terça-feira, 18 de março de 2014

Caio Blinder- A Ucrânia e os fantasmas de 1989 (e anteriores)



Será o perigoso big game que lembra o estopim da Primeira Guerra Mundial em 1914? Será o equivalente da marcha de Hitler nos anos 30 diante do apaziguamento ocidental? Será mais um clínico laboratório da realpolitik? Existem analogias para todos os gostos e desgostos na crise ucraniana. Aqui está a contribuição de Paul Berman, um valoroso ensaísta e polemista que pode ser posicionado na ala dos intervencionistas liberais ou da esquerda antitotalitária. Prefiro rotular Berman como uma cabeça independente e corajosa.


Para Berman, a crise ucraniana é um novo capítulo da história do espírito revolucionário de 1989 e dos fantasmas soviéticos. Há 25 anos, as revoluções na esfera soviética abriram caminho para novos revoluções, como a ucraniana em 2004. No entanto, a Revolução Laranja degringolou. Berman viaja pela história dos últimos 10 anos e com outras revoluções que geraram assombrações (na Primavera Árabe). Com os solavancos, a prioridade passou a ser estabilidade (em particular na política externa americana, hoje arredia a intervencionismo) e a democracia passou a ter uma função ornamental.


Mas, as multidões ucranianas em fevereiro de 2014 estavam desinteressadas em estabilidade. A nova revolução foi um abraço das estruturas e valores liberais da União Europeia, que, como lembra Berman, é um subproduto das revoluções de 1989 ( com a reunificação alemã e adesão ao clube de países da Europa Oriental).


Berman, que conhece bem tanto a política do Oriente Médio como a da América Latina, estabelece vagas (e pouco convincentes para mim) conexões entre contágio revolucionário na Ucrânia, Siria e Venezuela para chegar ao seu ponto: o inimigo comum é Vladimir Putin. Nas palavras de Berman, Putin é o “secretário-geral do Kremlin” e invadiu a Ucrânia com base na mesma lógica de Khrushchev (Hungria, 1956) e Brezhnev (Tchecoslováquia, 1968). Atenção, putralhas, é a lógica da contra-revolução.


Na lógica dos secretários-gerais do Kremlin, faz todo o sentido. Basta ver quem rompeu o padrão: o herege Mikhail Gorbachev. Ele não invadiu nenhum país e a URSS foi para a fogueira. Putin retomou a linha justa. Invadiu a Geórgia em 2008 e agora a Ucrânia. Eu considero mecânica a sacada de Berman sobre a atuação de Putin pela lógica do “partidão”, mas por vias tortas é até possível chegar no mesmo lugar (Putin, afinal também funciona com uma lógica imperial russa anterior ao “partidão”).


O arremate de Berman é sedutor para mim (e sempre gostei do seu texto fluente). A estabilidade na Guerra Fria era um mito. Depois da Segunda Guerra, a Rússia nunca estabeleceu uma zona de tranquilidade na sua esfera de influência, exceto por alguns breves períodos. As revoluções tiveram lugar em 1953, 1956, 1968, 1989, 2000, 2003, 2004 e agora em 2014. O padrão na região é rumo ao leste, a Moscou, pela mudança de regime. Berman finaliza dizendo que Putin está apavorado com este padrão e nós devemos “adotar seus medos como nossas esperanças”.

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