terça-feira, 25 de março de 2014

Caio Blinder- O CLUBINHO DE PUTIN



Os simpáticos Putin e Lukashenko (alguns probleminhas no horizonte)

A Rússia dá os ombros para sua punição pelo G-7, o velho clube da elite ocidental, que decidiu efetivamente dar cabo do G-8, inventado para acolher Moscou por motivos políticos e na esfera das questões da segurança internacional há 15 anos para mostrar que a Guerra Fria tinha acabado e apaziguar o urso derrotado. Está claro agora que a jogada não funcionou. Hora de punição (o mínimo) pela anexação da Crimeia. Moscou diz que mais importante é o G-20 (onde falta de compromisso democr ático não barra ninguém na entrada), mas a ambição de Vladimir Putin é o clubão eurasiano.
Está difícil concretizar o projeto. A União Eurasiana é uma fabricação de Putin para servir de alternativa aos planos da União Europeia (UE) de aprofundar parcerias com ex-membros do clube soviético (com eventual entrada no próprio clube da UE). A corda esticou na competição pela Ucrânia, estopim da atual encrenca.
É verdade que, apesar do gelo dos “decadentes ocidentais”, o sucesso diplomático de Putin avança. Agora foi a vez do venal (e supostamente aliado dos EUA) presidente afegão Hamid Karzai dar seu apoio público à anexação da Crimeia pela Rússia. O Afeganistão tem pretensões territoriais no noroeste do Paquistão e gostaria de redesenhar fronteiras, mas este não é o foco aqui. O tema é o resultado da grande estratégia de Putin. O Afeganistão se junta a outros dois governos, o de Bashar Assad, na Síria, e Nicolás Maduro, da Venezuela, como sócio-visitante deste clube seleto a favor do perigoso aventureirismo de Moscou. Na velha piada, eu não quero ser sócio de um clube que convida esta gente.
Um tema interessante são os futuros sócios titulares do clube eurasiano que não se sentem à vontade com os lances de Putin. Um deles é Alexander Lukashenko, da Bielorússia, conhecido como o “último ditador da Europa” advertiu que a anexação da Crimeia estabelece um “mau precedente” e defende uma Ucrânia unida, embora reconheça o desfecho “de facto” das coisas no mar Negro.
O grandalhão Lukashenko é uma espécie de “mini-me” de Putin, embora tenha chegado antes ao poder (em 1994). Ele não é chegado em manifestantes de rua pedindo democracia e ficou horrorizado com a revolução em Kiev que depôs o grandalhão Viktor Yanukovich em fevereiro. Lukashenko bota para quebrar sempre que irrompem manifestações pró-democracia no seu país.
No entanto, Lukashenko não gosta da doutrina Putin, ou seja, o direito russo de intervir para “proteger” minorias russas fora do território nacional. Na Bielorússia, os russos são 11% da população e a 70% dos habitantes falam russo.  E assim como a Ucrânia,que perdeu a Crimeia, a Bielorússia abriu mão do arsenal nuclear herdado da ex-URSS em troca de garantias da Rússia, EUA e Grã-Bretanha de respeito à sua soberania e integridade territorial.
Na esfera da antiga Uniao Soviética existe temor com os lances de Putin. A Moldávia se sente vulnerável, especialmente porque não aderiu  ao pacto econômico arquitetado pela Rússia, a União Eurasiana, ao contrário da Bielorússia e o Casaquistão (terra do nosso querido Borat), que já mandaram a ficha de inscrição para o clube. A primeira-ministra alemã Angela Merkel, aliás, acaba de advertir Putin para não colocar olho gordo na vulnerável Moldávia.
O lançamento formal da União Eurasiana será em janeiro de 2015. O Casaquistão também não expressa conforto com a anexação da Crimeia. Putin fala vagamente na sua versão da doutrina humanitária da “responsabilidade para proteger” (no caso, minorias russas ou quem fale russo no exterior) e isto soa irresponsável para muitos países, temerosos de que não passe de desculpa para o projeto expansionista ou de restauração imperial do presidente russo.
Ironicamente, um projeto expansionista pode enxugar a influência da Rússia onde ela gostaria de aumentá-la.


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