domingo, 20 de outubro de 2013

Financiamento público de campanha não é solução,por Rodrigo Constantino

O diretor de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, Oslain Santana, terceiro na hierarquia da instituição e tradicionalmente avesso a declarações públicas, afirma em entrevista ao GLOBOque pelo menos metade dos casos de corrupção tem relação com financiamento de campanhas eleitorais. Ele coordenou todas as grandes operações de combate contra fraudes em licitações, superfaturamento de contratos e contratação de ONGs de fachada desde 2011.
Cinquenta por cento das operações da Polícia Federal contra corrupção têm como pano de fundo financiamento de campanha. Quando você investiga um caso de corrupção, desvio de dinheiro público, vai ver lá na frente que tinha um viés para financiar campanha política. Então, se resolvessem fazer uma reforma política, diminuiria muito o crime de corrupção. Isso é fato.
[...]
Isso é opinião pessoal nossa como técnico. Tem que ter uma reforma política. O modelo atual de financiamento de campanha, se você não mudar, vai acontecendo esse tipo de crime: vão continuar desviando dinheiro público para esse financiamento. Qual é o melhor modelo? Não sei. Financiamento totalmente público ou financiamento privado só de pessoa física, com determinado limite, e colocando limites de quanto cada candidato pode gastar? Se for se candidatar a presidente pode gastar x, se for a governador em estado com PIB x pode gastar y. Não sou filiado a partido político, não trabalho na Justiça Eleitoral, mas o sistema atual não está funcionando. Só incentiva mais a corrupção. Vamos continuar enxugando gelo.
[...]
Também, no campo legislativo, está sendo discutida no Congresso a proposta da reforma eleitoral tocante ao financiamento. Uma proposta que achei bastante coerente foi colocar um limite para doação só de pessoa física e parte do financiamento por recursos públicos. Seria muito mais barato para a União o gasto com financiamento, que com o desvio de recursos públicos nas fraudes em contratos da administração pública nas três esferas para financiamento de campanha. O prejuízo é muito maior. Garanto: se for gastar R$ 1 bilhão para financiamento com recursos públicos, os recursos desviados hoje são bem maiores do que esse R$ 1 bilhão.
A ideia de financiamento apenas de pessoa física até me agrada, mas o financiamento público de campanha não resolve absolutamente nada. Pelo contrário: vai apenas aumentar a corrupção. Aproveitando o exemplo dado por ele, se o governo gastar R$ 1 bilhão em financiamento público, isso será apenas mais um bilhão de gasto, pois o restante continuará sendo desviado. Até porque hoje já temos financiamento público, via “propaganda eleitoral gratuita”, e não serve para nada.
Qual a solução? Em minha opinião, dois pilares são fundamentais nesse debate, pois sem eles estaremos apenas enxugando gelo mesmo: 1) a impunidade para quem for pego desviando recursos tem que acabar; 2) o prêmio para quem chega ao poder tem que ser menor. Ou seja, é preciso combater a impunidade e reduzir o tamanho do estado.
Quem chega ao poder hoje controla 40% do PIB, sabendo que os desvios ou “malfeitos” não serão punidos de verdade. Essa combinação é explosiva, o maior convite ao crime que existe. O grupo terá acesso a gastos bilionários, e sabe de antemão que não corre sérios riscos de acabar na prisão com seus infindáveis esquemas. Sem atacar essas causas do problema, ele jamais irá diminuir muito (desaparecer é impossível).
É esse prêmio de meter a mão em um estado inchado, obeso, gastador, centralizador, que deve mudar. O escopo do estado deve ser bem menor, ele não deve ser empresário, não deve ter estatais à sua disposição, não deve ter tantos programas sociais e cuidar de tantas obras. Deve ser enxuto, voltado para poucas áreas básicas, sob maior fiscalização. E com severa punição para quem, ainda assim, aproveitar a deixa para desvio de recursos.
Estado menor e punição maior: eis o caminho para combater a corrupção. Financiamento público de campanha é besteira, é aumentar ainda mais os gastos públicos, sempre convidativos para desvios ilegais.

São Paulo chama, por Janer Cristaldo

Ainda há pouco, um leitor queria saber por que não fiquei vivendo na Europa. Expus minhas razões. Um outro leitor quer saber porque escolhi para viver a caótica São Paulo. Pela mesma razão que traz tanta gente aqui: trabalho. 

Em Porto Alegre, a empresa em que trabalhava, a Caldas Júnior, fora à falência enquanto eu estudava e cronicava de Paris. Fui trabalhar na universidade, em Florianópolis. Ejetado após quatro anos de magistério – e felizmente ejetado, pois a ilha é um breve contra a cultura – fui para Curitiba. Nada encontrando em Curitiba, fiz concurso para redator de Internacional na Folha de São Paulo. Trabalhei depois noEstadão e acabei voltando à Folha. De capital em capital em capital, fui subindo, sempre rumo ao trabalho, sempre rumo ao norte. E cá estou, 23 anos depois.

São Paulo chama. Cá está o maior número de empregos do país, os melhores salários. É a cidade que tem o maior número de editoras, de livrarias e de salas de cinema. A redação de qualquer jornal é uma mostragem do país todo. Se você mora em bairro bom e não longe do trabalho, a cidade pode ser aprazível. Com a Vejadesta semana, veio junto um suplemento com os melhores – e apenas os melhores – bares e restaurantes da cidade. São cerca de 400 páginas. De tédio não se morre.

Minha primeira imagem à Paulicéia foi em 61, quando eu vinha para um congresso estudantil em Campinas. Eu passava de ônibus pela marginal do Tietê. Não adiantava fechar a janela, o mau cheiro atravessava o vidro. Olhei para o rio. Dois atletas faziam regata tranqüilamente em meio às águas podres. Pensei com meus botões: esta gente se acostuma a tudo, até mesmo ao fedor de um rio poluído. Jamais me acostumarei a isto. Jamais viverei em São Paulo. Santa ingenuidade, que relego ao rol de bobagens que um jovem costuma dizer.

O Brasil não tem respeito algum por suas águas. Enquanto na Europa os rios são componentes do lazer urbano, para nós constituem depósitos de lixo. Em Paris, o Sena faz a alegria da cidade. Em Londres, este papel é desempenhado pelo Tamisa. Já foram rios poluídos, mas tanto britânicos como franceses tiveram o bom senso de recuperá-los. Em 2000, passei um sábado delicioso às margens do Limmat, em Zurique. O bar se chamava Panta Rei, o que me evocou Heráclito. Me lembrei muito de São Paulo naquele sábado.

O rio, que atravessava a cidade, era cristalino, podia-se ver uma moedinha jogada em seu leito. Lá pelas tantas, alguém desceu a rampa e passou uma boa hora nadando. Nadar em um rio que atravessa o centro de uma cidade, para mim, egresso de Porto Alegre e São Paulo, pareceu-me utopia. Não era.

Estou aqui há mais de duas décadas. Daqui não sairei nem de pés juntos, já determinei que meus restos serão cremados no cemitério da Vila Alpina. É a cidade onde vivi mais tempo em minha vida. Abstraí o Tietê. Só o vejo quando vou ou volto de viagem. Durante muitos anos, assim assinei minha coluna: Janer é jornalista e sofre São Paulo. Foi quando um leitor chamou-me a atenção. “Escuta, pelo que conheço de teu perfil, São Paulo é a cidade que melhor se adapta a ti no Brasil”. O leitor tinha razão. Eliminei o bordão de minhas colunas.

É que eu via São Paulo como um todo. Em sua totalidade, a cidade é monstruosa, um emaranhado de favelas e bairros pobres, com algumas ilhas viáveis. Tomei então uma decisão intelectual: eu não vivo em São Paulo. Eu vivo em Higienópolis. Aí minha vida se tornou mais amena. O bairro não é nenhum Saint-Germain-de-Prés, mais on peut survivre, como me dizia um amigo francês. 

Meus dias, eu os vivo nesta pequena geografia, muito menor que a geografia de Dom Pedrito. Não gosto de cidades verticais. Mas, enfim, tudo bem. É aqui onde está a maior parte de meus amigos e isto vale muito. Quando sinto necessidade de cafés mais sofisticados, comida diferente, outras arquiteturas, tiro o pó do passaporte e parto.

O espaço que utilizo nesta megalópole é bastante curto, não passa de uns seis quilômetros. É a distância que me separa de Vila Madalena, onde às vezes vou almoçar. No meio do caminho estão Pinheiros e Jardins, que também visito, impelido pelo desejo de bons vinhos e boa comida. Acho que só uma vez em meus dias de Paulicéia fui mais longe. Foi quando fui ao Itaim Bibi em busca de um smörgåsbord em um restaurante escandinavo. Fora isto, nada mais conheço de São Paulo. Conheço melhor Paris e Madri, onde vivi muito menos tempo. Há outros bairros interessantes. Mas ficam muito longe de meu chão. Se é para ir longe, prefiro começar por Cumbica. 

São Paulo tem suas vantagens. A melhor delas: estando aqui, você não precisa fazer escala para ir a Paris. Como disse alguém, fica pertinho do Brasil, não é preciso visto de entrada e todo mundo fala português. Voltando às regatas: hoje ainda, às vezes se vê paulistanos remando em meio ao pútrido. Eu, como não remo, não tenho maiores dificuldades em assumir a cidade.


JABUTIS CORRENDO SOBRE COLA DE SAPATEIRO- Obras não andam e promessas de Dilma em energia ficam distantes

No dia 23 de janeiro, quando apareceu na TV para bancar que a tarifa de energia elétrica seria reduzida, Dilma Rousseff asseverou: “Com a entrada em operação de novas usinas e linhas de transmissão, vamos aumentar em mais de 7% nossa produção de energia; elas vão nos permitir dobrar, em quinze anos, nossa capacidade instalada de energia elétrica”.E finalizou retumbante: “Este ano vamos colocar em funcionamento mais 8 500 megawatts de energia.”.
Bem, de acordo com dados do próprio governo, até agora foram agregados à geração 50 % do prometido. Na geração e transmissão de energia, apenas 29% e 31% das obras estão no prazo. Nas linhas de transmissão, o atraso médio é de um ano. Nem em sonho há chance de concretizar a promessa.
Por Lauro Jardim

COM DIFICULDADES INTERNAS, VENEZUELA BUSCA ENCRENCAS EXTERNAS

Pedro Luiz Rodrigues


Em artigo neste espaço, há duas semanas, adverti para o risco de o governo da Venezuela buscar novos bodes expiatórios externos para desviar a atenção da opinião pública local dos desarranjos econômicos e políticos internos.

Além da cultivada birra com os Estados Unidos, lembrei do relacionamento frequentemente conflituoso da Venezuela com Colômbia, este felizmente mantido em boa maré desde que em Bogotá assumiu o Presidente Juan Manuel Santos.

Em 2010, contudo, parecia que os dois países estavam prestes a se estapear. Em julho daquele ano, em razão de acusações do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, em final de mandato, de que os guerrilheiros da FARC receberiam guarida da Venezuela, o então presidente Hugo Chávez chegou a anunciar o rompimento das relações diplomáticas com o vizinho. Mas dias depois, já com Santos empossado, veio o reatamento, abraços e juras de amor perpétuo.

Assinalei, no artigo a que me referi, que “a Venezuela bem que pode voltar suas atenções para a Guiana, onde uma antiga disputa territorial (região do Essequibo, de cerca de 160 mil quilômetros quadrados) permanece adormecida, nunca resolvida”.

Dito e feito. Na quinta-feira passada, a marinha venezuelana interceptou uma embarcação de bandeira panamenha, arrendada pela a empresa norte-americana Anadarko Petroleum, concessionária de um bloco de exploração petrolífera licitado pelo Governo da Guiana.

Segundo o relato que nos proporciona o jornal madrilenho El País, os tripulantes foram obrigados a navegar até a ilha de Margarita, onde passaram o fim-de-semana detidos. O Ministério Público Venezuelano indiciou o comandante do navio, o ucraniano Igor Bekirov, por ter ingressado sem autorização em zona marítima venezuelana. Na segunda-feira liberou a todos.

Como era de se supor, a Venezuela exigiu um esclarecimento do governo da Guiana, mas este considera que a embarcação esteve sempre em suas águas territoriais. Para não deixar a afronta sem reparo, a presidência guianense emitiu uma nota oficial, qualificando a intervenção da marinha venezuelana “uma grave ameaça à paz na sub-região”.

Para Caracas, como observa a mesma fonte, o incidente seria consequência de avanços a Guiana para ampliar seus interesses no Caribe oriental.

Em setembro de 2011, o governo guianense solicitou à Comissão de Limites de Plataforma Continental da ONU, a extensão de seus limites de 200 para 300 milhas náuticas. O governo venezuelano reclamou e a questão foi levada à Comunidade do Caribe (Caricom), que se reuniu para avaliar a situação. Deram ganho de causa à Guiana, considerando que uma decisão arbitral de 1899 havia definido claramente quais os limites de cada um dois países.

A Venezuela obviamente não gostou, e prefere se ater ao acordo de Genebra de 1966, que reconhece o litígio e propõe uma solução prática para a controvérsia entre os dois países.

Felizmente, há ainda espaço para que o bom senso prevaleça. Os chaceleres Elías Jaua, da Venezuela, e Carolyn Rodrigues-Birkett, da Guiana, decidiram encontrar-se hoje em Trinidad e Tobago, para tentar equacionar definitivamente o problema.

A MAIS CONFORTÁVEL ENTRE AS CORRUPÇÕES , por Janer Cristaldo



Você já ouviu falar em corrupção universitária, estas duas palavras juntas? Se ouviu, provavelmente é porque leu este blog. Ponha as duas palavras entre aspas no Google. Verá que inexistem na grande imprensa.

A mais confortável corrupção hoje – costumo afirmar – é a corrupção universitária. Muito mais ampla e mais permanente que a corrupção no Congresso. Os coitadinhos dos deputados e senadores são denunciados por levar mulheres, amantes e prostitutas para uma ou duas semaninhas no Exterior. Bolsista do CNPq ou Capes fica quatro ou cinco anos nas mais prestigiosas capitais do Ocidente. Se voltar de mãos vazias, tudo bem. Se você tem vocação para a corrupção, deixe de lado a política. Os jornalistas caem em cima. Universidade é muito melhor. Jornalista algum denuncia a universidade.

Ainda há pouco eu falava do artigo publicado na Science Magazine, no qual o americano John Bohannon mostra o que aconteceu quando ele enviou para 304 revistas científicas um artigo sem pé nem cabeça: 157 delas aceitaram.

O trabalho de Bohannon, assinado por um fictício autor de nome estapafúrdio - Ocorrafoo Cobange -, versava sobre uma molécula que, extraída de um líquen (simbiose de alga e um fungo como o cogumelo), teria o superpoder de combater o câncer. Não bastasse o autor ser inexistente, sua universidade também está para ser encontrada no mundo real: o Wassee Institute of Medicine, sediado em Asmara, é produto da imaginação de Bohannon.

- De um início modesto e idealista uma década atrás, revistas científicas de acesso aberto se expandiram a uma indústria global, movida por taxas para publicação em vez de inscrições tradicionais - afirma Bohannon.

Escreve um amigo universitário: “É isto aí mesmo. Boa parte dos periódicos internacionais, em especial a Elsevier cobram e CARO para ter um artigo publicado. Cito dois periódicos: Computers & Education e Computers in Human Behavior. Em ambas, o custo é de US$ 1.800. Já avisei para meus alunos economizarem pois quando tivermos o valor, vamos submeter para lá. Detalhe: A primeira tem uma característica interessante: os artigos aceitos tem revisões bibliográficas bastante extensas e amplas, só que na hora de o cidadão mostrar o que fez, as vezes é um estudo maravilhoso sobre a importância do uso do PowerPoint em sala de aula”.

No fundo, é a universidade que impele professores sem produção científica objetiva a publicar artigos para aumentar o currículo. A “produção” do professor é medida pelo número de citações nessas revistas. Conversando com acadêmicos, eu falava de um outro truque, artigos assinados por dois ou três professores, o que duplica e mesmo triplica as produções de todos. Santa ingenuidade a minha. Um amigo da UFSC me conta que a pressão por “papers” é cada vez maior e há artigos assinados por onze ou doze “cientistas”.

No Estadão de hoje, Fernando Reinach traduz artigo da Nature, no qual são denunciadas outras práticas da universidade brasileira. Reproduzo a tradução:

“Com profissionalização da ciência foram criados mecanismos para acompanhar o progresso de cientistas do grupo "ainda não descobri nada". A solução foi a publicação e avaliação de resultados parciais, os trabalhos científicos. Neles os cientistas descrevem os progressos que obtêm ao longo da vida. É uma forma de prestar contas do trabalho em andamento. No século XIX a obra de uma vida consistia em um punhado de livros. Hoje um jovem que ainda não descobriu nada relevante possui em seu currículo dezenas de trabalhos científicos, cada um descrevendo uma micro-descoberta”.

Como o estudo maravilhoso sobre a importância do uso do Power Point em sala de aula – acrescentaria eu.

“A avaliação é feita de maneira quantitativa, com base no número de citações. Se um trabalho é citado na bibliografia de muitos trabalhos de outros cientistas, ele é considerado bom. Se o trabalho é pouco citado, ele é pior. Com base na quantidade de trabalhos publicados e as citações recebidas, é calculado um índice da qualidade do cientista (você pode verificar o índice dos seus conhecidos no Google Scholar), utilizado para decidir quem merece financiamento, quem deve ser contratado ou promovido. Esse critério numérico provoca distorções como o fracionamento de cada pequena descoberta em um número maior de trabalhos”.

“Esse mecanismo criou um incentivo para os editores tentarem aumentar o fator de impacto de suas revistas. Foi com esse propósito que os editores de quatro revistas científicas médicas brasileiras formaram sua pequena quadrilha. Os editores da Revista da Associação Médica Brasileira, da Clinics, do Jornal Brasileiro de Pneumologia e da Acta Ortopédica Brasileira, todos ligados aos melhores hospitais e universidades brasileiras, tiveram uma ideia. Cada uma das quatro revistas publicaria uma série de artigos nos quais seriam citados um grande número de artigos publicados nas outras três revistas. Os artigos foram encomendados e publicados.

“Os editores imaginaram que, com o aumento de citações recebidas pelas revistas, o índice de impacto seria aumentado no sistema de classificação da Thomson Reuters, que apura e publica o índice de impacto de todas as revistas científicas. Ao cruzarem os dados, os computadores da Thomson Reuters descobriram a anomalia e desmascararam a artimanha do grupo. Um dos editores confessou a trapaça”.

Isto é ilegal? Não é. Mas é trapaça. É a corrupção perfeitamente legal, área na qual a universidade brasileira excele. Outra é a endogamia universitária. Vá de novo ao Google, ponha entre aspas as duas palavrinhas. Só encontrará a expressão nos jornais da Espanha ou Portugal. No Brasil, só em blogs.

No entanto, é a corrupção que mais grassa na universidade nossa. Professores casam com professoras e geram professorinhos. Em uma banca de concurso, um jurado jamais reprovará o filho de um colega. Pois depois vem o rebote. Mais dia menos dia o professor que reprovou quer fazer turismo universitário em Paris ou Londres. E verá o quanto dói uma saudade. Assim, entende-se que tais denúncias só surjam no Exterior. Acadêmico nenhum vai denunciar as falcatruas das quais se beneficia.

Não tenha dúvidas: a mais confortável corrupção é a universitária.

Botaram alguma coisa na água? Por Marli Gonçalves



Bom dia, Cinderelas! Após muito pensar, livre pensar, como diria nosso Millor, chego a uma conclusão um pouco devastadora, mas perfeita para entender como é que se pode explicar tantas coisas tão fora da ordem, ou nervosas, ou calmas demais onde não deviam estar. Ou, ainda, esse climão geral de desentendimentos, de Fla x Flu; a apatia diante de desmandos. Gente que a gente jamais pensaria anda dizendo coisas que nem nos nossos piores pesadelos imaginaríamos. E gente que a gente achava o Ó, ao contrário, aparece dando aula de bom senso. Quem devia ser contra anda a favor, e vice-versa.

Não tem tantas teorias conspiratórias rodando nas redes sociais? Pois acabo de lançar mais uma.Vocês ainda duvidam que botaram alguma coisa na água? Ou que algum movimento estelar sideral aliado à passagem dos cometas com o aquecimento global e desmatamento da Amazônia tenha transbordado algum pote de uma nova drogueta, vinda lá do céu? Ou - também pode ser, hein! - o efeito estufa causando alguma ebulição do centro da Terra fazendo borbulhas, que emergem como pororocas? Depois, não esqueça, devemos buscar explicações mais detalhadas a esse respeito.

Mas agora, antes, temos de chegar juntos a esta mesma conclusão, até para tomarmos providências possíveis para curar tanta insanidade: botaram ou está caindo alguma coisa na água. Aí ela se espalha,pelos chuveiros e torneiras, inclusive quando a gente toma banho e parece que atinge bastante a cabeça. Nossa presidente, inclusive. Outro dia, de maluca, andou juntando crianças e cachorros num discurso lamentável, já nos anais para estudos psicológicos. Não foi a primeira vez que ela conseguiu ser ininteligível.

Vocês, por favor, não pensem que estou me excluindo. Não! Estou é prestando ainda mais atenção às minhas próprias reações, me colocando como cobaia antes que algum maluco resolva catar bichinhos, cachorros, gatos, ratos e trancafiá-los (seria tão bom se as pesquisas pudessem avançar com a utilização única e exclusiva de baratas! Garanto que nenhum ativista iria libertá-las).

Ando atônita. Tenho vivido dias que, sinceramente, se pudesse ficar enroscadinha na minha caminha, resguardada, não sairia dali por nada. Primeiro para descansar um pouco que ando precisando; mas também porque meu precioso sono tem sido abalado, e não é só pelos descalabros da casa noturna do lado de casa sobre a qual ninguém toma providências. Tem uma tensão no ar, que sei que os sensíveis estão também captando. Chego a pensar, e vocês vão rir, que, se não é a água pode ser, então, a internet, insidiosa, infiltrando-se, literalmente pelos fios, ou por Wi-Fi.

Levem em conta essa opção também. Tudo pode ser culpa da internet.Trabalho com comunicação, o que me faz percorrer o dia todo lendo esses meandros cibernéticos a cada dia mais sofisticados. Não aguento mais ver pratos de comida desinteressantes. Não aguento mais ver gente se vangloriando em viagens e que dão a impressão que só viajaram para poder...fotografar pros outros! Não aguento mais frases feitas e ver gente acreditando em saci-pererê, indiozinhos sendo enterrados vivos e outras patacoadas que bastava um pouco de lógica para ver que são bobagens, simplesmente bobagens. Outro dia vi uma jornalista defender durante horas - e junto a gente séria,que coragem! - que o 11 de setembro, na verdade, verdadeira, não foi obra do Al-Qaeda, não. Poupem-me de dizer quem ela acha que aprontou aquilo que, também, segundo sua tese, não foi bem assim - inclusive os aviões que atravessaram o prédio...Dá vontade de xingar. Torra qualquer paciência.

Por essas e outras, para poder - olha só - perdoar, cheguei à conclusão que é a mais democrática.

É a água, sim, senhor. Botaram alguma coisa. Ou caiu alguma coisa nela

São Paulo, apavorada, 2013



Marli Gonçalves é jornalista - Será que na água com gás essa droga persiste? Será que tomar banho de banheira ajuda? O que será que será?

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