quinta-feira, 20 de março de 2014

Caio Blinder- Putin, o perdedor

O presidente russo quando adolescente
O presidente russo quando adolescente
Na coluna de quarta-feira sobre o revisionismo de Vladimir Putin, eu dei espaço para dois ex-embaixadores americanos em Moscou, muito críticos do presidente russo. Nesta coluna, eu vou dar a palavra para outro ex-embaixador americano com uma postura que podemos definir como mais balanceada. Jack Matlock é uma figura histórica e quem ler seu artigo entenderá. Matlock esteve lá, nos estertores da Guerra Fria, quando servia em Moscou, a Moscou ainda da União Soviética, nos tempos de negociações de Ronald Reagan e George Bush (pai) com Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin.







Matlock, na cortina (não de ferro), em reunião Reagan/Gorbachev


Matlock lamenta que desde o final da Guerra Fria o Ocidente tenha tratado a Rússia como “loser”. A expressão é forte. Significa mais do que perdedor. “Loser” é um fracassado, um pobre coitado. O termo é humilhante em uma brincadeira de crianças. E Matlock acredita que a postura nesta crise ucraniana seja infantil e estridente tanto da parte dos EUA como da Rússia (é uma avaliação que contrasta com uma mais comum, tratando o presidente Obama como distante e relapso, nada estridente). O ex-embaixador Matlock inclusive minimiza a crise, dizendo que não se trata de uma retomada da Guerra Fria, mas de desentendimentos e de teatro para plateias domésticas (esta não é a opinião dos ucranianos).
Não vou dar todos os detalhes do artigo. O acesso para a íntegra está indicado acima. No entanto, destaco a avaliação de Matlock de que sucessivos governos americanos (Clinton, Bush e Obama) não trataram a Rússia com o devido respeito no pós-Guerra Fria (no caso de Obama foi mais o Congresso do que a Casa Branca). Para o ex-embaixador, foi gerado um ciclo de ações e reações que envenenaram as relações entre EUA e Rússia. A ocupação militar da Crimeia pelos russos exacerbou a situação e muito mais a anexação. Matlock vislumbra um cenário de recriminações mútuas e sanções econômicas reminiscente da Guerra Fria. É um cenário sem vencedores, apenas de perdedores.
Agora, minha intervenção, quase telegráfica. A URSS, de fato, perdeu a Guerra Fria de forma estrondosa (nem vou entrar aqui no debate se foi fruto das ações do outro lado ou da dinâmica interna) e sem dúvida o Ocidente (a destacar os EUA) deu alguns passos errados que geraram revanchismo e ressentimento no que hoje é a Rússia, um império enxuto. Matlock inclusive ressalta que no começo Putin era muito cordato, receptivo ao Ocidente.
No entanto, é ingenuidade imaginar que pirulitos teriam sido suficientes para adoçar alguém como Putin. Ele vive em estado de autocomiseração adolescente, misturado com petulância igualmente adolescente, lamentando o rumo que a história tomou. Seu revanchismo é marca registrada. Depois do caos que se seguiu ao esfacelamento da URSS, Putin veio para reconstruir o aparato de segurança, beneficiar os “seus” oligarcas e fazer tudo ao seu alcance para restaurar glórias passadas. Putin não está aí para aceitar placidamente a derrota. Não quer ser um “loser”.
Entre os grandes vencedores da Guerra Fria estiveram a Alemanha reunificada e países da Europa Oriental, a destacar a Polônia. Muito se fala que é preciso buscar equilíbrio no jogo de interesses e aceitar esferas de influência. Este cálculo deve ser feito no caso da Rússia, mas existem outros atores envolvidos. A Polônia tem seus interesses e os países b álticos também. Natural que quisessem a incorporação à Otan, a aliança militar ocidental, como proteção contra a Rússia.
E na crise em curso, é preciso levar em conta os interesses da Ucrânia. Ela não pode sair como “loser” nesta história.

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