sábado, 8 de março de 2014

O samba da diplomacia doida de Dilma

RICARDO SETTI


SEM ARGUMENTOS NÃO TEM ACORDO -- Dilma Rousseff discursa na VII Cúpula entre Brasil e União Europeia, em Bruxelas: pobre do tradutor simultâneo (Foto: Wiktor Dabkowski / Zumapress.com)
SEM ARGUMENTOS NÃO TEM ACORDO — Dilma Rousseff discursa na VII Cúpula entre Brasil e União Europeia, em Bruxelas: pobre do tradutor simultâneo (Foto: Wiktor Dabkowski / Zumapress.com)
Texto de  Duda Teixeira, publicado em edição impressa de VEJA
O SAMBA DA DIPLOMACIA DOIDA
Em Bruxelas, Dilma Rousseff demonstra o que os europeus podem esperar do Brasil em relação a um acordo comercial: frases sem nexo e um mundo fantasioso
“Este é o samba do crioulo doido.” Assim começa a música de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta (1923-1968), sobre um certo compositor que obedecia ao regulamento e só fazia canções sobre a história do Brasil. Quando escolheram um tema complicado, a “atual conjuntura”, o compositor endoidou.
Tiradentes falou com Anchieta, aliou-se a dom Pedro e da união deles foi proclamada a escravidão. Na diversão do Carnaval, a ausência da lógica garante a alegria dos foliões que querem distância de qualquer assunto chato. Em reuniões diplomáticas internacionais, porém, é um desastre quando um governante toma esse tipo de liberdade com o idioma, com a história, a geografia e a lógica.
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Em seu discurso na segunda-feira 24, na VII Cúpula Brasil-Europa, em Bruxelas, a presidente Dilma Rousseff protagonizou um desses momentos constrangedores para ela e, como representante do Brasil, para todos os brasileiros. Dilma se disse satisfeita por estar presente na VI Cúpula.
O fato de a presidente errar a edição do evento do qual estava participando foi o menor dos deslizes do dia. Depois disso, nossa chefe de Estado deu muito trabalho ao tradutor simultâneo e ao responsável pelas transcrições dos discursos da presidente no blog do Planalto.
A viagem a Bruxelas tinha o objetivo de fazer avançar as negociações para a assinatura de um acordo de livre-comércio.
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Para o Brasil, o assunto é do máximo interesse. As exportações brasileiras para o bloco poderiam aumentar em 12% com o tratado. Preso às amarras ideológicas do Mercosul bolivariano, contudo, o Brasil não conseguiu costurar até agora um único acordo comercial com um parceiro de peso. Quem manda no Mercosul são Venezuela e Argentina.
Afogados nos próprios e monumentais erros de gestão ruinosa, esses dois países tragam os demais para seu buraco negro isolacionista e
xenófobo. O Brasil não tem força para se impor e vai a reboque. Enquanto isso, as nações viáveis da região se uniram em torno da Aliança do Pacífico, a área de livre-comércio formada por Chile, Colômbia, México e Peru.
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São eles os novos tigres da economia sul-americana. O Brasil, mais uma vez, perdeu a chance de liderar a região no rumo certo. “Isso põe em risco o futuro das exportações da indústria brasileira, que também enfrenta dificuldades tributárias, cambiais e logísticas”, diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca, da Kaduna Consult.
Quem mais tem tentado empurrar as negociações para a frente com o Brasil são os europeus. Em dezembro, eles questionaram a justeza dos incentivos tributários dados às fábricas da Zona Franca de Manaus. Dilma correu a defender a existência da Zona Franca. Pena que ela usou argumentos falaciosos e cometeu erros ridículos como afirmar que Manaus é a capital da Amazônia e informar que as árvores são “plantadas” pela natureza.
Falar de improviso é sempre um risco para qualquer orador. Poucos líderes mundiais hoje conseguem sustentar um discurso longo convincente diante de plateias tarimbadas. Mas esses oradores contam sempre com o bom-senso, a autocrítica e os alertas dos assessores
sobre suas gafes. No Brasil de Lula e Dilma, tudo indica que esses fatores de correção de rota inexistem. Os assessores presidenciais brasileiros, ao que parece, morrem de medo de informar ao rei que ele está nu.
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Lula dizia impunemente os maiores absurdos históricos (Napoleão visitou a China), geográficos (o Oceano Atlântico separa o Brasil dos
Estados Unidos), físicos (a poluição do ar aqui decorre do fato de a Terra ser redonda e, ao girar, o Brasil passar na atmosfera dos países ricos poluidores).
Dizia essas e outras besteiras em tom professoral — o que tornava as cenas ainda mais ridículas. E não aparecia um único assessor com coragem e patriotismo bastante para arriscar o pescoço e dizer: “Calma lá, presidente, a estupidez tem limites!”.
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Dilma ainda vai ter de enfiar muita “pasta para dentro do dentifrício” para tirar de Lula a primeira colocação na disputa pelo título de “governante que mais falou bobagem impunemente neste país”.
Os governantes brasileiros deveriam ter em mente que tudo o que eles fazem e dizem tem efeito didático sobre a população. Desprezando o idioma e a lógica, eles deseducam o povo.

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