quinta-feira, 20 de março de 2014

Caio Blinder- Putin, o revisionista



Um discurso histórico no Kremlin
Vladimir Putin fez um discurso brilhante e sinistro na terça-feira ao anunciar a anexação da Crimeia pela Rússia. Ele manteve o tom de desafio e expôs hipocrisias ocidentais (numa típica performance de agitprop), mas calibrou a belicosidade. Putin deve continuar a provocar a Ucrânia, mas a curto prazo deu a entender que não haverá uma invasão ou desestabilização em larga escala. O problema é definir o curto prazo. Putin é imprevisível e a situação ucraniana é volátil.
No discurso, Putin jogou para várias plateias e deixou várias coisas em aberto. Teve esta sinalização de que ele não enviará tropas mais a fundo na Ucrânia, além da Crimeia, mas Putin manteve a mensagem de que o governo interino em Kiev é ilegítimo, dominado por nacionalistas, fascistas e antissemitas.
Putin quis tranquilizar os ucranianos que a Rússia não tem propósitos expansionistas ou planeja rachar o território do vizinho, mas em um ponto do discurso ele questionou os direitos históricos da Ucrânia no leste e sul do país, onde há uma grande percentagem de russos étnicos. Para um dirigente que considera o fim da URSS a grande catástrofe geopolítica do século 20, sempre haverá margem para revisionismo histórico no século 21 e no discurso de terça-feira Putin foi pródigo na cantilena das humilhações russas e soviéticas. Ele padece de ressentimento histórico e quer revisar o passado.
Uma figura constante nesta coluna, Gideon Rachman, do Financial Times, adverte sobre o perigo de guerras começarem pela revisão de livros históricos. Ele menciona Rússia, China e Japão, mas para não desgalhar vamos ficar apenas com o nosso homem em Moscou. Em janeiro, Putin “presidiu” uma reunião, ou seja, deu as ordens para que sejam produzidos novos livros escolares para o ensino de história.
Ele reclamou que muitos textos nas escolas russas são “lixo ideológico” e “denigrem o papel do povo soviético na luta contra o fascismo”. O líder do Kremlin, ex-agente da KGB lotado na ex-Alemanha Oriental, não gosta especialmente da narrativa de que os países da Europa Oriental foram ocupados pela União Soviética em 1945. Putin prefere a narrativa histórica de que os soviéticos salvaram estas nações do fascismo. Estes povos foram libertados.
Como  já foi dito na coluna, aspecto essencial da agitprop 2014 é denunciar o governo interino em Kiev como fascista e herdeiro ideológico dos ucranianos que se aliaram aos nazistas para combater os soviéticos na Segunda Guerra Mundial (e como rotular os soviéticos que se aliaram aos nazistas no começo da Segunda Guerra Mundial para fatiar a Polônia?). Ironicamente, Rachman lembra que Putin tem relações calorosas com o governo conservador da Hungria liderado por Viktor Orbán, que tem encorajado a reabilitação de Miklos Horthy, o líder autoritário e antissemita do país entre as duas guerras mundiais.
Em Sebastopol, na Crimeia, ao embalo dos velhos tempos
Em Sebastopol, na Crimeia, ao embalo dos velhos tempos
Ninguém vai negar os laços históricos da Crimeia com a Rússia (o que deve ser negada é esta anexação ilegal e a toque de caixa). Michael McFaul, professor de Stanford e até fevereiro embaixador dos EUA em Moscou, fez um comentário ilustrativo. Ele disse que quando servia na Rússia raramente a questão da Crimeia era levantada por autoridades locais. McFaul não tem registro de um discurso de Putin devotado ao drama dos russos da Crimeia antes da atual crise. Stephen Sestanovich, outro acadêmico-diplomata nos EUA, observa que o governo russo nunca havia manifestado apoio até agora ao desmembramento de território de uma ex-república soviética e sua incorporação à Rússia.
No pronunciamento de terça-feira, Putin qualificou a Crimeia de “terra santa”, coerente com uma narrativa em que o ex-agente da KGB soviética incorporou um nacionalismo religioso ao seu exercício de poder. Tudo isto num cenário de nostalgia stalinista em Moscou e na Crimeia, ao embalo da velha melodia do hino soviético, enquanto na nova letra do hino da Federação Russa a pátria é  ”protegida por Deus”.
McFaul é categórico para afirmar que Putin reagiu (reação emocional na sua expressão) aos eventos em Kiev (a deposição do governo pró-russo de Viktor Yanukovich em fevereiro) e não tinha uma grande estratégia de anexação da Crimeia. Foi um movimento tático. Stephen Sestanovich diz que o nosso homem em Moscou improvisou. A história caiu nos braços do Putin. Para ele, agora é só revisar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Seguidores

Arquivo do blog

LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.