quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

‘A Grande Maranha’, um artigo de Antônio Machado de Carvalho

Publicado no jornal O Tempo
ANTÔNIO MACHADO DE CARVALHO
Dicionários definem maranha como “negócio complicado, intrincado, intriga, enredo e mexerico”. Se a singela maranha tem tal alcance de entendimento, imagine-se a que alturas não chegaria uma maranha de bom tamanho, uma grande maranha: um maranhão! Seria uma tragédia (se não fosse cômico), observar, então, a cegante e luminosa realidade dos acontecimentos terríveis que a imprensa vem divulgando: imolação de crianças pelo fogo, decapitações ao estilo dos caçadores de cabeças, estupros e outras vilanias, dentro e fora de presídios, da província mais implausível de tantas que compõem o país.
Até o estranho privilégio de abrigar os índios mais atrasados do Brasil ─ os Guajas, como referido por Darcy Ribeiro ─ faz parte da moldura civilizatória que configura o Maranhão contemporâneo. Algum cacique de outrora destes selvagens primitivos estaria, sem dúvida, na raiz da linhagem dos mandarins que controlam hoje aquela vasta extensão de terras e homens. Ler e ouvir governantes incapazes de contar até três é um exercício de irrealidade. Quem duvidar recupere no Google os registros a respeito de Pedrinhas. Incrível: há uma secretaria estadual dos direitos humanos no Maranhão, e ela já recebeu prêmios nacionais e internacionais.
Talvez o Maranhão e a Bulgária sejam apenas alucinações; nenhum dos dois existe de fato! Caberia uma excursão para comprová-lo (seguindo o roteiro de Campos de Carvalho em O Púcaro Búlgaro). Quem sabe, tudo não decorreria do consumo desbragado da famosa jamba local de altos teores? É a única explicação possível. Se o Maranhão é uma ilusão, Pedrinhas é uma fantasia. E mais, se o Maranhão não existe, os Sarneys são somente uma quimera, ou um pesadelo do qual ainda iremos acordar. Oxalá assim fosse!
Há quem garanta ser o Maranhão a mais antiga capitania hereditária do Brasil. Pertenceria a uma família de aventureiros originada, oficialmente, de patriarca famoso pelos cavalos amarelos que vendia, e que, segundo Millor, logo voltavam à cor natural após as primeiras chuvas. Dessa matriz sem jaça surgiu o presente donatário, um tal José de Ribamar (nome comum naquelas plagas), o qual, consoante tradição arraigada nos meios populares, ficou mais conhecido pelo vulgo de Sarney. Este curioso pseudônimo, virado patronímico, se enraizou e frutificou prodigiosamente naqueles rincões, em fenômeno similar, aliás, ao que acontece às ervas daninhas e parasitas de toda ordem, humanos ou não. Sarney pai, Sarney filho, Sarney filha, Sarney tia, Sarney neto, Sarney pra lá e pra cá até os limites do inimaginável.
Mas os ventos costumam mudar, ó céus! Às vezes ficam contra. Sagaz, porém, como todo velho rapinante, Sarney pai se precaveu: amancebou-se com os saqueadores mais novos que, famélicos, invadiam a praça. Dividiu, então, o butim com o PT. Deu-lhes o vice-governador (agora conselheiro do Tribunal de Contas, imagine), secretarias e outras boquinhas. Jogada de mestre. Sarney, enfim, conhece, e bem, a natureza humana. Tal qual um crocodilo do Nilo, recolhe-se silenciosamente à espera do próximo incauto que busque atravessar a vereda. O velho malandro persistirá bradando o dístico que o consagrou: Tudo pelo social!

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