quarta-feira, 26 de março de 2014

Caio Blinder- A lógica da radicalização

Tiranos, ditadores, autocratas e caudilhos demonizam os adversários. Eles são comunistas, fascistas, terroristas e radicais. E, de fato, muitos são. Eles nem sempre precisam da provocação, do arbítrio e da selvageria de um regime para serem o que são e fazerem o que fazem. No entanto, apenas para ficar em nomes quentes do noticiário, Vladimir Putin, Bashar Assad, Nicolás Maduro e Abdel Fattah el-Sisi fazem a sua parte para multiplicar os inimigos e radicalizá-los.
Putin precisa multiplicar os fascistas ucranianos na sua agitprop para justificar a intervenção russa no país vizinho e remover a legitimidade da revolução em Kiev, em parte estimulada pelo expansionismo russo e em parte pela brutalidade policial do deposto governo pró-russo de Viktor Yanukovich. Em uma situação combustível, por que não acirrar ainda mais as rivalidades étnicas e o hipernacionalismo? Assim funciona Putin.
Assad não precisa do jihadismo para justificar e exercer a sua barbárie, mas ele o ajuda a intensificar seus crimes contra a  humanidade. Ódios étnicos e religiosos foram por muito tempo cruelmente abafados pela ditadura Assad (pai e filho), mas a repressão descomunal contra protestos pacíficos há três anos, inclusive de crianças e adolescentes, levou a uma espiral de violência dantesca. É ponto de honra desta coluna martelar que o grande responsável pela tragédia é o ditador.
Como Assad, mas em escala muito menor, Maduro tem sua milícias chavistas que atiram em estudantes e mulheres grávidas. Representantes eleitos (prefeitos e congressistas) são caçados e cassados, caso da deputada antichavista Maria Corina Machado. A repressão se aprofunda na Venezuela, a situação se deteriora, Maduro denuncia conspirações variadas (de militares e dos EUA) e no desespero setores da oposição partem para a ignorância, tudo isto diante da cumplicidade latino-americana com o chavismo. O Brasil pede uma solução negociada na Ucrânia, sem condenar Putin, e não negocia sua posição na Venezuela. Está fechado com o regime chavista.
No Egito, não chega a ser conivência ocidental com o ditador Sisi, mas uma postura flácida de aceitação do status quo. A diplomacia americana foi tão incompetente nos últimos anos no Egito que ela é desprezada pelos militares golpistas que derrubaram Mohamed Morsi, pela Irmandade Muçulmana e pelos quixotescos bolsões liberais. Esta semana foi marcada por dois julgamentos em massa de mais de mil pessoas acusadas de integrarem a Irmandade Muçulmana, uma farsa judicial que deixaria Stálin orgulhoso. Como é possível condenar à morte, em primeira instância, 529 pessoas pela morte de um policia durante um protesto? Simples: são terroristas e radicais (quase todos os réus foram condenados à revelia e 17 absolvidos no primeiro julgamento).
Os cenários nos quatro países são diferentes e muitos adversários de tiranos, ditadores, autocratas e caudilhos não merecem nossa simpatia (apenas solidariedade judicial, como no Egito). No entanto, nos quatro casos temos polarização e radicalização ou estamos a caminho da paz de cemitério.

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