sábado, 1 de março de 2014

CAIO BLINDER- Putin tirou a fantasia de estadista

Até a semana passada, Vladimir Putin se dava ao luxo de vestir a fantasia de estadista. Estava lá no carnaval dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Mas, agora, ele tirou a fantasia. É quarta-feira de cinzas na Ucrânia. Putin é o que é: um bully. Claro que é também um inescrupuloso jogador no xadrez diplomático. Com ele não tem esta de atuar como um acionista responsável da ordem mundial. A Ucrânia é seu quintal e ele precisa mantê-la na sua órbita de influência.
Eu imaginava que seria uma jogo mais paciente, com Putin apostando que a precária ordem anti-russa instalada com a revolução na Praça da Independência em Kiev se esfarelasse rapidamente. Provavelmente eu errei. O bully de Moscou já está botando para quebrar na Crimeia, com uma gradativa ocupação da região autônoma da Ucrânia.
Até entendo a história: existe uma afinidade da Crimeia com a Rússia e a região não se ajusta a esta nova e precária ordem em Kiev. Há, porém, um outro fator. Putin é basicamente o capo de uma família mafiosa. Ele se preserva na posição pelo medo e não pode suavizar, não tanto diante do mundo, mas dentro de casa. Putin tem valor para sua cidadania como o bully que oferece proteção. Foi assim que cimentou seu poder após os anos de caos que se seguiram ao colapso da URSS.
Sobre a reação do mundo, ou seja, de Barack Obama, presidente do país mais poderoso do mundo, vejo tudo com uma certa resignação, mais do que exasperação ou fúria. Ele pode fazer algumas advertências e eventualmente adotar algumas retaliações simbólicas, como não dar as caras na cúpula do G-8 em Sochi, em  junho. Aliás, por que a Rússia ainda integra este clube? A margem de manobra do presidente é limitada, pois existe um torpor nacional sobre as coisas do mundo. E a liderança anódina (que expressão!) de Obama apenas agrava esse torpor.
Vejo também as coisas com uma certa perplexidade. Faço este esforço para absorver a lógica de Putin (e as coisas são realmente brutais na sua vizinhança) mas compartiho a incredulidade do editorial deste sábado do Financial Times: “Putin deve perguntar a si o que a Rússia ganha ao entrar em um conflito prolongado com seu maior vizinho pós-soviético. Estrategicamente, não faz sentido.”
Putin, desta vez, está indo longe demais. Não está dando o baile que se imagina. A longo prazo será derrotado por sua própria folia.

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