segunda-feira, 31 de março de 2014

Janer Cristaldo- LENTO É O BESTUNTO DO JORNALISTA XIITA

Em uma tentativa canhestra de louvar o islamismo no Irã, Samy Adghirni, o correspondente muçulmano xiita da Folha de São Paulo em Teerã, tenta ver avanços na revolução do aiatolá Ruhollah Khomeini. Sua reportagem, na edição de hoje, é eivada de contradições. Ora louva o exercício de profissões liberais por mulheres – sem nos dar estatísticas – ora lamenta limitações impostas às iranianas. Uma no prego e outra na ferradura.

“A história recente do Irã foi marcada por avanços e retrocessos na vida pública e familiar das mulheres. Entre os países islâmicos, é um dos menos adversos à população feminina, escolarizada e com acesso a diferentes setores profissionais e da política, mas ainda discriminada em termos culturais, jurídicos e financeiros”.

Segundo Adghirni, três décadas e meia após a revolução, o Irã voltou a ser um dos países de maioria islâmica com ambiente mais favorável - ou menos adverso - para a mulher. 

"A comparação chega a ser especialmente embaraçosa para os vizinhos do Irã. As sauditas são atreladas por lei a um tutor - irmão, pai ou marido - e não podem nem dirigir. No Qatar, casas tradicionais possuem duas salas de estar, uma para receber convidados, outra para manter as cônjuges, irmãs e filhas longe das visitas. As afegãs devem abster-se de falar com homens que não sejam ligados a elas por vínculos familiares”.

Quer dizer, melhor ser escrava que prisioneira – no fundo é isto o que o jornalista diz. E ainda sofisma, ao afirmar que sauditas são atreladas por lei a um tutor - irmão, pai ou marido - e não podem nem dirigir. Isto é verdade, mas omite que as iranianas também precisam de um macho tutor para sair às ruas. Se saírem sem o chador, arriscam a serem cuspidas na cara.

Diz Adghirni que as mulheres iranianas são as únicas no mundo legalmente obrigadas a cobrir cabelo e corpo. Mas elas estudam, trabalham e comandam empresas. São advogadas e juízas.

O correspondente só esquece de informar a quais sanções está exposta a mulher que sai sem chador. Quanto a serem advogadas e juízas, é curioso observar – como aliás Adghirni faz – a condição jurídica inferior da mulher:

“No tribunal, o testemunho feminino ainda vale metade do masculino. O "preço do sangue", indenização paga pela família de um assassino a parentes da vítima, também é inferior em caso de morte de mulher. A herança dos filhos é maior que a das filhas. Homens podem pedir divórcio com mais facilidade. A mãe tem chances mínimas de obter a guarda dos filhos. (...) Vulnerável nos tribunais, a iraniana carece de recursos para reagir a humilhações de todo tipo”. 

Deve ser no mínimo insólito ver uma advogada defendendo ou uma juíza julgando uma colega de sexo.

De fato, o Irã é um dos países de maioria islâmica com ambiente mais favorável - ou menos adverso - para a mulher. Como grande progresso na condição feminina, nosso informante xiita fala de uma cantora lírica, a soprano Shiva Soroush, que em agosto passado, pela primeira vez desde a chegada dos aiatolás ao poder, há 35 anos, cantou sozinha em público ... por menos de meio minuto. “Foi suficiente para enterrar o tabu pelo qual uma voz feminina só era lícita se acompanhada de uma masculina”. 

Mais uns 35 anos, e uma soprano poderá talvez cantar minuto e meio.

Registre-se em favor do jornalista a homenagem que faz ao último líder esclarecido do Irã, deposto por Khomeini: “Shiva nasceu e cresceu sob o regime teocrático e nunca teve dinheiro para viajar ao exterior. Mas ela faz parte da legião de iranianas, anônimas ou ilustres, que desbravam caminhos para tentar recuperar a proeminência perdida com a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi, em 1979”.

Quando o xá libertou as mulheres do jugo do Islã e as iranianas eram livres de fazer o que bem entendessem, deveria acrescentar. Mas seria pedir demais ao correspondente xiita.

Para reforçar a excelência da condição feminina no Irã, Adghirni traz o testemunho da arquiteta Sahere Foruhi, que se orgulha de contrariar frontalmente o clichê da iraniana submissa.

“Bem-sucedida, viajada e mãe divorciada, espreme sua agenda diária entre serviços para a Prefeitura de Teerã e um escritório no qual tem o ex-marido como sócio. Sahere avalia que o preconceito ocasional contra mulheres, na rua ou no mundo dos negócios, se assemelha ao da Itália, onde estudou. "Na maioria dos países europeus, a situação não é tão diferente da nossa. Invejável, só a Escandinávia. Ali, sim, as mulheres estão com tudo".

Acredite quem quiser.

Adghirni parece estar descobrindo o mundo em que vive e cuja língua desconhece. Após vários anos de trabalho em Teerã, finalmente viu a prostituição disfarçada sob o manto do casamento temporário. Hosana nas alturas! Pela primeira vez, nos fala do sigheh.

Ora, para isto não é preciso ir ao Irã. A instituição é amplamente discutida na internet. Sem ser correspondente no país, em setembro de 2002 – há 14 anos, portanto – eu já falava do matrimônio temporário permitido pelo ramo xiita do Islã, que pode durar alguns minutos ou 99 anos, especialmente recomendado para viúvas que precisam de suporte financeiro. 

Reza a tradição que o próprio Maomé o teria aconselhado para seus companheiros e soldados. O casamento é feito mediante a recitação de um versículo do Alcorão. O contrato oral não precisa ser registrado, e o versículo pode ser lido por qualquer um. As mulheres são pagas pelo contrato. 

Esta prática foi aprovada após a "revolução" liderada pelo aiatolá Khomeiny que, ao derrubar o regime ocidentalizante do xá, tentou canalizar o desejo dos jovens sob a segregação sexual estrita da república islâmica. Num passe de mágica, a prostituição deixa de existir. O que há são relações normais entre duas pessoas casadas. Não há mais bordéis. Mas casas de castidade. A cidade está limpa. 

Antes tarde do que nunca. Lento é o bestunto dos correspondentes xiitas.

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