quinta-feira, 6 de março de 2014

As distopias de Huxley e Orwell e a importância do passado



“Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo.” (George Santayana)
As duas mais famosas distopias do século 20 foram escritas por britânicos. Uma por Aldous Huxley e a outra por George Orwell. Outro britânico, o médico Theodore Dalrymple, faz uma análise interessante delas em seu livro Our Culture, What’s Left of It, levantando a hipótese de que o declínio do poderio britânico no mundo pode ter sido uma época propícia a esse tipo de pessimismo com o futuro.
O livro Admirável Mundo Novo, de Huxley, foi publicado em 1932, e 1984, de Orwell, foi publicado em 1949. Quando as esperanças são irrealistas, os medos se tornam exagerados. Quando os sonhos sozinhos ditam os rumos dos acontecimentos, o resultado costuma ser um pesadelo. O otimismo ao término do século 19, após longa era de prosperidade liberal, chegou a patamares de utopia. A realidade iria decepcionar quase todo mundo.
Tanto Huxley como Orwell iriam imaginar um futuro sombrio para a humanidade, extrapolando tendências daqueles tempos, com uma capacidade profética muitas vezes impressionante. Huxley, por exemplo, foi capaz de desenhar um mundo futurístico onde crianças eram erotizadas cada vez mais cedo, a família tradicional era uma bizarrice, e para toda angústia havia o soma, uma espécie de Prozac que ajudava a driblar os sentimentos.
Pessoas egoístas vivendo pelo prazer do momento e nada mais, assim era o futuro imaginado por Huxley. E quem poderia dizer que ele errou feio? A solidão não mais existiria, para que ninguém tivesse reflexões introspectivas muito profundas e angustiantes (parece o mundo do Facebook?). O resultado era uma legião de seres infantilizados: os desejos aos 64 eram os mesmos que aos 17 anos. Não vemos isso nos “adultescentes” de hoje?
No caso de Orwell, o “Big Brother” que ele descreve é o retrato perfeito de regimes totalitários que espionam até os pensamentos das pessoas, até as conversas que ocorrem dentro de suas casas. Esse tipo de regime não é mais a regra após a queda do comunismo, sobrevivendo apenas em Cuba e na Coreia do Norte.
Mas como negar que a intromissão estatal em nossas vidas chegou ao absurdo, mesmo em democracias como a inglesa, recordista de câmeras de vigilância da população? Como não comparar o eufemismo do politicamente correto moderno com o duplipensar orwelliano? Como ignorar a tentativa de rescrever o passado para controlar o futuro, tão presente em iniciativas como a “Comissão da Verdade” petista?
O principal elo entre ambas as distopias, segundo Dalrymple, seria a mensagem de como é fundamental preservar um senso de história e tradições culturais para que nossas vidas sejam suportáveis. O tema é ainda mais poderoso quando lembramos que Huxley e Orwell eram radicais, diziam-se socialistas, e desafiavam o status quo.
Nada disso os impediu de perceber que, para mudar de forma positiva, preservar certas coisas e valores também era fundamental. Ambos viram como o passado era importante para o presente e o futuro, em uma época em que muitos desejavam fazer tabula rasa de todo o estoque de conhecimento dos antepassados e criar um “novo mundo” do zero.
O “selvagem” de Huxley, não custa lembrar, tinha lido várias obras de Shakespeare, e foi isso que manteve nele um antídoto contra o “racionalismo” pseudo-científico de Mustapha Mond, um dos controladores do “admirável mundo novo”. Já em 1984, o herói Winston acorda um dia com uma única palavra em sua mente: Shakespeare.
Coincidência? Ou será que ambos os autores foram capazes de compreender a importância do passado, da cultura, da literatura, das emoções, do aprendizado acerca da natureza humana? Sempre que algum revolucionário tentar vender uma ideia fantástica de algum “mundo melhor” possível, de um “novo homem”, de uma sociedade parida da tabula rasa somente com base na “ciência” e na “razão”, seria bom o leitor lembrar dessas distopias e responder: Shakespeare!
Viva o passado, a cultura e as tradições, fundamentais para a continua construção de um futuro realmente melhor, ainda que sempre imperfeito e sob pilares frágeis, pois frágil é a civilização criada a partir da natureza humana.
Rodrigo Constantino

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