terça-feira, 7 de janeiro de 2014

RODRIGO CONSTANTINO- Fiquei “nervosinho” com o otimismo de Clóvis Rossi hoje

Estou acostumado a chafurdar na lama. É preciso conhecer de perto o inimigo, aquele que defende atrocidades que jogam contra a liberdade e o progresso. Por isso leio os artigos de gente como Vladimir Safatle, Verissimo e Clóvis Rossi. É preciso conhecer as falácias que a esquerda produz, para poder refutá-las em seguida.
Ao longo dos anos, desenvolvi uma casca grossa impermeável, que me protege da sujeira que sai do teclado desses autores. Já pego o jornal esperando lixo puro. Nem preciso mais de um Engov ou um Plasil antes. Minto. Às vezes preciso. Mas como não sei a priori o grau de absurdo que vou encontrar, só me dou conta depois, quando o estômago já embrulhou e a ânsia de vômito é quase inevitável.
Foi o que aconteceu ao ler a coluna de Clóvis Rossi na Folha hoje. Faz Verissimo parecer um amador. É tanto absurdo que dá até preguiça de rebater. Mas são os ossos do ofício. Alguém tem que meter a mão na massa podre e expor a podridão, não é mesmo? Então vamos lá (ele em vermelho, eu em azul):
Um país em que há pleno emprego e crescimento da renda não pode ser campeão de pessimismo nem pode ficar em 32º lugar, entre 45, no campeonato mundial de pessimismo. É grotesco.
Em primeiro lugar, é preciso explicar melhor que pleno emprego é esse, quando dezenas de milhões de pessoas dependem de esmolas estatais para viver. Conforme já abordei aqui, precisamos analisar melhor qual o efeito do Bolsa Família na taxa de desemprego.
Além disso, o crescimento de renda é pífio, medíocre na melhor das hipóteses, e sem elo com ganhos de produtividade, o que o tornaria sustentável. Grotesco, portanto, é destilar esse otimismo boboca e irrealista, por motivos que me escapam.
Grotesca igualmente é uma das aparentes razões para o surto de pessimismo que vem grassando desde meados do ano passado. Seria a diminuição do superavit primário, ou seja, do que sobra de dinheiro nos cofres públicos depois de descontadas as despesas e tem servido exclusivamente para o pagamento dos juros da dívida. Foi por isso que o ministro Guido Mantega apressou-se a divulgar os dados de 2013, para acalmar os “nervosinhos”.
Essa insistência em tratar o superávit primário como uma economia para o pagamento dos juros é comum na imprensa, mas irritante pela ignorância. Dinheiro não tem carimbo! Expliquei em pormenores a relevância do superávit fiscal aqui. Clóvis Rossi deveria entender isso:
Quando a responsabilidade fiscal do governo é abandonada, e ele começa a sacrificar o superávit primário e aumentar o déficit nominal, sua necessidade de financiamento fica crescente. A carga tributária já é muito alta, a dívida também. Parece natural que a saída será por emissão de moeda, produzindo mais inflação. Que, não custa lembrar, já está em patamares bem elevados por aqui, muito acima da média dos nossos pares.
Preservar a responsabilidade fiscal é imperativo categórico para resguardar a mais importante conquista das últimas décadas no país, que foi o controle inflacionário. Esse é o melhor programa social que existe, pois ajuda acima de tudo os mais pobres, sem precisar de esmolas estatais que criam dependência do estado.
Quem deveria ficar nervoso, mas muito nervoso, não apenas “nervosinho”, é exatamente quem está contente com o governo.
Basta fazer a comparação: os portadores de títulos da dívida pública (serão quantos? Um milhão de famílias? Cinco milhões no máximo?) receberam do governo, no ano passado, R$ 75 bilhões. É exatamente quatro vezes mais do que os R$ 18,5 bilhões pagos às 14 milhões de famílias (ou 50 milhões de pessoas) que recebem o Bolsa Família.
Esses socialistas! Será que Rossi não sabe que milhões de pessoas conseguem poupar alguma coisa após muito esforço, e que tal poupança possui lastro nos títulos públicos? Será que não sabe da extrema importância da poupança para a economia? Será que não entende que o serviço da dívida nada mais é do que o custo do estoque de dívidas do próprio governo?
Mas vejam que coisa: o autor preferia que os poupadores não ganhassem dinheiro, e sim aqueles que vivem de esmolas estatais! Para ele, como para todo socialista, tudo que é preciso fazer é distribuir os recursos existentes. Claro que ninguém mais pouparia nada, e todos pediriam esmolas do governo. Em pouco tempo, a sociedade estaria completamente falida.
A cada um de acordo com suas necessidades, de cada um de acordo com suas capacidades. O socialismo dura até durar o dinheiro dos outros. Com o tempo, ninguém mais pode nada, e todos necessitam de tudo. Tem que ser muito ignorante em economia ou invejoso para atacar a poupança, locomotiva do progresso capitalista!
Mas quem a tem são os rentistas que ficam reclamando da redução do que recebem, como se houvesse de fato a mais remota hipótese de que o governo deixe de honrar sua dívida. Fazem um baita ruído com os truques contábeis que permitiram o superavit, mas não dizem que, com truque ou sem truque, a dívida líquida diminuiu este ano, de 35,16% do PIB em janeiro para 33,9% em novembro, última medição disponível.
Rentista. O termo já denuncia o socialista. O juro nada mais é do que o retorno de um capital poupado. Se é alto, isso tem a ver com fatores econômicos. A presidente Dilma achou que era possível reduzi-lo na marra, e deu no que deu: voltou a aumentar a taxa de juros, justamente porque não atacou os problemas estruturais. 
No mais, a taxa Selic, perto de 10%, rende menos ainda em termos nominais para os poupadores, pois há taxa de administração dos fundos e depois os pesados impostos. Líquido para o investidor, ficam menos de 8% ao ano. A inflação real está perto de 7%, desconsiderando os malabarismos do governo. Será que uma taxa real de 1% ao ano é algo absurdo, que justifica o uso do termo rentista, ou quase agiota? Piada de mau gosto.
A dívida líquida não é mais o foco dos investidores e analistas há anos! Clóvis Rossi, para um membro do Conselho Editorial da Folha, está bem desatualizado. O truque do governo é justamente aumentar a dívida bruta, que cresce sem parar, transferindo recursos para o BNDES para não aumentar a dívida líquida. Ninguém mais cai nessa malandragem. Ou quase ninguém, como podemos ver.
Ou, posto de outra forma: o governo, supostamente irresponsável, gasta menos do que arrecada e ainda pinga 1,3% de tudo o que o país produz de bens e serviços na conta dos mais ricos e apenas 0,4% na dos pobres entre os pobres. E os ricos ainda choram.
Supostamente irresponsável? Gasta menos do que arrecada? Em que país vive Rossi? O governo só expande seus gastos, tem déficit nominal, a dívida aumenta a cada ano, e o jornalista tem a cara de pau de escrever isso no maior jornal do país? Um petista talvez não tivesse a mesma cara de pau! Talvez fosse mais dissimulado que o jornalista. 
Choram não os ricos, mas aqueles mais esclarecidos, que não agüentam mais tanta mentira e incompetência. E ficam “nervosinhos” todos aqueles que não suportam esse otimismo infundado, ufanista, falso, que mais parece propaganda oficial de governo.

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