sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Rodrigo Constantino- O discurso da presidente Dilma em Davos

A presidente Dilma, parecendo um tanto “robotizada” e contrariada de estar ali, fez agora a pouco seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos. Para ela, é “apressada” a tese de que, após a crise mundial, as economias emergentes irão se desacelerar.
Segundo Dilma, há muitas oportunidades nesses países, pois existe grande necessidade de investimentos produtivos. O que faltou dizer é que tal potencial sempre existiu; o que falta é o ambiente favorável para ele deslanchar. Esse não só não melhorou, como piorou bastante durante sua gestão.
Dilma enalteceu as “grandes” conquistas sociais dos últimos anos. A formação de uma enorme classe média foi por ela citada, lembrando que classe média, para o conceito do governo, inclui até favelados.
Em seguida, após falar do crescimento do consumo das massas, lembrou que a penetração de muitos bens industriais ainda é baixa no país. Haveria, então, grande potencial. Foi um discurso muito parecido, coincidentemente, ao da empresária Luiza Trajano no Manhattan Conection.
A presidente endossou a “tese” de Lula de que as manifestações foram por mais conquistas sociais, pois a democracia gera essa demanda mesmo. Ou seja, as manifestações teriam sido o resultado do sucesso do governo do PT. Paradoxal? Sim, mas quem liga?
Dilma garantiu que a inflação está sob controle, e que o governo respeita o regime de metas. Ainda teve a cara de pau de dizer que mira no centro da meta, e que os desvios estão dentro da banda permitida. Esqueceu de dizer que a inflação bateu no topo da banda todos os anos, tornando este patamar o verdadeiro centro da meta. Sem falar das manipulações, do congelamento de preços administrados pelo governo.
Afirmou também que as contas fiscais estão sob controle, e que a dívida pública líquida caiu. Esqueceu que todos os investidores já sabem que a malandragem está na emissão de dívida bruta pelo Tesouro com repasse para o BNDES, sem inflar, assim, a dívida líquida.
Dilma disse que o Brasil tem um dos melhores indicadores de dívida pública do mundo! Não sei como isso não despertou risos na plateia. Deveria. Para países emergentes, o Brasil tem uma das mais altas taxas de endividamento estatal – sem falar do endividamento privado estimulado pelo próprio governo.
Para Dilma, os bancos públicos expandiram o crédito porque os privados recuaram, e a tendência agora é retornarem a suas funções “normais”. É aguardar para ver, se o BNDES vai mesmo liberar desembolsos bem menores, se a Caixa vai parar de fomentar uma bolha imobiliária, se o Banco do Brasil vai deixar de avançar de forma irresponsável sobre o mercado de crédito apenas por critérios políticos.
A burocracia foi condenada pela presidente como entrave para a nossa produtividade, e disse que seu governo tem projetos para reduzi-la. Em mais de dez anos de PT, entretanto, nada de concreto foi feito, não há ganhos de produtividade expressivos, e a burocracia continua insana. Mais promessas…
Sobre os investimentos necessários, a presidente culpou as décadas de subinvestimento no país. Esqueceu que seu partido já está no poder há 11 anos! Ou seja, a última década foi toda do PT. Essa mania de culpar a “herança maldita” fica cada vez mais ridícula.
O programa “Minha Casa Minha Vida” foi mencionado com orgulho pela presidente, como se fosse uma incrível novidade. Esqueceu que projetos parecidos existem em outros países, e que nunca deram certo. Nos Estados Unidos, ajudaram a fomentar a bolha imobiliária e a crise dosubprime. Dilma acha que desigualdade e miséria se combatem dando casas com dinheiro público. E móveis e até tablets também!
Dilma destacou a importância da educação para o futuro do país, e passou, então, a elogiar vários programas do governo, reforçando seus aspectos meritocráticos. Faltou apenas citar nossas notas no Pisa, a queda das universidades federais nos rankings internacionais, as cotas raciais que rejeitam a meritocracia etc.
Por fim, resgatou o sonho do pré-sal como grande locomotiva do nosso progresso. Usou o termo “alquimia”, que vem bem a calhar. Dilma acha que vai transformar chumbo em ouro, só porque temos recursos naturais. Não funciona assim. Deveria aprender com a revolução energética americana, com o “shale gas” e a tecnologia de “fracking”. Não é o governo, de cima para baixo, que garante avanços tecnológicos.
Fechando seu discurso, Dilma defendeu as rodadas de livre comércio, citando o próprio Mercosul. Ignora que este não passa de uma camisa de força ideológica que trava acordos bilaterais do Brasil.
Em resumo, as palavras de Dilma não batem com os fatos. Foi um discurso “para inglês ver”, para tentar “vender o peixe” de nossa economia para atrair investimentos estrangeiros. Mas não bastam mais promessas vazias, discursos prontos. É hora de mostrar mudança nos rumos da política econômica!

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