terça-feira, 11 de março de 2014

VIDA EM CUBA- Desvalorização, por Yoani Sánchez

É difícil uma célula se manter sadia num corpo enfermo. Numa sociedade ineficiente um borbulhar de funcionalidade aconteceria. Mesmo assim certos valores éticos não podem ser potencializados – selecionados e filtrados – em meio a uma débâcle de integridade moral. Resgatar códigos de conduta social implica em aceitar também aqueles que destoam da ideologia imperante.
Os meios oficiais agora nos chamam a recuperar valores perdidos. Segundo a versão dos comentaristas da televisão a responsabilidade da deterioração recai, fundamentalmente, sobre a família, uma parte na escola… E nenhuma sobre o governo. Falam de má educação, grosserias, falta de solidariedade e outros maus hábitos como: roubo, mentira e indolência. Num país onde por meio século o sistema educacional, toda a imprensa e os mecanismos de produção e distribuição cultural tem sido monopólio de um partido único, vale à pena perguntar: de onde surgiu tal depauperação?
Lembro que quando menina ninguém se atrevia a se dirigir ao outro com o qualificativo de “senhor” porque era um resquício burguês. Como ao vocativo “companheiro” se associava uma posição ideológica, então muitos começamos a nos chamar por novas formas: “primo”, “jovem”, “oi você”, “puro”… E uma longa lista de frases que descambaram em formas vulgares. Agora se queixam na TV que somos irreverentes aos nos dirigimos aos outros, porém… Quem começou  este estrago?
O sistema cubano apostou na engenharia social e brincou com a alquimia individual e coletiva. O exemplo mais acabado desse laboratório falido foi o chamado: “homem novo”. Esse Homus Cubanis supostamente cresceria no sacrifício, na obediência e na fidelidade. A uniformidade era incompatível com as particularidades éticas de cada lar. Desse modo, para consegui-la, afastaram milhões de cubanos – sempre que puderam – do ambiente familiar.
Íamos ao círculo infantil com apenas 45 dias de nascidos, os acampamentos pioneiros nos recebiam depois de aprender as primeiras letras, partíamos para as escolas de campo recém terminada a infância e passávamos nossa adolescência num pré-universitário em meio ao nada. O Estado acreditava que podia substituir o papel formador de nossos pais, pensou que conseguiria mudar os valores que trazíamos de casa por um novo código de moral comunista. Porém a criatura resultante distou muito do planejado. Nem sequer chegamos a nos converter num “homem bom”.
Também foram contra a religião passando por cima de que nos seus credos diferentes são transmitidos parte dos valores éticos e morais que modelaram a civilização humana e nossos próprios costumes nacionais. Fizeram-nos denegrir os diferentes, insultar com obscenidades os presidentes de outros países, escarnecermos de figuras históricas do passado, gritar e fazer barulho ao passar por uma embaixada estrangeira. Inculcaram-nos a “promiscuidade revolucionária” que eles mesmos já praticavam desde Sierra Maestra e nos incitaram a rir dos que falavam corretamente, tinham uma boa cultura ou exibiam algum tipo de refinamento. Este último nos foi ensinado com tanta intensidade que muitos de nós fingíamos falar vulgarmente, deixando de pronunciar algumas sílabas ou nos calávamos sobre nossas leituras para que ninguém achasse que éramos “uns bichos raros” ou, potencialmente, uns “contra-revolucionários”.
Da tribuna um homem gritou para nós durante cinqüenta anos. Suas diatribes, seu ódio, sua incapacidade de escutar calmamente um argumento contrário, foram as posturas “modelares” que aprendemos na escola. Ele nos infundiu a tagarelice, a crispação constante e o dedo indicador autoritário para nos dirigirmos aos outros. Ele – que acreditava saber tudo quando na realidade sabia quase nada – transmitiu-nos a soberba, o não pedir desculpas e a mentira, esse engano dos patifes e chantagistas que lhe caía tão bem.
Agora, quando o quadro ético da nação parece um espelho despedaçado no chão chamam a família para consertá-lo. Pedem-nos que criemos valores em casa e que transmitamos ordem e disciplina para nossos filhos. Porém, como fazê-lo? Se nem sequer ocorre um processo de autocrítica a partir do poder, onde aqueles que brincaram de engenharia social com nossas vidas reconheçam o que fizeram.
Os códigos éticos não se recompõem tão facilmente. Uma moralidade desvalorizada pelo discurso público não pode ser reposta de um dia para o outro. E agora? Como vamos consertar todo este desastre?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Seguidores

Arquivo do blog

LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.