quarta-feira, 30 de abril de 2014

A obra iraquiana

Caio Blinder
Nesta quarta-feira, o Iraque realiza suas primeiras eleições parlamentares sem a presença das tropas americanas, que partiram no final de 2011. As eleições são um referendo sobre o primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki, que busca um terceiro mandato (ele está no poder desde 2006). O Iraque tem apetrechos de uma democracia. É um avanço. Mas outras coisas também avançam, como o risco de guerra civil, banhos de sangue sectários em larga escala e o desmembramento do país.
Maliki, através de sua coalizão encabeçada pelo partido Dawa, é o favorito. O ressurgimento dos xiitas no Iraque foi o grande legado da invasão americana de 2003, algo inevitável se o projeto era devolver o país aos habitantes locais em um cenário democrático, pois os xiitas são 2/3 da população e as identidades sectárias não foram abafadas durante a cruel ditadura do sunita Saddam Hussein.
Dois governos americanos (o do republicano Bush que invadiu o Iraque e o do democrata Obama, eleito com a promessa de bater em retirada do país) investiram esperanças e recursos em Maliki. Uma vasta reportagem (13 páginas) da revista The New Yorker é um indiciamento do papel americano e do desempenho de Maliki.  O primeiro-ministro arrocha o controle sobre o estado. Um veterano associado de Maliki confidenciou ao repórter Dexter Filkins que “se ele ganhar desta vez, ele nunca deixará o poder”. E o que isto significa?
Além do óbvio avanço rumo ao autoritarismo, o Iraque terá o acirramento dos conflitos sectários e uma influência ainda maior do vizinho Irã. Maliki recorre a milícias xiitas treinadas pelos iranianos para combater insurgentes sunitas. Os conflitos inclusive já são mais intensos perto de Bagdá e a vasta região desértica povoada por tribos sunitas que faz fronteira com a Síria está inserida na dinâmica jihadista da guerra civil do país vizinho. Maliki, que nos últimos meses recebeu armamento americano para combater os insurgentes jihadistas, permite que o espaço aéreo do seu país seja violado pelos iranianos para transportar armas e combatentes para o aliado sírio Bashar Assad.
A ironia é que Bush e Obama investiram tanto em Maliki que ele se tornou mais poderoso, mais autoritário e mais sectário. Ele parecia ser a solução em um certo momento para construir pontes para algum tipo de projeto nacional. Mas, Maliki usou o seu poder para intensificar o cerco dos sunitas, que ele considera revanchistas. Na lógica da radicalização, a postura de Maliki reforçou os jihadistas, como o grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante, renegado até pela rede Al Qaeda, pois considera legítimo assassinar xiitas e não apenas os “cruzados e os judeus”.
E falando em construção de pontes, existe a corrupção, como os contratos falsos, um deles envolvendo US$ 1.2 bilhão para a construção de dez usinas de energia elétrica. A empresa canadense contratada para a obra existia apenas no papel. As alegações de corrupção envolvem do círculo íntimo de Maliki ao baixo escalão. Incrível, mas sempre tem um “lulinha” nas transações. No caso iraquiano, ele é Ahmed Maliki, que, de acordo com alegações, pede comissão por cada contrato concedido pelo governo às empresas privadas. Grande fonte de corrupção? Petróleo. Só ano passado, receitas acima de US$ 90 bilhões.
Não há dúvida sobre avanços positivos no Iraque. O destaque é a região autônoma do Curdistão, ao norte de Bagdá. Oprimidos e massacrados por Saddam Hussein (cerca de 200 mil foram mortos nos anos 8o e 90 na chamada Guerra de Aniquilação), hoje os curdos prosperam e vivem num ambiente mais pacífico, democrático e secular do que o resto do país. A rigor, o Curdistão é um estado independente, com seu exército e Parlamento. Até a corrupção é supostamente menos escandalosa. Na reportagem da New Yorker, um amigo curdo do repórter Dexter Filkins, diz que no Curdistão os líderes roubam 20%  e 80% das divisas do petróleo beneficiam a população. Em Bagdá, é o reverso
Em parte, este Iraque de Maliki e do sucesso curdo é obra americana. Idiotice recorrer ao jargão que os iraquianos eram felizes na época de Saddam Hussein e não sabiam. No entanto, os americanos não sabiam onde estavam se metendo  quando entraram e tampouco souberam como sair de lá.

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