quinta-feira, 3 de abril de 2014

Caio Blinder- Ânimo! Poderia ser ainda pior no Afeganistão

Anima falar das eleições presidenciais do Afeganistão? O primeiro turno acontece neste sábado e para os padrões locais será uma transferência de poder relativamente pacífica. É verdade que o Taleban está barbarizando (metade das seções eleitorais do país são consideradas inseguras) e não sabemos até que o ponto o presidente Hamid Karzai (vedado de concorrer a um terceiro mandato) irá aprontar para assegurar a vitória do seu candidato favorito, seu ex-ministro das Relações Exteriores Zalmay Rassoul. Karzai, que já foi um queridinho dos EUA (hoje ele é motivo de exasperação), recorreu à fraude escancarada na sua reeleição em 2009.
As tropas ocidentais no país desde a queda do Taleban em 2001 devem partir no final do ano e os três candidatos favoritos (inclusive Rassoul), ao contrário do volátil Karzai, se comprometeram a assinar o acordo que irá estender a presença militar americana a partir de 2015. Será uma proeza se das eleições despontar um presidente com legitimidade em um país penosamente funcional, em que a insurgência do Taleban infesta metade do seu território, sem falar dos atentados suicidas que acontecem rotineiramente no coração de Cabul, a capital. Não podemos esquecer que uma coisa que também infesta o jogo político afegão é a presença dos “warlords”, os chefes de milícias, muitos dos quais não ficam nada a dever ao Taleban em termos de barbaridades.
Esta semana, a imprensa nos EUA e Europa tem destacado a participação de mulheres no processo eleitoral. Pela primeira vez, há uma mulher em chapa presidencial. Habiba Sarobi, médica, ex-ministra e ex-governadora da província de Bamian (a primeira a ocupar tal posto no país) é candidata a vice ao lado de Zalmay Rassoul. Existe ansiedade entre mulheres para preservar os ganhos obtidos desde a queda do Taleban, como o mero direito de meninas irem à escola.
Algumas mulheres bem escoladas, como Najla Ayubi,  ex-juíza e veterana ativista pelos direitos da mulher afegã, advertem contra o marketing eleitoral. Ela diz que nenhum dos candidatos irá alterar de forma radical a vida das mulheres no país. Para Najla Ayubi, os candidatos estão mais interessados em ganhar votos femininos e garantir a preservação da ajuda de ONGs internacionais. No entanto, como diz a deputada Shukria Barkzai, os “últimos 12 anos têm sido a idade de ouro para as mulheres e nós não queremos perder isto”.
Em 2009, o Parlamento aprovou legislação pela eliminação da violência contra mulheres. Este é um dos ganhos sob ameaça constante. No ano passado, houve uma tentativa no Parlamento pela derrubada da legislação. E um relatório da ONU em dezembro mostrou que nos doze meses anteriores aumentara a violência contra mulheres e meninas, enquanto as investigações e condenações sob a nova legislação continuam baixas. Na área rural, mulheres são basicamente consideradas propriedade dos pais e maridos.
Habiba Sarobi discursando em Cabul
A candidata a vice Habiba Sarobi discursando em Cabul
Agora em 2014, o Parlamento afegão aprovou lei proibindo que parentes testemunhassem uns contra os outros, o que na prática é a legalização da violência doméstica. A lei acabou vetada pelo presidente Karzai em meio à disseminada condenação. Um grande temor para mulheres que foram beneficiadas pelas mudanças registradas com a queda do Taleban é o impacto de um eventual acordo de paz com o o grupo, advogado pelos três principais candidatos presidenciais.
Por ora, de acordo com relatos de repórteres no Afeganistão, os comícios da candidata a vice Habiba Sarobi animam as mulheres, assim como os de outros candidatos. Pode ser um pouco de marketing ocidental, mas prefiro ainda isto do que as arengas sobre os malefícios provocados pela invasão de 2001.
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