terça-feira, 18 de março de 2014

Caio Blinder- Na crise ucraniana, Hora E para a Europa



A Europa está sendo chamada para agir de forma resoluta na crise ucraniana, a mais grave crise geopolítica no continente desde o final da Guerra Fria há 25 anos. É Hora E. Não se trata apenas de elaborar um pacote de sanções mais vigorosas depois deste primeiro, modesto, anunciado nesta segunda-feira em resposta ao referendo na Crimeia, definido como ilegal pela imensa maioria da comunidade internacional (nem a China embarcou na canoa de Vladimir Putin e ficou em cima do muro). O desafio é bem mais amplo no relacionamento com a Rússia e também na dinâmica interna da União Europeia (UE).


A Europa dividida e cansada de guerra se reinventou em meados do século 20 como um projeto europeu, no início basicamente mercantilista e econômico. Já foi um tremendo progresso e guerras na Europa após 1945 aconteceram nas suas bordas e nunca mais no seu núcleo duro (França e Alemanha). Na Guerra Fria, grandes desafios políticos puderam ser encobertos pela proteção dos EUA e na batalha final contra o comunismo soviético atores essenciais não estavam no núcleo duro. Foram figuras como o americano Ronald Reagan, a britânica Margaret Thatcher (nunca uma entusiasmada europeísta) e o polonês João Paulo II. No pós-Guerra Fria, o projeto europeu se alargou e se consolidou. Em parte, foi um pacto para que nele pudesse ser amortecida uma Alemanha reunificada e havia uma precipitada euforia econômica.


Atuação geopolítica da Europa em geral ocorre através de alguns dos seus atores com uma tradição colonial e que ainda possuem algum capital para este engajamento, como França e Grã-Bretanha. Em momentos de urgência, como as guerras nos Balcãs nos anos 90, claro que a União Europeia atua com mais desenvoltura (embora com atraso) e obviamente o mesmo vale para crises econômicas, como a que fulminou recentemente a zona do euro.


Como disse certa vez o francês Jean Monnet, um dos pais fundadores da União Europeia, a Europa “é forjada em crises”. E este é um momento de extrema urgência. A Europa vai precisar ajustar os ponteiros com os aliados americanos (também cansados de guerra) e ter um pensamento estratégico. Vai precisar ir além dos dilemas de curto prazo (que tipo de sanções adotar e como não se machucar muito com elas). A Europa vai precisar decidir o alcance de sua identidade europeia e o preço que vai pagar em termos internos (a soberania de cada país) e mesmo econômicos (impedir a degringolada da Ucrânia, enquanto tenta colocar sua própria casa em ordem).


Em Moscou, Vladimir Putin vislumbra a Europa como um território decadente e frouxo, que serve como destino do seu gás e petróleo. Cabe à principal interlocutora de Putin, a primeira-ministra alemã Angela Merkel, calibrar a mensagem dizendo que a Europa pode ser uma ameaça estratégica aos russos caso valores da ordem pós-Segunda Guerra não sejam respeitados, mas, ao mesmo tempo, deixar claro que todos têm a ganhar com as parcerias.


Nada disso é fácil. O projeto europeu sofre pressões internas para que não avance. Partidos populistas de extrema-direita estão fortalecidos e até expressam simpatias com as “putinadas” desferidas por nosso homem em Moscou. Hoje, Putin tenta exibir autoridade como paladino de valores tradicionais, com a benção da Igreja ortodoxa, colocando-se na linha de frente contra a ameaça do terror islâmico, o perigo de fronteiras abertas, a devassidão moral e a hegemonia americana. É uma mensagem que tem ressonância entre setores da própria sociedade europeia.


Nos ultimos dias, Angela Merkel surpreendeu com uma postura dura na crise ucraniana. Os interesses do empresariado alemão ao que tudo indica estão em segundo plano. A prioridade é ratificar os valores do sistema internacional do pós-guerra. Este negócio de “putinada” está fora de ordem. Crimeia já era, mas e novas “putinadas”? Vamos ver se a Europa estará realmente disposta a encarar a parada e pensar a longo prazo.


Gostei de um editorial da semana passada do jornal espanhol El País: “A Europa, em particular, acostumada nos últimos anos a depender do gás e do dinheiro russo, deve estar preparada para o sacrifício. Se as palavras de Angela Merkel esta semana significam alguma coisa, Berlim parece disposta a, pela primeira vez, questionar sua privilegiada relação com Moscou. A globalização deixa a Rússia muito mais vulnerável em todos os aspectos que na época da Guerra Fria. Talvez, de imediato, as sanções prejudiquem a União Europeia, mas, a médio prazo, Putin está fadado a ser o perdedor no confronto que desencandeou.”.


No entanto, Putin ganhará se a Europa perder a hora.

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