sábado, 22 de março de 2014

Caio Blinder- Rabiscos estratégicos (Otan & Ucrânia)

A Otan, a aliança militar ocidental, manifesta sua gratidão a Vladimir Putin por suas travessuras ucranianas. A agressão militar russa, a violação da soberania de um país e a anexação de parte de seu território (a Crimeia) resgataram a Otan de sua trajetória rumo à irrelevância. Sua missão no Afeganistão está terminando e o foco dos EUA, cansado de guerra e principal acionista da aliança criada na Guerra Fria, se deslocara para o Oriente Médio e o Pacífico.
Mas, diante dos desdobramentos ucranianos, existe uma rápida mudança de percepção e confirmação de premonições. Como disse a presidente da Lituânia, Dália Grybaustakaite, “graças a Deus, nós somos membros da Otan”. Com a integração na aliança, a Lituânia, outros dois países bálticos (a Estônia e a Letônia) e a Polônia estão explicitamente sob proteção militar, ao contrário da Ucrânia e outras ex-repúblicas soviéticas.
Com a escalada da crise nas últimas semanas, a Otan foi à carga modestamente com o incremento de patrulhas aéreas e manobras militares no Báltico, na Polônia e também na Romênia. A modéstia reflete o desejo de não provocar o urso russo com vara longa e o mero desequilíbrio de interesses. A Crimeia vale muito mais para Moscou do que para as capitais ocidentais. No entanto, a Otan pode cantar vitória: o lance russo deve renovar apoio popular nos países membros da aliança e nos pretendentes, além de reviver o propósito da missão. E com a perspectiva de um prolongado conflito com a Rússia, será brecado e mesmo revertido o corte de orçamento entre os integrantes da Otan.
Uma das ramificações mais delicadas da crise ucraniana envolve a expansão da Otan. O governo interino da Ucrânia seguiu o figurino e para não dar mais pretextos belicosos para Putin descarta qualquer interesse em aderir à aliança. O dilema, porém, é flagrante e o jogo intrigante. De um lado, é preciso apaziguar Moscou. Do outro, se precaver. No seu discurso triunfalista na terça-feira em Moscou, anunciando a anexação da Crimeia, Putin garantiu que não quer dividir a Ucrânia ou avançar no leste daquele país. Duas semanas antes, ele dissera que “não considerava” a possiblidade da Crimeia se juntar à Rússia. Quantos rublos vale a palavra de Putin? É obrigação da Otan e dos países ocidentais traçar uma convincente linha vermelha e não permitir que os russos invadam o leste da Ucrânia.
Arrebatar a Crimeia foi basicamente um prêmio de consolação para Moscou depois da queda do governo pró-russo em Kiev, de Viktor Yanukovich em fevereiro. Um objetivo geopolítico essencial de Vladimir Putin é impedir que a Ucrânia entre na Otan, além de sua integração mais profunda com a União Europeia. Tais movimentos ucranianos são “linhas vermelhas” para o dirigente russo, suas fichas de barganha.
Se as condições de Putin forem acatadas, em princípio não haverá novas movimentações russas para abocanhar território ucraniano. Moscou deve calibrar as provocações e o grau de desestabilização no país vizinho de acordo com a dinâmica da coisas e tudo indica que seja dia a dia. Caso não aconteça nenhum terrível acidente de percurso (incidente em larga escala), uma data-chave será a eleição ucraniana de 25 de maio. O que fará Moscou caso os ucranianos queiram pender para o Ocidente?
Mas, tudo é vago na crise e são voláteis as definições do que pode e não pode ser feito. Qualquer iniciativa da Otan poderá servir de desculpa para as provocações de Putin (e vice-versa). Putin tem uma aliança com ele mesmo. Enquanto as coisas são mais difusas do outro lado, com um trabalho penoso para se conseguir o consenso. A conversa de expansão da Otan gera divisões internas. Em 2008, Alemanha e França rechaçaram a proposta do então governo americano de George W. Bush para agregar a Ucrânia e a Geórgia.
No entanto, muito mais está em jogo nesta crise e  a razão de ser da Otan mais convicta após uma crise de identidade. Afinal, a ordem pós-Guerra Fria foi enterrada com os últimos acontecimentos em  Kiev (a revolução de fevereiro) e na Crimeia (a anexação em março). Agora, temos os contornos ainda não definidos de uma nova rivalidade Ocidente x Rússia.
A Otan vive dilemas sobre sua extensão e com qual nitidez demarcar posição, mostrando firmeza sem errar na dose. Com o urso russo, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
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