terça-feira, 28 de janeiro de 2014

VIDA EM CUBA- SEM COMPROMISSO

YOANI SÁNCHEZ
Vermelho e preto são as cores do jornal Granma. Porém, diferentemente da famosa obra de Stendhal, o leitor não encontrará realismo em suas páginas, mas sim proselitismo. Quando o órgão oficial do partido comunista escolhe uma manchete tem mais intenções de impor uma ideia do que de informar sobre esta.
Assim ocorreu com a frase que se destacava no primeiro plano deste diário na quinta-feira passada. Tiradas do discurso de Raúl Castro em Santiago de Cuba aquelas palavras enfatizavam que “A revolução continua a mesma, sem compromissos com ninguém em absoluto, só com o povo!”. Com essa manchete tanto o orador como os editores queriam reafirmar algo que na realidade não deixaram muito claro. Vale à pena tentar decifrar o seu significado.
Passaram-se já 55 anos desde que começou a chamada Revolução Cubana, pelo que esta referência a possíveis compromissos não deve remontar as suas origens. Cabe imaginar que o General não aludia, com ela, a ruptura e a ingratidão com certos respaldos e subvenções que os rebeldes tiveram há meio século.
Então não soa como um adeus aos velhos companheiros de rota que puseram o ombro e o bolso para sustentar este sistema por décadas.
Quem é então esse “ninguém” de quem Raúl castro retira qualquer possibilidade de reclamação? Evidentemente tampouco aponta o Palácio de Miraflores pelo volumoso subsídio que Cuba recebe da Venezuela. Pois este apoio econômico gerou mais ataduras políticas para o governo mantenedor do que para o mantido.
Pensar que é uma insinuação desobrigando-se das responsabilidades políticas por pertencer a CELAC resultaria ingênuo, pelo menos. Então sobre que falava este homem de uniforme militar, frases herdadas e discurso por escrito? A que se refere? A resposta aponta tanto para a Casa Branca como para Bruxelas.
Toda negociação ou conversação precisa de um mínimo de obrigações a serem cumpridas. Qualquer parte implicada num acordo se certifica que a outra ceda em igual ou maior medida ao que ela faz. É evidente que em 2013 tanto os Estados Unidos como a União Européia deram passos para atenuar a temperatura diplomática entre eles e a Praça da Revolução.
Piscadelas, flexibilizações e anúncios de um novo caminho chegaram a ser ditos por alguns políticos em relação à Maior das Antilhas. O prato estava servido para o festim do acordo e do diálogo. Como resposta o ingrato convidado parou e virou a mesa.
“Sem compromissos…” Gritou Raúl Castro e apressurou-se a grafá-lo em letras vermelhas no jornal Granma. Aos que a frase é dirigida já o sabem, já estão advertidos.
Tradução por Humberto Sisley

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