terça-feira, 29 de outubro de 2013

‘Afronta ao Estado’, editorial do Estadão

Publicado no Estadão desta terça-feira

Os golpes desferidos pelos “black blocs” contra um coronel da Polícia Militar, na noite da última sexta-feira (26/10) em São Paulo, atingiram não apenas a pessoa do oficial, mas o próprio Estado. É este que, ante a hesitação de seus agentes, está à mercê desses criminosos fascistoides, que estão cada vez mais à vontade para cometer seus crimes e atentar contra a ordem.



O coronel Reynaldo Simões Rossi foi espancado por cerca de dez mascarados, durante protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) no Parque Dom Pedro II, centro da capital. Chefe do Comando de Policiamento da Área Metropolitana, Rossi foi cercado pelos baderneiros no momento em que parte dos manifestantes começava a depredar um terminal de ônibus, seguindo o roteiro de vandalismo já bastante conhecido na cidade.

Após levar socos e pontapés até ser derrubado, Rossi tentou se levantar, mas então foi atingido na cabeça por uma placa de ferro. Roubaram-lhe a arma e um rádio. Com as duas escápulas fraturadas e ferimentos nas pernas, no abdome e na cabeça, o coronel foi socorrido por um policial à paisana. Ao ser levado para o hospital, Rossi ainda teve tempo de pedir a seus comandados que não exagerassem na reação: “Segura a tropa, não deixa a tropa perder a cabeça”.

Foi um apelo de alguém consciente de que o monopólio da força legítima, que está nas mãos do Estado, não pode ser usado sem limites. Mesmo em meio a uma situação de clara covardia desses criminosos que estão todos os dias a aterrorizar a cidade, é preciso agir dentro da lei. Mas é preciso agir, sob pena de cristalizar uma imagem de impotência, que só encoraja mais violência.

Os ataques contra policiais cometidos por esses bandidos infiltrados em manifestações têm sido sistemáticos. Segundo o coronel Rossi, nada menos que 70 PMs já foram feridos durante protestos neste ano.

O caso mais dramático até agora havia sido o do PM Wanderlei Paulo Vignoli, que quase foi linchado ao tentar impedir que um manifestante pichasse a parede do Tribunal de Justiça, na Praça da Sé, durante um dos protestos de junho. Ouviu gritos de “lincha, mata”. Ele só escapou porque apontou a arma para os agressores, mas a imagem desse policial acuado e de rosto ensanguentado mostrou que a violência de alguns manifestantes extrapolava o mero vandalismo. O espancamento do coronel Rossi só reafirmou a índole criminosa dessa militância mascarada, para a qual a violência é um fim em si mesma.

Os manifestantes que permitem a infiltração desses vândalos em seus protestos e que não os repudiam são cúmplices de seus atos. Em nota, o MPL condenou a agressão a Rossi, mas praticamente a justificou, ao citar abusos cometidos por policiais contra manifestantes em outras ocasiões.

O vale-tudo ficou ainda mais claro quando o MPL aplaudiu a destruição causada no terminal de ônibus do Parque Dom Pedro II – foram depredados dez ônibus e várias catracas, além de orelhões e caixas eletrônicos. “Entramos no maior terminal de ônibus da América Latina para realizar na prática a tarifa zero”, orgulhou-se o MPL. “A revolta que destruiu as catracas nessa sexta-feira foi acesa pela violência cotidiana do transporte coletivo. E continuaremos lutando pela destruição de todas as catracas.”

Essas palavras mostram que o movimento deixou de ser pacífico, como pretendia no início das manifestações. A ameaça de violência é agora clara e permanente. O desafio a tudo o que se interpõe no caminho dos vândalos – sejam catracas, sejam policiais – denuncia o falso caráter moderado dos líderes desse movimento.

Os cidadãos de bem, aqueles que confiam no Estado e em suas instituições, estão a exigir que os responsáveis pela manutenção da ordem pública não mais se intimidem ante um punhado de delinquentes travestidos de “ativistas”. E aqueles que saem às ruas para exercer seu legítimo direito de protestar devem imediata e indubitavelmente se dissociar dos criminosos, sob o risco de com eles se confundirem. Como disse o coronel ferido, “o silêncio dos bons é muito pior do que o ruído dos maus”.

NÃO COMPRE CDS NEM LIVROS DO “PROCURE SABER”, MOVIMENTO FASCISTA CONTRA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, por Jorge Oliveira

Rio – Algumas celebridades brasileiras seriam mais lembradas na vida ou na morte se permanecessem trabalhando em silêncio. Pelé como jogador e Roberto Carlos como cantor, por exemplo. Já se disse que Pelé é um alienado, que tem medo de entrar em bola dividida. Nunca se manifestou em defesa dos excluídos ou contra os militares que torturaram e mataram no Brasil durante vinte anos. Quando abriu a boca para falar sobre política, saiu-se com essa pérola: “O povo brasileiro não sabe votar”. A bola da vez agora é o Roberto Carlos com a sua insanidade de tentar a todo custo proibir biografias não autorizadas, uma agressão à liberdade de expressão.

É o Toc que virou obsessão.

Na entrevista que deu ao Fantástico, o cantor revela a sua confusão mental. Parece que até agora não entendeu bem a campanha que patrocina para impedir que escritores escrevam sobre a vida dele sem antes consultá-lo, como se a sua história ainda lhe pertencesse. O movimento que começou no Rio pelas mãos de Paula Lavigne, que tem no currículo o casamento com Caetano Veloso, foi rotulado de “Procure Saber” e, surpreendentemente, já recebeu adesões também de Chico Buarque, de Djavan e Gilberto Gil celebridades até então conhecidas pela defesa da liberdade de expressão e de pensamento, vítimas da censura responsável pela dilapidação da cultura brasileira.

Muitas dessas celebridades já foram ao Congresso Nacional pressionar parlamentares para não derrubar os artigos 20 e 21 do Código Civil que determinam a autorização de biografados ou de seus herdeiros para se publicar uma biografia. Foi baseado nessa aberração jurídica que Roberto Carlos impediu que o livro “Roberto Carlos em detalhes”, escrito em 2006 pelo jornalista Paulo Cesar de Araújo, chegasse às livrarias. Até hoje a obra está embargada e o autor sendo processado pelo cantor.

Agora, o grupo da “censura” é surpreendido pelo próprio cantor. Na conversa com o Fantástico ele finalmente esclarece que é a favor da biografia não autorizada, desde que sejam feitos alguns ajustes. “Temos que conversar, discutir e chegar a uma conclusão que seja boa para todo mundo”, disse o cantor, sem explicar, porém, porque contratou um escritório de advocacia em Brasília para continua a briga contra a publicação de biografia não autorizadas.

É lamentável que esses personagens, admirados pelos brasileiros por suas obras na arte, na música e na literatura sejam induzidos por Paula Lavigne que lidera esse movimento fascista, nazistas e espúrio para impedir que escritores pesquisem e escrevam sobre personalidades públicas. A prevalecer essa insanidade, os brasileiros ficarão impedidos de conhecer pessoas que fazem e fizeram história no Brasil, porque um grupelho decidiu que as suas histórias não devem ser contadas para não servir de exemplos. Será isso?

RETOMADA

Agora que uma pesquisa (Datafolha) mostra em números o repúdio de 95% dos consultados à ação violenta dos vândalos ditos "black blocs", é possível que gente tão influente quanto equivocada perceba o que a maioria da população já percebeu: a diferença nítida entre protesto e bandidagem.

Se os mascarados refluírem é possível que o cidadão perca o medo de se manifestar. Para os alvos dos protestos de junho, nada mais útil que um bando de inúteis a interditar as ruas - estrito e lato sensos - fazendo, em plena democracia, o papel da repressão na ditadura.

Dora Kramer

Da falsidade, por Luiz Felipe Pondé

Folha de São Paulo
Dias sombrios. Nesses momentos, volto às minhas origens filosóficas, o jansenismo francês do século 17 e seu produto essencial, "les moralistes" (que em filosofia nada tem a ver com "moralista" no senso comum). Os moralistas franceses eram grandes especialistas do comportamento, da alma e da natureza humana. Nietzsche, Camus, Bernanos e Cioran eram leitores desses gênios da psicologia. Pascal, La Rochefoucauld e La Bruyère foram os maiores moralistas.

O Brasil, que sempre foi violento, agora tem uma nova forma de violência, aquela "do bem". E, aparentemente, quase todo mundo supostamente "inteligente" assume que é chegada a hora de quebrar tudo. Nada de novo no fronte: os seres humanos sempre gostaram da violência e alguns inventam justificativas bonitas pra serem violentos.

Impressiona-me a face de muitos desses ativistas que encheram a mídia nas ultimas semanas. Olhar duro, sem piedade, movido pela certeza moral de que são representantes "do bem". Por viver a milhares de anos-luz de qualquer possibilidade de me achar alguém "do bem", desconfio profundamente de qualquer pessoa que se acha "do bem". Quando o país é tomado por arautos do "bem social", suspeito de que chegue a hora em que a única saída seja fugir.

A fuga do mundo ("fuga mundi") sempre foi um tema filosófico, inclusive entre os jansenistas, conhecidos como "les solitaires" por buscarem viver longe do mundo. Eles tinham uma visão da natureza humana pautada pela suspeita da falsidade das virtudes. O nome "jansenista" vem do fato de eles se identificarem com a versão "dura" (sem a graça de Deus, o homem não sai do pecado) da teoria da graça agostiniana feita pelo teólogo Cornelius Jansenius, que viveu no século 16.

Pascal, La Fontaine e Racine eram jansenistas. Aliás, grande parte da elite econômica e intelectual francesa da época foi jansenista. Por isso, apesar de Luís 13 e 14 (e de seus cardeais Richelieu e Mazarin) e da Igreja os perseguirem, nunca conseguiram de fato aniquilá-los.

Hoje, por termos em grande medida escapado das armadilhas morais do cristianismo (não que eu julgue o cristianismo um poço de armadilhas, muito pelo contrário), tais como repressão do outro, puritanismo, intolerância, assumimos que escapamos da natureza humana e de sua vocação irresistível à repressão do outro, ao puritanismo e à intolerância.

Elas apenas trocaram de lugar. A face do ativista trai sua origem no inquisidor.

Uma das maiores obras do jansenismo é "La Fausseté des Vertus Humaines" (a falsidade das virtudes humanas), de Jacques Esprit, do século 17. Ele foi amigo pessoal do Conde de La Rochefoucauld. Alguns especialistas consideram o conde um discípulo de Esprit. A edição da Aubier, de 1996, traz um excelente prefácio do "jansenista contemporâneo" Pascal Quignard.

O pressuposto de Esprit é que toda demonstração de virtude carrega consigo uma mentira e que as pessoas que se julgam virtuosas são na realidade falsas, justamente pela certeza de que são virtuosas.

A certeza acerca da sua retidão moral é sempre uma mistificação de si mesmo. Os jansenistas sempre disseram que os que se julgam virtuosos são na verdade vaidosos. Suspeito que o que vi nos olhos desses ativistas nessas últimas semanas era a boa e velha vaidade.

Mas hoje, como saiu de moda usar os pecados como ferramentas de análise do ser humano e passamos a acreditar em mitos como dialética, povo e outros quebrantos, a vaidade deixou de ser critério para analisarmos os olhos dos vaidosos. Melhor para eles, porque assim podem ser vaidosos sem que ninguém os perceba. Vivemos na época mais vaidosa da história.

"A verdade não é primeira: ela é uma desilusão; ela é sempre uma desmistificação que supõe a mistificação que a funda e que ela (a desmistificação) desnuda", afirma Pascal Quignard no prefácio do livro de Esprit. Eis a ideia de moral no jansenismo: a verdade moral é sempre negativa, sempre ilumina a sombra que se esconde por trás daquele que se julga justo.

Que Deus tenha piedade de nós num mundo tomado por pessoas que se julgam retas.

ponde.folha@uol.com.br

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