sexta-feira, 4 de abril de 2014

Caio Blinder- Ânimo! Poderia ser ainda pior no Afeganistão (II)

Na coluna de quinta-feira, eu conclui que nas devidas proporções é possível ter um pouco de ânimo com as eleições presidenciais afegãs (primeiro turno neste sábado). Na animação, volto ao assunto, mas para trazer um contraponto. Michael Kugelman, um especialmente do Wilson Center, em Washington, diz que mesmo nas devidas proporções o Afeganistão ainda não dá pé.

Kugelman argumenta que mesmo se as eleições tiverem um grau decente de liberdade, crediblidade e legitimidade, o Afeganistão ainda estaria está muito longe de se tornar um país estável. Ele apresenta quatro motivos:

1) As forças de segurança são uma obra em andamento. É verdade que o nível de violência tem declinado em muitas partes do país, mas a capacidade destas forças de segurança ainda é muito limitada, Alguns dados são estarrecedores: 95% dos recrutas no Exército e na polícia são funcionalmente analfabetos; metade do contingente é viciado em drogas e a taxa de deserção é de 1/6. Nada disso, adverte Kugelman, inspira esperança de que os militares afegãos derrotem a insurgência do Taleban, algo que não foi conseguido nos últimos 13 anos por alguns dos mais poderosos exércitos do mundo (que estão partindo no final de 2014).

2) Os santuários do Taleban no Paquistão florescem. Por anos, os EUA pressionam o governo paquistanês a dar cabo do problema. Sem resultado. No começo do ano, os paquistaneses sugeriram que uma grande operação era iminente. Continua iminente. Em termos práticos, as operações foram adiadas de forma indefinida diante de um processo diplomático em curso entre o governo afegão e o Taleban, num compromisso que será seguido por qualquer dos vencedores das eleições. Interessa ao Paquistão manter estes santuários para influenciar as coisas e de qualquer foram caso eles sejam desmantelados, seriam transferidos para dentro do Afeganistão.

3) Extremistas islâmicos do Paquistão e de vários países da Asia Central continuam convergindo para o Afeganistão. Ironicamente, enquanto tropas ocidentais estão partindo do país, os russos estão aumentando sua presença através de vários projetos de desenvolvimento. É um incentivo para militantes da Ásia Central intensificarem suas ações.

4) O Taleban e aliados não são as únicas forças desestabilizadoras no Afeganistão. Na verdade, a presença do grupo é menos intensa no norte e no oeste, onde o terror fica por conta de milícias, muitas das quais financiadas pelos americanos. Para dar uma medida, dois dos três candidatos presidenciais favoritos (Abdullah Abdullah e Ashraf Ghani Ahmadzai) têm “warlords” como companheiros de chapa. As milícias combatem o Taleban, mas também entre elas.

Kugelman reconhece que as eleições não são irrelevantes, mas está desanimado que possam resultar tanto em uma forte liderança como em estabilidade.

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