segunda-feira, 3 de março de 2014

CAIO BLINDER- O samba do russo doido (IV)

No domingo, fantasiado de John Kennedy em tempos de crise, Obama conversou com Putin
Fantasiado de John Kennedy em tempos de crise, Obama conversou com Putin
A Ucrânia está uma doideira. Eu e tantos leitores da coluna estamos lendo de forma adoidada sobre a crise. Gurus, kremlinólogos, crimeialogos e consultores de risco disparam as análises mais variadas e desenham os cenários mais criativos. Antes de tudo, vamos tranquilizar os foliões, tanto os literais, como os intelectuais. Em Sebastopol e Simferopol, não está começando a Terceira Guerra Mundial. A encrenca é enorme, mas muito menor do que uma Sarajevo, estopim da primeirona há 100 anos.
Em termos morais, o que Vladimir Putin está fazendo é indefensável, mas os ucranianos não têm como se defender. A revolução em Kiev, consumada com a fuga do palácio do avestruz Viktor Yanukovich, mexeu com o nosso homem em Moscou, o urso. Eu volto à citação do historiador Timothy Garton Ash de que sem a Ucrânia a Rússia não é um império e, assim, com o perdão do trocadilho infame, Putin se torna um Putinho.
Podemos até dizer que estamos em uma Guerra Fria 2.0, mas ela sofreu um downgrade. O megaguru Ian Bremmer (do grupo Eurasia) observa que a Rússia não importa como costumava no cenário global. Na verdade, grande parte do problema é o fato de ser um poder declinante. E não há jeito de convencer o nosso homem em Moscou desta realidade. Outro problema, ainda mais grave, é a posição diplomática mais fraca dos EUA. Barack Obama já está convencido disso.
Quanto ao miniguru do Instituto Blinder & Blainder, ele perde um pouco o rumo devido ao ritmo vertiginoso dos acontecimentos. É o rascunho da história sendo escrito e reescrito a todo momento. No entanto, o miniguru acredita que o controle da Crimeia (naturalmente russa) é missão essencial e visceral para Putin. Ele precisa de um governo camarada em Kiev (até menos ladrão e truculento do que Yanukovich) e fará o que puder para alcançar seu objetivo, mas não despachando os tanques para a capital ucraniana.
Nosso homem em Moscou não tem bala, ao contrário do que sacam a musa da coluna, Julia Ioffe, e outros analistas, para sequer invadir o leste da Ucrânia, a banda russa do país. Concordo com o pessoal do grupo Eurasia nesse sentido. Na expressão de uma recente avaliação de seus analistas, o “custo, risco e responsabilidades desta ação são provavelmente muito altas para ser a primeira opção de Moscou”.
Erros de cálculo, descontrole e provocações de vários atores podem levar a este desfecho perigossísimo. Até as eleições ucranianas de 25 de maio, o grupo Eurasia estima em 40% a chance de uma invasão russa do leste da Ucrânia. Algum tipo de absorção da Crimeia por Putin seria, well, absorvido pelo Ocidente. Além, não dá para encarar.
O Instituto B & B é ruim de números. Não vai colocar uma estatística, mas ainda projeta algum arranjo para a desescalada da crise nos próximos dias, fruto dos limites das ambições de Putin e das pressões do Ocidente para dar um tempo na doideira. Se eu estiver errado, a culpa é do nosso homem em Moscou e de algum megaguru.

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