quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

CAIO BLINDER- Putinadas & Patinadas em Kiev (II)

A crise por si na Ucrânia é gravíssima. Na lição básica de geopolítica (que mesmo os iniciados precisam relembrar), o país está no limbo, empacado na encruzilhada, é epicentro hoje de um conflito (quase um choque de civilizações) entre União Europeia e a Rússia. E para quem esqueceu a lição básica da história recente, a crise explodiu no final do ano passado quando o presidente ucraniano Viktor Yanukovich deu para trás e não assinou acordos de cooperação comercial e política com Bruxelas por instigação (e amaciado por um pacote bilionário de ajuda) do nosso homem em Moscou, Vladimir Putin.
E a escala de gravidade aumenta ainda mais por envolver o país do homem, um país absorto na missão quixotesca de restaurar glórias passadas, com Putin achando que “pode” com o Ocidente (e não há dúvidas que em algumas situações ele pode mesmo)  Aqui não se trata de obsessão com Putin (existe esta impressão, hehehe?), mas da constatação de que é impossível falar de Ucrânia sem falar de Rússia. A partir de agora, eu posso passar a palavra para a inestimável Julia Ioffe (que já deveria estar recebendo parte do meu salário).
A última vez que tanta gente protestou em Kiev (embora não tenha ocorrido a atual escalada de violência) foi há nove anos na mobilização que derrubou o familiar Viktor Yanukovich, que fora eleito com fraude (mais tarde, ele voltou num pleito mais limpo, mas esta é outra longa história). As manifestações de então se inseriram no contexto de revoluções coloridas no ex-bloco soviético (a ucraniana foi a laranja), mas muito mais estava em jogo em Kiev.
A cidade é berço da civilização russa. Para Putin, como lembra Julia Ioffe, a Ucrânia é uma província russa e não um país que se tornou independente com o fim da Guerra Fria. Com a encrenca ucraniana, Putin criou o bizarro conceito de “democracia administrada” (conceitos do tipo são inventados por milicos e ditadores). O conceito significa manter alguns penduricalhos da democracia, mas tudo nos “nossos” termos. Democracia para valer, nunca. Democracia, afinal, é instabilidade, desordem e, imagine, o outro pode ganhar o poder.
Protestos pró-democracia são o pesadelo para Putin, um terrível exemplo. Ainda por cima, quando ele considera que por trás da mobilização está o Ocidente tentando impor seu modo de vida e seus valores. Na expressão de Julia Ioffe, se acontece em Kiev, pode acontecer em Moscou. Por esta razão, Putin ceifa o “mal” pela raiz. Isto aconteceu no inverno russo de 2011/2012 na sua volta para o terceiro mandato presidencial. As manifestações na ocasião não iriam derrubar o seu regime, mas quando começam podem virar bola-de-neve, uma primavera democrática.
A prova está neste inverno ucraniano de 2013/2014. As manifestações eram pacíficas no começo e o governo deixou rolar. E como não? A Ucrânia não é uma mera “democracia administrada”. É uma democracia caótica em um país com uma classe política corrupta e incompetente (e não apenas no governo). O protesto cresceu e o governo passou a reprimir. Muitos manifestantes literalmente botaram para quebrar, com a ajuda de grupos oposicionistas fascistas e agentes provocadores (na típica narrativa russa, o protesto é obra basicamente de golpistas fascistas).
Chega um momento em que um dirigente acuado, como Yanukovich, mistura pancada com acenos conciliatórios. Na quarta-feira à noite, por exemplo, ele anunciou uma trégua e a disposição de mais uma vez negociar com líderes da oposição, que controlam cada vez menos a massa nas ruas. O anúncio foi feito depois de um dia de pressões ocidentais e movimentações rumo a sanções contra o governo ucraniano. Fica flagrante a fragilidade do presidente. E, assim, sua legitimidade é corroída. Quanto mais ele negocia, mais a oposição pede. Para Putin, é penoso ajudar este tipo de gente. Seu estilo de poder é outro.
O tom de Julia Ioffe é tenebroso. Ela diz que Putin acompanha com horror a degringolada ucraniana, um cenário inadmissível para o presidente russo. Houve a farsa de algumas concessões antes dos Jogos Olímpicos de Sochi (como a libertação de presos políticos), mas aí está Putin, apertando cada vez mais os parafusos. O que restou de imprensa livre está sendo estrangulada.
Traumatizado pelo colapso soviético há 25 anos, Putin não medirá esforços para assegurar a estabilidade de sua “democracia administrada”. Ele vai putinar ainda mais. Também tenebroso é o cenário em Kiev. Saberemos em breve até que ponto Putin estará disposto a intervir e qual será a reação ocidental, com a trégua firmada na quarta-feira destroçada pela realidade, em questão de horas.

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