terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

CAIO BLINDER- Curtas & Finas (Ucrânia & Siria)

O ditador sírio Bashar Assad perdeu um aliado: Viktor Yanukovich, deposto na Ucrânia em uma tumultuada e fulminante revolução que durou três meses. Embora eleito democraticamente na segunda estadia no poder (na primeira foi via fraude), Yanukovich era corrupto, venal e brutal como o ditador Assad. A diferença está na maquiavélica e tenaz competência política de Assad, que sobrevive em uma terrível guerra civil que já dura três anos, apesar dos prematuros atestados de óbito, um deles emitido pelo Instituto Blinder & Blainder.
Assad quem sabe veja a queda de Yanukovich como uma confirmação de que somente o combate cruel e genocida que tem travado contra os rebeldes pode mantê-lo no poder. Nada de alternar concessões com política de terra arrasada. Yanukovich e Assad sempre tiveram seus destinos entrelaçados pela existência de um mesmo padroeiro, Vladimir Putin.
Na Ucrânia, os russos precisam se reagrupar com este grave revés imediato para seus interesses. Para Moscou, como no caso do Ocidente na Síria diante do fortalecimento dos rebeldes jihadistas, existem apenas más opções em Kiev, desde um compromisso com as forças que derrubaram Yanukovich a uma intervenção militar na área pró-Rússia do país.
Uma questão complexa é se a situação na Ucrânia terá um impacto na Síria. No fim de semana, quando as atenções mundiais estavam voltadas para a Ucrânia, a Rússia votou a favor de uma morna resolução humanitária no Conselho de Segurança da ONU, condenando o regime sírio. Foi uma derrota simbólica para Moscou, que no começo sequer queria discutir o assunto, mas houve o cálculo de que não compensava vetar a resolução quando já existe uma colisão com os países ocidentais na encrenca ucraniana. Putin não precisa perder mais capital diplomático.
Ademais, os russos querem passar um pito no regime Assad, que simplesmente detonou as negociações de paz em Genebra com os rebeldes, uma iniciativa conjunta Moscou-Washington. Já os países ocidentais, igualmente desiludidos com o processo diplomático, acenam com uma retomada da cartada militar na Síria (apesar do problema crônico da falta de rebeldes confiáveis e eficazes para serem armados).
Nada disso significa que os EUA e seus aliados queiram enfiar botas no lamaçal sírio e muito menos serem forçados a uma intervenção vigorosa caso os russos ultrapassem alguma “linha vermelha” na Ucrânia em nome de defesa dos seus interesses ou de proteção da minoria etnicamente russa no país.
O fato é que Putin sofreu uma derrota estratégica na Ucrânia, após uma sucessão de vitórias que davam a impressão de invencibilidade do presidente russo no tabuleiro geopolítico global. Será interessante ver se Putin estará disposto a fazer algumas concessões na Síria para conseguir algo em um jogo muito mais crucial para ele na Ucrânia.

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