sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

VIDA EM CUBA- COLCHÕES, por Yoani Sánchez

Uma mulher grita do balcão e então param a carroça que empurram. Armam o atelier na própria calçada. Sobre umas pranchas e a vista de todos. As molas quebradas são trocadas, as enormes agulhas costuram as bordas e o velho forro manchado aqui e ali é substituído por outro feito com tecido de sacos de farinha. Suas mãos movem-se rápidas. Em menos de uma hora terão terminado e continuarão rua abaixo procurando novos clientes. No ar flutua uma mistura de pó, fibras e um odor de intimidades acumuladas durante anos.

Os consertadores de colchões têm sempre muito trabalho. Num país onde tantos ainda dormem na mesma cama em que seus avós descansaram, esta profissão se torna vital. Nos tempos que correm os especialistas do estofamento e dos bastidores estão por todas as partes. Com seus carretéis de fio, vociferam pregões em que prometem trinta dias de garantia depois da restauração. Reparam o que perdeu sua data de validade faz décadas, devolvem comodidade aos que tem as costas beliscadas por alguma mola solta a cada madrugada.

Também abundam os estofadores. Criadores de uma ilusão que dura pouco e que deixa o comprador com dores pelo corpo e no bolso. Colocam mantas sucessivas de folhas de banana secas, fibras plásticas ou serragem. Depois as cobrem com um tecido estampado e vistoso dando cuidado especial na costura das bordas. Localizam-se nos centros comerciais e afirmam que sua mercadoria é “como as da loja”. Num país onde um profissional precisa do salário de um ano para comprar um colchão de casal, as ofertas – não estatais – e mais baratas, sempre são muito tentadoras. Contudo na maioria das vezes o vantajoso se converte em frustração em pouco tempo.

A cena se repete quando estes consertadores chegam num bairro. Uma mãe se penaliza das marcas de urina que o filho menor deixou na cama. Outros se envergonham porque os vizinhos verão os remendos sucessivos que seus colchões sofreram durante anos. As frases no estilo: “este não é meu, mas de um parente, mas vou fazer o favor de consertá-lo” se sucedem. Alguns parecem uma estrutura amorfa, sem cantos definidos e fundida no centro, que precisaria mais um passe de mágica do que uma reconstrução. “Deixem-no como novo” dizem ao reparador e este começa a mover as mãos, afundar a lâmina e finalmente dar um preço.

Mais do que um restaurador de colchões, é um restaurador de sonhos.

Tradução por Humberto Sisley

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