gaia, os neocomunistas passaram a atacar represas, agricultura extensiva, produção de carne, em suma, tudo aquilo que constitui motor de saúde do capitalismo. Ecologistas e comunistas, mesmo combate.

Neste sentido, nada mais coerente que Marina da Silva tenha apelado aos braços do PSB, para salvar sua candidatura do naufrágio. Ocorre que estamos no Brasil, onde catolicismo rima com comunismo e socialismo com capitalismo. O PSB, que se pretende socialista – e defende em sua carta a socialização dos meios de produção – já teve como candidato ao governo de São Paulo, em 2010, Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Os “sonháticos” fundadores da Rede – que não são candidatos à presidência de coisa alguma – se dizem constrangidos e desolados com adesão ao PSB. Morena Marina nem liga. Diz que jamais deixará de ser militante da Rede, mesmo que tenha aderido a outro partido. Temos agora a dupla militância. Em seu foro íntimo, Marina é Rede. Nos palanques, será PSB. De repente, temos uma rede esquizofrênica.

Vai ser interessante ver os revolucionários socialistas fazendo campanha com uma igrejeira que se manifesta contra as pesquisas com células-embrião, que não admite o homossexualismo nem o aborto. Melhor ainda ver Ronaldo Caiado, líder ruralista do DEM e aliado do PSB, ao lado da inimiga figadal do agronegócio. Caiado, pelo jeito, não vê problemas: “O momento é de equilíbrio. Temos de acabar com esse maniqueísmo. Não há motivos para queda de braço. Nós não vamos disputar com a Marina nem ela conosco”, disse Caiado recentemente. Agronegócio e ecologia, unidos em uma mesma missão.

Melhor ainda ver o que Marina dizia de seu novo aliado, Eduardo Campos, em entrevista ao Estado de São Paulo, em março passado.

"Antecipação da eleição leva para uma agenda do imediatismo que não nos dá o tempo para colocar termos de referência claros. Qual a diferença se for Aécio Neves, Eduardo Campos ou a Dilma? Tem diferença em relação ao modelo de desenvolvimento? Me parece que até agora todos estão no mesmo diapasão."

Seis meses depois, Eduardo Campos é o parceiro ideal para disputar a Presidência da República. Pelo que disse, poderia aliar-se a Aécio ou Dilma. Mas estes são candidatos fortes nas próximas eleições e não dariam chances à acreana. Quanto a Campos, muita água ainda vai rolar sob a ponte. Quem sabe ele não se contenta com uma vice?

Coordenadores chegaram a chamar a migração de "volta à velha política" – lemos hoje no UOL - e disseram que o fato de terem começado uma discussão sobre um futuro sem a Rede era por si só uma situação "vexatória". Outros defenderam uma "purificação" da sigla. Temos cisma à vista. A Rede, que não se pretendia partido, é hoje um partido partido ao meio. Fala-se em racha da Rede. Em verdade, é racha de um racha muito anterior. PV, PSOL e PSTU são rachas do PT e a Rede é racha do PSOL. As esquerdas só são unidas na cadeia – dizia-se nos anos 60. De lá para cá, nada mudou no meigo coração de pomba mansa dos militantes.

Contradizer-se em alianças faz parte do DNA de líderes desbocados. Alguém ainda lembra da defesa de Orestes Quércia, feita por Lula em 2002? O PT, que denunciava as falcatruas do ex-governador paulista, de repente por ele tomou-se de amores. "Acho que todas as denúncias, contra qualquer pessoa, têm que ser apuradas. Ou a pessoa ganha uma condenação ou um atestado de idoneidade. Sempre parto do pressuposto de que todas as pessoas são inocentes até que se prove o contrário", disse Lula em São Carlos.

Quércia foi denunciado por envolvimento nos escândalos do Banespa (desvio de U$ 55 milhões), na compra sem licitação de equipamentos israelenses (U$ 310 milhões) e outras irregularidades como a venda da Vasp, a construção do Memorial da América Latina e superfaturamento em obras do governo. Partindo do pressuposto aventado por Lula, até mesmo alianças com Collor, Maluf, ACM, Jader Barbalho ou Celso Pitta seriam bem-vindas, pois nenhum destes senhores até agora ganhou uma condenação. Como foi bem-vindo Paulo Maluf, que Lula abraçou nas vésperas das últimas eleições.

"Lula nunca dirigiu um carrinho de pipocas", costumava dizer Quércia. "Mas eu também nunca roubei pipoca", respondia Lula. Para Lula, Quércia passou a ser um "homem de bem". Se antes defendia ditaduras, o PT passou a defender aqueles que denunciou como corruptos. 

Da mesma forma, Marina alia-se a defensores de causas que sempre condenou. De fato, como dizia o oólogo uspiano, coerência hoje é irrelevante na disputa pelo osso do poder. 

Triste constatar que milhões de panacas votaram, votam e continuarão votando nesta canalha.  +

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