terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

CAIO BLINDER- Rabiscos Estratégicos (Ucrânia)

Timothy Garton Ash, professor britânico de Oxford e craque para desenhar a Europa, é uma boa contribuição para alguns rabiscos estratégicos a partir do cenário ucraniano. Ele dá uma boa medida do que está em jogo para a Rússia com sua derrota imediata na crise ucraniana.
Para Garton Ash, com a Ucrânia enquadrada na sua área de influência, a Rússia ainda pode ser um império. Sem o país, ex-república soviética ainda tentando forjar sua independência em meio a mais uma crise, a Rússia por si tem uma chance maior de ser tornar um estado-nação, algo que eu, pessoalmente, considero mais realista e mais interessante para os interesses globais. A Rússia de Vladimir Putin é basicamente um “spoiler” geopolítico. Atua para estragar e não para construir.
Garton Ash cita um jornalista independente russo, Konstantin von Eggert, que observou certa vez que o mais importante evento na política russa de uma década para cá não aconteceu na própria Rússia. Foi a Revolução Laranja de 2004 na Ucrânia, que agora entra na segunda fase. Das várias revoluções na órbita da ex-URSS, foi a que mais ameaçou Putin. A ameaça, portanto, está mais presente do que nunca. Garton Ash aponta um recuo tático de Putin, mas alerta para não termos ilusões sobre não-intervenção russa em Kiev. Putin, afinal, é imperial. Tem esta ambições de ter um papel acima da conta merecida.
O professor britânico salienta que a questão geopolítica não é se a Ucrânia irá aderir à Europa ou à Rússia e sim se o país se tornará cada vez mais integrado, em termos políticos e econômicos, à Europa e, ao mesmo tempo, manterá relações íntimas com a Rússia. Minha questão é se os diversos atores estão preparados para esta dualidade. Outro ponto levantado por Garton Ash é se a União Europeia irá atuar na defesa dos valores básicos europeus e ocidentais (aquilo que Putin despreza) na porta de casa, ao invés de ser relapsa como foi na Bósnia há 20 anos.
A Europa é boa de papo (coisa de velha civilização), mas fracassou no final de 2013 quando foi à briga contra a Rússia sobre a Ucrânia sem convicção para a luta. Nos últimos dias, houve mais vigor, mas basicamente para impedir uma guerra civil. No entanto, Garton Ash pergunta se haverá “imaginação estratégica” e determinação a longo prazo na crise ucraniana? Eu não boto muita fé.
E, finalmente, Garton Ash, um observador privilegiado da derrocada do comunismo soviético há 25 anos (como acadêmico e jornalista) diz que 1989 suplantou 1789 como o “default model” de revolução. No lugar de radicalização progressiva, violência e guilhotina, parecia que poderiam ser concretizados anseios de protestos pacíficos de massa seguidos por uma transição negociada. Este modelo foi desafiado pelas contramarchas na Primavera Árabe e já está bastante rasurado na Ucrânia.

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