sábado, 12 de abril de 2014

Caio Blinder- Cálculos ucranianos (II).


Coluna de quinta-feira calculou como altamente improvável uma invasão russa do leste ucraniano. E uma ampla reportagem do New York Times observa que os objetivos de Moscou podem ser mais sutis do que uma invasão, com o foco em uma estratégia de longo prazo para impedir que a Ucrânia escape da órbita de influência russa.
No entanto, vamos para outra órbita e trazer alguns argumentos que conduzam para o cenário de uma invasão, por cortesia de um texto de Michael Weiss na publicação Foreign Policy. Alguns dos argumentos são convincentes (a Otan acaba de alertar, por exemplo, sobre o alto grau de prontidão das tropas russas na fronteira) e outros me parecem frouxos, até caricaturais, como o de número 4. Mas, prefiro deixar o conjunto da obra para o leitor refletir e se posicionar:
1) Com quase 50 mil soldados na fronteira com a Ucrânia, incluindo a ocupada Crimeia, os russos têm muita mobilidade para uma operação ambiciosa. O aparato não é necessário para exercícios militares de curto prazo, contando inclusive com hospitais de campanha.
2) Putin gosta de humilhar os EUA, especialmente seu atual comandante-em-chefe. Barack Obama faz advertências para o presidente russo não ir adiante  com uma intervenção militar, mas, como escreveu Scott Wilson, no Washington Post, “raramente uma ameaça de um presidente americano foi descartada de forma tão rápida e abrangente”.
3) O pacote de resgate do FMI no valor de US$ 18 bilhões, além de promessas de ajuda dos EUA e da União Europeia, pode contribuir para tirar a Ucrânia do buraco e supera o suborno que Putin ofereceu ao deposto presidente Yanukovich para que o país não fechasse o acordo com a UE. Putin prefere o colapso das instituições ucranianas e de sua economia de mercado à estabilidade. Qualquer esforço de reconstrução exige a presença de tropas russas.
4) Putin tem uma claque no Ocidente fazendo seu trabalho de propaganda. O argumento essencial: a prioridade é apaziguar e não controntar o urso ferido. Se os tanques russos entrarem no leste da Ucrânia, haverá o argumento de que é melhor se resignar e não irritar Putin, pois o próximo lance poderá ser a invasão da Polônia.
5) Se houver invasão, não há muito a fazer da parte da Otan. A aliança militar ocidental antecipou que não pensa em uma resposta militar contra uma intervenção bélica russa. Nem blefa a respeito.
6) A turma do Putin fala coisas aterradoras e o conselho é escutar. Um dos propagandistas mais influentes de Moscou, Dmitry Kiselyov, disse na televisão que a Rússia “é o único país que pode transformar os EUA em um cinzeiro radioativo”  Putin, como se diz, “não quer descer da rampa” nesta crise.
7) O complexo industrial-militar russo depende dos recursos manufatureiros ucranianos. Isto vale mais do que o reverso. Um governo pró-ocidental em Kiev será um sério revés para este complexo.
8) O Kremlin simplesmente mente de forma indecente. Nunca se deve acreditar nas garantias de Putin e seus subordinados de que uma invasão da Ucrânia esteja descartada.
9) Existe um negócio chamado Kombinatsiya, do jargão soviético, ou seja, o uso de combinações operacionais que conduza a uma ação como uma invasão. Incluem desinformação, fabricação de incidentes, orquestração de manifestações e a narrativa de que a proteção dos filhos da mãe-pátria está em jogo em todas as partes. O resultado: invasão em nome de uma diáspora russa em perigo.
10) A modernização militar russa não é para “inglês ver”. Precisa de um “test drive”. Putin ficou horrorizado com o desempenho de suas tropas na invasão da Geórgia em 2008 e já são remotas as campanhas estilo “terra arrasada” na Chechênia. A Ucrânia é um bom e presente campo de treinamento.
Como eu disse, nem tudo acima soa convincente, mas nunca podemos esquecer como Putin é capaz de surpreender, colidindo com  as regras do bom senso. Está aí um bom argumento para temer o pior.
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