segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Rodrigo Constantino- Covardia chique: o capitalismo nos deixou frouxos?

O filósofo Luiz Felipe Pondé toca em um tema importante e controverso em sua coluna de hoje na Folha: teria o sucesso material capitalista nos transformado em um bando de frouxos? A tese não é nova. O clássico A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, vai por caminho parecido ao falar dos “senhorzinhos satisfeitos”, das massas que vivem no conforto material e agem como crianças mimadas.
Muitos conservadores criticam tanto os liberais como os esquerdistas (principalmente estes) com base nessa visão. O sucesso capitalista foi tanto em produzir cada vez mais bens materiais acessíveis e conforto, que as novas gerações tomam tudo isso existente como um “direito adquirido”, e acham que basta chorar para mamar, de preferência nas tetas estatais (esforço alheio).
O tema do meu Esquerda Caviar tem ligação direta com isso. Quem pode se dar ao luxo de viver para a defesa das baleias ou das plantas, senão alguém que já desfruta do básico e muito mais? Quem pode ser uma alma tão sensível a ponto de condenar o luxo no mundo, senão aquele que já possui diversos luxos vistos como inatingíveis por gerações anteriores?
Pondé argumenta que foi justamente Adam Smith quem fez esse tipo de crítica ao modelo que defendia. Os “progressistas” preferem a linha política de Rousseau para condenar o capitalismo, mas era Smith que tinha uma visão mais interessante sobre os riscos morais de um sistema extremamente eficiente em prover conforto e luxo. Pondé é taxativo: “O capitalismo deixou todo mundo frouxo”. Eis a explicação:
Smith temia que a sociedade de mercado causasse um enfraquecimento das virtudes heroicas. A perda dessas virtudes (coragem, disciplina e força), causada por uma vida baseada na produção de riquezas materiais e consequente riqueza de bens imateriais (hoje materializados em leis luxuosas sobre direitos, desejos e liberdades numa sociedade baseada em escolhas individuais contra sociedades que esmagam esta escolha sob a bota de modelos coletivistas tradicionais, religiosos ou marxistas), apareceria na covardia generalizada e no vício do bem-estar, material e imaterial.
Os ganhos do bem-estar corromperiam nosso caráter, nos tornaria frouxos. De fato, não podemos olhar para os estados com forte welfare state e negar isso. Tem gente que pensa que é seu “direito” levar uma vida “digna” sem esforço algum, sem trabalho algum, tudo na conta da “viúva”. Acham que as coisas caem do céu, brotam da terra, são criadas ex-nihilo pelo Deus laico da modernidade, o estado. Pondé cita um exemplo à guisa de conclusão:
O novo crescimento do socialismo rosa-choque, inclusive em lideres como Obama, é fruto dessa corrupção. Smith previu as bases para o surgimento do pensamento de Marx e Gramsci: a corrosão do caráter causada pelo enriquecimento das sociedades e suas demandas de supressão das condições reais da vida como dor, luta e trabalho sem garantias.
Sim, Obama é mesmo o ícone dessa corrupção de caráter da modernidade. Alguém que finge ou tenta crer que é possível levar a paz para o Oriente Médio na base da retórica, com belos discursos inflamados, só pode ser filhote de nosso tempo, um “covarde chique” que age como uma alma infantil brincando no playground do prédio seguro.
Obama não precisa sobreviver no Quênia como seu irmão. Ele vem do Havaí, de Harvard, do conforto material que só o capitalismo americano poderia lhe oferecer. A pergunta, portanto, que Pondé usa como afirmação, é pertinente: o capitalismo nos deixou frouxos?

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