sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

RODRIGO CONSTANTINO- Os chacais no poder: a era da vulgaridade

Dando mais um “rolezinho” (essa moeda pega) nos meus arquivos, encontrei esse artigo bastante atual, adequado para os assuntos do cotidiano. Trata-se de um texto inspirado no clássico de Lampedusa. Boa leitura!
Os chacais no poder
“A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda parte.” (Ortega y Gasset)
Não sou um saudosista e jamais idealizei o passado. Longe disso! Acredito que todo saudosista costuma se imaginar como parte da aristocracia no passado, nunca como um dos plebeus, cuja vida era dureza. Dito isso, parece-me inegável que algo se perdeu nesta transição para os regimes populares modernos. As conquistas, em minha opinião, compensam as perdas com ampla margem. Mas estas existem. Principalmente se levarmos em conta as promessas anteriores às mudanças. E ao ler o excelente livro O Gattopardo, de Tomasi Di Lampedusa, esta é a sensação que fica.
O livro, único romance escrito pelo italiano, ele mesmo de família nobre, retrata com ares autobiográficos a decadência da nobreza siciliana, durante a revolução liderada por Garibaldi no século XIX. O Príncipe Fabrizio Salina, personagem principal, encarna o pessimismo de quem “contemplava o ruir da sua casta e do seu patrimônio sem nada fazer e sem nenhum desejo de remediar o desastre”. Ele era apenas um observador dos acontecimentos que pareciam inevitáveis em seu tempo.
A passagem mais famosa do livro é também uma de suas mais importantes lições. O sobrinho querido de Don Fabrizio, Tancredi, ao decidir se alistar nos exércitos garibaldinos, explica ao tio sua lógica: “Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a república. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. No primeiro momento, estas palavras ficariam registradas na memória de Don Fabrizio, mas somente com o tempo ele teria uma compreensão mais clara de seu completo significado. A promessa de “tempos gloriosos” para a Sicília já durava algum tempo, e muitos tiros tinham sido disparados por tal objetivo. Mas nenhuma mudança estrutural ocorreria de fato.
As palavras enigmáticas de Tancredi adquiriam maior clareza: “Muita coisa ia acontecer, mas seria tudo uma comédia, uma comédia ruidosa e romântica com algumas manchas de sangue no traje burlesco”. O resultado da “revolução” seria apenas uma “lenta substituição de classes”. E as novas classes que subiriam ao poder não seriam melhores que as antigas; pelo contrário: “Nós fomos os Gattopardos e os Leões; os que vão nos substituir serão pequenos chacais, hienas; e todos, Gattopardos, chacais e ovelhas continuaremos a crer que somos o sal da terra”. 
A sensação de asco que o nouveau riche Calogero Sedàra despertava em Don Fabrizio era total, sinal dos tempos modernos. A insensibilidade à graça de objetos ilustres no palácio era indiretamente proporcional à atenção ao valor monetário dos bens. Don Fabrizio, de repente, sentiu que o odiava; “era ao afirmar-se dele, de cem outros semelhantes a ele, às suas obscuras maquinações, à sua persistente avidez e mesquinharia que se devia a sensação de morte que agora pesava sobre esses palácios”. Os novos donos do poder e do dinheiro eram brutos se comparados aos nobres de antes.
Na resenha que Mário Vargas Llosa fez do livro de Lampedusa, merece destaque o contraste do autor frente ao modismo de sua época, na década de 1950, quando a literatura estava impregnada de ideologia e todos deveriam seguir a posição moral e politicamente correta a favor do progresso da humanidade. As utopias estavam no auge da fama, e muitos sonhavam com as revoluções socialistas que trariam o paraíso à Terra. O livro, com mensagem mais pessimista – ou realista, diriam alguns –, faria um alerta contra o romantismo destes que pensam ser possível atingir alguma perfeição quando se trata de modelo social.
Vargas Llosa resume: “Em vez de um lustroso gattopardo, o símbolo do poder será uma flâmula tricolor. Mas, sob essas mudanças de nomes e de rituais, a sociedade se reconstituirá, idêntica a si mesma, em sua imemorial divisão entre ricos e pobres, fortes e fracos, senhores e servos. Variarão as maneiras e as modas, porém para pior: os novos chefes e donos são vulgares e incultos, sem os refinamentos dos antigos”. E não acabaram quase sempre assim todas as revoluções redentoras, que iriam colocar um fim nas divisões de classes?
Para Étienne La Boétie, em seu Discurso Sobre a Servidão Voluntária, os vários atentados realizados contra imperadores romanos “não passaram de conspirações de pessoas ambiciosas, cujos inconvenientes não se deve lamentar, pois se perceber que desejavam, não eliminar, mas remover a coroa, pretendendo banir o tirano e reter a tirania”. A própria Revolução Francesa eliminou a nobreza para colocar em seu lugar o Terror de Robespierre.  
A última passagem de A Revolução dos Bichos, de Goerge Orwell, desfere similar golpe aos utópicos: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. O destino daqueles que acreditam nas promessas de barbudos “salvadores da pátria” será invariavelmente o mesmo: trocar seis por meia-dúzia na melhor das hipóteses; ou por algo muito pior na mais provável delas. Sai uma arrogante aristocracia, e entra um metalúrgico ignorante com mais sede ainda pelo poder, mais corrupto ainda que seus antecessores. São os chacais alçados ao poder pelos idiotas que, de repente, descobriram que são em maior número.
Como o regresso ao feudalismo não é desejável de forma alguma, só resta aos liberais seguir na luta por reformas constantes, na batalha realista por uma gradual evolução da sociedade, rejeitando as soluções revolucionárias mágicas e tentando limitar o estrago causado pelos chacais famintos.    
Rodrigo Constantino  

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