domingo, 9 de março de 2014

CAIO BLINDER- Rabiscos Estratégicos (Ucrânia) II

Com os sucessivos trancos de Vladimir Putin na crise ucraniana (como a orquestração do referendo que leve à adesão à Rússia da região autônoma da Crimeia), os países ocidentais são forçados, aos trancos e barrancos, a jogar mais duro. Isto vale especialmente para a União Europeia (UE). Está cada vez mais difícil para a primeira-ministra alemã Angela Merkel contemporizar. Sob pressão americana e da sua ala jovem (os países da antiga órbita soviética), a UE adotou um tom mais vigoroso do que se esperava na sua reunião de cúpula em Bruxelas, na quinta-feira.
Tudo está mais no tom de ameaças do que de punições efetivas (e até aí fica mais fácil a afinação europeia com o governo Obama). E numa conversa telefônica na quinta-feira com Putin, o presidente Obama disse que a saída diplomática ainda existe para o presidente russo se safar de sua própria armadilha. Muito agora, portanto, vai depender do nosso homem em Moscou. A retórica e as ameaças ocidentais estão um pouco mais afiadas, fruto de exasperação com a ocupação militar russa da Crimeia (a chamada intervenção de veludo, pois até agora tem sido macia) e ansiedade com o que pode acontecer no leste da Ucrânia, a parte pró-Rússia do país.
Razões para ceticismo sobre o vigor ocidental são convincentes e integram o cálculo estratégico de Putin. Ele enxerga um complô geopolítico do Ocidente para dar cabo do seu projeto eurasiano (uma espécie de União Soviética “lite”) e, ao mesmo tempo, minimiza  o esforço ocidental, coisa de gente frouxa, como o nosso homem em Washington. Putin calcula que depois de 13 anos de guerras no Afeganistão e no Iraque, os EUA não terão apetite para um confronto. O império está em retirada. E quanto aos frágeis e divididos europeus, eles não terão condições de agregar recursos e disposição para este confronto. Nossa “frau” em Berlim quer, isto sim,  gás e negócios com uma Rússia restaurada.
Mas, já existem medidas mais substanciais. É verdade que uma Europa em crise econômica e envolta em um debate sobre seu alargamento não estava animada com o cenário de abraçar a Ucrânia, uma ex-república soviética, mas a crise em curso muda a dinâmica e agenda. Entre as decisões adotadas na cúpula de Bruxelas, um lance ousado e inesperado foi a decisão de ir adiante com mais rapidez do que se previa com um pacto político com a Ucrânia, aproximando o país da UE.
Foi esta questão que deflagrou a crise em novembro, com protestos que levaram à deposição do presidente Viktor Yanukovich, que se recusou a assinar o acordo, e à ocupação militar da Crimeia pelos russos. Até agora, a UE falava em reviver o pacto apenas depois das eleições ucranianas de 25 de maio. A parte comercial ficará para depois, mas Angela Merkel e o primeiro-ministro polonês Donald Tusk prometeram que o acordo político poderá ser em breve ser assinado.
Com tantas marchas e contramarchas, não vou me aventurar aqui a especular sobre o fim da crise, mas se for consolidada a aproximação política da Ucrânia com a União Europeia será uma grande derrota para Putin ter uma ex-república soviética da envergadura da Ucrânia escapar ao seu controle. Putin poderá até vencer a batalha da Crimeia, mas perderá a guerra da Ucrânia.
E, ironicamente, o confronto com a Rússia de Putin poderá dar vida nova para a Otan, a aliança militar ocidental em crise de identidade e com questões sobre sua relevância desde o final da Guerra Fria, uma Otan já ampliada no ex-quintal soviético. Os EUA enviaram seis jatos F-15 para se juntarem a patrulhas aéreas da Otan sobre os países bálticos para sinalizar presença junto a inquietos aliados na Europa Oriental. E na semana que vem, uma dúzia de F-16 e 300 soldados americanos vão participar de exercícios militares na Polônia, que foram expandidos em resposta à incursão russa na Ucrânia. E em terceiro lugar, manobras navais americanas com forças romenas e búlgaras no Mar Negro.
Na sua nostalgia por uma Rússia gloriosa, o urso Putin atiça um leão ocidental cansado de guerra.

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